Penso, logo existo

Eu já tive essa experiência. Estava escrevendo um artigo sobre o MMT (Modern Money Theory) e, para embasar minha crítica, precisava ter acesso a artigos acadêmicos sobre o tema. Já havia sido frustrado pelo Google Scholar, quando tive uma ideia: por que não perguntar ao ChatGPT? Foi o que fiz e, para minha agradável surpresa, a geringonça cuspiu, quase que instantaneamente, 10 artigos sobre o tema. Fiquei animado, até que fui tentar encontrar os tais 10 artigos. Nenhum deles existia. Alguns nomes de autores eram verdadeiros, e remetiam a textos que estavam longe de serem acadêmicos. Outros sequer existiam. Descobri, então, que o ChatGPT não é um substituto para o Google. No Google, você tem acesso à fonte da informação. O ChatGPT, por outro lado, é uma caixa preta, de onde saem informações impossíveis de serem checadas.

Também já tentei usar o ChatGPT como programador. Ele se saiu muito bem na primeira tarefa que lhe dei, bem simples: criar uma macro no Excel para fazer o download de uma série de planilhas de um site e salvá-las com determinado nome em um diretório. A segunda etapa, no entanto, foi um fiasco. Ele precisava criar uma planilha a partir daquelas planilhas todas, com base em alguns critérios. Descobri que o ser humano é que precisa ser o programador, o ChatGPT só escreve as linhas de código. Se você não especificar o passo a passo bem detalhado, não sai nada. Aliás, sai qualquer coisa, menos o que você precisa. Para um programador humano, você simplesmente diz o que precisa, e ele determina o passo a passo necessário para atingir o objetivo. Não com o ChatGPT. (O Bard, do Google, saiu-se ainda pior: depois de duas tentativas, ele simplesmente recusou-se a continuar, dizendo que poderia produzir apenas textos, não códigos de programação).

Esses algoritmos de “linguagem generativa” passam a impressão de “inteligência”, na medida em que imitam, com perfeição, o output de um processo inteligente, que ocorre dentro de uma mente humana. Mas trata-se somente de uma ilusão: não houve um processo “inteligente”, houve apenas uma combinação de palavras com base em um algoritmo. Isso não é o que ocorre dentro de uma mente humana. Ainda não sabemos o que ocorre dentro da mente humana, e talvez nunca saibamos, mas certamente não se baseia em um algoritmo pré-definido, ainda que haja algumas regras detectáveis e programáveis.

Certa vez, estava jogando com meus filhos um game chamado Detroit Become Human, em que seres humanos convivem com andróides humanoides, colocando questões éticas nessa convivência. Em determinado momento do jogo, tive que decidir sobre a morte de um androide para atingir um determinado objetivo. Sem pestanejar, decidi pela morte (um tiro na cabeça, pra deixar a coisa ainda mais dramática), para horror dos meus filhos. Para eles, aquele androide era o equivalente a um ser humano, para mim era só um monte de metal programado. Percebi, então, que a IA pode ser percebida como mais do que um algoritmo bem feito. Ou, por outra, que a mente humana não passa, no final das contas, de um algoritmo bem feito. É mais ou menos o mesmo processo que ocorre quando “humanizamos” os animais, em um fenômeno que chamo de “síndrome de Disney”. Nessa síndrome, a diferença entre os animais e os seres humanos seria apenas de escala, não de natureza. O mesmo ocorreria com a IA, com a diferença de que, nesta última, a escala humana será inexoravelmente alcançada, é só uma questão de tempo.

Eu sou old school. Para mim, a IA nunca será um ser humano, por mais sofisticado que seja o algoritmo. Trata-se de uma questão de natureza, não de escala. Uma máquina, assim como um animal, nunca poderá dizer “penso, logo existo”. A consciência humana é um milagre irreplicável.

Guilherme Boulos será o próximo prefeito de São Paulo

Eu fui dos que deram risada quando Boulos renunciou à candidatura presidencial em um acordo para receber o apoio do PT nas eleições de 2024 para a prefeitura de São Paulo. Como se acordo com o PT não fosse mais do que frases escritas na areia da praia. Bem, vou ter que engolir as risadas. Ontem, com a presença de Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad, o diretório paulistano do PT sacramentou o apoio a Boulos, ficando de fora da cabeça de chapa pela primeira vez desde a sua fundação.

Lula ganhou a eleição na cidade de São Paulo, e Ricardo Nunes é uma nulidade. Já vai se acostumando, paulistano: com o apoio do PT, Guilherme Boulos será o próximo prefeito de São Paulo.Eu fui dos que deram risada quando Boulos renunciou à candidatura presidencial em um acordo para receber o apoio do PT nas eleições de 2024 para a prefeitura de São Paulo. Como se acordo com o PT não fosse mais do que frases escritas na areia da praia. Bem, vou ter que engolir as risadas. Ontem, com a presença de Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad, o diretório paulistano do PT sacramentou o apoio a Boulos, ficando de fora da cabeça de chapa pela primeira vez desde a sua fundação.

Lula ganhou a eleição na cidade de São Paulo, e Ricardo Nunes é uma nulidade. Já vai se acostumando, paulistano: com o apoio do PT, Guilherme Boulos será o próximo prefeito de São Paulo.

Onda imigratória estadunidense

Não é por outro motivo que vemos um fluxo cada vez maior de cidadãos estadunidenses imigrando para os países da América Latina que possuem um sistema universal de saúde gratuito. Devemos recebê-los com os braços abertos, trata-se de uma questão humanitária.

As seleções que jamais existiriam

O Itaú fez publicar uma propaganda em que seleções femininas de futebol criadas por IA aparecem nos anos seguintes aos das conquistas da Copa do Mundo pela seleção masculina. Na última página, a informação: o futebol feminino foi proibido no Brasil por 40 anos, razão pela qual aquelas seleções não existiram. Os anúncios querem sugerir que, não fosse proibido no Brasil, as mulheres brasileiras teriam conquistas tão grandes quanto os homens no esporte. A proibição teria feito com que perdêssemos o bonde da história, com outros países avançando enquanto as brasileiras estavam condenadas a ficar em casa fazendo crochê. Comovente, mas falso.

O decreto-lei de 1941 que proibiu a prática de esportes “incompatíveis com a condição feminina” estava em linha com a prática global. A Inglaterra, por exemplo, baniu o futebol feminino em 1921, levantando a proibição somente em 1971. E não estava sozinha, essa era a norma. Os EUA não chegaram a proibir o esporte, mas o comportamento social da época fez com que o futebol feminino decolasse naquele país somente na década de 70.

O primeiro torneio feminino de futebol patrocinado pela FIFA ocorreu somente em 1988, e a primeira Copa do Mundo em 1991. O esporte debutou nas Olimpíadas somente em 1996. Em resumo, mesmo que o esporte não tivesse sido proibido no Brasil, não haveria copas de 1959, 1963 e 1971. Aliás, naquele primeiro torneio de 1988, o Brasil ficou em terceiro lugar, o que demonstra que o período de banimento não fez a seleção brasileira ficar muito atrás de outros países.

Claro, isso não tira o mérito de fundo da campanha. As mulheres no mundo inteiro ficaram para trás no futebol, e só começaram a conseguir seu lugar ao sol depois da revolução de costumes do final da década de 60. Mas, e este é o ponto, não se trata de algo devido exclusivamente ao machismo brasileiro. Aliás, não deixa de ser irônico que o banimento tenha sido decretado pelo queridinho das esquerdas progressistas, Getúlio Vargas, enquanto o levantamento da proibição tenha se dado em 1979, durante o governo ditadorial de João Figueiredo. O que demonstra que, por vezes, nada é o que parece ser.

Torneirinha de asneiras

A boneca Emília, criação do genial Monteiro Lobato, de vez em quando desatava a falar bobagens. Tia Nastácia, a boa empregada de Dona Benta, dizia que, nesses momentos, Emília abria a “torneirinha de asneiras”.

Lembrei da personagem ao ler a reportagem abaixo, que transcreve trechos de uma entrevista de Lula para jornalistas estrangeiros. Tentei destacar um ou outro trecho, mas desisti. São muitas e variadas as asneiras, que botariam Emília no chinelo. Colo, então, a matéria completa, para que vocês vejam que não estou exagerando. A “torneirinha de asneiras” de Lula está mais para uma “lavadora de alta pressão de asneiras”.

Seleção feminina ou feminista?

Não assisti ao jogo hoje de manhã. Ao contrário dos funcionários públicos, não pude contar com um ponto facultativo para acompanhar nossas meninas na Austrália. Mas não deixei de enviar minhas energias positivas que, como vimos, não foram suficientes para cavar uma vaga nas oitavas da Copa.

Não assisti ao jogo, mas tive acesso às estatísticas: a seleção canarinha teve nada menos do que 73% de posse de bola, finalizou 18 vezes (14 de dentro da área, 8 na direção do gol) contra apenas 3 das jamaicanas (zero na direção do gol), teve 6 escanteios contra zero da adversária, e nossa goleira não precisou sujar o uniforme para fazer uma única defesa sequer durante o jogo inteiro. Ou seja, foi um jogo de um time só, mas, mesmo assim, não fomos capazes de anotar um mísero golzinho.

A técnica Pia, que foi massacrada pela Milly Lacombe por ter colocado Marta somente nos 5 minutos finais no jogo contra a França e, ainda assim, misturada com outras duas plebeias em uma substituição tripla, não se fez de rogada: escalou a rainha desde o início do jogo. “Vai, brilha!”, deve ter dito a sueca com nome de portuguesa. Marta deu 2 dos 18 chutes a gol da seleção e zero passes para finalizações. E foi isso.

Quando vi ontem Marta aos prantos dando uma entrevista, comentei com os amigos: “vamos perder amanhã”. Essa era fácil. Lágrimas nunca combinaram com vitória. Lágrimas demonstram um estado psicológico frágil, e o esporte competitivo exige um psicológico muito forte. Que o digam os chorões da Copa de 2014. – Ah, mas então não pode chorar? Pode, claro. Mas depois de ganhar, não antes.

Não sei como a coisa está em outros países, mas aqui no Brasil o futebol feminino extrapolou o esporte e tornou-se uma espécie de manifesto feminista. As jogadoras não estão ali só para ganhar a Copa. Não! Elas representam a libertação da mulher brasileira em uma sociedade patriarcal opressora. Elas também podem jogar futebol como os homens, trata-se de uma conquista de espaço. A tarefa de ganhar a Copa já é algo muito desafiador. Quando se agrega a isso a missão de libertar a mulher brasileira, talvez tenha sido um pouco demais para o psicológico das atletas. Claro, a seleção masculina também carrega uma missão, a de representar o Brasil no esporte mais popular do país, o que é uma baita responsabilidade, e que tem pesado nas últimas Copas. Mas a responsabilidade das mulheres é ainda mais transcedental, e talvez seja pedir demais que não tremam.

O cronista Robson Morelli escreveu em sua coluna no Estadão, antes de começar a Copa, um artigo em que dizia que o Brasil era uma potência média no futebol feminino, que tem alguma esperança, mas estava longe de estar entre as favoritas. Foi o único que vi colocar a coisa dessa forma nua e crua. Qualquer esporte no Brasil precisa de vencedores para se popularizar. Foi assim com o automobilismo na era Piquet/Senna, com o o tênis na era Guga e com o vôlei na era das medalhas de ouro. O futebol feminino, se realmente quiser ganhar espaço, precisará dar um jeito de chegar favorita a uma Copa do Mundo, como acontece com a seleção masculina. Caso contrário, continuará a ser tão somente uma oportunidade para exercer o feminismo combativo.

O que Trump e Lula têm em comum?

Editorial do Estadão reflete a perplexidade liberal (no sentido americano do termo) diante do favoritismo de Donald Trump pela indicação de seu partido e como o mais competitivo dos candidatos diante de seu oponente democrata.

Em determinado trecho, o editorialista pergunta como pode um sujeito ameaçado de prisão em vários processos, ainda assim, receber a preferência da maioria de seus correligionários. Eu tenho uma hipótese, que deriva não da observação do cenário americano, mas de algo muito mais próximo: a candidatura Lula.

Lula viveu uma situação ainda pior que Trump. O atual presidente não estava ameaçado por processos, ele foi de fato processado, condenado e preso. Viveu seu exílio em Curitiba durante quase dois anos, até ter seus processos anulados por um problema de CEP dó juiz que o condenou em primeira instância. A confirmação da sentença por três desembargadores e a revisão do processo pelo STJ, do ponto de vista judicial, não valeram nada. No entanto, do ponto de vista político, deveriam significar a morte política de Lula. Não só não significaram, como Lula se reelegeu. Esse fato pode nos ajudar a entender porque Trump ainda é, apesar de tudo, o favorito dos republicanos.

Podemos dividir os eleitores de Lula em três categorias: 1) aqueles que acham que ele foi vítima de uma armação, 2) aqueles que sabem que ele cometeu crimes, mas seria um mal menor para o país e 3) aqueles que nem sabem direito o que aconteceu, mas gostam do Lula pai dos pobres. Assim, explica-se como alguém que “violou escandalosamente diversas leis no exercício da presidência”, no dizer do editorialista, consegue se eleger presidente da República. Os republicanos também se dividem nessas três categorias, sendo que, na última, podemos substituir “pai dos pobres” por “make America great again”.

Costuma-se, com razão, comparar Bolsonaro com Trump, com base na posição dentro do espectro político. Mas, do ponto de vista de sobrevivência política mesmo enfrentando processos e cadeia, é Lula o modelo para entender os eleitores de Trump.

Meu livro na Bienal Rio 2023!

Acabo de receber uma excelente notícia: meu livro será exibido na Bienal do Livro 2023, no Rio de Janeiro, entre os dias 01 e 10 de setembro!

A editora Uiclap exibe em seu estande os livros mais vendidos da editora, e acabei de ultrapassar a marca necessária de vendas. Agradeço muito aos que me ajudaram nessa conquista!

Tente vender yuans na calle Florida

Sonho: a Argentina não depende mais do dólar, agora pode usar o yuan para pagar a sua dívida.

Realidade: a Argentina vai lançar mão de um acordo de troca de moeda (swap) com a China para preservar suas reservas em dólares.

Muita festa está se fazendo entre os tuiteiros da esquerda com o fato de que o FMI está aceitando yuans para receber uma parcela do pagamento da dívida da Argentina com a instituição. Seria mais uma evidência de que o dólar está perdendo seu protagonismo e o yuan está em irreversível ascensão.

O FMI receber yuans é fácil. Difícil mesmo é um argentino receber yuans. Quando cambistas na calle Florida estiverem preferindo comprar yuans ao invés de dólares, aí poderemos dizer que a moeda chinesa ganhou curso internacional.

Que tal ligar o ar-condicionado?

Um editorial do Estadão chama a atenção para a onda de calor que ora assola o hemisfério norte, e reafirma o que parece ser um consenso científico: essas ondas de calor se repetirão em intervalos cada vez menores. E eu afirmo: essa é uma boa notícia.

Um problema é tão mais grave quanto mais inesperado for. Na medida em que ondas de calor se tornarem mais frequentes, ter-se-ão tornado um problema esperado. E tudo o que é esperado pode ser prevenido usando-se tecnologia. Vejamos pelo outro lado: no inverno, o hemisfério norte sofre com frio desumano. Mas os países da região estão amplamente preparados para isso, com suas casas, escritórios e centros de compra devidamente protegidos por calefação. Isso acontece porque o frio é um problema esperado. Na medida em que o calor também o for, a tecnologia humana encontrará uma forma de convivência.

O mesmo ocorre com outros potenciais problemas, como a viabilidade da agricultura e o nível do mar, se e quando esses fenômenos ocorrerem. No início causará problemas, mas depois a tecnologia os resolverá.

Acredito ser este um approach muito mais realista do que a tentativa histérica de fazer girar a roda da civilização para trás, clamando pelo corte da emissão de gases de efeito estufa. É tão insano quanto discutir formas de conter um tsunami ao invés de organizar a fuga. Como eu disse em meu post de ontem, estamos muito longe da tecnologia que nos permita substituir o carvão e o petróleo como fontes de energia. No entanto, já dominamos a tecnologia do ar-condicionado há um século, e sabemos como criar culturas transgênicas mais resistentes ao calor.

Isso, claro, não significa que não devamos explorar novas fontes de energia economicamente melhores que o petróleo. Não tenho dúvida de que, no dia em que o hidrogênio verde for mais barato do que o ouro negro, não precisaremos de cúpulas governamentais para fazer a substituição. Até lá, melhor ligar o ar-condicionado.