Isso é tudo o que precisamos saber

Os recursos repassados para a UFRJ pelo governo Temer cresceram de 2015 para cá.

Os recursos repassados para o Museu Nacional pela cúpula da UFRJ, formada por filiados do PSOL, diminuíram de 2015 para cá.

Isso é tudo o que sabemos até o momento.

Haddad não será o próximo presidente da República

Hoje participei de uma reunião com conhecida e respeitada consultoria política.

A análise foi mais ou menos a seguinte: Haddad está praticamente no 2o turno porque a identidade partidária do PT (pessoas que se identificam com o partido) está em 24%, e as intenções de voto em Lula somam 39%.

Alguém então perguntou, em um misto de melancolia e revolta: “então, o impeachment ajudou o PT?”

A resposta foi a seguinte: “o impeachment e a prisão de Lula foram a melhor coisa que poderia ter acontecido ao PT”.

Reportagem do Globo lembra que, 10 dias após a condução coercitiva de Lula, o chefão do PT tinha 17% das intenções de voto, contra 23% de Marina Silva, segundo pesquisa DataFolha. Dois anos e meio depois e uma campanha sem precedentes contra as instituições, Lula atingiu 39% das intenções de voto, o que parece dar razão à consultoria.

No entanto, imaginemos que o impeachment não tivesse ocorrido e Lula estivesse livre, leve e solto. A teoria dessa consultoria é que o governo Dilma chegaria a essas eleições na lona, sem competitvidade nenhuma. Seria presa fácil de seus próprios erros.

Essa análise, com todo respeito, é de botequim. Tem como premissa que o PT joga a regra do jogo democrático. O exemplo de como as instituições poderiam ser manipuladas para manter o partido no poder é a Venezuela. A economia está na lona não é de hoje, mas Chávez, e agora Maduro, “ganham” eleição após eleição. E, quando não ganham, mudam as regras do jogo sem nenhum pudor.

Lula e o PT já mostraram seu “amor” pelas instituições nesses últimos dois anos. Isso, longe dos instrumentos de poder. Imagine essa patota com a caneta na mão. Lula estaria eleito no 1o turno, independentemente do estado da economia.

FHC teve a brilhante ideia de deixar Lula “sangrar” após o mensalão, quando um impeachment teria sido possível, na esperança de que seu governo chegasse na lona nas eleições de 2006. O resultado foram mais três mandatos do PT.

É sempre muito difícil qualquer análise das possibilidades históricas, pois não existe o contra factual. Dizer que o impeachment e a prisão de Lula ajudaram o PT é uma análise rasa, que parte simplesmente dos números. Desconsidera a incrível capacidade de mistificação de Lula e seus asseclas do PT. Capacidade esta que seria multiplicada se ainda tivessem acesso aos instrumentos de poder.

Sim, o impeachment foi a coisa certa a se fazer.

E não, Haddad não será o próximo presidente da república.

Como um plano para salvar o Museu Nacional fracassou

Dando continuidade ao assunto, leia a história de Israel Klabin e sua tentativa de arrumar um empréstimo de US$80 milhões do Banco Mundial para o Museu Nacional, e que esbarrou na negativa da então diretoria da UFRJ de abrir mão da governança do Museu:

Como já dissemos, ninguém é louco de dar dinheiro na mão dessa patota.

Nomenklatura

Ainda a Globo News.

Um dos “analistas” pergunta, indignado: “onde estão os mecenas brasileiros? Tantos museus lá fora são sustentados por milionários. Aqui preferem mandar o dinheiro para paraísos fiscais”.

Quero saber quem é o louco que vai entregar dinheiro na mão dessa nomenklatura que dirige a UFRJ.

A Globo merece essa homenagem

Take ao vivo do Museu na Globo News.

“Manifestantes” se aproximam do cordão de isolamento formado pela Guarda Municipal. Mais cedo, tinham tentado invadir e foram dispersos com gás lacrimogêneo.

A repórter da Globo News descreve assim o momento: “vemos agora os manifestantes se aproximando para prestar sua homenagem ao Museu. Foi tudo combinado, trata-se de uma manifestação pacífica”.

Ao fundo, o coro bastante audível: “Globo golpista! Globo golpista!”

A Globo merece essa homenagem.

Vítima de uma mentalidade

O Museu Nacional é de responsabilidade da UFRJ.

Meu amigo Marcelo Gerbassi mandou-me a lista dos responsáveis atuais pala UFRJ:

Reitor: ROBERTO LEHER – filiado ao PSOL;

Vice-reitora: DENISE FERNANDES LOPEZ – filiada ao PSOL;

Pró-reitor de graduação: EDUARDO GONCALVES – filiado ao PCB;

Pró-Reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças: ROBERTO ANTONIO GAMBINE MOREIRA – filiado ao PC DO B;

Pró-Reitora de Extensão: MARIA MELLO DE MALTA – filiada ao PSOL;

Pró-Reitor de Pessoal: AGNALDO FERNANDES – filiado ao PSOL;

Decano do CCJE: VITOR MARIO IORIO – filiado ao PSOL

Provavelmente, essas filiações partidárias não mudaram ao longo dos anos.

A mentalidade dessas pessoas é a seguinte: Cultura não é mercadoria. Portanto, é obrigação do Estado financiar a Cultura, através da arrecadação de impostos. Parcerias com a iniciativa privada estão fora de cogitação, para “manter a independência de interesses mercantilistas”.

Em 2010, a mesma UFRJ retomou o Canecão. Finalmente, a mais famosa casa de espetáculos do RJ estaria livre dos tais “interesses mercantilistas”. Hoje, o Canecão está em petição de miséria.

O Museu Nacional não foi vítima apenas da falta de dinheiro. Foi vítima, antes de tudo, de uma mentalidade. A mesma mentalidade que mantém o país refém da pobreza.

Prioridades mal concebidas

Se alguém vier culpar a “austeridade” pelo fim do Museu Nacional, lembre-se que gastaram R$250 milhões para construir o Museu do Amanhã.

O problema do Brasil não é de falta de dinheiro. É de prioridades mal concebidas.

Tanto faz a cor do brucutu

Quando o Ministério da Cultura foi extinto pelo recém empossado governo Temer, a chamada “intelectualidade nacional”, que engloba artistas globais, professores de universidades públicas e outras categorias menos reluzentes, revoltou-se e acusou o “governo golpista” de querer o desmonte da cultura nacional.

O governo Temer, tíbio como sempre, voltou atrás. O Ministério da Cultura poderia, assim, continuar sua missão de “preservar a cultura nacional”. Como, aliás, todos os governos têm supostamente feito desde a criação do Ministério, em 1985. Governos de esquerda e, portanto, com uma sensibilidade especial para a cultura, marcando a diferença para os brucutus da ditadura militar.

Fica a questão: se o Ministério da Cultura não serve para preservar um patrimônio como o do Museu Nacional, para que serve então? Ok, é só uma pergunta retórica. Sabemos que o Ministério da Cultura serve à resistência democrática, o que, nos últimos anos, se traduziu no movimento “fora Temer”.

No último quarto de século, fomos governados por partidos que se auto-proclamam defensores da cultura. Se isso significa deixar o Museu Nacional queimar até a morte, talvez um brucutu sem sensibilidade na presidência não faça assim tanta diferença.

Amanhãs radiosos e passado em ruínas

A primeira foto abaixo é da inauguração do Museu do Amanhã, em 2015.

A segunda foto é do incêndio no Museu Nacional, ontem.

O meu pai era carioca. Portanto, metade da minha família era do Rio, cidade onde passava minhas férias na infância. O Museu Nacional era passeio obrigatório. Adorava aquele lugar. Tanto que, já adulto, fiz questão de levar meus filhos para visita-lo, em 2010. Apesar da deterioração já visível, a sua majestade ainda estava ali.

Na última vez que estive no Rio a passeio, com o tempo apertado, tive que selecionar o que visitar. Fui ver a descrição do tal Museu do Amanhã, no site: “O Museu do Amanhã é um museu de ciências que tem como objetivo explorar as possibilidades do futuro. Por meio de ambientes audiovisuais, instalações interativas e jogos, o público é levado a examinar o passado, entender as várias tendências da atualidade e imaginar futuros possíveis para os próximos 50 anos”.

Não vou aqui condenar quem gosta disso. Mas a descrição me levou a concluir que aquilo não passava de uma caixa de vento. Poderia ser chamado de, sei lá, “Espaço Multimídia do Amanhã”. Museu, para mim, é onde se guarda o passado. Deixei o Museu do Amanhã de fora do meu roteiro.

Construir coisas novas é relativamente fácil. Inaugurar escolas, hospitais, museus, rende fotos e votos. O duro é manter esses equipamentos em boas condições ao longo dos anos.

Lula se gaba de ter feito não sei quantas universidades federais. Qual será o estado de conservação desses edifícios daqui a, digamos, 10 anos?

O Museu do Amanhã custa R$40 milhões anuais, sendo que R$12 milhões são bancados pela prefeitura do RJ. O Museu Nacional tinha orçamento anual de R$500 mil.

Cansamos de ouvir que “falta dinheiro”. Sim, sempre faltará dinheiro quando as prioridades não são bem feitas. Preferimos construir caixas de vento e estádios bilionários ao invés de preservar o que já existe.

Neste momento ouço uma nota revoltada da Fundação Roberto Marinho na Globo News lamentando o ocorrido. A mesma Fundação que arrecada, junto a parceiros privados, R$28 milhões anuais para a manutenção do Museu do Amanhã. Afinal, o que dá mais Ibope? A questão de prioridades não se limita aos governos.

Quando você ouvir alguém condenando o governo pelo “descaso” com nosso patrimônio histórico, pergunte: onde estava você quando construíram o Museu do Amanhã? A resposta a essa questão dirá muito sobre os bandidos e mocinhos dessa história.