O Instagram não vai derrubar a página do PT

Começou a circular no WhatsApp um banner (foto 1) de campanha do PT com o mesmo programa do Ciro (foto 2).

Elena Landau, que postou o banner no seu Twitter, mostra o print do Instagram de onde tirou o banner, pois foi questionada (foto 3).

Fui procurar no Instagram nessas hashtags e não encontrei nada.

O fato é que alguém gastou tempo para fazer uma arte profissional que, no mínimo, semeia a dúvida no eleitorado.

O jogo sujo já começou.

Mas não, o Instagram não vai derrubar a página do PT.

Distribuindo a pobreza

Não há uma mísera evidência empírica de que distribuir renda gera crescimento econômico.

A falácia aqui é a seguinte, nas palavras do presidiário de Curitiba: “Eles precisam aprendê que dando dinheiro nas mão dos pobre, os pobre vão gasta e fazê gira a roda da economia” (lê-se com a língua entre os dentes).

Digamos que, da noite para o dia, como num passe de mágica, todos os brasileiros tivessem a mesma renda. O que aconteceria? Os mais pobres teriam a sua renda multiplicada por 2, 5, 10 vezes, a depender do nível de pobreza. Esses pobres começariam a consumir produtos e serviços a que não tinham acesso antes de terem ficado ricos. As empresas que produzem esses produtos e serviços se dariam bem. Essa é a parte boa.

E o que aconteceria com os mais ricos? Teriam sua renda cortada em 10%, 20%, 50%, até 99,9999% no caso dos bilionários. Estes comprariam os mesmos produtos e serviços que os mais pobres estão comprando agora. Afinal, todos têm a mesma renda! As empresas que produzem produtos e serviços para os mais ricos se dariam mal. Esta é a parte ruim.

Por enquanto, uma minoria de empresas e pessoas perderam, uma maioria de empresas e pessoas ganharam. Sounds good. Inclusive porque o consumo total aumenta muito, dado que aquele dinheiro guardado pelos mais ricos está agora nas mãos dos mais pobres, fazendo a economia girar e não mais fazendo a alegria dos bancos. Como algo assim pode ser ruim?

Pois é. Como sempre, o problema está nas consequências não intencionais. Os mais ricos são os responsáveis pela poupança do país. Ao terem sua renda cortada, não conseguem mais poupar. Viraram pobres remediados, que vivem da mão para a boca. Sem poupança não há investimento. Sem investimento não há aumento da produção. Com o aumento da demanda e sem aumento da produção, adivinha o que acontece? Isso mesmo, inflação, que come a renda de todo mundo. Terminamos em um ponto pior que o inicial. Onde está o crescimento prometido? O gato comeu.

Isso sem contar que são os mais ricos que financiam a dívida pública. Então, sem a poupança dos mais ricos, o Estado seria obrigado a viver dentro de suas possibilidades. O teto de gastos seria um passeio no parque perto disso.

Claro, sempre sobra a possibilidade de que o Estado substitua os mais ricos no fornecimento do funding para investimentos, com sua reconhecida expertise técnica e blindagem contra critérios políticos e corrupção. 🤔

Ok, esqueça.

Mas você não precisa dar crédito a este raciocínio tosco. Basta ver o exemplo dos países mais bem sucedidos em distribuir renda na marra: Cuba, Coreia do Norte, Venezuela. Sim, amiguinho, funciona mesmo.

Dilma 2: a missão

Mais um pouco sobre “transferência de votos”.

Por enquanto, Haddad é um nanico nas pesquisas. Quando começar a incomodar, as outras campanhas começarão a lembrar do outro poste de Lula.

Dilma será a pedra no sapato na estratégia de transferência de votos. “Já elegemos um poste de Lula, vamos repetir o desastre?” é um mote óbvio.

Não à toa, mais da metade dos que votam em Lula não votam em Haddad de forma alguma, conforme DataFolha e Ibope. Isso, antes da campanha dos adversários começarem a destruição (ainda que, como sabemos, o dono de metade do horário na TV ser um incompetente nessa matéria).

Então, o PT tem 2 desafios: ligar Andrade a Lula E convencer que Andrade não é Dilma 2, a missão. Vamos ver.

Erguendo o poste

A pesquisa de ontem do Ibope indicava que 28% dos eleitores de Lula votariam com certeza em um candidato indicado por Lula.

Na pesquisa de hoje do DataFolha, este número é de 31%.

Como Lula está com 37%-39% nas duas pesquisas, o potencial inicial de Haddad é de 10,4% a 12,1%, o que não seria suficiente para colocá-lo no 2o turno.

Já os que “talvez votem no candidato indicado por Lula” totalizam 22% no Ibope e 18% no DataFolha. Digamos que a propaganda do PT consiga converter metade desse contingente. Isso dá de 3,3% a 4,3% adicionais.

Ou seja, fazendo uma conta de padaria, Haddad sai com um potencial de 13,7% a 16,4%. Marina está com 16% no DataFolha e 12% no Ibope.

A questão que se coloca é: a propaganda do PT será eficiente para aumentar esse potencial? O PT tem dois desafios: fazer Haddad (ou o Andrade) conhecido e ligá-lo a Lula. Isso em menos de um mês.

O mercado ontem piorou por que já considera que o PT está no 2o turno. Eu continuo achando que os asseclas de Lula vão ter muito trabalho pra erguer esse poste.

Vai ser difícil

Nenhuma descrição de foto disponível.

Alckmin tinha 3 caminhos a escolher nessa campanha, em ordem de eficácia em minha opinião: o confronto com o PT, a ideia de eficiência administrativa e a ideia de conciliação.

A ideia de eficiência pode ser combinada com a primeira e a terceira, mas não ser o eixo central da campanha, pois não empolga, não move as pessoas. Restam o confronto e a conciliação. A ideia de conciliação é atraente: afinal, os extremos normalmente são minoritários, o centro costuma ser uma avenida larga. O problema não está na ideia em si, mas na pessoa que encarna essa ideia.

Alckmin, ao falar de conciliação, soa a passar a mão na cabeça de esquerdista, de bandido ou de golpista, dependendo de quem ouve. Pertence a um partido que foi co-autor, por omissão, do desastre petista. Tem parte no “golpe”. E é apoiado pela nata da bandidagem.

João Doria, na campanha pela prefeitura de São Paulo, teria espaço para essa linha “conciliatória”. Apesar de pertencer ao PSDB, era neófito na política, visto como um outsider. Mesmo assim, optou por uma campanha agressiva anti-PT. Ganhou no 1o turno.

Esse figurino que Alckmin quer vestir ficaria bem em Luciano Huck ou Joaquim Barbosa. Veste melhor, inclusive, em Marina Silva. Alckmin, como “o conciliador”, somente reforça a imagem de um PSDB pusilânime.

Vai ser difícil.

Haddad virou Andrade

Complementando meu post de ontem sobre a potencial transferência de votos de Lula para Haddad.

A votação se dá em urna eletrônica. Ao contrário da cédula, onde aparece uma lista, na urna só se exige a digitação do número. O eleitor poderá ser instruído a votar “no Lula” digitando o 13. Isso aumenta as chances de votação no poste, que seriam menores se a votação fosse em cédulas.

A incógnita é o que o eleitor vai fazer quando não aparecer a foto do Lula, e sim do Andrade. Ele vai apertar “confirma”, ou vai achar que teve algum engano e anular o voto?

Transferência de votos muito difícil

Uma das grandes incógnitas desta eleição é o poder de transferência de votos de Lula para o seu poste.

Lula conseguiu fazer isto em 2010. Dilma, uma completa desconhecida até um ano antes das eleições, foi ungida e levada à vitória por seu padrinho. Convém relembrar como foi esse processo.

– Em junho/2005 (portanto, mais de 5 anos antes da eleição de 2010), Dilma assume a cadeira de ministra da Casa Civil, que pertencia a José Dirceu. A partir de então, começa a ganhar visibilidade no mundo político.

– Em março/2008 (2 anos e meio antes das eleições), Lula lança Dilma como a “mãe do PAC”, o mote que usará na campanha.

– Em setembro/2008, mais de dois anos antes das eleições, em pesquisa CNT/Sensus, Dilma já aparece com 8% das intenções de voto, contra 38% de Serra.

– Em maio/2010, 5 meses antes das eleições, Dilma empata com Serra nas intenções de voto.

– Em outubro/2010, Dilma vence as eleições no 2o turno, contra Serra, por 56% a 44%.

Então, vejamos:

– Dilma foi preparada como o “poste” de Lula durante mais de 5 anos, em uma construção lapidada dia a dia.

– o governo Lula chegou, no final de 2010, a 89% de aprovação, recorde mundial de popularidade de todos os tempos- a economia crescia a 7,5%- e, last but not least, Lula tinha a caneta na mão.

Hoje, temos um quadro um pouco diferente:

– Faltando pouco mais de um mês para as eleições, Haddad ainda não foi lançado candidato.

– Na pesquisa mais recente, Haddad aparece com 4% das intenções de voto.

– O último cargo público de Haddad, que lhe deu alguma visibilidade, foi o de prefeito de São Paulo, há pouco menos de 2 anos. Vale lembrar que perdeu a reeleição ainda no 1o turno.

– Haddad foi ministro da educação de Lula há longínquos 8 anos. A única coisa de que consigo lembrar foram as lambanças no ENEM (convenhamos, menos glamouroso que o PAC).

– o PT não tem a máquina federal na mão.

– o PT conta com 256 prefeituras. Em 2010, eram 558 prefeituras.

– o vice de Dilma era Michel Temer, com toda a máquina do PMDB. O vice de Haddad é Manuela D’Ávila.

– Em 2010, Lula era presidente do Brasil. Hoje, Lula está preso e incomunicável.

Claro, tudo sempre pode acontecer. Mas vamos convir que essa transferência de votos parece muito, mas muito mais complicada agora. O fantasma do Lula todo-poderoso, aquela entidade que domina a política brasileira com sua popularidade à prova de bala, parece turvar o discernimento dos analistas. Fala-se de transferência de votos como uma varinha mágica, em que Lula-Midas transforma em ouro até um monte de josta.

Lula gastou muita sola de sapato, planejou muito bem cada passo, para transformar seu poste em presidenta da república. Claramente não é o caso de Haddad, um tapa-buraco de última hora, apenas para marcar a posição do partido. Repito: tudo pode acontecer. Mas uma eventual ida de Haddad ao 2o turno seria uma grande surpresa, inclusive para Lula.