Dissonância

Segundo o título da matéria do Estadão, o governo estaria estudando mexer no teto de gastos, “em caráter excepcional”.

Aí, pra não variar, você vai ler a matéria e é o justo oposto. Há estudos de todas as naturezas, MENOS sobre o teto de gastos.

Para mim, continua sendo um mistério os motivos que levam um jornalista ou o próprio editor a dar um título que não corresponde ao que vai na reportagem, o que é facilmente verificável por quem a lê. É falta de atenção, analfabetismo funcional ou desonestidade intelectual mesmo?

O repórter ainda afirma que economistas “de diferentes espectros ideológicos” passaram a defender uma flexibilização do teto de gastos. Em primeiro lugar, não li um único economista mainstream que defendesse isso. Pelo contrário. A reportagem entrevista a indefectível Monica de Bolle, eleita pelos heterodoxos como “a economista liberal com bom senso”, supostamente representando a ala liberal que defende flexibilizar o teto.

Mas o que a repórter revela nesta frase é mais do que isso. Para ela, a questão não passa de “ideologia”, não tem nada a ver com expectativas dos agentes e restrições financeiras. Para quem viu a reação do mercado de títulos públicos ontem após a derrubada do veto à ampliação do BPC, ficou claro que a coisa é muito mais do que “ranço ideológico”. Mas a ideologia da jornalista explica a dissonância entre título e matéria.

Preso ao passado

Eugênio Bucci está desesperado. Já vê despontar no horizonte um regime fascista, que cancelará, entre outras coisas, seu direito a escrever bobagens periodicamente.

Ele chama as “lideranças democráticas” para nos salvar. E quem seriam essas tais “lideranças democráticas”?

FHC, Lula e Ciro.

Ok, pode parar de rir e continuar a ler a minha análise.

Fico me perguntando que tipo de cegueira ou desespero faz uma pessoa inteligente e experiente como Bucci a achar que FHC, Lula e Ciro vão levantar multidões contra o “fascismo”. FHC já não deve liderar nem reunião do condomínio onde mora e Ciro, só se for para liderar um batalhão de retroescavadeiras. Sobra Lula, o único que tem ainda algum apelo popular. Pena que esteja enrolado em outras esferas que não a política.

A propósito, Bucci chama de controversa e açodada as condenações de Lula. Ou seja, ao mesmo tempo que vê o fantasma do fascismo ameaçando as instituições democráticas tupiniquins, coloca em suspeição sentenças emanadas da justiça do país em nada menos que três instâncias diferentes. A justiça é um dos pilares de qualquer Estado democrático, mas Bucci não se incomoda em passar por cima para defender a “democracia”.

Eugênio Bucci, assim como grande parte dos intelectuais de esquerda, está preso ao passado. Desse jeito, Bolsonaro vai continuar no poder por muitos anos.

Absorvendo despesas

Vejamos.

Digamos que o público-alvo deste programa seja o mesmo que recebe o bolsa-família. Hoje são cerca de 13,5 milhões de famílias que recebem o benefício. Considerando uma média de 4 membros por família, temos um total de 27 milhões de mulheres recebendo o BF (considerando duas mulheres por família). Considerando ainda que 2/3 dessas mulheres estejam em idade fértil, temos 18 milhões de mulheres potencialmente beneficiadas pelo novo programa.

No Mercado Livre, podem ser encontrados pacotes de absorventes por cerca de R$1,00 a unidade. Digamos que, com o seu poder de compra, o governo conseguisse comprar o material por R$0,75 a unidade. Com R$119 milhões (valor anual previsto pela deputada para o programa), teríamos um pouco menos de 6 absorventes/ano/mulher.

Por motivos óbvios não sou especialista no assunto. Pergunto então para as especialistas que leem esta página: 6 absorventes/ano são suficientes?

Não vou entrar no mérito da iniciativa, pode ser até muito boa, não tenho condições de opinar. Mas, para qualquer política pública, é necessário antes calcular o REAL impacto em termos financeiros. Senão, a conversa já começa viciada.

PS.: claro que o governo pode tentar baratear ainda mais o custo, fundando uma estatal para fabricar os absorventes. Nada é tão ruim que não possa piorar.

Medidas extremas

A chamada não corresponde ao que a pesquisa apontou.

33% dos brasileiros são a favor do fechamento do Congresso.

39% dos brasileiros são a favor do impeachment do presidente.

Considerando que deva haver uma interseção muito pequena entre esses dois grupos, sobram apenas 28% de brasileiros que rejeitam ambas as “soluções”. Uma minoria, portanto.

Isso sem contar o número de brasileiros que foram indiferentes a quaisquer dessas opções. Ou seja, não são a favor, mas também não ficariam muito chateados se isso acontecesse.

O brasileiro quer sangue.

PS.: as duas “soluções” não são exatamente simétricas, pois impeachment faz parte do cardápio democrático, enquanto fechar o Congresso, não. Mas, de qualquer modo, serve para medir o nível de radicalização da sociedade.