Definição de chicana atualizada com sucesso

O STF já definiu que subsidiárias de estatais não precisam de autorização do Congresso para serem vendidas. Por exemplo, a Petrobras alienou o controle da BR Distribuidora e não houve nenhum questionamento a este respeito.

A BR Distribuidora já era uma subsidiária quando se decidiu abrir o seu capital. Pergunto: qual seria a diferença entre vender a subsidiária e transformar uma unidade de custo em uma subsidiária para vendê-la? Por que, em um caso, o STF permite a venda e, no outro, não permite? Não há lógica nenhuma nisso.

Quando uma empresa vende um negócio, esse negócio precisa estar debaixo de um CNPJ, para a segurança jurídica da transação. O CNPJ controla todos os ativos e passivos que estão sendo vendidos, além dos empregados, marcas, etc. O cerne da venda é a operação em si. Caso contrário, a Petrobras estaria vendendo a refinaria como ferro velho e o terreno para a construção de outra coisa. A lógica é exatamente a mesma da venda da BR Distribuidora.

Não no entendimento de, até agora, 3 ministros do STF e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que liderou o questionamento da operação. Para eles, a Petrobras estaria usando de “chicanas” para burlar o crivo que o Congresso tem sobre a venda de estatais. Como se uma refinaria fosse a própria estatal!

De chicanas o presidente do Senado entende bem, pois está, nesse exato momento, procurando uma para justificar sua reeleição. O STF, que também entende de chicanas, vai dar a palavra final para a pretensão da otoridade. Se for aprovada, as definições de chicana precisarão ser atualizadas.

Use o seu palanque

A atleta Carol Solberg resolveu lacrar em entrevista à Sport TV, e soltou um “Fora Bolsonaro!” ao vivo e em cores. A Confederação Brasileira de Vôlei soltou nota de repúdio e estuda punição. A atleta e seus apoiadores defendem a “liberdade de expressão”, e acusam a CBV de usar dois pesos e duas medidas, na medida em que teriam permitido que os atletas Wallace e Mauricio fizessem propaganda para o então candidato Bolsonaro em uma foto da seleção brasileira de vôlei em 2018. Reproduzo abaixo a foto, a nota da CBV à época e a nota da CBV a respeito da manifestação da atleta Carol.

O que dizer?

Pra começo de conversa, liberdade de expressão é inegociável. Todo ser humano tem liberdade para expressar suas opiniões, desde que não seja apologia a crime. Não posso, por exemplo, defender o assassinato do Lula ou do Bolsonaro, isso está fora da esfera de “liberdade de expressão”.

Pois bem, tendo pacificado este ponto, resta saber se há outras limitações à liberdade de expressão. Sim, há. A palavra “expressão” tem como pressuposto alguém falar e alguém ouvir. Robinson Crusoé tinha uma liberdade de expressão absoluta, mas era inútil, pois não havia ninguém que o escutasse. Exercer a liberdade de expressão só faz sentido se há outras pessoas que escutem a sua opinião.

Esta é a chave para entender a limitação intrínseca da liberdade de expressão: a expressão de sua opinião tem efeitos diferentes a depender do palanque de que você dispõe.

Um exemplo: eu tenho uns 2 mil seguidores nessa página do Facebook. O que eu falo aqui atinge essas duas mil pessoas e talvez um pouco mais, a depender de quantos compartilhamentos são feitos. Esse é o meu palanque, eu falo o que eu quero. Ao mesmo tempo, trabalho em uma empresa de investimentos, onde escrevo os relatórios para os clientes. A empresa tem milhares de clientes. Posso escrever o que eu quero? Obviamente não. O palanque não é meu, é da empresa. Foi ela que construiu essa audiência. A minha expressão, ao me comunicar com essas pessoas, é a expressão da empresa. Os clientes são dela, não meus.

Portanto, a liberdade de expressão é limitada pelo palanque que cada pessoa conseguiu construir. Felipe Neto, por exemplo, fala todas as bobagens do mundo para os seus milhões de seguidores, e a ninguém ocorre limitar a sua liberdade de expressão. Afinal, esse palanque é dele, ele é que decide o que vai e o que não vai falar.

Vamos ao caso da moça do vôlei e a nota da CBV. Atletas, de maneira geral, só estão lá porque existe toda uma estrutura montada na base de patrocínios. Se a Carol gritasse “Fora Bolsonaro!” em sua página no Instagram, a polêmica seria zero. Mesmo porque, poucos teriam ouvido. O palanque construído pela atleta é muito pequeno. O que ela fez? Usou a audiência construída pela CBV para expressar a sua opinião. É óbvio que não dá. A CBV pode sim puni-la, pois é ela que manda no seu palanque.

O paralelo com o caso Wallace/Maurício é adequado, ainda que tenha sido distorcido pela atleta. A CBV não “defendeu a liberdade de expressão” dos dois atletas e ficou por isso mesmo. O que a CBV fez, à época, foi dizer que os atletas podem falar o que quiserem em suas redes sociais, mas não usar o palanque da seleção brasileira para fazer política. Ambos foram punidos com advertência, provavelmente o que vai acontecer com Carol Solberg.

Entidades esportivas não costumam gostar de ceder o seu palanque para manifestações políticas. Por sua própria natureza, a política separa em campos opostos, e a última coisa que essas entidades querem é divisão e boicote de patrocinadores e espectadores. Por isso, senhores atletas, usem seus perfis pessoais para manifestações políticas e evitem usar os campeonatos organizados pelas entidades esportivas. Esses palanques não lhes pertencem.

O ‘poder’ das redes

Quando Eugênio Bucci fala, eu paro para ouvir. Normalmente, sua argumentação me convence do ponto exatamente oposto. Mais uma vez, não saí decepcionado.

Como era de se esperar, Bucci amou o documentário O Dilema das Redes (eu ia usar outra palavra para descrever a reação do colunista, mas há crianças na sala). O curioso em sua crítica é o foco nas consequências políticas e não de consumo. Digo curioso porque, sendo professor da área de comunicação, esperaria uma análise sobre a manipulação do consumo. Nem uma linha a respeito, o que já nos diz muita coisa.

O colunista envereda pelas “ameaças à democracia” representadas pelas redes sociais (destaco os dois principais trechos abaixo). Infelizmente, o raciocínio do colunista sofre de três falhas lógicas graves.

A primeira é assumir que as redes são as responsáveis pela ascensão de líderes populistas que destroem a democracia por dentro. Na medida em que eu ia lendo, vozes na minha cabeça iam soprando: “Hitler, Mussolini, Chavez”. Líderes que foram eleitos sem as redes e destruíram as democracias de seus países por dentro. Isso sem contar outros golpes na democracia que não passaram por eleições mas que, mesmo assim, tiveram apoio popular (todo golpe tem apoio popular, não sai do nada): Getúlio, Fidel, os militares de 64. Enfim, atribuir às redes um fenômeno generalizado no tempo e no espaço é, para dizer o mínimo, uma falha lógica.

A segunda falha decorre da primeira: se as redes serviram para “um lado”, porque não serviriam para o “outro lado”? As redes são território neutro, a não ser que se acuse Zuckerberg de fazer campanha para Bolsonaro, mas a esse ponto (ainda) não chegou o colunista. Sendo território neutro, podem ser usadas pelo “lado do bem” igualmente. Bucci contrapõe a mídia tradicional, que estaria ao lado do “bem racional” às redes, que estariam a serviço do “mal irracional”. Ora, isso parece-me mais desculpa de perdedor. Primeiro, porque o monopólio da mídia tradicional não impediu a ascensão de líderes populistas e ditadores ao longo de décadas e no mundo inteiro. E, segundo, as redes estão à disposição de todos, inclusive dos monopolistas do bem, entre os quais se auto-alinha o articulista. Isso nos leva à terceira falha do raciocínio.

A terceira falha lógica da argumentação é óbvia: e se o vencedor da próxima eleição for o Luciano Huck? Ou o Felipe Neto? (Desculpem-me, estou só estressando o argumento). Neste caso, pessoas que sabem usar as redes a seu favor. Bucci virá a público para denunciar a manipulação das redes sociais? Ou comemorará o fato de as redes sociais terem ajudado a eleger candidatos fofos?

No fundo, todo esse barulho em torno das redes sociais se dá por conta das eleições de Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil. Se Clinton e Haddad fossem os presidentes hoje, esse assunto teria atenção mínima, se tivesse alguma. Esse artigo de Eugênio Bucci é prova cabal desse ponto. Afinal, ninguém está nem aí para a manipulação do consumo. Mas a coisa foi para o lado político, que desperta paixões. Esse é o problema.

Estelionato eleitoral

Entre o final de setembro e o início de outubro de 2018, na reta final da campanha eleitoral, o Posto Ipiranga deu com a língua nos dentes e avisou que estava pensando em um imposto com rabo de CPMF, focinho de CPMF e boca de CPMF, mas não era a CPMF, taokey?

Como o então candidato do PSL sabia do teor tóxico da proposta, a negou veementemente. Lembro que todas as páginas bolsonaristas saíram em defesa do candidato, classificando a notícia como “fake news”. No máximo, havia sido uma “trapalhada” do Posto Ipiranga, que confundira IVA com CPMF. Muito compreensível.

Obviamente, olhando em perspectiva, fica claro que a única proposta tributária do Posto Ipiranga sempre foi a CPMF. É o samba de um imposto só. Marcos Cintra foi convidado para ser o secretário da Receita com um único objetivo: a implantação do seu projeto de vida, o imposto único.

Não consigo dizer se isto estava claro para Bolsonaro desde o início, ou se o Posto Ipiranga contava com o tempo para convencê-lo do seu projeto. O fato é que, hoje, Bolsonaro quer emplacar a CPMF, mesmo sendo um claro estelionato eleitoral.

Em sua mensagem na abertura dos trabalhos do Congresso em 2016, a então presidente Dilma Rousseff defendeu a aprovação da CPMF. Foi o único momento durante aquele discurso em que foi vaiada. Certamente o então deputado Jair Bolsonaro engrossou o coro.

Diz o governo que não vai aumentar a carga tributária, vai apenas substituir os impostos sobre a folha de pagamentos pela CPMF. Bem, o mesmo efeito poderia ser atingido pelo aumento da alíquota do futuro IVA, que vai substituir outros impostos. Por que não o faz? Ora, porque a alíquota do IVA já é grotescamente alta, e aumentá-la ainda mais é inviável. Então, vamos inventar um novo imposto com alíquota pequena pra fazer de conta que não estamos cobrando nada. É a confissão de que é preciso continuar escondendo a derrama a que é submetido o cidadão brasileiro.

E qual teria que ser o tamanho da alíquota? Vamos lá. Em 2007, último ano de cobrança da CPMF, a arrecadação foi de R$ 37 bilhões, o que daria, a valor corrigidos, R$ 73 bilhões. Isso com uma alíquota de 0,38%. O orçamento recém-enviado pelo governo prevê uma arrecadação de INSS (principal imposto sobre a folha) de R$ 417 bilhões, grande parte paga pelo empregador. Só para compensar este imposto, a alíquota teria que ser de 2,17%. Isso com uma taxa de juros de 2%. Uma alíquota de 0,38% pagaria cerca de 1/5 das despesas com INSS. Faltariam o FGTS e o PIS/PASEP. Dá para perceber que a coisa não é tão simples.

Na época da eleição, escrevi aqui um post em que lembrava que eu havia testemunhado o nascimento de muitos impostos e contribuições, mas a morte de somente dois: a CPMF em 2007 e o imposto sindical em 2017. Os dois são, para mim, linhas vermelhas. Voto no Cabo Daciolo, mas não voto no cidadão que recriar um desses dois impostos. Está avisado.

O PT não é um partido democrático

Poucos ficaram sabendo, mas o PT lançou um programa de governo . Chama-se nada menos que “Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil”. A pretensão não é modesta, como se vê.

Destaco abaixo um trecho do preâmbulo que, para mim, deslegitima o PT como uma força a mais no jogo democrático.

O PT não é um partido democrático. Pelo menos, não no sentido em que entendemos esse regime nas democracias ocidentais. Lembremos, por exemplo, que o nome da Alemanha Oriental era República Democrática Alemã, mesmo sendo uma ditadura feroz.

O trecho diz o seguinte: “A reconstrução do Brasil exige fortalecer a democracia, traumatizada pelos processos do golpe de 2016 e da cassação da candidatura Lula em 2018,…”Em qualquer democracia, um processo de impeachment faz parte do jogo. Richard Nixon seria impichado se não renunciasse, e Bill Clinton escapou por um triz de ser impichado. Aqui no Brasil, Fernando Collor foi impichado. A nenhum deles lhes ocorreu chamar o processo de golpe. Ao desqualificar como golpista um processo conduzido, do início ao fim, dentro das regras estabelecidas no jogo democrático, o PT coloca-se fora do jogo. Simples assim.

O mesmo ocorre com a dita “cassação” do direito de Lula se candidatar em 2018. Lula estava PRESO. Havia sido condenado em duas instâncias da justiça (não somente por Sergio Moro) por corrupção passiva e outros crimes. Pode-se discutir a sentença, a suspeição do juiz, o que for. O que não se pode é chamar isso de “cassação”. Isto está fora do jogo democrático. O PT exclui-se do jogo ao desqualificar um instituto absolutamente de acordo com o que vai na Constituição.

Outro dia, teve início um movimento que perguntava se já não estava na hora de “perdoar o PT”. Ora, só se perdoa quem pede perdão, quem está arrependido do que fez. Este documento deixa claro que o PT não está pedindo perdão. Pelo contrário.

Em qualquer democracia avançada, como Alemanha ou Japão, se o partido no poder fosse pego em um centésimo do que foi feito na Petrobrás, seus dirigentes teriam caído no ostracismo há muito tempo, quando não estariam enjaulados. No caso do Japão, talvez até rolasse um harakiri em rede nacional. Aqui, o partido se acha no direito de dizer que é o único realmente democrático. O documento em si pouco importa. Trata-se de um amontoado de baboseiras escritas como se o PT nunca tivesse sido governo, como se o desastre Dilma nunca tivesse existido. Até combater a corrupção eles prometem, vejam só! Bater no conteúdo de um documento que parece ter saído de debates de centros acadêmicos é perda de tempo.

O PT, hoje, é um morto-vivo que vive à sombra de dois políticos: Lula e Bolsonaro. Lula é o salvador, enquanto Bolsonaro é a encarnação do mal. Deus e o diabo na terra do sol, em uma dança que somente interessa aos dois. O PT, ao lançar este documento, dá sobrevida a Bolsonaro, lembra a todos porque, afinal, Bolsonaro está no poder.

Ciro Gomes hoje, em entrevista ao Valor Econômico, resumiu o ponto: “não é mais possível disfarçar que o bolsonarismo boçal é consequência do colapso moral e econômico da governança do PT.” Óbvio que Ciro tem interesse em herdar o espólio do PT, mas seu diagnóstico não deixa de ser verdadeiro.

Bolsonaro tem uma retórica muitas vezes incendiária, que beira o golpismo. Mas, pelo menos por enquanto, está a anos-luz de distância do que o PT fez para solapar a democracia, enquanto fazia um discurso “fofo”. Não, o PT não faz parte do jogo democrático. Nunca fez. E não vai ser diferente agora.

Negros na Magazine Luiza: marketing ou preocupação social?

Resolvi escrever esse artigo não porque tenha uma ideia clara sobre o assunto, mas justamente porque não a tenho. Às vezes faço isso: escrevo artigos para ordenar minhas ideias sobre um determinado assunto. Escrever me ajuda a pensar.

A Magazine Luiza decidiu restringir seu próximo programa de trainees somente a candidatos negros. Cota de 100%.

Uma primeira observação: vou fazer referência aos negros e pardos simplesmente como negros, para a simplificação do texto e seguindo a tradição norte-americana. Nos EUA, basta ter um pingo de sangue negro para ser considerado negro. Não existem mulatos. Kamala Harris tem a mesma cor de pele de Joe Biden, mas é considerada negra por ter ascendência negra.

Vamos começar descartando algumas ideias, pelo bem do debate. A primeira é que a empresa está querendo somente se autopromover. Sim, trata-se do suprassumo do politicamente correto, causa repercussão positiva, mas podemos conceder que a sua direção esteja genuinamente preocupada com o destino da população negra e, por outro lado, a diversidade é um bem em si e também para os resultados da empresa.

Outra ideia que vamos descartar de cara é o problema da seleção em si. Quem é negro e quem não é? Trata-se de uma empresa privada e, como tal, tem total liberdade de adotar os critérios que melhor se adequam ao seu objetivo. Se será pela cor da pele ou autodeclaração ou descendência, isso é com a empresa. Não cabe falar em “injustiça” porque se adotou critério A, B ou C. A empresa emprega quem ela quiser, com os critérios que achar melhor.

Uma terceira ideia que vamos descartar é a questão socioeconômica. Sabemos que não somente negros têm dificuldade em chegar aos programas de trainee das grandes empresas, muitos brancos também estão à margem desses processos de seleção. Mas não há como negar que há uma grande intersecção entre descendência negra e situação socioeconômica. A intersecção não é 100%, mas é suficientemente grande. Ao privilegiar a população negra, se está também atendendo à questão socioeconômica. Não é 100% justo, mas, novamente, a empresa não está buscando 100% de justiça, está buscando diversidade racial. Tenhamos sempre este objetivo em mente.

Existe uma quarta objeção, esta mais difícil de descartar, que se refere ao racismo reverso. Estaria a empresa fazendo discriminação contra brancos somente por conta da cor de sua pele? Esta discussão é mais difícil do que parece à primeira vista. Sim, diria o raciocínio lógico: afinal, se estou barrando pessoas por causa da cor de sua pele, estou praticando racismo. Mas a coisa não é assim tão simples. Os negros, no Brasil, ganharam a sua alforria no final do século XIX e foram competir em um mercado de trabalho dominado por brancos muito melhor preparados e capitalizados. Esse, digamos, vício de origem, perpetua uma condição inicial muito pouco favorável. Desta forma, barrar brancos não seria racismo, mas compensação histórica. Afinal, os negros é que foram escravizados, não os brancos. O Brasil sofreria do chamado “racismo estrutural”, onde as únicas vítimas do racismo seriam os negros, não os brancos. Portanto, não haveria racismo contra brancos.

Trata-se de um bom argumento, ainda que, como disse, de mais difícil aceitação. Afinal, seleção feita a partir da cor da pele é a própria definição de discriminação. Mas como, no Brasil, a única cor de pele que vem sendo discriminada há mais de 100 anos é a negra, vamos, no mínimo, acatar o argumento de que, se há discriminação reversa, ela é aceitável. Sigamos.

Vencendo esses argumentos iniciais, quero focar agora na efetividade da ação da empresa. Tendo como premissa de que se trata de uma boa ação, nada mais natural do que pensar em sua extensão. Para tanto, vamos imaginar dois cenários: o primeiro é a extensão espacial desse movimento e o segundo a sua extensão temporal.

No primeiro cenário, imagine por um momento que todas as grandes empresas do Brasil adotassem o mesmo procedimento. Universitários brancos não teriam espaço para trabalhar nessas empresas neste ano. Qual seria a reação? Provavelmente, esperariam o ano seguinte para se inscrever. Afinal, são essas empresas que pagam os melhores salários, e programas de trainee formam os dirigentes de amanhã. Nesse meio tempo, fariam bicos e estudariam mais. Perderiam um ano em suas carreiras, mas não seria um desastre.

O segundo cenário é mais interessante. Na extensão temporal, a Magazine Luíza tornaria permanente este critério. Aliás, por que somente por um ano? Um processo seletivo apenas está longe, muito longe, de resolver o problema da diversidade racial na empresa. Tornar este processo permanente garantiria este objetivo ao longo do tempo. A empresa o fará? Provavelmente não. E é com honesta tristeza que digo isso. A Luíza iria descobrir (se é que já não sabe) que restringir o processo a determinados grupos indefinidamente deteriorará a qualidade de seus quadros. E isso não por falta de capacidade dos negros, mas por falta de formação ao longo de uma vida. Não por outro motivo, este processo de seleção não considerará o domínio do inglês como fator de seleção. A dura realidade é que o problema vem lááááá de trás, da formação básica, e vai se acumulando com o tempo. Não se trata de dar uma chance que o negro vai mostrar o seu valor. A chance foi perdida na primeira infância, e recuperar depois disso é praticamente impossível. Em um mercado competitivo, esse gap de formação acaba pesando. Cotas em universidades e, agora, na admissão de empresas, são bandeides em uma fratura exposta. Ajudar sempre ajuda, mas está longe de resolver.

Parece que há estudos demonstrando que os estudantes admitidos por cotas têm performance semelhante aos que foram admitidos fora das cotas. É possível. A interação com pessoas de fora das cotas, que tiveram melhor formação ao longo da vida, certamente ajuda a desenvolver uma potencialidade que, de outra maneira, ficaria hibernando. Talvez um sistema de cotas na admissão das empresas funcionasse. Mas cota de 100% é outra coisa. Aliás, será interessante observar o que empresa fará no ano que vem. Se diminuir a cota, a mensagem que passará é de que não funcionou, ou que a política não é realmente sustentável. Acho que se colocou em uma armadilha.

Um terceiro cenário hipotético seria a adoção de cota de 100% todos os anos por todas as empresas. Seria o lógico a se fazer, considerando o problema a ser resolvido. É factível? Tem candidato para todo mundo? Receio que não. Como disse, o problema é muito anterior, e as empresas acabam sofrendo com o gap de formação que a população negra sofre desde os seus primeiros anos de vida. Além disso, e aí sim, a população branca estaria sendo alijada do processo para sempre, ou até que as “diferenças estruturais” desaparecessem, o que pode bem durar mais de uma geração. O que aconteceria com essa parcela da população? Certamente perderia o incentivo pela sua própria formação, uma vez que, por construção, a recompensa dos melhores empregos não estaria ao seu alcance. Teríamos uma deterioração generalizada da qualidade da mão de obra, pois a melhora da qualidade da mão de obra negra precisa vir da base, dos primeiros anos de vida, o que está longe de ser uma certeza.

Entendo que a iniciativa da Magazine Luíza é meritória em dois sentidos. No primeiro, coloca no horizonte da população negra a possibilidade de concorrer a uma vaga disputadíssima no mercado de trabalho. Normalmente, pessoas com baixo nível socioeconômico, negros incluídos, nem aventam essa possibilidade. “Não vou nem tentar, pois sei que não vou conseguir”, pensam. Um processo especificamente para negros abre uma janela de oportunidade na mente das pessoas-alvo que, de outra forma, não existiria.

O segundo mérito da iniciativa da empresa é chamar a atenção, de uma maneira bastante enfática, para um problema crônico brasileiro, a falta de diversidade em seus quadros diretivos. Um problema que não foi ela, nem nenhuma das grandes empresas, que criou. Na verdade, um problema estrutural de difícil solução.

Corro o risco de cair no lugar comum, mas enquanto não encararmos de frente o problema da formação das crianças independentemente da sua origem, estaremos enxugando gelo. Sim, ações afirmativas são excelentes, e devem ser feitas. Mas receio que o efeito para o marketing seja muito maior do que para a causa em si. Chama a atenção para o problema, mas está longe de o resolver. Melhor que nada. Mas precisamos de muito mais do que isso.

Conhecimento vs intenção de voto

A manchete é: “Russomano lidera pesquisa de intenção de voto em São Paulo.

A manchete deveria ser: “Russomano e Covas são bem mais conhecidos do que os outros candidatos”.

A última pergunta do questionário é a mais importante: apenas 15% e 18% dos eleitores não ouviram falar do candidato, nos casos de Russomano e Covas. Em relação aos outros, esse número é perto de 50% ou mais.

Eleição funciona como a compra de um produto. Se alguém lhe parasse na rua e perguntasse qual margarina você compraria da seguinte lista:

  • a) Doriana
  • b) Becel
  • c) Overztol
  • d) Botteram

O que você responderia? O que você acha que a maioria das pessoas responderia? Pois é.

Nessa fase, em que a campanha eleitoral ainda não começou, a intenção de voto não passa de medida de conhecimento da marca. Não é à toa que Russomano sai na frente todo ano. Não estou dizendo que ele não vai ganhar este ano, estou apenas afirmando que ele precisa passar pelo teste da campanha eleitoral, onde derrapou nas últimas eleições.

Cabe notar que no pelotão seguinte de desconhecimento por parte do distinto público estão Boulos, França, Fidelix e Joice. A má notícia para Fidelix e Joice é que, mesmo com um nível de conhecimento intermediário, sua intenção de voto é baixa e sua rejeição é alta, desproporcionalmente alta. Fidelix está lá por folclore, mas Joice está para valer. Vai ter muito trabalho.

Ainda nesse sentido, eu não descartaria de cara Jimar Tatto. Ele é pouco conhecido e conta com a ainda formidável máquina do PT na cidade. Tem capacidade de embolar o meio de campo da esquerda com Boulos e França em busca de uma vaga para o 2o turno. Correm o risco de, se não houver voto útil, ficarem os 3 de fora.

A briga em São Paulo será difícil. Não será um passeio no parque como em 2016, quando Doria venceu no 1o turno pela primeira vez na história da cidade em que não houve 2o turno, na onda do anti-petismo. As forças estão dispersas, o eleitor está desconfiado de todo mundo. Como dizem os antigos, vai ser no fotochart.

Que tal confiscar toda a fortuna dos muito ricos?

Bolsonaro já avisou que não vai tirar dos pobres pra dar pros paupérrimos.

Muito bem. Então vamos tirar dos ricos. Está aí a lista dos brasileiros mais ricos, segundo a última edição da Forbes.

Na linha do “imposto sobre fortunas”, minha ideia é não ficar no meio termo. Vamos parar de fingir que estamos resolvendo o problema e vamos resolvê-lo de fato. Minha ideia é taxar os “brasileiros mais ricos” em 100% de sua fortuna. Confisco mesmo. Nada de soluções meia-boca, vamos partir para a ignorância.

Não se atenha a detalhes sem importância, como o fato de grande parte dessas fortunas serem representadas por ações das empresas dos quais esses brasileiros são sócios, o que significaria a venda dessas empresas supostamente para estrangeiros, pois brasileiros com bolso para comprar essas ações também seriam confiscados.Tendo feito o confisco, teríamos aproximadamente R$ 500 bilhões (faça a soma você mesmo). Com R$ 500 bilhões na mão, o que o governo poderia fazer? Eu lhe digo.

Com R$ 500 bilhões, o governo poderia pagar mais 10 meses de auxílio emergencial. Ou 1,5 mês de suas despesas totais, que somam R$4 trilhões por ano. E depois? Ah, depois vamos pra cima dos próximos 10 da lista.

Obviamente a fortuna dos próximos 10 brasileiros mais ricos soma muito menos que R$500 bilhões. Acredite, há concentração de renda no topo da pirâmide também. Talvez tivéssemos que pegar os próximos 20 ou 25 para somar R$ 500 bilhões. Daria pra pagar mais 1,5 mês de despesas. E depois?Pois é, dá pra perceber que logo chegaríamos nos milionários, o que inclui boa parte da classe média, pequenos empresários, profissionais liberais, executivos de empresas e funcionários públicos de alta patente. Se você tem um apartamento quitado em um bairro de classe média, você já é um milionário, taokey?

Ok, confisco foi só uma forma de estressar o argumento. Mesmo com 100% de imposto sobre fortunas, estaríamos longe, muito longe, de resolver os problemas do país. Sem contar que, ao taxar fortunas de empresários, provavelmente se estará inibindo a formação de novas empresas no país. Mas isso é discussão para outro post.

O ponto é que o número de muito ricos é proporcionalmente baixo. Para fazer face a despesas de R$4 trilhões por ano, o governo precisa ir pra cima dos pobres e remediados. E aí é que está a perversidade da coisa: o governo está continuamente tirando dos pobres para dar para os paupérrimos, não sem antes separar a sua parte. Só que este imposto é camuflado, ninguém vê, está embutido nas mercadorias compradas pelos mais pobres. Na verdade, a coisa é ainda mais perversa, pois existem vários mecanismos de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos, mas isso também é assunto para outro post.

Falar em imposto sobre fortunas é uma forma de fugir do problema. O ponto é que o governo gasta R$4 trilhões por ano, e todo mundo sabe o que acontece quando precisa de um serviço público. Não há imposto sobre fortunas que dê jeito nisso. Continuaremos a tirar dos pobres para dar para os paupérrimos, para desgosto do presidente.