O “mercado” é um ente curioso

O “mercado” é um ente curioso. Reagiu bem ao “pacote” de medidas do novo governo da Argentina, pela simples razão de não ter sido um pacote que aumenta irresponsavelmente gastos públicos. Se o “pacote” vai resolver os problemas da Argentina, isso é outro detalhe.

Depois de sua posse, Alberto Fernandez afirmou que não vai mais “sacrificar” os que já estão sacrificados, e que a solução para os problemas econômicos da Argentina será a mais indolor possível. Este pacote é um exemplo disso. Só tem um detalhe: não vai resolver nada. A impressão que fica é que não sabem o que fazer. Exemplo disso é o prazo de 180 dias para estudar como não reajustar as tarifas energia. Estão tentando resolver a quadratura do círculo, e nem 180 anos seriam suficientes para encontrar uma solução.

Obviamente, a paciência do povo vai terminar muito antes disso, e o governo populista de Alberto Fernandez será levado a tomar medidas de acordo com sua natureza. Quando isso ocorrer, o “mercado” será tomado de “surpresa”. O “mercado” é um ente curioso.

O tamanho do desmatamento

Foi o menor desmatamento no Cerrado da série histórica. Manchete em página interna. Ok, critério do editor.

Mas o repórter não deixa por menos. Segundo “especialistas”, a área corresponde a “4 vezes o tamanho da cidade de São Paulo”. Fiquei me perguntando: especialistas em que? Em cálculo de área? Precisa ouvir “especialista” para saber que 6.484 km2 equivale a 4 vezes o tamanho de São Paulo? E que relevância tem essa informação? E se, ao invés disso, a informação fosse “a área equivale a 675 mil campos de futebol”? A informação seria tão irrelevante quanto, mas pelo menos o número seria mais impressionante.

Repetir bovinamente o que as ONGs falam é o triste papel a que se rebaixaram os jornalistas hoje. E nem percebem o quão non sense é a “informação” que propagam. Pelo menos, a manchete foi adequada à verdadeira notícia da matéria, o que não é comum nos dias que correm.

Informações técnicas para um embate político

Post de Eduardo Galvão:

Sobre Meio Ambiente, clima, Salles, etc.

Como muitos percebem por aqui, sempre comento e escrevo sobre meio ambiente.

Faço porque sou e vivi no e do campo por quase toda minha vida, e porque estudei o Direito Internacional do Meio Ambiente, mais especificamente sobre o Protocolo de Kyoto e os mecanismos de desenvolvimento limpo – MDL, que abrangem também o Mercado de Carbono (CO2).

As tratativas internacionais sobre o meio ambiente são iniciadas na cidade de Estocolmo no ano de 1972. Depois Rio de Janeiro em 1992, Kyoto em 1998 – executado com o fito de estudar as mudanças climáticas e o efeito estufa. Seguimos para acordo de Paris, agora Cop 25, entre outros encontros, protocolos, orientações, reuniões, etc.

Desde Kyoto estabelece-se o mercado de carbono de forma efetiva, que funciona da seguinte forma:

O Protocolo de Kyoto estabelece que cada país pode emitir determinada quantidade de GEE (Gases de Efeito Estufa), CO2 é apenas um deles. Importante salientar que este valor “permitido” de emissões não é padrão, onde os EUA podem emitir valores maiores que o Chile, por exemplo.

Acontece que os países desenvolvidos emitem sempre mais que o estabelecido pelo Protocolo, dessa forma tais países compram saldos de emissões de países que “economizam” nestas emissões, ou seja, compram dos países que não utilizam toda a sua cota.

Há também a possibilidade de que os países gerem energia limpa, podendo vender créditos dessa energia limpa a países que estão em déficit.

Basicamente “energia limpa ou renovável” é aquela que não é gerada pela queima de combustível fóssil (petróleo, carvão).

Como exemplo de energias limpas ou renováveis temos a eólica, solar, hidráulicas, álcool combustível, bagaço de cana de açúcar, entre outras.

Os 8 países com maiores fontes de energias limpas e renováveis são: Islândia, Lesoto, Albânia, Butão, Paraguai (por conta de Itaipú Hidrelétrica Binacional), Moçambique, Noruega e Brasil.

Notem que das potências mundiais (sim, somos uma potência na soma de vários critérios), somente o Brasil destaca-se como país que usa energia limpa ou renovável. Somos ainda o primeiro país do mundo a promover um leilão de energia de fonte eólica.

Se destacamos os 8 países que mais utilizam energia limpa ou renovável, devemos também destacar os maiores usuários de combustível fóssil, ou seja, aqueles que mais contribuem para o “Aquecimento global”. São eles:

8o) Coréia do Sul – Emissões 610.065,60 Ktons CO2;

7o) Irã – Emissões 618.197,22 Ktons CO2

6o) Alemanha – Emissões 767.145,57 Ktons CO2;

5o) Japão – Emissões 1.278.921,81 Ktons CO2;

4o) Rússia – Emissões 1.766.427,27 Ktons CO2;

3o) Índia – Emissões 2.341.896,77 Ktons CO2;

2o) Estados Unidos – Emissões 5.334.529,74 Ktons CO2;

1o) China – Emissões 10.540.749,59 Ktons CO2.

Erradamente, durante muito tempo, foi dito que as florestas são os reguladores do clima global, e que a Amazônia era o pulmão do mundo. Hoje é sabido que aquilo que as florestas sequestram num período, elas liberam no outro, e que os grandes sequestradores de GEE (Gases de Efeito Estufa) são os oceanos.

Aqui vai uma opinião pessoal: Não considero o CO2 um “gás de efeito estufa”, pois ele é o gás da vida, da respiração, seja dos animais ou das florestas.

Mas, de qualquer maneira, é desejo de todos que as florestas permaneçam em pé, desta feita, seguem os países com mais florestas, relativamente a seu tamanho;

1o) Brasil – 63% do território

2o) Congo – 57%

3o) Angola – 55%

4o) Indonésia – 54%

5o) Peru – 50%

6o) Rússia – 49%

7o) Canada – 24%

8o) Estados Unidos – 23%

Notem que novamente, dos países com território continental, lideramos a proteção ao meio ambiente.

Voltando ao escopo do texto, as negociações de créditos de carbono, notadamente, e de acordo com o Protocolo de Kyoto, o Brasil tem créditos a receber, visto não utilizarmos nossa totalidade de emissões, visto sermos produtores de energia limpa e renovável, visto ser legal e correto.

Dizem os jornais, e a Globo sempre trabalhando em desserviço ao país, que o Ministro Salles “erradamente” travou as negociações da Cop 25.

Travou SIM, e deveria travar MESMO! Temos das maiores florestas do mundo, não emitimos os GEE (gases de efeito estufa) que poderíamos, somos produtores de energias limpas e renováveis, e temos muito dinheiro a receber por todos esses ATIVOS AMBIENTAIS.

Fundo Amazônico e demais esmolas que vivem a nos pagar são verdadeiros passa moleques, vindos de países desenvolvidos que nos devem, não nos pagam, e querem frear o nosso desenvolvimento, e de demais países que precisam se desenvolver.

Fica Salles, peite os caras, mostre a verdade, e receba os créditos por todos nossos ativos ambientais.

Os métodos que nunca foram aplicados

Eliane Catanhêde escreve hoje uma coluna que sintetiza bem a gritaria que se instalou na inteligentzia nacional ao ver um de seus heróis ser chamado de “energúmeno” por ninguém menos que o presidente da República. Até acho que o presidente não deveria se prestar a esse papel, tem a tal liturgia do cargo, etc. Mas sua intervenção foi útil pelo menos para deixar claro porque estamos onde estamos.

Paulo Freire desejava o bem, que se traduz na igualdade entre as pessoas. Pronto. É o que basta para ser idolatrado. Se os seus métodos funcionam para atingir o objetivo, isso é mero detalhe, irrelevante mesmo.

Mas Catanhêde vai além, e repete a falácia dos socialistas: o socialismo não deu certo não porque não funcione, mas porque os seus princípios foram jogados fora. O “verdadeiro” socialismo funciona, é que nunca foi implementado. Da mesma foram, a educação brasileira está uma lástima não porque se tenha aplicado os métodos de Paulo Freire, mas justamente porque não os aplicaram! “Jogaram fora”, diz a colunista, em uma voz passiva que lhe permite não determinar quem é esse sujeito tão sórdido que descartou os ensinamentos de tão egrégio ener…, quer dizer, educador.

Não sou pedagogo, então não vou aqui me meter a discutir sobre os méritos ou deméritos do método de Paulo Freire. A única coisa que sei é que ele é o Patrono da Educação em uma nação de analfabetos funcionais, que está na rabeira da fronteira tecnológica. Isso diz alguma coisa.

A trindade impossível

O Estadão pública hoje editorial sobre a COP-25. Não havia me atentado ao fato da “igualdade” ter sido colocada como uma meta, no mesmo nível da preservação e do crescimento econômico. Assim, temos uma trindade de objetivos: preservação, crescimento e igualdade.

O editorialista afirma que não se trata de um objetivo impossível de ser alcançado, mas não esclarece de onde vem o seu otimismo. Parece mais um wishful thinking.

Muito pelo contrário: as energias limpas são mais caras e, portanto, tendem a abrir um fosso ainda maior entre ricos e pobres. Basta pensar nos alimentos orgânicos: se, do dia para a noite, os alimentos não orgânicos fossem proibidos, adivinha quem iria morrer de fome. Claro, sempre se fala em uma longa transição e em subsídios para as energias limpas. Bem, longa transição não orna com a urgência que a Greta quer, e os subsídios precisam ser combinados com aqueles que irão pagá-los, inclusive os mais pobres. Ou alguém acha que é só rico que paga imposto?

Já era difícil conciliar preservação com crescimento, imagine agora tendo também que aumentar a “igualdade”. Não é à toa que virou um grande impasse. A dura realidade é que são objetivos contraditórios e qualquer solução sempre ficará aquém do desejado.

A usina de Belo Monte é um belo exemplo dessa contradição: construída a fio d’água para evitar alagamento de terras indígenas e a extinção da biodiversidade local, Belo Monte só funciona durante pouco mais da metade do ano. Para fazer frente à demanda, o operador pediu permissão para construir uma usina termoelétrica, altamente poluidora. Claro, sempre podemos deixar desligado nosso ar-condicionado no verão, mas parece que o pessoal não gosta muito dessa alternativa, que verdadeiramente nivelaria ricos e pobres. Por baixo.

Políticas sociais e desenvolvimento

Duas notícias ontem na capa do Valor.

A China está se aproximando rapidamente da fronteira tecnológica, várias companhias chinesas de tecnologia estão entre as mais valiosas do mundo e a Huawei está brigando de igual para igual na tecnologia 5G, que é a próxima fronteira.

Não, a China não tem um sistema universal de saúde (a não ser para as áreas rurais, onde funciona mal), o pessoal tem que pagar seguro-saúde. Também não tem universidade pública gratuita, o pessoal tem que pagar também. E também não tem sistema público universal de aposentadoria.

Não estou aqui sugerindo que há uma dicotomia entre investimentos públicos de bem-estar social e desenvolvimento de tecnologia. Ambas podem caminhar juntas, assim como pode existir uma sem existir a outra. Meu único ponto é que a China resolveu ficar rica antes de desenvolver seu sistema de proteção social. E a desigualdade do país não a está impedindo de avançar rumo ao seu objetivo. E antes que digam que a China é uma ditadura e, portanto, seu exemplo não vale, Coreia e Japão fizeram exatamente o mesmo.

Enquanto isso, não conseguimos montar uma mísera fábrica de chips. Mas a saúde e a educação públicas, ó…

A fortuna dos defensores dos pobres

Sergio Cabral vai devolver R$ 380 milhões aos cofres públicos.

R$ 380 milhões!!!

E convenhamos, Sergio Cabral é um cardeal, mas está longe de ser o papa. Se ele roubou esse tanto na física, quanto foi roubado pelo esquema todo, inclusive para fazer campanha eleitoral?

Lembro de uma reunião que tive com um analista político antes das eleições de 2014. Ele tinha mantido reuniões nos comitês do PT e do PSDB. A primeira observação dele foi que o PSDB não tinha a mínima chance: o comitê de PT era tão mais rico, tão mais bem estruturado, que ele tinha pena de qualquer adversário.

Eu sei que, a essa altura do campeonato, eu não deveria mais me espantar com esses valores. Mas é que não consigo deixar de pensar que esse pessoal ainda está por aí, defendendo os pobres.

O “ultraliberalismo”

Sou fã do Cláudio Adilson, acho que é um dos melhores economistas do Brasil. Tendo dito isso, seu artigo de hoje no Estadão parece ter sido mais influenciado por suas opiniões políticas do que pelo rigor que sempre marcou o seu trabalho.

O artigo começa com uma falácia, acusando os “ultraliberais” de defender a ineficácia de ações governamentais sem que haja crescimento econômico anterior. A começar do uso do termo “ultraliberal”, que se presta bem a dividir os liberais entre os malvados e aqueles que têm bom coração, que seriam “liberais”, mas com consciência social.

Mas a principal falácia está em colocar a discussão “em tese”, como se estivéssemos discutindo sobre uma folha em branco, quando na verdade temos um histórico gigantesco de políticas de bem-estar social há décadas. Ou seja, o Brasil até hoje não foi governado por “ultraliberais”, possui políticas de bem-estar social às pencas (aposentadoria, saúde universal gratuita, educação gratuita da creche à faculdade), e mesmo assim, depois de décadas dessas políticas, somos um dos países mais desiguais do mundo. Algo está errado, não?

Em seu artigo, Cláudio Adilson condena o uso de políticas redistributivas com base na “taxação dos ricos”, dizendo que a literatura econômica já mostrou serem ineficientes. Também condena o Bolsa Família em seu atual formato. O que Cláudio Adilson defende são as chamadas “políticas pré-mercado”: o Estado deveria proporcionar educação e saúde de qualidade para a população mais pobre, para que tivessem as mesmas chances que os mais ricos. Sério? Por que não pensamos nisso antes???

O Brasil hoje já oferece educação e saúde universais de graça para a população mais pobre. A qualidade, como sabemos, deixa muito a desejar. Por que? É esta pergunta que economistas como Cláudio Adilson deveriam estar gastando o seu tempo e seu espaço na imprensa para responder, e não repetindo obviedades acacianas.

Cláudio Adilson termina o seu artigo atacando o governo, supostamente formado pelos “ultraliberais” sem coração. Parece ter sido esse o objetivo desde o início: marcar uma distinção entre os “liberais esclarecidos” e os brucutus que estão no ministério da Economia. A mim me parece (e já escrevi isso aqui) que é só uma questão de ênfase no discurso: colocar o combate à desigualdade como um objetivo explícito de política pública, para tornar mais palatável as reformas necessárias do Estado brasileiro. No final do dia, brucutus e esclarecidos defendem basicamente as mesmas coisas

A necessidade do jornalismo

Tentei destacar um ou outro trecho deste artigo de Carlos Alberto Di Franco, mas não consegui. O artigo inteiro é uma ode ao jornalismo de qualidade, escrito por alguém que vive o jornalismo por dentro. Fica uma conclusão, não escrita pelo autor: se os jornais estão hoje em crise, não é por conta da Internet ou do Google. O problema são os próprios jornalistas, que deixaram de fazer jornalismo.

Da mão para a boca

Um artigo e uma notícia na mesma página. O artigo é de Adriana Fernandes, que escreve sobre a situação dos governos regionais, protegidos por decisões do STF que os desobrigam a fazer ajustes para receber recursos da União. A notícia nos informa que 25% dos municípios brasileiros não têm dinheiro para pagar o 13o salário e pretendem usar o dinheiro do pré-sal para esse fim.

O artigo chama a atenção para a leniência do STF, o que levou os governos regionais a não realizarem os ajustes necessários em suas finanças. Segundo a jornalista, a única forma de a União defender-se é negar aval para novos empréstimos dos governos regionais. Com isso, o único banco que ainda se disporia a emprestar seria a Caixa, que aceita como garantia o dinheiro do Fundo de Participações dos Municípios. Agora, imagine a Caixa tentando reaver o seu dinheiro no STF… O que teremos, na prática, é a criação de um rombo na Caixa, que deverá posteriormente ser coberto por uma capitalização por parte da União. Ou seja, todos nós.

Em suas decisões, o STF argumenta pela “urgência social”. Sim, com certeza o Brasil tem muitas “urgências sociais”. Cabe ao Legislativo, não ao Judiciário, definir quais urgências serão atendidas. É óbvio que nem todas podem ser.

A visão de mundo de alguns ministros do STF é compartilhada por grande parte da população brasileira. Segundo essa visão, as pessoas têm o direito de verem atendidas todas as suas necessidades e o Estado tem o dever de atendê-las todas. Nesta equação, pouco importa se o país cria riqueza suficiente para atender a todas as demandas. O Brasil é um país rico, onde se plantando tudo dá. Deste trecho da carta de Pero Vaz, ficamos com a parte do “tudo dá” e esquecemos da parte “em se plantando”.

Ainda bem que neste ano temos os recursos do pré-sal. Ano que vem, veremos o que mais podemos vender para pagar as contas. E ainda bem também que temos um governo que vende coisas sem muito peso na consciência. Fosse um outro governo, cioso das “nossas riquezas”, a única saída, como bem demonstram Argentina e Venezuela, seria a inflação, o mais letal destruidor de riquezas conhecido.