O interesse pela Copa do Mundo feminina em números

A Copa do Mundo feminina terminou no domingo passado, mas só agora consegui parar para fazer uma estatística sobre a qual sempre tive curiosidade: como se compara a cobertura jornalística da Copa do Mundo feminina com a Copa do Mundo masculina?

Para fazer essa estatística, vou usar o Estadão. Não acredito que o resultado seja muito diferente se usarmos a Folha, o Globo ou mesmo a cobertura das TVs.

No Gráfico 1, ploto o número de páginas dedicadas aos dois eventos, iniciando 3 dias antes do primeiro jogo e terminando 3 dias depois da final. A Copa do Mundo feminina teve 3 dias a mais, por isso o gráfico da Copa masculina termina antes. Vamos ver o que temos.

Até dois dias antes do início de cada evento, não há diferença perceptível, a cobertura é a mesma para ambos. A diferença torna-se brutal na véspera da abertura: enquanto o Estadão dedicou 6 páginas à Copa do Mundo masculina, apenas uma página é dedicada ao evento feminino. E esse padrão permanece ao longo de toda a cobertura: enquanto o número de páginas dedicadas à Copa do Mundo masculina varia de 6 a 8, o máximo que se dedica ao evento feminino é uma página ao longo do torneio.

Após a eliminação de cada seleção, há um padrão em ambos os casos: a cobertura diminui. Mas enquanto o evento masculino ainda recebe entre 3 e 4 páginas de cobertura, a Copa feminina simplesmente cai no ostracismo: a cobertura é simplesmente zero, a não ser quando se trata de anunciar a final inédita entre Espanha e Inglaterra (um terço de página) e para fazer a cobertura da final, mas somente no dia seguinte do jogo. No dia da final mesmo não há sequer uma menção ao evento. Ainda há alguma cobertura pós-Copa por conta do beijo que o presidente da Federação espanhola deu na jogadora campeã. Não fosse por isso, já não teríamos mais nada. No caso da Copa masculina, ainda tivemos 3 dias de grande cobertura, com 7 páginas no dia seguinte à final e duas páginas em cada dia posterior. No acumulado deste período, o Estadão dedicou 200 páginas para a Copa masculina, contra 15 da Copa feminina.

A coisa se torna ainda mais constrangedora quando se compara a cobertura da Copa feminina com a cobertura dada à transferência de Neymar para o futebol árabe, como podemos ver no gráfico 2. A partir do 19o dia após o início da Copa, com a nossa seleção já eliminada, o assunto dominante passa a ser o ex-atacante do PSG. Inclusive no próprio dia da final, o assunto é Neymar. Talvez por isso não tenha sobrado espaço para dar notícia da Copa feminina… No acumulado desde que surgiu a primeira notícia da transferência, Neymar mereceu 2 páginas completas, contra 1 1/8 página da Copa feminina.

Aqui termina a estatística e começa a interpretação.

Como os recursos (páginas/horas) são limitados, os editores priorizam aquilo que atrai maior interesse de quem lê/ouve/assiste, pois jornal/rádio/TV vivem de sua audiência. É óbvio que a Copa masculina atrai muito mais interesse do leitor/ouvinte/expectador que a Copa feminina. Então, é só natural que a cobertura seja muito maior em um caso do que no outro. A difereça de cobertura (13 vezes mais no caso do Estadão, e não acho que seja muito diferente no caso de outros veículos) deve ser proporcional à diferença de interesse em relação aos dois eventos.

O que não é natural ou óbvio é a razão entre o real interesse e o interesse que a lacrosfera quer nos fazer crer que existe, lacrosfera que inclui os próprios veículos de comunicação. Ou seja, quando se trata de lacrar, a Copa feminina é o maior evento do mundo. Mas na hora de dedicar espaço em suas coberturas, os veículos obedecem à velha lógica patriarcal-misógina. #atéquando?

O recado de Damares Alves

Pouca gente deu importância a essa notícia. Eu guardei. A senadora Damares Alves, bolsonarista raiz e incorruptível, não teria motivo para elogiar Zanin, a não ser que fosse um elogio sincero.

Em qualquer teste de alinhamento ideológico, temos 4 quadrantes, divididos em posicionamentos sobre economia e sobre costumes. O sujeito pode ser conservador em termos de costumes e estatista em termos econômicos, por exemplo. Ou, ao contrário, ser progressista em termos de costumes e liberal em termos econômicos. Esse é o caso de Luís Roberto Barroso, por exemplo.

Zanin, em seu papo com Damares, deve ter deixado claro seu posicionamento conservador em matéria de costumes. De outro modo, não teria merecido um elogio público da senadora. Claro que ele poderia ter defendido posições conservadoras apenas da boca para fora, mas o voto dos bolsonaristas não eram realmente necessários para a sua aprovação. Então, desconfiei que o posicionamento era sincero. As duas votações de Zanin na seara de costumes até agora confirmaram minha desconfiança. E desconfio também que ele está no time de Barroso e Fux no campo econômico, mas isso só saberemos ao longo das votações sobre temas correlatos.

De qualquer modo, os petistas estão pistola com a indicação de Lula. E se eles estão tristes, eu estou contente.

A amargura de Jim O’Neill

Jim O’Neill foi o analista da Goldman Sachs que cunhou o termo BRIC (o S de South Africa só viria depois), em novembro de 2001. Infelizmente, o seu relatório não está mais disponível, mas a página com o resumo de suas conclusões ainda está no site da Goldman. Jim afirmou que “nos próximos 10 anos, o peso dos BRIC e especialmente da China no PIB mundial aumentará, levando a questões importantes sobre o impacto econômico global das políticas fiscal e monetária dos BRIC”. Por isso, concluiu o analista da Goldman Sachs, “os fóruns mundiais de formulação de políticas econômicas deveriam ser reorganizados e, em particular, o G7 deveria ser ajustado para incorporar representantes dos BRIC”.

Como todo analista de banco de investimentos, Jim O’Neill é pago para criar narrativas que possam apontar caminhos lucrativos para os seus clientes. Obviamente, essas narrativas não criam a realidade. Seu objetivo é tentar antecipar-se à realidade, com base em tendências que ainda não são vistas a olho nu. Nesta tarefa, cabe ao analista vestir sua tese da roupa mais elegante possível, de modo a chamar a atenção para a sua análise e, com isso, ganhar clientes.

Jim O’Neill talvez tenha tido a melhor ideia de todos os tempos para bolar o título de um relatório, ao criar o acrônimo “BRIC” (tijolo) para nomear os países que, segundo ele, puxariam o crescimento econômico global nos 10 anos seguintes. Ao reunir tamanho com um suposto grande potencial de crescimento, esses seriam os países candidatos a novas potências globais.

Como disse acima, as narrativas não criam a realidade. Portanto, é preciso fazer o reality check do relatório do analista da Goldman. Infelizmente, Jim O’Neill não passou no teste. No gráfico 1, podemos observar a participação do PIB dos BRICs no PIB global, tanto no conceito PPP (Purchase Power Parity) quanto em dólares. Excetuando-se a China, a performance do BRI foi pífio.

No gráfico 2 temos a evolução do PIB/capita dos BRICs em relação aos EUA. Somente a China se destaca, quadruplicando o seu PIB/capita em relação aos EUA no período. A Rússia apresentou uma boa evolução até 2008, mas depois disso estagnou. A Índia dobrou o seu PIB/capita em relação aos EUA, mas de 5% para 10%, ficando bem atrás da China. E o Brasil… ah! o Brasil…

Jim O’Neill, em entrevista hoje ao Estadão, reagindo à expansão do grupo, desabafa: “Estou a ponto de dizer que o Brics acabou”.

Meu caro Jim, acho que você está atrasado. O BRICs, tal qual desenhado em seu relatório, já não existe há já uns 10 anos, pelo menos. Tornou-se um bloco anti-ocidente, não tendo nada mais a ver com crescimento econômico, a pedra de toque da sua narrativa. A expansão do grupo segue a lógica geopolítica chinesa, não a lógica econômica dos investidores de Wall Street. Causa-me espécie que somente agora, com a expansão do grupo, tenha lhe caído a ficha.

A partir de agora, o BRICSSAUEIE (novo nome do BRICS após a entrada de Saudi Arabia, Argentina, UAE, Egypt, Iran e Ethiopia) seguirá o seu caminho, acrescentando cada vez mais letras ao acrônimo, até se tornar uma sub-ONU dos párias internacionais, liderados pelo país que encarna o sonho de consumo de todo candidato a ditador. É compreensível a amargura de Jim O’Neill.

Nem sempre pensamos aquilo que pensamos

A corregedoria da Câmara dos Vereadores de São Paulo aprovou requerimento para a cassação do mandato do vereador Camilo Cristófaro. Agora, o pedido segue para o plenário da Casa. O motivo: durante sessão legislativa, o parlamentar deixou o seu áudio inadvertidamente aberto, e em conversa informal com alguém não identificado, afirmou: “não lavaram a calçada, é coisa de preto, né?”.

Há algum tempo, o jornalista William Waack foi demitido da Globo também por causa de uma fala racista vazada em áudio involuntariamente aberto. Os mais seniores vão lembrar do episódio Rubens Ricupero, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, pego em um áudio vazado, antes de uma entrevista em uma TV, dizendo: “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. O ministro, obviamente, caiu.

Sempre que ocorre um evento desse tipo, fico pensando sobre a fronteira entre o privado e o público. Uma coisa é a imagem pública da pessoa: Rubens Ricupero tinha uma imagem de homem íntegro, ético, inclusive bastante religioso. William Waack, idem, um jornalista sério. O vereador, que era e foi expulso do PSB, afirmou que lutava pelos direitos de quem tem as portas fechadas pelo racismo estrutural. Não duvido.

Todos, sem exceção, temos uma fachada para consumo público. Meticulosamente construída, essa fachada tem como objetivo imprimir na mente de nossos semelhantes a imagem que desejamos para nós mesmos. Não se trata de hipocrisia. Não se trata de pensar de um jeito e agir de outro. Essa imagem pública é aquilo que desejamos para nós mesmos. Vou dar um exemplo do que quero dizer.

Há muitos anos, assisti à série Twilight Zone, traduzida no Brasil para “Além da Imaginação”. A série original, não à nova, que é muito ruim. Em um episódio, um homem obtém o poder de ouvir o pensamento das pessoas. Em determinado momento, uma beldade olha pra ele e pensa “nossa, que homem bonito, poderia ir pra cama com ele”. Sem pestanejar, o homem agarra a mulher e a beija, para, imediatamente, receber um tapa na cara. O homem fica desconcertado, porque aquela atitude não condizia com o pensamento que acabara de ouvir. Ocorre que uma coisa é o que as pessoas pensam em seu íntimo, outra coisa bem diferente é a sua imagem pública. Nossa mente é selvagem, indomável. O esforço de construção de uma imagem pública é o que permite a vida em sociedade.

As conversas privadas estão a meio caminho entre o pensamento e as falas públicas. Nas conversas privadas, dividimos nossos pensamentos íntimos com pessoas com quem nos sentimos à vontade, sem as amarras da vida em sociedade. Aliás, se era para condenar alguém, a Câmara de São Paulo também deveria afastar o vereador com quem a conversa foi mantida; afinal, se o vereador cassado se sentiu à vontade para soltar uma frase racista, foi porque confiava que seu interlocutor era também racista. Isso é da natureza das conversas privadas.

Nas conversas privadas podemos “pensar alto”. Isso não significa, no entanto, que realmente “pensamos” daquela maneira. E aí é que está o busílis da questão: nem tudo que vai em nosso pensamento é o que realmente pensamos. Duvido que a imagem pública de qualquer pessoa (qualquer pessoa mesmo) resistisse à divulgação de todas, absolutamente todas, as suas falas privadas. Às vezes falamos bobagens. E como falamos!

Vazamento de áudio é algo somente possível com o advento de microfones, uma invenção relativamente recente. Antes disso, não havia como captar conversas privadas. Fico imaginando se, no futuro, conseguirmos inventar uma traquitana que possa captar nossos pensamentos. Se o vazamento do áudio de conversas privadas já causa esse estrago, imagine o vazamento de pensamentos. Acaba a civilização tal qual a conhecemos. Há uma passagem na Novo Testamento, em que Jesus afirma que o adultério é condenado no Velho Testamento, mas que, no Novo, quem “olhar para uma mulher desejando-a já cometeu adultério com ela em seu coração”. Em outra passagem, Jesus afirma que “todos os pecados nascem do coração do Homem”. São mensagens fortes, que contradizem o dito popular de que “olhar não tira pedaço”. No entanto, ao mesmo tempo em que Jesus diz que se pode pecar até por pensamentos, convida quem não tem pecado a “atirar a primeira pedra”. Pudera! Quem poderia escapar de tamanha exigência?

Hoje estamos discutindo se piadas ou discursos políticos podem ser condenados criminalmente. A condenação de falas privadas vai um passo à frente. Piadas e discursos políticos são falas públicas, e seu julgamento depende de contexto. Já as falas privadas, pela sua própria natureza, sequer deveriam vir a escrutínio público. Como o próprio nome diz, são privadas, não públicas. (Aqui, por favor, não confundam a escuta devidamente autorizada por juiz quando há indícios de crime. O vazamento de áudio está longe de se enquadrar nesse caso). O juiz que julgou a causa do vereador o absolveu do crime de racismo, enquadrando sua fala na categoria de “pilhéria”, não de “segregação”. Ou seja, o juiz interpretou a fala de acordo com a imagem pública do vereador. Fosse um deputado bolsonarista, a fala comprovaria a imagem pública de racismo, o que demonstra que, na verdade, o crime não é necessariamente o que foi dito no áudio, mas a imagem pública, verdadeira ou falsa. De verdade, o correto seria o juiz descartar liminarmente a “prova”, por se tratar de vazamento de conversa privada. Esse é o contexto correto.

Para encerrar, e por falar em juiz, lembro de uma cena inusitada durante a pandemia, em que, durante um julgamento virtual, um juiz foi pego inadvertidamente vestindo somente uma cueca samba-canção na parte de baixo, enquanto, na parte de cima, usava a vetusta toga dos magistrados. Somos todos mais ou menos assim: para o público, respeitáveis. No privado, senti-mo-nos à vontade para relaxar, e fazemos coisas que não faríamos em público. Quem é o nosso verdadeiro “eu”? Ambos, cada um em seu contexto. Atire a primeira pedra quem nunca.

Colocando a pasta de dente de volta no tubo

Eugênio Bucci debruça-se sobre um problema nacional de primeira grandeza: o resgate das cores nacionais, sequestrada que foram pelos “machistas, racistas, xenofobos e mesquinhos”, ou pelas “tchutchucas e dondocas de classe média”, segundo suas palavras. Na avaliação de Bucci, os R$ 3 milhões que serão gastos no desfile de 7 de setembro em Brasília estão justificados, se forem usados para resgatar as cores da nacionalidade das mãos dos pérfidos bolsonaristas.

O jornalista lembra, com nostalgia, dos tempos em que o verde e o amarelo não representavam o “golpismo”. Cita as Diretas Já, uma canção de Chico Buarque, a redação da Capricho e o novo logo da Placar como exemplos do uso do verde e do amarelo que não significavam o que, em tese, significam hoje. O que aconteceu?

Sabemos o que aconteceu. Nada. As cores nacionais nunca foram, nem poderiam ser, monopólio de nenhum grupo. O verde e o amarelo sempre puderam ser usados por qualquer cidadão. Então, afinal, por que essa identificação que Bucci lamenta? Sinto dizer, Bucci, mas a culpa é, em boa parte, de vocês, jornalistas. No início, quando as cores verde e amarela tomaram as ruas em apoio ao impeachment de Dilma, não faltaram “análises” ironizando os “patriotas com a camisa da seleção”. Foram o PT e suas cracas na academia e nas redações que entregaram de mão beijada o simbolismo. Ao bolsonarismo, só coube receber o presente de braços abertos.

Obviamente, não serão R$ 3 milhões gastos em um desfile bolado por um marketeiro que irão resolver o “problema”. Agora, é preciso que esses mesmos que “mistificaram” o uso das cores, as “desmistifiquem”. No ano passado, quando Lula apareceu com a camisa da seleção para torcer na Copa do Mundo, a cobertura jornalística frequentemente citava o fato de que aquelas cores haviam sido usadas pelos seus oponentes. Cada menção a esse fato é mais uma regada no cultivo do simbolismo.

Mas há um porém adicional de grande importância. O símbolo do PT é uma estrela vermelha, ou uma estrela branca sobre um fundo vermelho. Fica difícil dissociar o partido dessa cor, ou associá-lo ao verde e ao amarelo. Nas últimas eleições, os marketeiros do PT dançaram miúdo para tentar diminuir o vermelho sem descaracterizar o partido. ISSO não tem como esconder: pode fazer o que for, a cor do PT sempre será vermelha. Mas o PSDB, que durante anos foi o oponente principal do PT em eleições majoritárias, e que tem o azul e o amarelo como cores predominantes, nunca usou esse fato a seu favor, talvez por achar esse artifício baixo demais. Afinal, como sabemos, o PSDB é um partido de gentlemen. Coube ao bolsonarismo usar as cores nacionais como simbolismo sem pudor, confundindo partidarismo com patriotismo.

Eugênio Bucci quer uma fórmula mágica para recolher a pasta para dentro do tubo. Ele mesmo não avança em nenhuma “solução” ou “estratégia”. Sinto dizer que, enquanto for o PT a liderar esse esforço, podem gastar muitos R$ 3 milhões, que isso não vai acontecer.

Aguardando a primeira harmonização facial da nova regra fiscal

O novo “arcabouço fiscal” foi finalmente aprovado, o PT, agora, tem uma regra fiscal para chamar de sua. Quer dizer, o PT não, que nunca gostou de regra alguma, mas o ministro Fernando Haddad.

Aliás, o nome “arcabouço” vem substituir a palavra “teto”, bem em linha com o academicismo do ministro. Um nome rebuscado para a mesma regra que limita formalmente os gastos do governo. A diferença entre o arcabouço e o teto é de magnitude, não de natureza: o arcabouço representa um teto ajustável no tempo, de acordo com o crescimento de receitas. O resultado é que qualquer resultado fiscal desejado será atingido de maneira muito mais lenta com o arcabouço do que com o teto. Mas o resultado final será, em tese, o mesmo. Digo “em tese” porque, assim como o teto “não funcionou” e foi desrespeitado, a nova regra também “não funcionará” e será desrespeitada. Aqui não se trata de uma questão de “se”, mas de “quando”.

O curioso é que o único breve período da história republicana brasileira em que uma regra fiscal foi obedecida ocorreu entre os anos de 1999 e 2013. Nesse período, o país produziu sucessivos superávits primários, seguindo uma regra não escrita. Por isso Lula afirmou que não precisava de regra alguma para ser responsável fiscalmente. E ele está certo: se um governo é responsável, não são necessárias regras. E se não é, as regras são letra morta, como ficou demonstrado pelo cadáver insepulto do teto de gastos, que só agora foi dignamente enterrado pelo Congresso. O que Lula não disse é que, para produzir superávits primários durante os governos do PT, não precisava de teto e nem de arcabouço fiscal. Com o crescimento econômico chinês puxando de arrasto o Brasil, os gastos do governo podiam crescer todo ano acima de 100% do crescimento das receitas (na regra do teto não podia crescer nada, no arcabouço, existe um teto de 70% do crescimento das receitas), pois o crescimento do país dava conta de manter as contas em ordem. Como sabemos, Lula pensa que estamos ainda naquela época.

O finado teto de gastos, que tinha como premissa um ajuste profundo dos gastos do Estado brasileiro, a começar pela reforma da Previdência, possuía como objetivo a produção de superávits primários em um horizontes de cinco anos. Já o “novo arcabouço fiscal”, sem nenhuma premissa de ajuste e com regras bem menos rígidas, pretende começar a produzir superávits primários em dois anos. Só por aí já vemos em que mundo vive o ministro da Fazenda, que acha que pode levar o mercado com sua fala mansa. A coisa funciona enquanto as águas do cenário global estão calmas. Na primeira tempestade de verdade…

O novo “teto de gastos mas chama diferente” passará pelo seu primeiro teste agora, em que ficará claro que estará longe de alcançar a meta declarada pelo ministro de zerar o déficit fiscal no ano que vem. Vamos ver se isso será reconhecido ou se a nova regra já passará pela sua primeira cirurgia estética. Lembrando que a regra do teto de gastos morreu pelo excesso de harmonizações faciais a que foi submetida.

O turismo em um país disfuncional

Nesse fim de semana, com o objetivo de conduzir o workshop que mencionei em meu post anterior, tomei um voo da Azul que saía de Viracopos. Já de volta, indo em direção à saída, cruzo com um conjunto de armários, também conhecidos como “lockers”.

Em minha viagem ao Japão, há quase um ano, tive a oportunidade de usar muito esse tipo de facilidade. Indo de uma cidade para a outra, às vezes era mais conveniente deixar as malas nesses armários e depois buscá-las no final do dia. Havia dois tipos de lockers: um que funcionava com moedas de 100 ienes e outro, mais moderno, que funcionava com o mesmo cartão usado no transporte público. Nos lockers que funcionavam com moedas, havia sempre uma máquina que fazia o troco do lado: você colocava uma nota de 1.000 ienes e a máquina “cuspia” moedas de 100 ienes. Nas máquinas que funcionavam com cartão, obviamente isso não era necessário: havia uma telinha que dava as instruções em inglês, você introduzia o cartão e… pronto, porta liberada. Nesse último tipo de locker, nem chave havia, a porta era destrancada com o próprio cartão usado para trancar.

Essa foi minha experiência no Japão. O locker de Viracopos é diferente: você precisa comprar um “token” sabe-se lá aonde. Não há instrução alguma sobre como utilizar, a não ser um telefone da empresa que mantém aqueles armários. Fico imaginando um estrangeiro tentando usar o equipamento. Tive a mesma experiência no aeroporto Santos Dumont: você precisa comprar uma “ficha” em um guichê ao lado, com uma pessoa que, obviamente, não fala inglês. Detalhe: uma armário para uma mala grande no Japão custava 700 ienes, algo como 5 dólares. Em Viracopos, custava R$ 80. Faça a conta.

É comum a percepção de que o Brasil tem um imenso potencial turístico e tal e coisa. Não tem. O Brasil é tremendamente hostil ao turista. E não estou falando da violência, mas da burocracia e da falta de alguém se colocar no lugar do turista e se perguntar: como posso facilitar a sua vida? Quem já fez check in em hoteis lá fora e aqui sabe do que estou falando. Nem mesmo um cartão universal de transporte público temos disponível. Não se trata de uma questão de dinheiro, mas de planejamento.

É nos pequenos detalhes (como o do locker) que se dá a hospitalidade. Belezas naturais e um povo hospitaleiro estão longe de serem suficientes para agradar ao turista. O país precisa funcionar. E o Brasil é disfuncional, sem nem sequer notarmos como. A não ser quando vamos para um país que funciona.

Imposto sindical ou financiamento partidário?

O problema da volta do “imposto sindical mas chama de outro nome” não é nem tanto a cobrança em si. É claro que queremos menos impostos, não mais. Mas o que mais irrita nesse imposto é o seu destino.

Os outros impostos que pagamos não estão carimbados. Entra tudo em um grande bolo, e o dinheiro é gasto em causas mais nobres ou menos nobres. No caso do imposto sindical, não: sabemos que o dinheiro que sai do nosso salário será usado pelos sindicatos, que não passam de franjas dos partidos políticos, principalmente do PT. Assim, sabemos que esses recursos serão usados, por exemplo, para pagar os balões da CUT e o pão com mortadela nas manifestações do partido. Além, é claro, do sustento da companheirada, que ninguém é de ferro.

Por conta dessa contaminação entre centrais sindicais e atividade partidária, essa proposta dificilmente prosperará no Congresso.

Dormindo com o amigo

Fico cá imaginando como vai se sentir uma das partes de um julgamento, sabendo que o juiz de sua causa é casado com o advogado da outra parte. Não deve ser uma sensação muito confortável.

O argumento para o liberou geral é risível: seria “impossível”:fazer esse controle. Como se fosse difícil para o juiz saber onde seu cônjuge ou seus filhos trabalham. E, mesmo que fosse realmente difícil, a lógica não para em pé: se a norma é difícil de ser cumprida, não é acabando com ela que se resolve o problema. O representante da Transparência Internacional lembra que, hoje, é relativamente tranquilo fazer o tracking de relações entre CNPJs. Ou seja, há formas de lidar com a questão sem que o bom princípio seja jogado no lixo.

O STF inaugurou o país em que um juiz é considerado parcial com base em provas obtidos de forma criminosa, mas é considerado imparcial mesmo que o advogado de uma das partes durma em sua mesma cama.

O fim da precarização

A solução para a precarização das condições de trabalho dos motoristas de Uber está à vista: os carros autônomos livrarão esses trabalhadores de suas longas jornadas de trabalho e ausência de direitos sociais. Em seguida, serão os entregadores a serem libertados de seu jugo, com a adoção de drones de entrega.

Motoristas e entregadores poderão, assim, buscar empregos dignos, com jornadas de trabalho humanas e muitos direitos sociais assegurados.