Motivos para o impeachment

Várias pessoas, compreensivelmente cansadas e desiludidas com a atual situação política e econômica, não se animam com o impeachment, porque não veem em Michel Temer algo melhor que Dilma Rousseff. Trocar um pelo outro seria trocar seis por meia dúzia, dizem.

Não é verdade por vários motivos combinados:

1. Temer é político profissional (e dos bons), Dilma é amadora. Mário Covas dizia que se orgulhava de ser um Político, com P maiúsculo. Ele queria dizer que a política se faz com políticos, não com mentes brilhantes ou com gerentes.

2. Temer pertence ao PMDB, um partido que não comunga da ideologia burra do PT e seus satélites, e que nos meteu nesse buraco em que estamos.

3. O PMDB é e sempre foi fisiológico. Mas não temos nada parecido com o Mensalão e o Petrolão, em dimensão e profundidade, antes do PT assumir o poder. O PT deu o novo tom da roubalheira, o PMDB e os outros partidos do condomínio só dançaram conforme a música. Não me entendam mal, o PMDB também tem culpa no cartório, mas foi o PT que liderou o processo.

4. Dilma perdeu a capacidade de governar, é preciso começar de novo. Com qualquer um.

5. O PMDB é um partido com qualidades e defeitos, feito por seres humanos. Não é como o PT, feito de redentores da humanidade, com quem não há diálogo, apenas submissão religiosa.

6. Temer não faz discursos que nos fazem sentir vergonha alheia do presidente.

7. Last, but not least: teremos uma primeira dama de primeira.

A legitimidade do impeachment

Os argumentos dos que se posicionam contra o impeachment podem ser resumidos no seguinte: não há motivação séria e objetiva que embase o pedido e, portanto, a sua aceitação representaria uma ameaça às instituições democráticas.

Não vou aqui discutir se o pedido tem embasamento ou não, ou quais são as motivações dos que são contra ou a favor do impeachment. Eu também tenho uma opinião sobre o pedido de impeachment, mas o que eu acho ou deixo de achar importa tanto quanto as opiniões de CNBB, OAB, FIESP, Dalmo Dallari, Mailson da Nóbrega, Hélio Bicudo, Lula, Barack Obama: nada.

O que importa, pela Constituição Brasileira, é a opinião dos 513 deputados eleitos. São eles que decidem o destino do pedido de impeachment. Golpe, ou “ameaça às instituições democráticas” é não reconhecer que os deputados têm o poder, dado pela Constituição e pelos votos que receberam, de aceitar ou não o pedido de impeachment. Mais do que isso: ameaça à democracia é afirmar que uma eventual decisão pelo impeachment por parte dos deputados enfraquece a democracia. Como se a democracia representativa pudesse ser substituída por uma “democracia dos iluminados”, que tomariam decisões “mais corretas” em nome da “preservação das instituições democráticas”. É assim que se legitimam os totalitarismos.

Portanto, quando você ouvir ou ler alguém dizendo que teme que a democracia saia enfraquecida se o impeachment for aprovado (o que não passa de uma forma elegante de dizer que é um golpe), pergunte a você mesmo: exatamente qual artigo da Constituição estes deputados violarão se votarem pelo impeachment?

Quem precisa ir para a rua

“O impeachment de Collor nasceu na rua e veio para o Congresso Nacional. Agora, o pedido nasce no Congresso e tem que ir para a rua”. De um senador tucano.

Em 2015, foram três manifestações com mais de um milhão de pessoas nas ruas pedindo o impeachment. São 66% os que pedem o impeachment nas pesquisas.

Quem tem que ir pra rua são os políticos tucanos.

Os ventos da política

Dilma sabe (ou deveria saber) que a admissibilidade do processo de impeachment cria uma dinâmica política que se retroalimenta. Há os deputados que são absolutamente contra e aqueles absolutamente a favor. Esses fazem mais barulho.

Mas há um grande deserto de ideias (ou selva de interesses, como queiram) no meio do caminho. São os deputados que votam para o lado que sentem tomará o poder logo adiante. E isto depende do posicionamento do establishment político e econômico. Foi assim com Collor: o seu afastamento foi definido por mais de 440 votos, mas certamente havia muito menos votos no momento da admissibilidade.

Vamos ver um primeiro sinal no tom do JN de hoje.

O que estão esperando?

Números interessantes da pesquisa CNT/MDA:

% dos entrevistados que acham que as pedaladas justificam o impeachment: 61%

% dos entrevistados que consideram Dilma como culpada pela corrupção na Petrobras: 69%

% dos entrevistados que consideram Lula como culpado pela corrupção na Petrobras: 68%

O que os políticos estão esperando?