Money talks

Musk desistiu do Twitter.

Quando o negócio foi anunciado, a direita oprimida do mundo se uniu em regojizo. Finalmente alguém iria libertar a rede social de suas amarras gramscianas, franqueando seus tuítes a todos os que lutam pela liberdade. Uma charge resume o júbilo: Musk abre a gaiola e convida um temeroso passarinho azul a voar livre.

Alguns, inclusive, juravam que o simples anúncio do negócio já tinha feito o milagre da libertação. Teria havido um aumento do número de perfis de direita nas timelines. Pensei com meus botões: qual a chance de o Twitter mudar qualquer orientação (se é que existe alguma orientação) sendo que só existe uma proposta comercial que ainda seria discutida por meses? Para mudar alguma coisa, é só óbvio que Elon Musk precisaria, antes, sentar-se no conselho de administração da empresa. Mas sabe como é, a vontade de ver milagres é poderosa.

Agora, ficou claro que, se Musk eventualmente tinha alguma ideologia por trás de sua oferta, o motivo principal era financeiro mesmo. O bilionário retirou a oferta porque não se sentiu seguro com relação ao que estava comprando. Ele até pode ter uma ideologia, mas não queima dinheiro para manter a chama dessa ideologia acesa. Aos que esperavam o Dom Sebastião das redes sociais, podem puxar o banquinho.

Pode ser que esta seja mais uma jogada de Musk para baixar o preço da mercadoria, e ainda tenhamos o negócio feito. Mas o episódio mostra que, antes de tudo, trata-se de business, e isso vale para todas as redes sociais. Procurar padrões ideológicos por trás do comportamento das redes é perda de tempo. Usar a chave do dinheiro para entender as redes é o caminho mais lógico.

Não contem comigo

A vantagem (ou desvantagem) de ser mais experiente (velho não!) é lembrar-se das coisas mais antigas. No final de 2012, o então governo Dilma fez uma mandracaria regulatória (a MP 579) misturada com redução de encargos, que conseguiu baixar o preço da energia elétrica em 20% em 2013. Faço a análise dessa MP no episódio 6 da série A Economia Brasileira na Era PT. Pois bem. Os petistas, a exemplo dos bolsonaristas de hoje, não se cansavam de repetir que o governo do PT havia conseguido reduzir as tarifas, e quem criticava estava só exercitando o seu direito ao choro.

Nada como a perspectiva do tempo. Aquela MP se mostrou um desastre de proporções bíblicas, desarrumando o setor elétrico e cavando um buraco orçamentário que estamos pagando até hoje. E as tarifas de energia elétrica voltaram a subir com força nos anos seguintes.

Fast forward para 2022. Bolsonaristas comemoram a queda dos preços dos combustíveis no melhor estilo petista de 2013. Seria como que a prova definitiva de que, graças a Bolsonaro, a vida do povo está melhorando, e todo e qualquer “mas” não seria mais do que mimimi ou choro de perdedor. O problema, como sempre, é o teste do tempo.

A queda do preço dos combustíveis se deu pelo corte de impostos arrecadados pelos estados. Alguém aí viu algum estado anunciando um ajuste fiscal através do corte de despesas? Não, você não perdeu nenhum anúncio. É que não aconteceu. As despesas continuam exatamente do mesmo tamanho. Não é muito difícil antecipar o que vai acontecer nos próximos anos: depois de acabar a gordura da arrecadação por conta da inflação, os estados vão começar a quebrar um atrás do outro. E adivinha quem vai ter que socorrer? Você, que está economizando algum dinheiro com o combustível mais barato agora, sugiro que guarde o montante economizado para pagar a conta do aumento de impostos e/ou aumento dos juros e/ou aumento da inflação no futuro para pagar a conta.

Alguns petistas, quando escrevi a série sobre a economia brasileira na era PT, se disseram, com uma ponta de ironia, ansiosos para ver outra série sobre o governo Bolsonaro. Expliquei que, em economia, é preciso ter a perspectiva do tempo. Decisões que parecem boas hoje só mostram todo o seu potencial destrutivo ao longo do tempo. Portanto, seria preciso aguardar alguns anos após o fim do governo Bolsonaro para julgar a sua obra.

Nesse sentido, ainda é muito cedo para dizer que o governo Bolsonaro é superior ao governo PT em termos de política econômica. Na verdade, os primeiros 4 anos do governo Lula foram exemplares nesse aspecto. Se alguém escrevesse uma análise da economia brasileira no final do primeiro governo Lula, a balança seria francamente positiva. Claro que o ambiente externo havia ajudado, ao contrário desses 4 primeiros anos do governo Bolsonaro, mas Lula se ajudou também: aprovou uma reforma da previdência dos funcionários públicos, manteve a estrita disciplina fiscal, respeitou a autonomia do BC, aprovou algumas reformas microeconômicas. Nada faria supor o que viria nos anos seguintes.

Quer dizer, nada não. No segundo episódio da minha série de artigos, chamo a atenção para os sinais que já se faziam presentes ainda no 1o mandato de Lula sobre o desastre que estava por vir. Claro, tenho o benefício do hindsight, de já saber o final da história. Na época, pouca gente, inclusive eu, deu a devida importância a esses sinais.

Tendo a experiência como guia, os sinais emitidos pelo governo Bolsonaro são preocupantes. O populismo fiscal virou a norma. Pode não haver o viés ideológico que orientou os passos dos governos PT na economia, mas o efeito final sobre as contas públicas é o mesmo. Nesse sentido, os quatro primeiros anos do governo Lula foram claramente superiores aos quatro primeiros anos do governo Bolsonaro. Claro, sempre se pode dizer que, se Lula tivesse o mesmo azar de Bolsonaro, teria feito a mesma coisa ou ainda pior. Pode até ser verdade, não temos o contrafactual. Mas o ponto é que, se nenhum governante seria capaz de fazer algo diferente do que Bolsonaro fez, dadas as suas condições concretas, então, na prática, tanto faz quem vai ser colocado lá na cadeira do presidente. Essa espécie de “fatalismo econômico”, traduzido na frase “não tinha como fazer algo diferente”, é o aval para o voto nulo, dado que tanto faz mesmo.

Enfim, não contem comigo na comemoração de medidas econômicas populistas.

Risco zero não existe

Ainda estou passado com o assassinato do ex-primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Como pode, em um país que tem o pacifismo como uma marca de sua sociedade após a tragédia da 2a Guerra Mundial, onde as armas são estritamente controladas e a polícia atua sem armas, um atentado com arma de fogo tirar a vida de um político proeminente como Abe. Simplesmente inacreditável.

Ouço, aqui e ali, o raciocínio de que essa seria uma prova de que nada adiantaria o controle de armas. O mesmo raciocínio que se seguiu ao atentado de Chicago, feito com uma arma comprada legalmente em um estado com um dos mais restritos conjunto de regras para a obtenção de armas. Se apertar o controle de armas não foi o suficiente para evitar a tragédia, então é inócuo controlar armas para a diminuição da violência. Se armas fossem simplesmente proibidas, o assassino improvisaria qualquer outra arma, como aparentemente foi o caso no Japão. Armas não matam, pessoas matam, esse é o mantra.

Esse é um raciocínio falacioso. Quando falamos de segurança, a proteção nunca é 100%. A questão é saber se a proteção serve para aumentar o nível de segurança, não se a proteção elimina 100% do risco. Isso, obviamente, não existe.

Essa falácia se repete em toda parte. Na pandemia tivemos vários exemplos. “Usou máscara e pegou Covid”. “Tomou vacina e morreu de Covid”. Essas são frases usadas para “provar” que de nada adianta usar máscara ou tomar vacina, pois houve casos em que esses cuidados não funcionaram. Mas a questão não é essa. A questão é se, na ausência desses cuidados, o risco seria ou não maior. E, ao que tudo indica, máscaras e vacinas protegem, mas não 100%. Portanto, vale (ou valeu) a pena a sua adoção.

Podemos reduzir ao absurdo esse tipo de raciocínio usando outros exemplos. Há aviões que caem mesmo com a manutenção em dia. Portanto, manutenção não serve de nada. Há casas que são assaltadas mesmo com cercas elétricas e cães de guarda. Portanto, de nada adianta a adoção dessas proteções. Há motociclistas que morrem em acidentes mesmo usando capacete. Portanto, capacetes não servem para nada. E assim por diante.

Risco é medido pela probabilidade de um evento negativo. Se diminuímos a chance daquele evento, já há um ganho, mesmo que a probabilidade não seja reduzida a zero. O assassinato do ex-primeiro-ministro japonês e o atentado de Chicago não dizem nada sobre a eficácia de controle de armas, pois são eventos isolados. É preciso fazer um estudo com dados agregados de diferentes lugares com diferentes níveis de controle de armas, controlado por eventuais fatores correlacionados, para se chegar a alguma conclusão. Eventos isolados só servem como narrativa, não como evidência.

O eterno trade off entre segurança e privacidade

Uma extensa reportagem de hoje no Estadão descreve os últimos avanços do combate ao crime na China, o que inclui, obviamente, desafiar o regime. A ideia é tentar antecipar o crime através do monitoramento de potenciais transgressores, identificados por meio da análise extensiva de dados e uso de inteligência artificial em sua interpretação.

Esse método de combate ao crime remete ao icônico filme Minority Report, um dos melhores de Tom Cruise. Neste filme, uma empresa assume com sucesso o policiamento do país, ao utilizar uma tecnologia que consegue “prever” os crimes antes de acontecerem. Na verdade, a tecnologia se resume aos “Cogs”, mutantes que conseguem ver o futuro.

A discussão ética se dá em torno da ideia de se punir um crime antes que aconteça. De maneira estrita, o crime não ocorreu, portanto não há criminoso. Mas a tecnologia previu o crime, portanto há um criminoso em potencial, que pode ser punido e posto fora de circulação. Ético ou não, o procedimento faz despencar o número de crimes no país. (Fiquem tranquilos os que não assistiram ao filme e gostariam de assistir, a trama é muito mais do que isso, não há spoiler aqui).

A inteligência artificial está fazendo, e fará cada vez mais, o papel dos “Cogs”. Na China isso já é uma realidade, e a discussão ética está posta. No último tiroteio com vítimas nos Estados Unidos, em um desfile de 4 de julho em Chicago, ao que parece o assassino deixou pistas em suas redes sociais, o que normalmente acontece. É tentador pensar que, com base nessas pistas, a polícia poderia prendê-lo antecipadamente, poupando sete vidas. O problema é que uma prisão antecipada colide frontalmente com princípios básicos da civilização ocidental e do Estado de Direito, como a presunção de inocência e a liberdade de expressão. Poder-se-ia pensar em um monitoramento mais próximo de pessoas que poderiam ser assassinos potenciais. No entanto, na prática, isso custaria muito caro. Imagine monitorar, seguir e neutralizar todo maluco que fala groselha na internet. Haja recursos policiais!

Nicholas Taleb, em seu clássico livro Black Swan, analisa fenômenos que ele chama de “cisnes negros”, ou seja, de baixíssima probabilidade de ocorrência mas que causam um estrago gigantesco. Um dos exemplos é o 11/09, em que a segurança dos aeroportos não foi suficiente para evitar o atentado das torres gêmeas. A questão colocada é justamente qual o custo de se ter evitado o 11/09 ANTES de ele ter ocorrido. Quem seria o político que bancaria o atual esquema paranoico de segurança nos aeroportos antes desse atentado? Sem que o atentado tivesse ocorrido, não haveria apoio da sociedade para a verdadeira tortura que se tornou viajar de avião nos EUA. Talvez ainda estejamos para ver um evento de proporções cósmicas que convença os americanos a deixarem-se monitorar e aceitarem a prisão de suspeitos pelo que falam em redes sociais.

O governo chinês, como sabemos, não tem esse tipo de pudores, e monitora seus cidadãos usando os seus “Cogs”. Lá, o trade off entre segurança e privacidade foi resolvido. No ocidente, a discussão continua.

Mal posso esperar para ver

Bolsonaro nos revela que há um plano. Um plano que somente ele e seus apoiadores conhecem. Um plano que não envolve “um novo Capitólio”, mas algo a ser feito “antes das eleições”.

No que consistiria esse plano? O que “sabemos o que temos que fazer”? Se não é uma invasão ao Congresso ou ao STF, o que seria? Não consigo imaginar, mas deve ser algo muito eficaz para garantir a eleição do mito.

O que quer que seja, já é do conhecimento dos bolsonaristas, pois estes já sabem “como temos que nos preparar”. Fico cá imaginando como este plano foi comunicado a toda comunidade bolsonarista. Certamente não foi via redes sociais, pois senão já todos nós estaríamos sabendo. Não. Deve haver um canal secreto de comunicação, de modo que os bolsonaristas, e somente eles, “sabem o que têm que fazer”.

Mal posso esperar para ver.

A mágica da reindustrialização

Claro que uma parcela do empresariado vai apoiar Lula. Afinal, nunca antes na história desse país o BNDES atuou tanto em favor da indústria, quanto nos anos do PT.

Em abstrato a ideia faz sentido. O governo subsidia as taxas de juros, projetos antes inviáveis tornam-se economicamente viáveis e saem do papel, o governo arrecada mais impostos e consegue pagar a conta dos subsídios com folga. Isso em abstrato. No concreto, a bicicleta cai pela fadiga do ciclista.

São três os problemas com essa ideia.

O primeiro é o chamado “desconto não intencional”. Você entra em uma loja, escolhe a mercadoria e vai no caixa para pagar. Lá, você fica sabendo que aquela mercadoria está em promoção, e recebe um desconto de 10%. Aquele desconto foi um dinheiro jogado fora pela loja, porque a decisão de compra já estava feita. O mesmo ocorre com uma parcela dos subsídios. Tendo já tomado a decisão de investimento, o empresário embolsa o subsídio, engordando o seu lucro. Difícil medir qual parcela dos subsídios é simplesmente jogada no lixo, mas certamente é maior que zero.

O segundo problema é achar que somente diminuindo juros a reindustrialização do país ocorrerá como que por mágica. Muitos apontam a Coreia do Sul como um exemplo de industrialização induzida pelo estado. Sim, verdade. A questão é que juros subsidiados são apenas uma parte do pacote, que inclui mão de obra qualificada, segurança jurídica, burocracia leve, infraestrutura robusta, abertura comercial. Baixar os juros artificialmente sem ter esses outros elementos só serve para onerar os cofres públicos sem mexer o ponteiro da industrialização. Prova disso é o gráfico da participação da indústria na economia brasileira durante o governo PT (abaixo). Mesmo com toneladas de subsídios, a indústria continuou perdendo participação na economia. Falta só todo o resto.

O terceiro problema é que estamos em 2022, não em 2007. A diferença de hoje para 15 anos atrás, quando o PAC foi lançado e o BNDES começou a ser turbinado, é que tínhamos superávit primário e estávamos surfando a onda de crescimento da China. Tínhamos, portanto, espaço fiscal para esse experimento desenvolvimentista. Hoje, geramos déficit fiscal estrutural e nossa dívida bruta está 20 pontos percentuais do PIB mais alta do que há 15 anos. Nesse contexto, financiar subsídios é a receita do desastre. A taxa de juros da economia como um todo aumentará, diminuindo o crescimento potencial e aumentando a dificuldade de trazer a inflação para baixo. O resultado será menos indústria, e não mais indústria, como vimos nos anos PT.

Diz a velha sabedoria que, quando Fiesp e governo se juntam em um almoço, o melhor a se fazer é ficar de olho na própria carteira. Sábio conselho.

PS.: aqui, você pode ler o meu artigo sobre crescimento econômico nos governos do PT, em que abordo o papel do BNDES.

Cenário da eleição em São Paulo

Márcio França rendeu-se às evidências e vai concorrer ao senado na chapa de Haddad. Sua candidatura, no final, era uma candidatura de si próprio. Enquanto Haddad representa Lula, Tarcísio representa Bolsonaro e Garcia tem a máquina do governo, França só tinha a seu favor o recall da última eleição. A tendência, já captada em pesquisas, era perder votos para Tarcísio e, principalmente, Garcia.

Com Márcio França fora do páreo, praticamente consolida-se um 2o turno entre Haddad e o vencedor entre Tarcísio e Garcia. Esse confronto entre o 2o e o 3o lugares é, na minha opinião, uma espécie de final antecipada. O antipetismo do interior do estado é um teto quase intransponível para qualquer candidato do PT no estado. Portanto, meu palpite é que o próximo governador será Tarcísio ou Garcia.

Tarcísio tem a vantagem e a desvantagem de estar colado a Bolsonaro. A vantagem óbvia é ter um piso alto, por conta do eleitorado cativo do mito. A desvantagem é o anti-bolsonarismo, que é uma força que extrapola o simples petismo, e pode significar um teto baixo de votos. Aliás, eu diria que Haddad está torcendo para ter Tarcísio no 2o turno. Tarcísio aumentaria suas chances se conseguisse, de alguma maneira, descolar sua imagem da de Bolsonaro. Não perderia os votos da base bolsonarista e poderia ganhar alguns votos daqueles que rejeitam o presidente. Foi o movimento que Zema, por exemplo, fez em Minas, não aceitando uma composição com Bolsonaro no 1o turno. Mas, para Zema, é mais fácil do que para Tarcísio.

Garcia, por sua vez, tem a vantagem e a desvantagem de ter a máquina do governo. A vantagem óbvia é ser o representante de uma teia de apoios construída nos últimos 30 anos pelo PSDB no estado. A desvantagem é a fadiga de material. O PSDB, tal qual o conhecíamos, acabou em 2018, com a votação nacional pífia de Alckmin, e Doria sendo eleito aos 45 minutos do 2o tempo pendurado nas bolas de Bolsonaro. Se Tarcísio é um forasteiro em São Paulo, Garcia é um forasteiro no PSDB, tendo se filiado ao partido apenas em 2021. Daquele velho PSDB que dominou a política paulista nas últimas décadas, restam apenas as 4 letras. Será o suficiente para empurrar a candidatura de Garcia?

Enfim, o cenário da eleição em São Paulo vai se afunilando. O mais provável, na minha opinião, é que tenhamos o repeteco da polarização nacional aqui também.

Pobres, sempre os tereis

Quando taxa de título público alcança o status de manchete principal de jornal não especializado em finanças, é que a coisa já passou do ponto faz tempo.

Para quem labuta no mercado financeiro, isso não é novidade. Venho falando do problema do financiamento da dívida pública há já algum tempo. É que essas coisas funcionam como a história do sapo na panela. Pra quem não conhece: para matar um sapo, não adianta colocá-lo em uma frigideira. O sapo sente a mudança de temperatura imediatamente e pula fora da panela. Mas se você colocar o sapo em uma panela em banho maria em fogo baixo, a temperatura vai aumentando aos poucos. O sapo vai se acostumando com as novas temperaturas até que chega em um determinado momento em que morre cozido sem reação. É o que podemos constatar no gráfico da manchete, que mostra a evolução da taxa real de juros dos títulos brasileiros mais longos: a taxa vai subindo, subindo, e vamos nos acostumando aos novos níveis, até que chegará um momento em que o sapo vai morrer, ou seja, faltará quem queira continuar a financiar a dívida a prazos longos, qualquer que seja a taxa. A manchete do Estadão é só um sinal de que o sapo está incomodado com a situação.

Apenas para ter uma ideia da situação: estamos hoje pagando 6% ao ano além da inflação para financiar nossa dívida em prazos mais longos. Considerando que nossa relação dívida/PIB é de 80%, a dívida nos custa quase 5% do PIB todo ano para ser rolada, além da inflação. Considerando um crescimento do PIB de 2% ao ano em termos reais, precisaríamos de um superávit primário de 3% ao ano somente para manter a relação dívida/PIB estável.

Como comparação, os títulos americanos pagam 1% acima da inflação. Com uma relação dívida/PIB de 130%, o custo de carregamento da dívida é de 1,3% do PIB. No Chile, os títulos pagam 3% acima da inflação. Com uma relação dívida/PIB de 35%, o carregamento da dívida custa aos chilenos cerca de 1% do PIB. Ou seja, se Estados Unidos e Chile crescerem 2% ao ano, sua relação dívida/PIB fica estável mesmo que façam déficits de 1% do PIB.

E por que chegamos neste ponto? Porque a regra do teto de gastos, que foi feita justamente para garantir que a dívida pública não entre em trajetória explosiva ao longo do tempo, foi, na prática, destruída por este governo, abrindo caminho para que o próximo também ignore qualquer regra de disciplina fiscal. Bastou a produção de um superávit primário no ano passado, em grande parte por conta da surpresa inflacionária, para que políticos de todas as cores achassem que já poderiam soltar o cinto, gastando o “dinheiro que sobrou”. O problema é que não sobrou nada, na verdade está faltando muito para controlar o crescimento da dívida pública. O resultado é taxa de juros mais alta, mais despesa financeira, menor crescimento econômico e maior dificuldade para trazer a inflação a níveis civilizados.

Muitos acusam essa visão de ser “financista”, de não olhar para as necessidades dos mais pobres. Não é verdade. Essa visão se preocupa não somente com os pobres de hoje, mas com todos os pobres do futuro. Se existe o nível de pobreza que vemos hoje, é porque, no passado, os que têm visão humanitária, não “financista”, não se preocuparam com os pobres do futuro. Na verdade, os grandes responsáveis pela pobreza de amanhã são justamente os que se dizem muito preocupados com os pobres de hoje. Com suas políticas imediatistas, estão fabricando a pobreza do amanhã. “Pobres, sempre os tereis”, diz Jesus em uma passagem. Aqui no Brasil, isso soa como uma profecia.

40 anos da tragédia do Sarriá

Outro dia fiquei surpreso ao ser lembrado, por matérias em jornais, que fazia exatos 20 anos que havíamos sido pentacampeões. Simplesmente não guardei a data. Assim como não guardei a data de outras emoções no futebol, positivas ou negativas, que tive durante meu mais de meio século de vida. Só uma data, no entanto, resta indelével na minha memória futebolística: 05/07/1982.

No dia 5 de julho de cada ano, a memória daquele jogo me vem à mente. Ao contrário dos outros jogos do Brasil na Copa, havia decidido assistir a este com minha família, ao invés de com meus amigos. Certamente foi esse detalhe que fez toda a diferença. Cada um terá a sua própria explicação esotérica para o inexplicável, a minha é essa. Só assim para entender como aquele time mágico pode ter perdido para uma tosca Itália, que havia se classificado aos trancos e barrancos na fase de grupos.

Raras vezes vi um time que jogasse como uma companhia de balé em perfeita performance no palco, como aquela seleção. Tenho lembrança do Santos de Neymar e Ganso em 2010, e cada torcedor terá a lembrança de um ano de ouro de seu time de coração. Mas não, nada se compara à química absolutamente mágica de três gênios do futebol, que colocariam Neymar no bolso: Zico, Sócrates e Falcão. E todos os outros coadjuvantes, à exceção, talvez, do goleiro, seriam titulares hoje em suas posições. E sobre o técnico, não há o que comentar.

Aquele time imbatível perdeu. Alguns dizem que poderia ter jogado com a regra debaixo do braço, já que o empate era suficiente para a classificação. Eu já acho que aquele dia era da Itália. Paulo Rossi fez 3 gols, e faria tantos quantos fossem necessários para arrancar aquela vitória improvável. Futebol é essa coisa misteriosa, em que os deuses entram em campo para derrubar as mais profundas convicções. Ex-post são muitas as explicações para o ocorrido. Nenhuma delas realmente convence. Foi, porque tinha que ser.

O futebol é um esporte de resultados. O derrotado normalmente cai no esquecimento. A seleção de 82, por algum estranho motivo, quebra essa regra. A Itália foi a campeã, mas é da seleção brasileira que se tem lembrança. O Brasil já saiu derrotado de muitas Copas e, de todas essas seleções derrotadas, mal se tem lembrança. Eu não consigo repetir a escalação da seleção de 2018, mas, com algum esforço, a seleção de 82 brota da minha memória, como figurinhas de um álbum de recordações amargas e doces a um só tempo. Não, futebol não é só resultados.

Depois de Sarriá, a seleção já foi campeã duas vezes. Vibrei muito com os gols de Ronaldo contra a Alemanha há 20 anos, mas nada se compara à minha emoção com o gol de empate de Falcão. Na minha memória seletiva, a Copa de 82 acaba ali, naquela sensação indescritível. Obrigado Zico, Socrates, Falcão, Telê e companhia.

O sentido do voto nulo

Cada vez mais leio por aí a seguinte tese: os votos nulos, brancos ou as abstenções no 2o turno servirão para eleger o Lula. A provar a tese, estariam aí as eleições do Peru e Colômbia, em que poucos votos separaram o vitorioso do perdedor. Nos dois casos, candidatos da esquerda venceram. Caso as abstenções não fossem em número tão alto, o candidato da direita teria vencido.

Faz sentido esse raciocínio? Não, não faz nenhum sentido. E explico porque.

O raciocínio parte do pressuposto de que quem decide se abster no segundo turno, na verdade tem mais rejeição a Lula do que a Bolsonaro. Mas, por uma espécie de “isentismo doentio”, se recusa a votar em Bolsonaro, mesmo achando o candidato menos ruim do que Lula.

Ora, esse pressuposto está incorreto de duas maneiras.

A primeira, mais óbvia, é de que se uma pessoa decide se abster, essa pessoa NÃO acha Lula pior que Bolsonaro. O voto nulo (ou a abstenção) é justamente o resultado de uma avaliação em que o eleitor concluiu que AMBOS os candidatos são IGUALMENTE ruins. Caso achasse que um é suficientemente menos ruim que o outro, obviamente votaria no menos ruim. Isso é nada menos que óbvio.

Mas a premissa está errada também de outra maneira. Digamos que, de fato, o eleitor esteja tomado de um “isentismo doentio”, e vota nulo por causa dessa espécie de distorção cognitiva. Quem garante que, uma vez “curado” dessa doença, o nosso eleitor cairia para o lado de Bolsonaro? Por que não escolheria Lula? Qual a garantia de que, se todos os que se abstiveram fossem obrigados, com uma baioneta da cabeça, a votarem em alguém, necessariamente escolheriam Bolsonaro? De onde vem essa ideia? Respondo: vem da cachola de quem acha inadimissível não votar em Bolsonaro contra Lula. E é aí que está a verdadeira distorção da realidade. Vejamos.

Os bolsonaristas (vale para os petistas também, lá eles pensam exatemente a mesma coisa) até conseguem admitir que alguém vote em Lula, seja por ingenuidade, seja por má fé. Mas não conseguem admitir que alguém anule o voto. E por que? Porque consideram o voto nulo como uma espécie de “meio-termo” entre os dois candidatos, um “murismo” que vai eleger o adversário. Não conseguem entender que o voto nulo, na verdade, é um voto tão decidido quanto o voto em um ou outro candidato. É o voto de quem gostaria de eleger um terceiro que não está na cédula, e realmente tanto faz quem vai ser eleito se não for este terceiro. É o voto do protesto contra uma escolha que não lhe diz respeito.

Dizem que, se os que se abstiveram tivessem votado no candidato da direita na Colômbia, este teria vencido. É o mesmo que dizer que, se minha mãe tivesse nascido homem, seria meu pai. Os que se abstiveram, por óbvio, não queriam votar no candidato da direita. Caso quisessem, teriam votado, ora pois. O mundo das possibilidade é sempre infinito, mas, no mundo real, o que vale é aquilo que aconteceu. E o que aconteceu é que, dentre aqueles que escolheram um dos dois candidatos, a maioria votou no candidato da esquerda.

Portanto, os “culpados” pela eventual vitória de Lula serão, em primeiro lugar, os próprios eleitores de Lula. E, depois, secundariamente, serão Bolsonaro, os bolsonaristas e os anti-petistas, que não conseguiram convencer gente suficiente para sufragar o nome do presidente nas urnas. O resto é conversa de louco.

PS1.: não decidi meu voto ainda. E, quando decidir, talvez não o torne público. Meus posts têm a humilde intenção de agregar informações e análises ao debate eleitoral. Essa é a minha contribuição, minha declaração de voto é irrelevante.

PS2.: os que votam nulo têm sim o direito de criticar o governo de plantão. O direito à crítica não nasce do voto, mas do simples fato de ser um cidadão titular de direitos. Votar ou não é irrelevante para a crítica. Se não fosse assim, os que votaram no presidente não poderiam criticá-lo, o que é uma rematada bobagem.

PS3.: os comentários provarão a tese de que lógica é uma matéria que deveria ser obrigatória no ensino fundamental.