Uma entrevista emblemática

Essa entrevista deve ser emoldurada e pendurada na parede de todos aqueles que choram pelo baixo potencial de crescimento do PIB nacional. Está tudo aí, um retrato de corpo inteiro de como pensam as elites tupiniquins. Em resumo: podem fazer o que quiserem, mas não mexam no meu queijo. No caso, no poder que eu, como governador, tenho de dar subsídio para quem eu bem entender. Eu, governador, sou o responsável por tirar o meu estado da pobreza, e ninguém vai tirar isso de mim. Outro dia, comentei entrevista com o prefeito de São Paulo, com exatamente o mesmo teor.

Amigos, é isso. Para reindustrializar o país, subsídios. Para tirar o estado da pobreza, subsídios. Todos mamando nas cada vez mais magras tetas do Estado, até tirarem a última gota de leite, e se perguntarem porque acabou.

O mesmo papo furado de sempre

Um diretor da CNI e um diretor do BNDES nos oferecem um artigo sobre o tema candente do momento: neoindustrialização. Fui ler, já sabendo o que encontraria, e não me decepcionei. Em artigo de 5.000 caracteres, os autores conseguem elencar apenas duas ideias que, teoricamente, nos levarão ao próximo patamar: o reestabelecimento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Nacional, ligado à presidência da República, e novas linhas subsidiadas do BNDES. (Suspiro).

Para preparar o terreno, os articulistas nos informam que EUA e Europa recém aprovaram subsídios para fomentar a indústria de semicondutores em suas regiões. Ora, se eles estão fazendo, o índio aqui também pode fazer. É como o pobretão que vê os ricaços jogando golfe, e conclui que, para ser rico, precisa comprar o equipamento e treinar umas tacadas. Quando, na verdade, é o oposto: primeiro fica rico, depois vai jogar golfe. Subsídios para fábricas de semicondutores é uma política cara, que diminui a produtividade das economias desenvolvidas, e só está sendo feito por razões geopolíticas, que justificam seu custo.

A pergunta é: se não foi o golfe, o que levou as economias desenvolvidas a terem indústrias pujantes? O que levou a Coreia, e agora a China, a terem indústrias pujantes? Bem, a lista do que é preciso ser feito para chegar lá é de amplo conhecimento, mas nada disso aparece no artigo. Aliás, pelo contrário. Por exemplo, sabemos que, para aumentar a produtividade da indústria, é necessário abrir para a importação de maquinário. Pois bem, uma das linhas subsidiadas do BNDES citadas é dedicada a financiar a aquisição de maquinário NACIONAL. Ou seja, na direção oposta ao que é preciso ser feito.

Enfim, esse tipo de miopia foi a responsável pelo encolhimento da indústria brasileira. Ao que tudo indica, ainda estaremos falando de desindustrialização daqui a 20 anos.

O inimigo é outro

Algum tempo atrás, o câmbio era o inimigo número um dos empresários. O real estava sempre no “nível errado”, impossibilitando o desenvolvimento do país. Hoje, esse papel passou a ser exercido pelo nível da taxa Selic.

Em ambos os casos, os empresários miram em algo que está fora do alcance do governo resolver. Ou melhor, algo que o governo pode resolver, mas não na base da canetada. Os empresários deveriam estar pedindo ao governo que estabeleça as condições necessárias para termos uma taxa de juros mais baixa, principalmente no que se refere ao equilíbrio fiscal. Estamos hoje na situação em que o Banco Central tira água de um barco com um furo no casco que o governo faz questão de alargar. Os empresários deveriam estar pedindo para que o governo tape o buraco, não que o BC pare de tirar a água.

Há alguns anos, ainda no primeiro governo Lula, estava eu conversando com um amigo meu, pequeno industrial, que me disse mais ou menos o seguinte: “o Banco Central precisa baixar a taxa de juros. Um pouco mais de inflação não tem problema, desde que tenhamos um pouco mais de crescimento”. Era a época do BC do Meirelles ortodoxo, que elevou a taxa de juros até 26,5% sem que Lula desse um pio.

Esse meu amigo foi sincero. Implícito no pedido dos empresários está exatamente essa premissa (errada, já veremos) de que “um pouco mais de inflação” é tolerável. Pode notar: em nenhuma dessas manifestações de empresários aparece a palavra “inflação”. No máximo, quando aparece, é para dizer que a inflação não é “de demanda” e, por isso, a ação do BC seria inócua. O que vem a dar no mesmo, ou seja, deixa a inflação correr solta, dado que nada é capaz de contê-la.

Por que a premissa do meu amigo é errada? Simples: não há crescimento econômico sustentável sem uma inflação em níveis civilizados. – Ah, mas 4% é um nível civilizado! Sim, verdade. Mas quem disse que a inflação para em 4%? Quando chegar lá, se o barco ainda tiver um buraco no casco, o BC vai precisar tirar água do mesmo jeito. Caso contrário, a inflação não para em 4%. O trade-off entre inflação e crescimento pode ser verdadeiro no curto prazo, mas não como política permanente. E o curto prazo, como o próprio nome diz, acaba rápido, como já deveríamos saber de cor depois de décadas de políticas populistas.

O alvo de empresários como Luiza Trajano está errado. Se gastassem suas energias para pressionar o governo a fazer a sua lição de casa, tapando o buraco do barco, talvez pudéssemos ter algum resultado positivo. Mas acho que é esperar demais.

Um presente de Natal antecipado

A perspectiva do rating soberano brasileiro foi elevada de estável para positiva pela S&P. A última vez que isso aconteceu foi em 11/12/2019, quando o governo Bolsonaro estava para completar um ano. A perspectiva foi colocada novamente em “negativa” quatro meses depois, em 06/04/2020, por conta das incertezas da pandemia, e por lá ficou até hoje.

A S&P justificou essa ação com base no “pragmatismo da política econômica”, que leva a uma “maior certeza sobre a estabilidade das políticas fiscal e monetária, que podem levar a um maior crescimento econômico”. A agência reconhece que o déficit fiscal ainda está alto, mas “o crescimento do PIB aliado ao novo arcabouço fiscal pode resultar em um crescimento da dívida menor do que o esperado”. Por fim, a S&P afima que “esses desenvolvimentos reforçariam a sua visão sobre a resiliência do framework institucional brasileiro, com políticas econômicas estáveis baseadas em ‘checks and balances’ entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário”. Para efetivamente elevar o rating, a S&P coloca como condição a perseverança em políticas pragmáticas e a aprovação de reformas – como a tributária – que aumentem o PIB potencial.

Bem, o que dizer? Em primeiro lugar, esse anúncio da S&P pegou o mercado de surpresa. Só aí, já vemos que tem alguma coisa errada. As agências de rating são followers, quem antecipa tendências são os mercados. As agências chegam depois, para “carimbar” algo que já aconteceu. Note que a S&P conta com o ovo dentro da galinha, ao supor que o crescimento do PIB e o novo arcabouço fiscal “podem” gerar uma dívida menor que a esperada. Ainda não aconteceu, aliás é consenso de que será difícil com esse arcabouço frouxo, mas a S&P deu o seu “voto de confiança”.

Uma casa de análise gringa expôs a sua perplexidade, em relatório enviado a clientes, nesses termos: “Trata-se de um desenvolvimento positivo, ainda que inesperado, dado que o novo arcabouço fiscal ainda precisa ser aprovado, e o conteúdo final da reforma tributária ainda é incerto. Além disso, tem havido, em meses recentes, uma clara deterioração de políticas microeconômicas e do ambiente regulatório. Em nossa avaliação, elevar o rating e, no fim, recuperar o investment grade, requereria reformas decisivas e políticas macro, micro e regulatórias que suportassem investimentos e aumentassem a produtividade (isto é, elevassem o atual modesto crescimento potencial do PIB), e estabilizassem a dinâmica da dívida. Em nossa avaliação, com exceção da política monetária, o atual mix de políticas macro e microeconômicas e o cenário de reformas ainda estão siginificativamente distantes desse padrão”.

Mas o mais interessante desse anúncio não foi o anúncio em si, mas a reação do ministro da Fazenda. Claro, como pinto no lixo, Haddad desfilou toda a sua satisfação com esse verdadeiro presente dado pela S&P, e não poderia ser diferente.

No entanto, Haddad coroa a sua festa com um pedido que demonstra a sua total, inequívoca e irremediável ignorância sobre os processos que levam à melhora do rating soberano. O ministro da Fazenda pede que o Banco Central se junte ao esforço de recuperação do rating reduzindo as taxas de juros! Não entendeu nada!

A S&P começa dizendo que sua decisão se baseou no “pragmatismo de políticas fiscal e monetária estáveis”. Ora, a atual política monetária, que busca trazer a inflação para a meta, foi elogiada pela S&P! Claro, a agência faz menção inúmeras vezes ao crescimento do PIB, e Haddad, então, do alto de seu apedeutismo, acha que, se o BC simplesmente derrubar os juros, tudo estará resolvido. A S&P em momento algum afirmou isso. A agência citou a continuidade dos esforços fiscais e a reforma tributária como condições para o crescimento e a recuperação do grau de investimento. Como disse a casa gringa em sua análise, a política monetária é a única que está em seu lugar.

Enfim, a S&P deu um presentão para o governo do PT. Mas é preciso saber usá-lo. Há sérias dúvidas com relação a isso.

A matemática é cruel

Tem muito frenesi sobre hidrogênio verde ultimamente. O Brasil seria candidato a ser grande produtor do combustível, por contar com uma matriz de geração de energia elétrica menos poluente. Para quem não sabe, o hidrogênio verde recebe esse nome porque, para a sua produção, só é usada eletricidade com origem “verde”, ou seja, de combustíveis não fósseis. O hidrogênio do mal recebe outras cores.

Fui tentar entender onde estamos nesse assunto. Fiz uma rápida pesquisa na internet e descobri alguns números interessantes. Por exemplo, para se produzir 1 kg de hidrogênio verde são necessários 55 kWh de energia. Esse número em si não quer dizer muita coisa, mas se juntarmos com a informação de que a bateria de um Tesla precisa de uma carga de 80 kWh de energia para ficar completa, concluiremos que uma bateria de Tesla equivale a aproximadamente 1,5 kg de hidrogênio.

Pois bem. Se a autonomia de um Tesla com essa bateria é de 500 km, qual seria a autonomia de um automóvel movido com 1,5 kg de hidrogênio? Considerando a informação da reportagem de que o poder calórico do hidrogênio é de 3 vezes o da gasolina (1 kg de hidrogênio = 3 kg de gasolina), e que cada litro de gasolina pesa mais ou menos 0,75 kg, podemos afirmar que 1 kg de hidrogênio equivale a mais ou menos 4 litros de gasolina em termos de poder calórico. Considerando um consumo de mais ou menos 8 km/l de gasolina, um tanque de 60 litros equivaleria a mais ou menos uma bateria de 80 kWH, ambas podendo rodar 500 km. Se 1 kg de hidrogênio gera o mesmo poder calorífero de 4 litros de gasolina, então teríamos que ter um tanque de 15 kg de hidrogênio para andar os mesmos 500 km. Ou, de outra maneira, cada 1,5 kg de hidrogênio serve para andar 50 km, 10 vezes menos do que a bateria de lítio que usa a mesma quantidade de eletricidade. Visto de outra forma, se para gerar 1 kg de hidrogênio são necessários 55 kWh de energia elétrica, para 15 kg seriam necessários 825 kWh . Ou seja, para andar 500 km, um Tesla gasta 80 kWh enquanto um carro movido a hidrogênio gastaria 825 kWh. Peço a alguém entendido no assunto que confira as contas acima.

Mas não é só isso. Em 2022, foram produzidos 28.700 TWh de energia elétrica no mundo. Se para andar 500km são necessários 825 kWh, o total de energia elétrica produzida no mundo poderia mover todos os carros, por ano, por cerca de 17,4 trilhões de quilômetros. Para os aproximadamente 1,4 bilhões de carros no mundo, isso equivaleria a cerca de 12,4 mil km/ano. Ou seja, se toda a eletricidade do mundo fosse transformada em hidrogênio, isso seria o suficiente para que cada carro rodasse por pouco mais de 10 mil km/ano.

Mas, obviamente, trata-se de um hipótese heróica. Não podemos abrir mão de toda a eletricidade do mundo só para mover carros. Além disso, grande parte da eletricidade é gerada de fontes sujas, que não servem para produzir hidrogênio verde. De todas as fontes de eletricidade, somente 39% são de fontes “limpas”. Então, a conta seria de 4,8 mil km/ano/carro se toda a energia elétrica limpa fosse transformada em hidrogênio verde.

As contas acima, se estiverem corretas, mostram que estamos longe, muito longe, de ter um substituto para a bateria de lítio, quanto mais para o petróleo. Obviamente, não se trata de desmerecer iniciativas como a do hidrogênio verde. Um dia teremos tecnologia para que esse combustível seja economicamente viável. O problema é achar que estamos às portas de uma revolução, quando, na verdade, estamos muito distantes. E o pior é que, por mais que tenhamos crescimento na geração de energia limpa, a demanda por energia, essa danadinha, cresce ainda mais rápido, fazendo com que a geração de energia suja mantenha seu crescimento. E se a demanda por hidrogênio verde aumentar, adivinha, não vai ter como manter a oferta de energia elétrica sem aumentar a geração de energia suja.

Bem, tudo isso pra dizer que palavras são bonitas, mas no final do dia o que importa é a matemática. É ela que vai definir qual tecnologia será adotada. Discursos inflamados e chamadas para a ação não substituem uma boa conta econômica. E, no caso do hidrogênio verde, a julgar pelos números acima, ainda temos muito a caminhar até chegar lá.

Jornalismo raso

A jornalista Eleiane Cantanhêde avisa: os bolsonaristas vão se arrepender de terem insistido na instalação da CPMI dos eventos de 08/01, que ela chama de “CPMI do golpe”. Toda a coluna de hoje serve para provar a tese, repetindo tudo o que já sabemos: a existência de uma “minuta do golpe” e as mensagens sobre a trama trocadas entre auxiliares próximos do ex-presidente.

Fico cá pensando com meus botões: o que faz o Estadão ainda manter entre seus colunistas alguém tão limitada como Eliane Cantanhêde? Sim, porque uma coisa é defender ideias com as quais pode-se não concordar, mas que contam com alguma lógica interna. Outra, é desfilar platitudes que ficam no térreo da análise, sem conseguir nem ao menos descer ao primeiro subsolo dos fatos, o nível mais óbvio de qualquer análise. Aliás, nem mesmo como “jornalista de bastidor” a colunista serve, pois é raro haver elementos de bastidor em suas colunas. É só análise rasa mesmo.

No caso em tela, todos os fatos listados pela jornalista já são de conhecimento público há muito tempo. O que uma CPMI mudaria exatamente? Por que esses mesmos fatos fariam os bolsonaristas se “arrependerem” da convocação da CPMI? Mistério.

Cantanhêde não desce ao primeiro subsolo mais óbvio: quem lutou com unhas e dentes pela não instalação da CPMI foi o governo, não os bolsonaristas. Só não conseguiram seu intento porque um vídeo comprometendo o ajudante de ordens de Lula vazou na CNN, tornando irresistível o movimento pela instalação. Aliás, há alguns dias, editorial do Estadão reclamava que, até o momento, os vídeos das invasões não foram liberadas pelo governo e pelo STF, apesar de ordem em contrário do próprio Alexandre de Moraes. Cabe a dúvida legítima: será que o governo não queria uma CPMI pois esta tem autoridade para requisitar todos os vídeos daquele dia? O quadro descrito por Cantanhêde já conhecemos. A pergunta é: o que não conhecemos?

O mundo é bem mais do que a luta entre o “bem” e o “mal”, fato que um bom comentarista político, verdadeiramente isento, deveria saber de cor. Que foram bolsonaristas os que invadiram as sedes dos poderes parece não haver dúvida. O que ainda está para ser esclarecido é o papel das autoridades do governo Lula nesse episódio. Um crime tem autoria, ocasião e beneficiário. As duas primeiras características estão mais ou menos claras. A CPMI poderá jogar luz na terceira.

Cantanhêde assumiu o compromisso, juntamente com outros jornalistas, de “defender a democracia”, o que se traduz em colocar Bolsonaro como o inimigo número 1 do país, mesmo que isso signifique repetir bovinamente fatos já conhecidos. Assim como um STF que “defende a democracia” faria melhor em defender a justiça, jornalistas prestariam um melhor serviço se esquecessem essa estória de “defender a democracia”, e simplesmente defendessem os fatos.

Denuncismo vazio

O JN mostrou hoje uma pequena reportagem de 3 minutos sobre trabalho infantil, por ocasião do Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil. Não, não assisti, li o conteúdo no site do jornal.

É daquelas matérias que terminam e você se pergunta: e? Qual a linha de ação para acabar com essa chaga social? Nada. O máximo que se conseguiu nesse sentido foi uma passeata em São Luiz, promovida por “entidades”. Realmente, vai resolver muito. – Ah, mas pelo menos vai conscientizar os brasileiros sobre o problema. Claro, eu mesmo não sabia que havia crianças pedindo dinheiro no farol, foi uma revelação para mim. Tenha a santa paciência.

Mas paciência mesmo precisa para ouvir, sem perder a compostura, a declaração de um juiz da vara da infância sobre os males do trabalho infantil. Além de ser contra a lei (sério?), o trabalho infantil impede a criança de brincar (?!?). E o que o juiz sugere? Que se prenda os pais? Que se arranque os filhos dos pais e os mande para um reformatório? Qual a sugestão exatamente?

Pois eu tenho uma sugestão. Que tal se os juízes, inclusive esse que deu a entrevista, abrissem mão dos seus 60 dias de férias remuneradas e, com o dinheiro poupado, se fizesse um fundo para ajudar na manutenção das crianças na escola?

Na boa, é muito blá-blá-blá, muito escândalo farisaico diante de uma realidade triste, mas ninguém está disposto a mover-se um milímetro de sua posição para mitigar o problema. A Globo, claro, acha que já contribuiu com 3 minutos de reportagem sobre o tema. Seus editores devem ter ido satisfeitos para a cama, com o sentido do dever cumprido. Amanhã, essas mesmas crianças da reportagem estarão nas ruas novamente. O que merecerá mais uma matéria daqui a um ano.

O sal da vida

Para ter chegado à pauta de um jornal, é que a coisa tomou alguma proporção. No caso, pais e mães que se metem na vida escolar dos filhos na faculdade. É de cair o bu da cunda.

Isso me faz lembrar uma vez em que estávamos em processo de contratação de um estagiário, e uma mãe nos ligou para saber se o seu filho seria contratado. Não há limites para país superprotetores.

A reportagem repete, em mais de um trecho, a avaliação de que esta geração suporta menos as adversidades. Pudera! Com país que tiram satisfação da faculdade pelas notas dos filhos, não há que esperar outra coisa.

Costumo dizer que a vida é uma mar de adversidades pontilhada com algumas ilhas de satisfação. Se os pais e mães mantém seus filhos presos nessas pequenas ilhas de satisfação, evitando a todo custo que sofram as consequências de seus atos, eles vão ficar presos nesse mundinho e cada vez mais insatisfeitos. Nunca experimentarão o gosto de ter vencido a adversidade, que é o que dá o sal da vida.

Ilha da Fantasia

O ministro da Casa Civil, Rui Costa, chamou Brasília de “Ilha da Fantasia”, pois, segundo o ex-governador da Bahia, os políticos não conheceriam a realidade brasileira. Isso porque, no caminho que vai de suas casas até o Congresso, não existiria “gente pedindo comida e gente desempregada”.

O Estadão hoje, no melhor estilo fact checking, desmentiu Costa: há sim “vulneráveis” no caminho entre as residências dos congressistas e a Praça dos Três Poderes. Portanto, Rui Costa não teria sido preciso em sua fala.

Já tive oportunidade de criticar aqui as agências de fact checking, que se atém à superfície da fala e perdem o “big picture”, o real significado do que se está dizendo. Fazem uma análise literal, quando a mensagem principal, na maioria das vezes, está nas camadas subliminares. O resultado, via de regra, é patético, como é o caso aqui.

A escrotidão da mensagem de Rui Costa independe de ter ou não gente pedindo esmola no caminho entre a casa do deputado e seu escritório. O que o petista quis dizer todos nós sabemos: eles têm o monopólio da sensibilidade social, só eles conhecem a realidade dos pobres, só eles buscam o bem dos mais pobres. Tanto faz se todos nós, incluindo os deputados e senadores, tropeçamos com miseráveis todos os dias. A Ilha da Fantasia de Rui Costa é metafórica: todos nós, não petistas, vivemos em uma Ilha da Fantasia e, portanto, não temos “sensibilidade social”. Esse é o sentido da fala do ministro.

Claro que os políticos se revoltaram. Assim como nós, os políticos se revoltam com essa narrativa (para usar a palavra da moda), enquanto veem Lula querendo trocar o avião presidencial por um que possa ter uma cama de casal e o máximo conforto para 100 convidados. A vanguarda do proletariado se trata bem, e já passou muito do tempo em que esse discursinho de comiseração pelos pobres enganava alguém, a não ser os trouxas de sempre.

Um fact checking da fala de Rui Costa deveria checar se o governo do PT realmente olha para os pobres, ou se distribui migalhas enquanto protege os de sempre. Aliás, nesse sentido, a fala do ministro é verdadeira. A Ilha da Fantasia, para quem não se lembra, era uma ilha em que os sonhos das pessoas que ali pousavam se transformavam em realidade. Brasília é isso: empresários pousam em Brasília com seus sonhos, que se tornam realidade. Para ficar completo, falta só o Tatoo anunciando o avião a cada pouso.

A popularidade de Lula

Aproveitei a pesquisa do IPEC para atualizar o gráfico de popularidade do presidente com as outras pesquisas que foram publicadas nos últimos meses. De maneira geral, a popularidade líquida de Lula saiu do patamar de 15 positivos no 1o trimestre para algo um pouco abaixo de 10 agora no 2o trimestre. O IPEC está dando +9, a Paraná deu +7 no mês passado, então deve estar por aí.

Há análises para todos os gostos para esse número. Podemos, por exemplo, dizer que Lula está em uma posição bem abaixo da média dos seus primeiros dois mandatos, em que valores abaixo de +10 ocorreram apenas durante 6 meses em seus 8 anos na presidência. Por outro lado, também podemos dizer que Lula está muito acima da média de Bolsonaro, que ficou acima de +10 apenas durante o 1o trimestre de seu mandato. Por fim, podemos dizer que Lula tem hoje mais ou menos a mesma popularidade que Bolsonaro tinha no 2o trimestre do seu mandato.

O que esperar daqui para frente? Do ponto de vista da atividade econômica, a economia está desacelerando menos do que o previsto pelo mercado, e daqui a pouco o BC começa a cortar os juros, o que pode dar um alento. Então, do ponto de vista da economia, parece que as coisas, de modo geral, não vão piorar muito no curto prazo (próximos 12 meses). Já do ponto de vista de, digamos, “iniciativas asininas”, Lula já provou que está pronto para nos surpreender. Juntando essas duas partes, acho mais provável uma acomodação da popularidade nesse atual patamar, pelo menos por enquanto. Aliás, diga-se de passagem, patamar arriscado para o incumbente que vai tentar a reeleição. Mas estamos muito longe de 2026 ainda.