Meu sobrenome é bananinha

Mourão disse tudo.

Claro que sua frase não pode ser retirada do contexto. Ele estava tentando dizer que Eduardo Bolsonaro tem o direito de dizer o que bem entender por ser deputado, e seu posicionamento não tem nada a ver com o posicionamento do governo brasileiro.

Mas não é bem assim.

O 03, para o bem e para mal, carrega o sobrenome do presidente da República. E não é um filho qualquer de uma família qualquer. É público e notório que temos uma filhocracia vigente no Brasil, onde o pai governa junto com seus filhos. E, no caso de Eduardo, a coisa é anda por: ficamos meses discutindo a ideia de Jair de colocá-lo na embaixada mais importante disponível. Imagine o embaixador do Brasil em Washington tuitando um troço desses.

O próprio Eduardo tentou amenizar a coisa, dizendo que não teve intenção de ofender o povo chinês. Ocorre que, na China, o Partido Comunista Chinês é o único representante do povo, é a encarnação do povo. Um ataque ao PCC é considerado um ataque ao povo chinês. Sei que parece estranho, mas não devia ser assim tão difícil de entender. Afinal, qualquer ataque ao governo Bolsonaro é visto pelo presidente, pela sua família e pelos bolsonaristas em geral como um ataque ao Brasil e ao povo brasileiro. O mesmo acontece por lá.

Não, o 03 não se chama Eduardo Bananinha. Seu sobrenome e sua posição têm um peso, assim como tem um peso todos os atos do presidente da República (já falamos sobre isso aqui ontem). Eles não têm espaço para serem inconsequentes. Podem até sê-lo mas, como diria o Conselheiro Acácio, as consequências vêm depois.

Eduardo precisa decidir se quer ser um Bolsonaro ou um Bananinha.

PS.: Não vou entrar aqui no mérito de se o que o 03 escreveu tem razão ou não. Até acho que tem, o PCC deve ter escondido a coisa até o último momento. Mas não é disso que se trata. O que ganhamos enfiando o dedo na fuça de nosso principal parceiro comercial? Qual o objetivo? Lacrar não é exatamente uma forma sábia de conduzir relações exteriores.

Efeito eleitoral

Aos que, de olho em 2022, estão fazendo as contas dos efeitos da brutal recessão que vamos enfrentar sobre a popularidade do presidente, um pouco de história.

Em 2008 ocorreu a maior crise financeira de todos os tempos, o que jogou o mundo em uma recessão global em 2009. Muitos viram na crise a morte do governo Lula.

Pois bem. A recuperação do PIB foi tão brutal como a recessão: o país cresceu 7,5% em 2010, número suficiente para eleger um poste.

A história pode não se repetir exatamente assim, pois estamos um ano para trás em relação ao ciclo eleitoral. Mas eu seria cauteloso ao avaliar o efeito dessa crise nas eleições de 2022.

O tamanho do problema

Vamos ver do que se trata a coisa.

O Brasil tinha, em 2017, um total de 6,8 leitos de UTI para cada 100.000 habitantes. O que significa aproximadamente 14 mil leitos de UTI. Estou considerando que todos esses leitos estão equipados com respiradores, equipamento essencial para tratar os doentes com o COVID-19.

A Itália atingiu 35 mil casos. Se o Brasil atingir este patamar, e considerando que 5% desses casos evoluam para a internação em UTI, teríamos 1.750 leitos ocupados, ou 12,5% de todos os leitos de UTI do país. Ocupar 1/8 do total de leitos de UTI do país com uma única doença não é nada trivial.

35 mil casos é apenas um chute inicial. Pode ser mais. Ou pode ser menos. Depende de nossa resposta ao problema.

Túmulo político

Durante tempos normais qualquer um pode ser presidente da República. Mas é durante as crises (e elas sempre vão existir) é que sabemos se uma pessoa é do tamanho da cadeira em que se senta.

Repito aqui a foto que postei na segunda-feira. Até nem acho que o pior pecado foi o claro desafio ao coronavírus. Entendo que o pior problema dessa foto não está nela: como fechei o ângulo, não dá pra ver o cartaz que pede o fechamento do Congresso e do STF. Claro que o cidadão comum tem direito de pedir o que for. Isso é uma coisa. Outra coisa é o presidente da República associar-se a uma manifestação que pede o fechamento do Congresso. Se isso não é golpista, preciso rever meus conceitos. Claro, sempre haverá gente que defenda o fechamento do Congresso como única solução para o Brasil. Mas daí o presidente da República associar-se a isso, vai uma distância amazônica.

Apesar do ataque ao Congresso ser, de longe, o pior dessa foto, ela ficará marcada como o símbolo da irresponsabilidade de Bolsonaro diante da crise do corona. Queira Deus que não tenhamos aqui o mesmo quadro caótico que a Itália está enfrentando, com gente simples morrendo nas portas dos hospitais por falta de leitos e respiradores. Queira Deus. Porque, se isso acontecer, essa foto será o túmulo político de Bolsonaro.

PS.: não adianta vir aqui dizer que outras autoridades foram também irresponsáveis porque se reuniram em grandes eventos e até “deixaram” o carnaval acontecer (!). Comecei este post dizendo que a cadeira da presidência da República é imensa, e poucos têm a bunda do tamanho certo para ocupá-la. Bolsonaro não é uma autoridade qualquer. Ele é o presidente da República, fato, inclusive, que os bolsonaristas gostam de lembrar a todo momento. Nessa posição, a autoridade tem um outro peso, incomparável. Se o Maia foi ou deixou de ir a um evento, ninguém dá a mínima, ele não representa nada. Os gestos do presidente da República, pelo contrário, são simbólicos, servem de guia para a nação. Mas Bolsonaro, infelizmente, está muito pequeno para a cadeira onde se senta.

Estatísticas Covid-19

Gráficos atualizados até ontem. O número de casos na Itália parece estar se estabilizando, mas o número total na Europa não para de crescer, principalmente por conta da aceleração na Alemanha e Espanha.

Nos EUA, a curva continua mais inclinada do que na Europa no mesmo ponto do ciclo.

No Brasil, ontem atingimos 65 novos casos/dia nos últimos 3 dias. Começa a contagem.

PS.: parece que o primeiro óbito por corona no Brasil não estava nas estatísticas de novos casos, o que reforça a percepção de que existe uma grande subnotificação. Mas, para efeitos comparativos, o mesmo deve estar acontecendo em todos os países, com a possível exceção da Coreia. Então, como se trata de comparar dados para extrair tendências, acho que continua valendo observar as estatísticas.

Eu sou você amanhã

A fábrica da Marcopolo na China paralisou as suas atividades no início de fevereiro (fim do Ano Novo Chinês) e retomou parcialmente no início de março, com carga total em meados de março. Um mês e meio entre paralisar e retomar.

Se fizermos tudo certo e nada errado, é isso que nos espera a partir do momento em que paralisarmos tudo.

Comparando laranjas com bananas

Ouço e leio de vez em quando pessoas indignadas com a “paranoia” do coronavírus, citando outras doenças como sendo muito mais mortais e que não receberiam tanta atenção. O sarampo, por exemplo. Seu poder de transmissão é cerca de 5 vezes maior que o corona. Mas ninguém fica com medo de pegar sarampo. A dengue. A dengue mata muito mais do que o corona. E, no entanto, dizem, não existe essa paranoia. Até a gripe comum mata mais, e ninguém fica com medo. A última que li foi algo assim: “o aborto mata muito mais e ninguém fala nada”. Bom, ninguém fala nada é uma força de expressão, né? Mas ok, não tem esse frisson todo do corona.

E então?

Então que o grande problema lógico desse tipo de comparação é fazer um paralelo entre problemas que não têm base comum de comparação, a não ser o fato de pessoas morrerem. Posso usar um monte de coisas: assassinatos, acidentes de trânsito, quedas em poços, etc, etc, etc e dizer: “x zilhões de pessoas morrem de, sei lá, unha encravada por ano e ninguém fala nada, mas o coronavírus…”

Ocorre que a única forma de evitar ao máximo mortes por coronavírus (uma vez que não há vacina e não há remédio) é por meio de “distância social”. Não há outro meio. No caso do sarampo há vacina, no caso da dengue há saneamento básico, no caso do aborto há a lei, no caso dos assassinatos há a polícia, etc, etc, etc. São formas diferentes de se evitar as mortes porque são causas de morte de naturezas diferentes.

É só natural que o método da “distância social” chame mais a atenção das pessoas, porque não é comum. Estamos acostumados com vacinas, saneamento básico, leis, polícia, campanhas de trânsito mas não com “distância social”. Por isso só se fala neste assunto. Isso não significa que mortes por coronavírus sejam mais importantes do que mortes por, sei lá, aborto. Morte é morte, qualquer que seja sua causa. Dar um downplay no corona só porque, por exemplo, o crime mata mais (e mata mesmo), é o mesmo que chegar para uma pessoa que perdeu um ente querido para o corona e dizer “chora não, a gripe comum mata muito mais”. Faz sentido?

Só faz sentido para aqueles que querem justificar comportamentos irresponsáveis.

Escolha de Sofia

Tenho lido e ouvido algumas análises questionando os custos envolvidos na contenção da pandemia do coronavírus. Virou lugar-comum dizer que mais gente e empresas vão quebrar do que pessoas vão morrer de coronavírus. O que é verdade.

Imagine, pois, a seguinte situação: uma pessoa muito querida está doente, mas tem chance de se recuperar. O custo do tratamento, no entanto, é muito alto, envolvendo um investimento que vai literalmente quebrar a família. Qual a escolha a ser feita? O que você faria?

A humanidade está, de alguma forma, diante dessa escolha, só que em escala planetária. Muitas pessoas vão ficar mais pobres para que algumas poucas pessoas não morram. É disso que se trata.

Muitos de nós sequer notaríamos a contaminação pelo vírus. A maioria de nós sobreviveríamos sem problemas. Mas todos nós temos entes queridos que são mais vulneráveis, sejam pessoas idosas, sejam doentes crônicos. Toparíamos que essas pessoas morressem para que e economia não parasse?

Qual a escolha a ser feita? O que você faria?