Cuidado com o seu ponto de vista

O tal do”bônus ético” pago pelo PSG aos seus jogadores tem causado polêmica no mundo do futebol. Segundo uma reportagem publicado ontem no Estadão, Neymar e companhia ganhariam o tal bônus por não criticarem o técnico em público, não serem expulsos, não chegarem atrasados aos treinos e até por aplaudirem a torcida após o jogo. Afinal, é ético que os atletas sejam pagos para fazer aquilo que não passa de uma obrigação de qualquer ser humano, que é agir bem?

A polêmica é indevida e mostrarei porque.

É muito comum e estamos todos acostumados a que os clubes multem seus atletas por mau comportamento. Chegou atrasado no treino? Multa. Foi expulso? Multa. Criou confusão? Multa. Isso está previsto no contrato e a ninguém ocorre que seja estranho ou injusto. Pelo contrário, a quem quer que se pergunte, todos acharão muito justo e razoável.

Do ponto de vista estritamente econômico, não faz a mínima diferença uma multa por mau comportamento ou um bônus por bom comportamento. Levar uma multa por chegar atrasado ou um bônus por chegar na hora terá exatamente o mesmo efeito no bolso do atleta, correspondente a exatamente o mesmo ato. Por que então aceitamos naturalmente a multa e torcemos o nariz para o bônus? Esta pergunta foi respondida por dois psicólogos israelenses, Daniel Kahneman e Amos Tversky, que criaram o que se convencionou chamar de Finanças Comportamentais. Kahneman ganhou o prêmio Nobel de economia em 2002 (Tversky já havia falecido) por este trabalho, publicado em 1979.

O artigo de Kahneman e Tversky que mereceu o Nobel chama-se The Prospect Theory, o que, em uma tradução livre, seria algo como A Teoria da Perspectiva. Segundo os dois psicólogos, as pessoas tomam decisões diferentes para o mesmo problema conforme o problema lhes é apresentado.

Um exemplo clássico (vou citar de memória, os números podem não ser estes), é a decisão sobre adotar uma vacina em uma comunidade. A um grupo de pessoas, o problema foi apresentado da seguinte forma: “uma comunidade de 600 pessoas vai receber a vacina. Destas, estima-se que 400 se salvarão. Você adotaria esta vacina?” Para um segundo grupo, o enunciado era diferente: “uma comunidade de 600 pessoas vai receber a vacina. Destas, estima-se que 200 irão morrer. Você adotaria esta vacina?”

A maioria (cerca de 70%) dos que leram a pergunta em sua primeira forma respondeu que adotaria a vacina. Já no segundo grupo, surpreendentemente ocorreu o inverso: 70% das pessoas disse que NÃO adotaria a vacina! Note novamente que o problema é estritamente o mesmo. Mas a forma de apresentá-lo leva a respostas completamente diferentes.

A isto os dois psicólogos deram o nome de Prospect Theory, ou seja, a decisão de um agente depende da sua perspectiva em relação ao problema. Isto tem muitas implicações práticas.

Por exemplo, se o governo quiser aprovar a reforma da Previdência, precisa apresentá-la como o fim dos privilégios e não como uma retirada de direitos. No fim, o efeito financeiro é absolutamente o mesmo. Mas a aceitação pública é totalmente diferente.

Outro exemplo foram as eleições: Bolsonaro somente se tornou uma opção palatável para uma parcela da população porque foi quem melhor encarnou o anti-petismo. Assim como o PT se tornou palatável para uma parcela da população porque era a alternativa anti-Bolsonaro. A pergunta respondida por esses eleitores não foi “você vota no Bolsonaro?” ou “você vota no PT?”, mas sim “você vota contra o PT?” ou “você vota contra o Bolsonaro?”. O efeito final é o mesmo, mas a mudança de perspectiva faz com que a escolha fique muito mais palatável.

Portanto, antes de criticar Neymar por ganhar um bônus por bom comportamento, preste atenção na forma como você pensa no problema. Pode estar aí o verdadeiro problema.

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