Não Ciro. Os brasileiros não estão endividados por causa dos juros altos. Os brasileiros estão endividados porque gastam acima da sua renda. Os juros são somente o preço cobrado pela possibilidade de gastar acima da renda.
Os juros são altos? Sim, sem dúvida. No Brasil, os juros são altos porque políticos como Ciro Gomes abusam do populismo, o que acaba cobrando o seu preço ao longo do tempo, na forma de taxas de juros que compensem o risco de se investir em um país regido pela irresponsabilidade.
Os brasileiros precisam pensar muitas vezes antes de gastar acima de sua renda. O preço do dinheiro é alto, e piora a situação muito rapidamente. E para aqueles que ganham pouco e não conseguem viver com sua renda, um conselho: fazer dívidas vai somente piorar a situação.
Já contei essa história, mas vou contar novamente, porque tem muita gente nova por aqui.
Na época das eleições de 2014, eu tinha um colega de trabalho que era originário do interior da Bahia. Durante a campanha, ele foi visitar a família, e voltou contando que viu um carro de som percorrendo as ruas da pequena cidade, com o locutor informando a população que Aécio Neves, se eleito, iria acabar com o Bolsa Família. Não precisa de zapzap pra espalhar feiquenius.
Ainda naquela campanha, um filmete que ficou famoso mostrava a comida sumindo da mesa de uma família pobre, caso a proposta de autonomia do Banco Central, defendida por Marina Silva, fosse aprovada.
Isso se chama discurso político. No mundo ideal de Pedro Doria, no entanto, não há espaço para o discurso político. Na democracia de Pedro Doria, os candidatos devem passar pelo escrutínio das agências verificadoras de fatos, que definirão o que pode e o que não pode ser dito. É a democracia da censura do bem.
Pedro Doria, no entanto, também faz um discurso político. Sua afirmação de que Bolsonaro tem “uma máquina publicitária exclusivamente baseada na mentira” não passaria pelo filtro de uma agência verificadora de fatos. Aliás, a menção ao grupo de Zap dos empresários bolsonaristas é bem significativa: precisamos tomar cuidado com o que escrevemos até em grupos fechados. Essa é a democracia segundo Pedro Doria.
Os candidatos “democratas” (Lula, Ciro e Tebet) precisam, segundo Pedro Doria, reagir à desinformação. Como se fossem paladinos da verdade e do bem, e não políticos que lançam mão, o tempo inteiro, de narrativas que não passariam pelo crivo de agências verificadoras. Acho Bolsonaro um pulha (pra escrever um adjetivo aceitável nesse espaço família). Mas de quem tenho realmente medo é desses paladinos do bem, que querem construir uma democracia antisséptica, onde a política não tem vez.
Bolsonaro não resiste a uma casca de banana. Quando vê uma, corre em sua direção para escorregar. Foi o que aconteceu ontem. Cedeu às provocações de um crítico, saiu do carro onde estava e tentou tomar o celular de sua mão. Se o presidente continuasse em seu caminho, o evento estaria restrito ao público do, até ontem obscuro mas agora globalmente famoso, YouTuber Wilker Leão. Agora, temos a cena de um político truculento avançando para tomar o celular de um cidadão. Parabéns, presidente.
Mas essa não é a parte mais suculenta dessa história. Wilker Leão não é petista. Pelo contrário. É um YouTuber de direita, apoiador de Bolsonaro. Na verdade, apoiador da imagem que Bolsonaro construiu para si mesmo, mas que ele mesmo não segue. O destruidor do sistema, aquele que iria colocar a política brasileira em seu devido lugar, tornou-se a “tchutchuca do Centrão”. Wilker Leão é daqueles seguidores que não entendem o xadrez 4D jogado pelo presidente, uma estratégia que permitirá destruir o sistema alçando seus principais artífices aos mais altos postos do poder.
Mas o mais interessante veio na declaração que o YouTuber tricolor deu ao Estadão: esta seria a única forma de debater com o presidente, usando a sua própria forma de comunicação. Nada menos que brilhante. Bolsonaro se notabilizou pela sua espontaneidade, pela sua forma simples de falar, que beira muitas vezes à grosseria e que, muitas vezes, fere a sensibilidade dos espíritos mais sensíveis. O YouTuber, que bebe na fonte do presidente, usou do mesmo linguajar. Bolsonaro perdeu a esportiva, quando, na verdade, deveria ter parabenizado aluno tão aplicado.
O evento vai tirar votos do presidente? Pouco provável. Wilker Leão e seus seguidores mais radicais continuarão a votar na “tchuchuca do Centrão” contra o PT. Mas o episódio é útil para entender a natureza da fauna que orbita Bolsonaro.
Na primeira campanha vitoriosa de Lula ao Palácio do Planalto, uma das promessas mais reluzentes era a de que cada brasileiro iria poder usufruir de três refeições por dia. Ao assumir, uma das primeiras medidas do presidente do povo foi instituir o programa “Fome Zero”, logo substituído, por sua inoperância, pelo “Bolsa Família”, e o resto é historia. Viramos a página da fome no Brasil.
Só que não.
20 anos se passaram, 20% da população brasileira recebe o Auxílio Brasil (sucedâneo do Bolsa Família), e a fome continua sendo tema de campanha eleitoral. Fernando Gabeira, hoje, propõe algumas medidas adicionais aos auxílios, como “estoques reguladores”, “fomento à agricultura familiar” e “programas de solidariedade envolvendo os mais ricos”. Putz, como não havíamos pensado nisso antes? Acho que uma turma do ensino médio, se instada a pensar sobre como resolver o problema da fome no Brasil, se sairia com ideias mais criativas.
Acostumamo-nos a pensar na fome como um problema de renda. E, sem dúvida, o é. O melhor programa de combate à fome é o aumento da renda per capita da população. Em países mais ricos, menos pessoas passam fome, e vice-versa. No entanto, na ausência do crescimento econômico, optamos pela redistribuição da renda: cobramos impostos dos mais ricos para entregar aos mais pobres. Se fosse isso, poderia funcionar. Mas, no Brasil, não é assim que funciona. Nosso imposto sobre a renda é ridiculamente baixo, os mais ricos têm esquemas muito azeitados para pagar menos impostos, e acaba sobrando para os mais pobres, que pagam mais impostos, seja diretamente, via taxação dos bens, seja indiretamente, via taxação das empresas, que repassam os impostos para os preços dos produtos. Isso, quando o governo simplesmente não tira renda da população via inflação. Então, o governo tira silenciosamente de um bolso e devolve com pompa e circunstância para o outro. O resultado é este que aí está: fome.
Mas não é só isso. Lembrei de um artigo publicado pelo Luciano Huck em 05 de junho último, em que ele conta sobre sua visita a uma casa muito pobre da periferia do Rio, onde vivia uma menina que sonhava em ser bailarina mas não tinha dinheiro sequer para a ônibus que a levaria ao Teatro Municipal, onde poderia praticar sua arte. Chamou a atenção do cronista da pobreza brasileira a cozinha do casebre: totalmente reformada, com eletrodomésticos reluzindo de novos. Aquilo havia sido feito com o dinheiro do auxílio emergencial durante a pandemia. Mas, veja só: o dinheiro acabou, e agora a geladeira estava vazia.
A história acima nos dá uma pista de um fenômeno explicado pela psicologia econômica, e que eu chamo de Teoria do Gás em meu livro. O fenômeno é o seguinte: nossos gastos sempre vão crescer na proporção da nossa renda, até forçar as paredes do nosso orçamento. Isso sempre acontece, independentemente do tamanho da nossa renda. Por isso, via de regra, as pessoas estão sempre apertadas de dinheiro, mesmo ganhando bem.
Como isso se aplica ao Bolsa Família? No início do programa, aquela renda adicional foi muito bem-vinda, um verdadeiro alívio. Com o passar do tempo, no entanto, o auxílio foi sendo comido por um aumento do padrão de vida familiar. Quando a economia capotou e a inflação aumentou, aquela renda passou a não ser mais suficiente para manter o padrão de vida conquistado anteriormente. O aumento da fome é resultado da volta ao estado natural de uma economia de baixa renda per capita, e que tentou redistribuir renda sem realmente produzir nada. As famílias fizeram a festa enquanto durou, a exemplo da mãe que reformou a cozinha ao invés de guardar o dinheiro para comer no tempo das vacas magras.
O problema da fome é estrutural, que se resolve com aumento permanente da renda do país e de redistribuição verdadeira dessa renda. Nada disso se resolve com medidas cosméticas, como o Bolsa Família / Auxílio Brasil. No entanto, o problema da fome é também urgente, e exige medidas imediatas. Por isso, a importância desses programas. O problema é parar neles, e achar que está tudo resolvido. Não está. Basta ver que ainda estamos discutindo a fome, mesmo depois de 13 anos de governos “populares” e da continuidade (e até aumento) dos programas de renda.
No final do dia, governar é decidir para onde vão os impostos arrecadados dos cidadãos.
Haddad já avisou que vai tirar dinheiro dos paulistas para beneficiar os servidores estaduais aposentados com maior renda, que tiveram aumento de alíquota de IR na reforma da Previdência estadual.
Se você é servidor estadual de maior renda, vote Haddad.
O SUS é um gigantesco plano de saúde, em que seus beneficiários não pagam nada. Este plano é formado por hospitais próprios (públicos) e terceirizados (particulares). A notícia de que o A C Camargo vai deixar de atender pacientes do SUS é equivalente a dizer que o SUS vai descredenciar o hospital de sua rede. Fosse um plano privado, os beneficiários estariam se mobilizando para manter o credenciamento. Ou, em outras palavras, obrigar o plano de saúde a pagar o que o hospital está exigindo. Sendo o SUS público a ação é contra o Leviatã, o Estado brasileiro. Boa sorte aos beneficiários.
Saúde não tem preço, mas custa muito caro. Agora mesmo o Congresso acabou de aprovar um piso nacional para os salários de enfermeiros. Nada contra esses profissionais, certamente merecem ganhar mais do que ganham, mas este é mais um custo para o sistema, que deverá ser coberto pelas mensalidades dos planos de saúde e pelas verbas do SUS. Sim amigos, o dinheiro sempre sai de algum lugar.
O SUS nasceu como uma promessa de saúde de primeira para todos os brasileiros. No entanto, a primeira coisa que um brasileirinho faz quando começa a ganhar algum dinheiro é gastá-lo em um plano de saúde privado. 25% dos nacionais fazem isso, principalmente dentre aqueles que povoaram as redes com a hashtag #VivaoSUS durante a pandemia. O SUS é bom pra tomar vacina de graça e olhe lá.
O orçamento do Ministério da Saúde é de R$ 153 bilhões este ano, o que resulta em R$ 80 por mês por brasileiro que não tem plano de saúde. Qualquer plano de saúde privado mequetrefe custa, pelo menos, 5 vezes mais do que isso. Ou, de outro modo, para termos um plano de saúde estatal no mesmo nível do mais mambembe plano de saúde privado, precisaríamos investir R$ 600 bilhões a mais por ano, o que significaria aumentar os gastos públicos federais em 40%. Isso, considerando eficiência privada na gestão dos recursos estatais, o que está longe de ser garantido.
Acho que ninguém é “contra o SUS” como ideia abstrata. Seria lindo ter assistência médica de boa qualidade para todos. A hashtag #VivaoSUS é a expressão desse desejo e, ao mesmo tempo, uma palavra de ordem contra todos os desalmados que não querem que pobre tenha saúde de qualidade. O único problema é que se trata, no mínimo, de um auto-engano. Ou, em alguns casos, de hipocrisia mesmo.
No início da adolescência, ficava aterrorizado com a perspectiva de ter que conquistar uma mulher e constituir uma família. Achava aquilo algo muito acima da minha capacidade. Passados os anos, e tendo conquistado uma mulher e formado uma família, continuo achando a tarefa muito acima da minha capacidade.
É relativamente fácil apontar os erros dos nossos pais. Afinal, são seres humanos e, portanto, falhos. Olho para o meu próprio comportamento, e lamento os inúmeros erros que cometi ao longo dos anos na educação de meus filhos. No entanto, eles são o que são hoje também por causa desses erros. Não apesar deles, mas por causa deles.
Hoje, no entanto, é dia de ter um olhar condescendente para com os nossos pais, procurando ressaltar os seus acertos, que certamente também existem. As suas virtudes nos moldaram, assim como os seus erros. Se somos o que somos hoje, é porque nossos pais erraram e acertaram.
Meu pai hoje não está mais aqui. Não posso mais externar minha gratidão por tudo o que ele fez por nós, por mim. Tudo, incluindo seus erros. Porque um pai, um verdadeiro pai, erra tentando acertar. E, com o tempo, mesmo esses erros se transformam em acertos, porque o amor é maior.
Notinha de hoje na Coluna do Estadão nos informa que Manuela d’Ávila não gostou nada de um painel em um edifício de Porto Alegre. Chama de “mentiras” o que está lá escrito e vai além: diz que é um crime e pergunta quem é o criminoso que estaria pagando por aquilo.
Manuela d’Ávila foi aquela candidata que se deixou fotografar em uma missa em 2018, quando era candidata a vice-presidente. Aquilo sim era verdade. Mentira é dizer que as esquerdas apoiam a descriminalização do aborto, o desencarceramento, o desarmamento da população, a escolha livre de gênero, a invasão de propriedades improdutivas.
Talvez o único ponto de discussão fosse o apoio à censura. Ditaduras de esquerda e de direita censuram, então trata-se mais de um problema das ditaduras do que das esquerdas. No entanto, o próprio tuíte da ex-deputada é um pedido de censura ao debate político legítimo. Os adversários do presidente o chamam de genocida e golpista, em um discurso político onde procuram situar Bolsonaro em um determinado campo de ideias. Manuela, por outro lado, quer a censura, pois prefere uma missa fake a enfrentar as consequências eleitorais de suas próprias ideias.
Na quinta-feira aconteceu a leitura da Carta em Defesa do Estado Democrático de Direito no Largo de São Francisco. A inspiração, como sabemos, foi a leitura da Carta aos Brasileiros, evento ocorrido há 45 anos.
Procurei nos arquivos da época a repercussão do evento. Chamou-me a atenção o fato de ter havido uma passeata pelas ruas do centro de São Paulo “permitida” pela polícia.
Eram tempos em que, de fato, se arriscava algo ao se posicionar contra o governo de plantão. Na mesma edição do jornal, por exemplo, ficamos sabendo que a polícia havia prendido cerca de 20 pessoas na UnB naquele dia. Fico imaginando a tensão daqueles estudantes, sendo observados de longe por carros “chapa branca”, como menciona a reportagem.
Em comparação, o evento de ontem reflete o Brasil de duas gerações adiante. Ninguém ali presente corria o risco de sair dali preso. O ato não requereu a coragem de 45 anos atrás. Talvez por isso, as reportagens que li foram unânimes em destacar a diversidade religiosa, de gênero e de raça como parte relevante dos discursos. A defesa da democracia em 1977 era questão de sobrevivência física. A de 2022 pode se dar ao luxo de defender pautas identitárias, sinal de que já ultrapassamos o básico na pirâmide de Maslow da democracia.
Mas a fundamental diferença entre as duas manifestações é o adversário: em 1977 havia uma ditadura que tinha, de fato, atropelado qualquer coisa semelhante a um Estado Democrático de Direito. Em 2022, temos um presidente com um discurso mambembe sobre não aceitação dos resultados eleitorais, um espantalho perfeito para engolir novamente o sapo barbudo.
A defesa do Estado Democrático de Direito não se dá no espaço etéreo das ideias, mas em uma realidade política concreta, em que está em jogo o poder político. Em 1977, essa defesa visava canalizar a pressão da cidadania pela entrega do poder por parte dos militares. Em 2022, essa defesa, por mais apartidária que se queira ver, envolve a entrega do poder político a uma das partes. É esta contradição insanável que enfraquece o movimento.
Fernando Haddad, no primeiro debate entre os candidatos ao governo de SP, afirmou que é completamente contra a privatização da Sabesp. E foi além: afirmou que as tarifas de energia elétrica e das telecomunicações são altas por causa da privatização.
Fazendo um pouco de arqueologia jornalística, não foi difícil encontrar pérolas do tempo das telecomunicações estatais. A reportagem abaixo é de 27/12/1992.
Ao ler a reportagem nos lembramos que as linhas telefônicas eram consideradas investimentos, que competiam com o dólar paralelo, o ouro e as ações, e sua cotação dependia da perspectiva de a Telebrás conseguir ou não suprir a demanda por linhas.
Mas o mais cruel é observar que as linhas mais caras eram justamente aquelas localizadas na periferia. Guaianazes, São Mateus, Itaquera e Parelheiros lideram os preços. Para se ter uma ideia, R$ 45 milhões (preço da linha nessas regiões) era equivalente a aproximdamente US$ 3,1 mil, já considerando a cotação do dólar no paralelo. Imagine pagar o equivalente a R$ 16 mil para ter uma linha telefônica fixa! Ou seja, a estatal prejudicava mais justamente os mais pobres. Nenhuma surpresa aqui.
É difícil fazer um paralelo com a energia elétrica, pois se trata de um mercado mais complexo e que não foi totalmente privatizado (a Eletrobrás só foi privatizada agora). Mas você pode estar certo de que o raciocínio é exatamente o mesmo. Não tenha dúvida de que, caso uma boa parte das empresas de energia elétrica não tivesse sido privatizada, o preço das tarifas seria, hoje, o menor dos nossos problemas. Estaríamos pagando o preço que fosse para garantir fornecimento. E, claro, os mais pobres seriam os mais prejudicados.
Depois de todas as evidências empilhadas nos últimos 25 anos, só defende a existência de estatais quem quer um cabide de emprego para uso político ou quem sofre de uma cegueira ideológica que impede de enxergar a realidade tal qual é. Fernando Haddad pertence a este segundo grupo, o mesmo que incluia Dilma Rousseff. São os mais perigosos, pois nada os detém. Nem a realidade.