A empresa da Família Brasil

Por motivos que não vem ao caso, sou titular de um depósito judicial. De tempos em tempos, recebo autorização do juiz para sacar parte dos recursos. Este depósito está no Banco do Brasil. A cada vez que é realizada uma TED para a minha conta, sou tungado em R$36,00.Eu não pude escolher o banco onde ficaria depositado o meu dinheiro. O sistema judicial escolheu o Banco do Brasil, que trabalha livremente com o meu dinheiro, além de me extorquir para fazer uma TED. Além desse, o Banco do Brasil conta com vários outros “monopólios naturais”, que lhe permite cobrar o que quer sem medo da concorrência. A folha de pagamentos dos servidores públicos federais é outro exemplo.

E, mesmo com todas essas “vantagens competitivas”, o Banco do Brasil vale uma fração do que valem seus pares privados: enquanto Itaú e Bradesco valem, respectivamente, R$255 bi e R$217 bi, o Banco do Brasil vale R$85 bilhões. Até o Nubank vale mais: em sua última rodada de captação de recursos, o banco do cartão roxo foi avaliado em R$130 bi.

Por que o BB, tendo tantas “vantagens competitivas naturais”, não encontra investidores dispostos a pagar mais por suas ações? O novo presidente do banco explicou: o BB é do mercado mas também é do Brasil-sil-sil. Cada brasileiro é um sócio.

O Banco do Brasil é, então, uma grande empresa familiar. Quem já trabalhou em empresas familiares sabe do que estou falando: a empresa serve para carregar nas costas membros da família que não conseguiriam se virar de outra forma. Afinal, se a empresa familiar não serve para ajudar a família, pra que serve então?

É isso: o Brasil é uma grande família, e o Banco do Brasil está aí para ajudar a família. Aos acionistas minoritários (o tal “mercado”) cabe financiar o auxílio aos brasileiros. Os minoritários até financiam, mas pagam 1/3 do que topam pagar em bancos de verdade. Todo mundo ganha: os brasileiros, que têm um banco pra chamar de seu, e os acionistas minoritários, que compram um banco baratinho.

O novo presidente do BB define à perfeição a função do banco: dar lucro para ajudar os familiares. Se o lucro é menor do que o de empresas comparáveis, é porque são muitos os familiares a serem ajudados. A família Brasil é muito grande e muito necessitada de ajuda. Portanto, antes de pedir a privatização do banco dos brasileiros, pense em tudo o que ele já fez por você. Afinal, como brasileiro, você é também um sócio do Banco do Brasil-sil-sil.

Estratégica para quem?

Caraca! O BB paga um bônus especial para altos executivos que PEDEM DEMISSÃO!!!

Em qualquer lugar do planeta, se você pede demissão, assume o ônus da decisão, sai somente com os direitos trabalhistas e olhe lá. Mas não no BB. Naquela ilha da fantasia, se um diretor pede demissão, leva pra casa um polpudo “chequinho de saída”. É do balacobaco.

Isso é o que se tornou público. Fico imaginando o que não sabemos a respeito dos salários e benefícios nas estatais brasileiras.

Sem dúvida, as estatais são estratégicas. Principalmente para os seus funcionários.

Liberal até a página dois

Essa aqui é do balacobaco.

A última desculpa para não abrir o capital da asset do BB é que grande parte da receita vem de um fundo de R$ 53 bilhões com taxa de administração de, atenção!, 4% ao ano!!!

Os cotistas que são tungados pelo BB são autarquias e órgãos do governo em geral, que são obrigados a investir o caixa nesse sorvedouro de recursos públicos. Trata-se de uma gigantesca transferência de recursos (R$ 2 bilhões ao ano) do governo para o BB, em forma de taxa de administração.

São 160 mil cotistas (nunca pensei que houvesse tanto órgão de governo no Brasil!), o que dá mais de R$ 300 mil de investimento por cotista. Para esse montante de dinheiro, qualquer pessoa física consegue fundos conservadores por taxa de administração de, no máximo, 0,2% ao ano.

Aí, ao invés de eliminar a distorção, o novo e liberal presidente do BB diz que esse pode ser um empecilho para a privatização. De onde se deduz que a estrutura da BB asset não sobrevive sem esse fundo.

Então, ficamos assim: o Tesouro continua subsidiando a asset do BB, enquanto este governo continua posando de liberal até a segunda página.

Todos quem, cara-pálida?

Se fosse verdade que “todos ganhariam se o BB fosse privatizado”, o BB já estaria privatizado.

Perderiam os políticos, que não teriam onde colocar seus apaniguados (este governo é uma exceção, vamos ver até quando).

Perderiam os funcionários, que são protegidos pelo status de “concursados”.

Perderiam os empresários, que dependem da meia-entrada dos recursos subsidiados.

Esse “todos” se refere a todos os brasileiros que não pertencem a nenhum dos grupos acima. Mas a maioria dos que seriam beneficiados são enganados pela cantilena do “patrimônio do povo”.

Como diz o presidente do BB, quem sabe um dia os maiores beneficiados acordem.

Feudos

O que vai a seguir é um trecho da reportagem de sexta-feira, no Valor, que descreve um suposto “desalinhamento” entre o secretário de privatizações, Salim Mattar, e o presidente do BB, Rubem Novaes.

A reportagem, recheada de citações de “fontes” não identificadas, faz parte claramente do lobby dos funcionários de carreira para evitar perderem os seus feudos.

O trecho abaixo contém o núcleo da argumentação: não se pode passar para a iniciativa privada as partes lucrativas do banco, importantes para a sua rentabilidade.

Esse diagnóstico parte de uma premissa equivocada: a de que o Estado deve ter o papel de empresário, ou seja, deve colocar o dinheiro arrecadado dos impostos em atividades arriscadas, com vistas a aumentar a sua rentabilidade. Não! Mil vezes não! O Estado serve para prover coordenação social e serviços que, de outra forma, não seriam prestados pela iniciativa privada. Todos eles “não lucrativos”, por definição. Não me parece que a atividade bancária seja um deles. A não ser que se queira um banco “não-lucrativo”, o que contradiz a afirmação de que não se pode privatizar porque o banco “é lucrativo”. Ora, se é para ter a mesma lucratividade de um banco privado, por que raios precisa ser estatal?

O Estado não precisa de bancos para fazer política social. Subsídios podem ser concedidos via orçamento público, diretamente nas mãos dos beneficiários de empréstimos concedidos por bancos privados. Existem apenas três motivos para a existência de bancos públicos: conceder benefícios por fora do orçamento público (o que inclui as pedaladas da Dilma), servir de barganha política ao oferecer inúmeros cargos de confiança e proteger uma casta de funcionários públicos concursados indemissiveis.

Dizer que o Banco do Brasil não pode ser privatizado porque “é rentável” é só uma desculpa para manter o feudo intocado.

Trade offs

Pesquisa da Ipsos publicada hoje no Valor mostra aquilo que pesquisas anteriores já mostraram: a população brasileira é majoritariamente contrária à privatização da Petrobras e do Banco do Brasil e também contrária à reforma da Previdência.

Sou capaz de apostar que, se a mesma pesquisa fosse feita no início da década de 90, os brasileiros também seriam majoritariamente contrários à privatização da Vale, Telebras, Embraer e CSN. E, no entanto, essas empresas foram privatizadas. Não por boniteza, mas por precisão. O mesmo caso de hoje.

Um estadista, assim como um bom empresário, percebe as necessidades das pessoas antes mesmo que as pessoas tenham consciência dessas necessidades. Steve Jobs criou o iPhone antes que as pessoas sentissem necessidade do aparelho que se tornou onipresente na vida cotidiana. Da mesma forma, a agenda da privatização é desejada pela maioria dos brasileiros, mesmo que não tenham consciência disso.

Para colocar esta minha convicção à prova, seria necessário fazer um outro tipo de pesquisa. Perguntar simplesmente se a Petrobras deveria ser privatizada não resolve, porque a resposta “não custa nada” para o entrevistado. É fácil ser contra a privatização, por um sentimento nacionalista difuso. Mas não é assim que a economia funciona. A economia é feita de trade offs. Portanto, qualquer pesquisa deveria apresentar trade offs para os pesquisados, e não perguntas secas, como “você apoia a privatização da Petrobras?”. As perguntas deveriam ser do seguinte tipo:

– O que você prefere: uma escola básica de qualidade ou manter a Petrobras estatal?

– O que você prefere: hospitais públicos de qualidade ou manter o Banco do Brasil estatal?

– O que você prefere: uma segurança pública melhor ou pagar aposentadorias especiais para os funcionários públicos?

Claro, sempre haverá alguém a dizer que esses são “falsos trade offs”, porque dá para fazer tudo, basta deixar de roubar. Mas o estadista sabe que não basta deixar de roubar. Ele sabe que o orçamento é limitado, e se eu invisto para achar petróleo, faltará dinheiro para investir em escolas públicas.

A prova de que o brasileiro não entende os trade offs está em outro resultado da mesma pesquisa: o brasileiro quer, majoritariamente, a redução dos gastos públicos, o que é incompatível com manter a Petrobras estatal e não reformar a Previdência. Ao ser apresentado ao trade off em uma única pergunta, o brasileiro seria apresentado à realidade das coisas.

Claro, sempre há a alternativa avestruz: enfiar a cabeça na terra e fazer de conta que os trade offs não existem. A pessoa comum pode fazer isso. O governante, não. Mas, para isso, precisa ser um estadista, produto em falta no mercado hoje.

Quem cuida melhor do dinheiro do acionista?

Caixas eletrônicos no aeroporto de Congonhas.

Itaú não tem um próprio.

Bradesco não tem um próprio.

HSBC não tem um próprio.

Santander não tem um próprio.

Todos eles compartilham os vários caixas da rede 24 horas.

Em compensação, o Banco de Brasil tem um exclusivo, e a Caixa tem não um, mas DOIS caixas exclusivos.

Conclua aí quem cuida melhor do dinheiro do acionista.