A Economist repercute uma pesquisa interessante, realizada pelo instituto Ipsos, por encomenda do Kings College de Londres. 23 mil pessoas foram questionadas em 28 países. A pergunta era a seguinte (tradução livre minha):
“Algumas pessoas pensam que se deve ter cuidado ao falar com ou sobre pessoas de diferentes origens ou condições. Outras pensam que muitas pessoas simplesmente se ofendem muito facilmente. Onde você se situa nessa escala?”
A escala vai de 0 a 7, sendo 0 se você acha que o mundo está muito chato e toda essa onda de politicamente correto é um porre e 7 se você acha que as pessoas precisam ser respeitadas em seus sentimentos e se devemos tomar cuidado com as palavras usadas.
O resultado está no gráfico abaixo, para alguns países selecionados pela Economist, o Brasil incluído.
Com base nesse gráfico, fiz o seguinte cálculo: subtraí o percentual de notas 6 e 7 do percentual de notas 0 e 1. Escolhi essas notas porque mostra mais convicção nas duas pontas do espectro. Fiz um outro gráfico, onde os resultados mais positivos indicam povos que acham que o mundo está ficando muito chato e resultados negativos indicam povos politicamente corretos.
O Brasil ficou entre os países mais politicamente corretos. Curiosamente, e esta é uma característica para a qual a Economist chamou a atenção, pessoas de países mais democráticos tendem a ser menos politicamente corretos, enquanto pessoas de países mais autoritários tendem a ser mais politicamente corretos, o que pode estar ligado, segundo a revista, ao fato de as pessoas simplesmente terem mais cuidado ao falar, de modo geral. Na verdade, a Economist faz a correlação com a liberdade de imprensa, o que vem a dar na mesma.
Sir Isaac Newton foi um dos maiores gênios da física de todos os tempos. Dentre suas várias contribuições para a mecânica clássica, a sua terceira lei sobre o movimento dos corpos tem lugar de honra: ”A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos.”
Esse enunciado vale para um mundo sem atrito de nenhum tipo. Se houver algum atrito, uma parte da força da ação se dissipa em calor, e a reação se dá com menor intensidade. Mas, e isso é importante, não significa que a reação ocorra de outro modo ou que não haja reação alguma. A lei continua sendo válida mesmo na presença de atrito, os corpos continuam reagindo na presença de uma ação.
Se para o mundo das coisas inanimadas Newton conseguiu estabelecer leis gerais, o conceito vale também para o mundo biológico. Os animais reagem a ações, ainda que não seguindo uma lei física. O cão da famosa experiência de Pavlov salivava sempre que recebia determinado estímulo, mesmo na ausência de alimentos. Havia sido estimulado para tal e a sua reação passou a ser previsível, quase seguindo a 3a lei de Newton.
Há quem diga que os seres humanos somos uma mistura de animal com anjo. Gostamos de nos ver como racionais, decidindo tudo em nossas vidas com base em lógica e em nosso livre arbítrio. Mas o fato é que uma parte relevante daquilo que pensamos não passa de reação pavloviana revestida de um verniz racional. Primeiro decidimos o que é certo, depois racionalizamos a nossa escolha. Não por outro motivo tendemos a aceitar argumentos a favor do que pensamos e rejeitar aqueles que vão contra.
As pessoas com habilidades interpessoais superiores sabem disso, mesmo que intuitivamente. Sabem que a forma como se comunicam é tão ou mais importante do que o conteúdo. Verdadeiros líderes, tanto na vida corporativa quanto na política, trabalham pelo consenso, embalando sua mensagem em uma forma que atrai as pessoas, de modo a diminuir resistências.
Chegamos então ao momento atual da política nacional. Há quem diga que tudo o que vem de Bolsonaro será criticado e repelido pelo simples fato de vir dele, independentemente do mérito. Isso, provavelmente, é verdade. O cão de Pavlov dentro de todos nós saliva ao ouvir o presidente, não importa o conteúdo da mensagem. Pode ser uma excitação positiva ou negativa, mas a reação corresponde à ação.
Quando Bolsonaro diz que vai continuar exercendo sua ”liberdade de expressão” por ser um “cidadão”, esquece-se de que não é mais um cidadão qualquer, um obscuro deputado ou um livre-pensador do cenário político atual. Hoje, Bolsonaro é o líder máximo da nação, responsável por construir consensos em torno de suas ideias. E a forma de expressar suas ideias é tão importante quanto o conteúdo.
Consideremos, por exemplo, essa questão das urnas eletrônicas. A ideia em si faz todo sentido: afinal, quem seria contra uma camada a mais de proteção a um processo tão delicado e importante quanto a contagem de votos em uma eleição? O problema não é o conteúdo da mensagem, mas a forma. Ao jogar suspeição sobre o processo atual sem apresentar uma mísera prova de sua acusação, a mensagem soa, a um só tempo, como teoria da conspiração e ameaça. A forma como a mensagem vem embalada faz com que haja a reação previsível: as pessoas dão de ombros para a teoria da conspiração e se defendem da ameaça. Newton e Pavlov ficariam satisfeitos em ver a comprovação de seus achados.
Ah, mas Bolsonaro é assim mesmo, é o tiozão do Pavê, é o cara que ganhou a eleição desse jeito, não vai mudar o que tem de mais autêntico. Ok, também acho que não vai mudar, para infelicidade dele. Não nos esqueçamos que Bolsonaro, ele mesmo, representa a reação à forma de governar e de se comunicar do PT. A toda ação corresponde uma reação. Quando a inteligentsia brasileira se espanta de termos um Bolsonaro como presidente da República, deveria investigar quais ações levaram a essa reação. Assim como, quando Bolsonaro for derrotado em 2022, não adiantará de nada culpar um suposto complô: a explicação de sua derrota estará em suas próprias ações.
A “autenticidade” de Bolsonaro tem um preço. Como dizia a minha avó, quem fala o que quer, ouve o que não quer. Newton e Pavlov não diriam melhor.
Pesquisa da Globo para fazer propaganda de uma série de educação financeira que irá ao ar na Globo News aponta que 70% dos brasileiros vivem acima de sua renda. Para suportar esses gastos, lançam mão principalmente do cartão de crédito.
O que me chamou a atenção na matéria foi o jornalista ter atribuído o “motivo” e a “razão” das dívidas ao cartão de crédito e ao crédito pessoal. Obviamente está errado. O “motivo” e a “razão” estão no descontrole financeiro. O cartão e o crédito pessoal são apenas os instrumentos usados para tapar o buraco. Não foram os instrumentos de crédito que cavaram o buraco, apesar de que, em muitas vezes, os juros cobrados servirem para alarga-lo. Espero que meu amigo Liao Yu Chieh, que vai capitanear com o seu usual brilhantismo o programa na Globo News, explique a diferença.
Aproveito a oportunidade para anunciar que, em setembro, estarei lançando meu livro sobre finanças pessoais, Administração Financeira do Lar – Um Guia de Sobrevivência e Prosperidade para as Famílias, escrito com base em minha experiência pessoal, e que abordará este e muitos outros conceitos de finanças pessoais.
O que vai abaixo são trechos de uma entrevista de Sérgio Fausto, diretor executivo do Instituto FHC e uma das principais cabeças pensantes do PSDB. Talvez seja a evidência mais evidente de porque o PSDB tornou-se um partido nanico na última eleição presidencial e, tudo indica, continuará assim. Basta lembrar que a votação de Alckmin foi, de longe, a menor que o partido recebeu desde a redemocratização.
Sérgio Fausto coloca Lula no “centro democrático” e defende o apoio a Lula em um eventual 2o turno contra Bolsonaro. Na parte cômica da entrevista, o diretor do Instituto FHC diz que espera o apoio de Lula a um eventual candidato do PSDB no 2o turno contra Bolsonaro. O mundo do humor definitivamente está perdendo um grande talento.
Mas é para a última pergunta que eu gostaria de chamar a atenção. Não pela resposta, mas pela pergunta em si. O entrevistador questiona se seria o caso de o PSDB “voltar ao antipetismo”.
A pergunta é curiosa em dois sentidos. Primeiro, só se volta a algo quando este algo esteve presente antes. Com exceção das poucas semanas das campanhas eleitorais, o “antipetismo” do PSDB se resumiu a um silêncio obsequioso, mesmo vendo o legado do governo FHC sendo sistematicamente destruído e a máquina do Estado sendo transformada em apêndice do partido. Para o jornalista, o simples fato de estar do outro lado no 2o turno em seis eleições torna o PSDB automaticamente antipetista. Não, não torna.
Bolsonaro conseguiu encarnar o antipetismo, e por isso foi eleito. Confesso que errei, na ocasião, o meu prognóstico. Achei que as eleições seriam marcadas pela luta contra o establishment político e, portanto, apostei que Bolsonaro iria enfrentar, no 2o turno, um candidato do establishment, no caso, Alckmin. Descartei a priori um candidato do PT no 2o turno como representante do establishment porque, afinal, Lula estava preso. Qual a chance? Quebrei a cara ao subestimar a força eleitoral de Lula.
Aprendi, naquelas eleições, que Lula e o PT têm lugar garantido no 2o turno de qualquer eleição presidencial, faça chuva, faça sol. Portanto, o discurso antipetista é o único que, com sorte, tem alguma chance de vingar. Digo com sorte porque é preciso que o eleitorado seja majoritariamente antipetista, como foi em 2018. Isso está longe de estar garantido.
Que me perdoem os fãs do capitão, mas Bolsonaro é uma figura irrelevante. Passará, como passaram Collor e Dilma. O que realmente importa é Lula e o PT. É nesse eixo que gira a política brasileira. Ser antipetista é a única forma de se posicionar com sucesso no tabuleiro político. Ou se está com eles, ou se está contra eles. E este é o segundo aspecto interessante da pergunta do entrevistador. A pergunta é boa porque capta justamente esse ponto: o candidato da terceira via precisa ser antipetista para ter alguma chance de sucesso. Fausto reconhece o ponto em sua resposta, dizendo tratar-se de um recurso eleitoral. É óbvio, estamos falando de ganhar eleições.
FHC, Sérgio Fausto e a ala que eles representam do PSDB já fizeram a sua escolha: preferem ser satélites do lulopetismo. Não é à toa que o partido foi dominado por João Doria.
Este é o quadro de vacinação por estado até ontem.
O estado de São Paulo lidera, com 58% de sua população já tendo tomado a 1a dose e 37% a 2a dose. Em seguida vêm Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, com 57% e 56%, respectivamente tendo tomado a 1a dose.
A média brasileira está em 48% da população tendo tomado a 1a dose. Tirando São Paulo, a média cairia para 45%. São 13 pontos percentuais de diferença, o que equivale a aproximadamente 21 milhões de brasileiros. É este contingente que já poderia estar vacinado neste momento se o restante do Brasil tivesse a mesma eficiência do estado de São Paulo no ritmo de vacinação.
Uma das cenas mais icônicas da fantástica obra cinematográfica Adeus, Lênin, ocorre quando a personagem principal é “cumprimentada” por uma estátua de Lênin que acabou de ser retirada de seu pedestal. Era a Alemanha Oriental pós queda do Muro de Berlim, e estátuas de Lênin estavam perdendo o seu lugar em vários lugares da Cortina de Ferro.
Quando Saddam Hussein foi morto pelas tropas americanas no Iraque, suas estátuas foram devidamente retiradas, de modo a simbolizar uma nova era para o país.
Em São Paulo, o famigerado Minhocão tinha o nome de Presidente Costa e Silva, o nosso segundo general-presidente. Na impossibilidade de derrubar a coisa (ainda que muitos queiram, mas não por razões políticas), a Câmara de Vereadores da cidade decidiu trocar o nome da via elevada para João Goulart. Foi a forma possível de se derrubar um monumento em homenagem a um dos próceres da ditadura militar.
Qual a semelhança entre esses episódios e a depredação da estátua de Borba Gato e de várias outras ao redor do mundo, de personagens escravocratas e colonialistas? A reinterpretação da história. Qual a diferença? Nos episódios descritos acima, a história realmente mudou. A retirada das estátuas e a mudança do nome do viaduto se seguiram a uma mudança histórica. Na verdade, simbolizaram a própria mudança. Lênin, Saddam e Costa e Silva representavam um regime político que foi ultrapassado. Primeiro se mudou o regime, e só depois os símbolos foram retirados.
E o que dizer de Cristóvão Colombo, Thomas Jefferson e Borba Gato, cujas estátuas foram recentemente vandalizadas ou retiradas? Os regimes políticos que representavam foram ultrapassados? Claro que não! Estamos vivendo, hoje, em um mundo construído por esses personagens. Para que realmente representasse uma mudança, precisaríamos devolver toda a América para os índios e cada um voltar ao seus países de origem. Uma óbvia impossibilidade.
Diante da impossibilidade de mudar o regime e a realidade que nos cerca, construída ao longo de séculos, o que resta? Remover esses símbolos como uma forma de protesto bobo, que não muda absolutamente nada. Não conheço quem botou fogo no Borba Gato, mas sou capaz de apostar que não havia nenhum índio. Provavelmente se tratava de um grupo de jovens de classe média, confortavelmente instalados em seus apartamentos, nos quais índios não entram. É mais fácil queimar estátuas do que mudar o seu modo de vida, herdado da ação dos bandeirantes que exploraram o Brasil e dos europeus que “invadiram” a América.
Quer tirar a estátua do Borba Gato? Que se passe uma lei para tal. Se, no debate democrático, se decidir que a figura do bandeirante não deve ser homenageada, que se retire. O que não dá é fazer justiça com as próprias mãos. Imagine se cada grupo que se sentir prejudicado sair queimando patrimônio por aí.
O ministro da Defesa, Braga Netto, soltou uma nota oficial, desmentindo reportagem de ontem do Estadão, que afirmava que o ministro havia ameaçado a realização das eleições do ano que vem se o voto auditável (impresso) não fosse adotado. A ameaça teria se dado por meio de um interlocutor, que teria “passado o recado” para o presidente da Câmara, Arthur Lira.
Antes de analisar a nota, uma pequena digressão sobre como são feitas as notícias. Não existe matéria em que o repórter acorda pela manhã e diga “acho que vou publicar isso” e invente uma história qualquer. O que pode haver é falha de apuração ou viés na forma de reportar o fato. Mas matérias jornalísticas são baseadas em algum fato. Algo aconteceu.
É neste ponto que entra a nota oficial de Braga Netto. A nota chama a atenção não pelo que fala, mas pelo que deixa de falar. O fato central da matéria do Estadão é a ameaça às eleições de 2022 caso o voto auditável (impresso) não seja adotado. Este é o fato. E, sobre este fato, nenhuma palavra. O ministro prefere rebater algo absolutamente secundário, a forma de comunicação com o presidente da Câmara. Ora, a apuração pode ter sido falha neste ponto. O recado pode não ter sido dado por meio de interlocutor, mas diretamente ou por um pombo-correio ou sinal de fumaça. Mas a ameaça, fato central da reportagem, passa ilesa na nota oficial.
Chama a atenção que a nota termine com uma defesa do voto auditável (impresso), mas não das eleições de 2022, o fato central da matéria. Se Braga Netto tinha a intenção de acalmar os ânimos com essa nota, terá que tentar novamente. A nota soou como ameaça, quase que confirmando o teor da matéria do Estadão.
Por fim, cabe destacar que Arthur Lira, até o momento, não desmentiu o teor da reportagem. Das duas uma: ou ele, por algum motivo, plantou a notícia ou, de fato, recebeu o tal recado de Braga Netto. Na primeira hipótese, bastaria uma nota do ministro da Defesa reafirmando o compromisso com as eleições de 2022. Como vimos, não foi o que aconteceu. Resta a segunda hipótese.
Muito se tem falado ultimamente sobre um tal de semipresidencialismo. Não é a primeira vez. Em 2017, em meio à crise envolvendo as denúncias de Joesley Batista, o trauma de um processo contra o então presidente Temer logo em seguida ao impeachment de Dilma fez com que os liminares da República começassem a discutir uma forma de tornar mais estável o sistema de governo. Na época, não deu em nada.
Hoje, com a montanha de pedidos de impeachment na gaveta do presidente da Câmara, discute-se novamente o sistema, adotado em Portugal e na França.
Do que se trata? A ideia é simples: o povo elege o presidente da República, mas a chefia do governo cabe a um primeiro-ministro, escolhido pelo presidente. Ou seja, o dia-a-dia do governo, incluindo a indicação de ministros, é função do primeiro-ministro. O sistema poderia se chamar de semiparlamentarismo sem perda nenhuma de significado.
E o que faz o presidente nesse sistema? Aí, depende dos poderes que tiver. O presidente pode nomear o primeiro-ministro que lhe der na telha? Quais as regras de sua destituição? O presidente poderia dissolver o Congresso e chamar novas eleições? Sob quais condições? O presidente pode patrocinar projetos de lei? Essas definições vão dar mais ou menos poder ao presidente.
Bolsonaro, ao nomear Ciro Nogueira como primeiro-ministro, quer dizer, como ministro da Casa Civil, na prática virou um presidente em um sistema semipresidencialista. A coalizão de partidos denominada Centrão está agora no coração do poder executivo, que é a própria definição de semipresidencialismo.
Qual será o papel de Bolsonaro nesse novo regime? Veremos com o tempo, as regras não estão escritas. O fato é que, em um sistema semipresidencialista em que o presidente é forte, este tem o poder de dissolver o Congresso. Não é o caso, como sabemos. O que existe é o justo oposto: é o Congresso que pode destituir o presidente, por meio de impeachment. Isso dá uma medida de quem tem a faca e o queijo na mão neste momento.