O que queremos, afinal?

Falávamos mais cedo sobre instituições. A OCDE reúne os países mais ricos do mundo, e exige padrões mínimos de governança de seus membros. Ok, ok, países como México, Grécia e Turquia não são exatamente exemplos, mas ao menos são forçados a caminhar na direção correta.

E o Brasil?

Deitado eternamente em projeto esplêndido

A UFRJ está planejando conceder prédios ociosos para arrecadar recursos.

O projeto está sendo elaborado há três anos.

TRÊS ANOS!

Se uma equipe em uma empresa privada levar três anos para elaborar um projeto qualquer, será demitida por absoluta incompetência. Não existe elaboração de projeto que leve três anos, com exceção, talvez, de colocar o homem em Marte. Uma simples concessão de um espaço público certamente não tem esse nível de complexidade.

Lembre-se disso sempre que você ouvir os professores, alunos e especialistas chorando a situação da UFRJ.

Velha Política com o seu bolso

Não costumo dar muito peso a essas “notinhas políticas”. Além de não passarem de fofocas irrelevantes de bastidores, já vi algumas vezes serem desmentidas logo em seguida. Mas chamou-me a atenção que Paulo Skaf tenha ligado (três vezes!) para Bolsonaro, a fim de convencê-lo a manter o limite para a Lei Rouanet. O que tem a ver Skaf com os artistas? E mais, o que tem Skaf a ver com Bolsonaro?

A resposta à segunda questão está na mesma página: Skaf é o novo aliado de Bolsonaro em São Paulo para enfrentar João Doria.

Paulo Skaf é o Paulinho da Força dos empresários, defensor número 1 das meias-entradas para a catchiguria. Tem alguma mamat… quer dizer, incentivo para alguma indústria nascente, como a automobilística? Paulo Skaf está lá, articulando. Se Paulo Guedes tinha alguma esperança de tirar o dinheiro do Sistema S, com essa aproximação pode tirar o cavalinho da chuva.

O que nos remete à primeira questão: por que Paulo Skaf teria tanto interesse em manter um limite alto para a Lei Rouanet? Simples: as empresas teriam mais espaço para “incentivar as artes”, colocando os seus logos em filmes e peças teatrais e posando de mecenas sem tirar um tostão do bolso, só usando o dinheiro dos impostos não pagos. É um ganha-ganha, onde quem perde você sabe quem é.

Bolsonaro tem o direito de se aliar com quem quiser. Só não me venham dizer que isso é a Nova Política.

Democracia e distribuição de renda

Uma pesquisa coordenada por um grupo de Think Tanks sem vinculação partidária procurou medir a saúde da democracia no mundo. A pesquisa foi realizada em países da União Europeia e na América do Norte, e incluiu o Brasil.

Chamou-me a atenção os números de desconfiança, no Brasil, nas instituições que sustentam a democracia representativa. A polícia é a instituição que mais se aproxima da média de aprovação que recebe nos países desenvolvidos, mas mesmo assim fica abaixo da média. A confiança nas outras instituições é praticamente inexistente.

Instituições são a formalização do poder. Na selva, vale a lei do mais forte. Na civilização, as instituições nivelam o campo de disputa pelo poder. Não se trata mais de um poder discricionário, mas de regras estáveis governando a relação entre os homens. A democracia representativa só funciona com instituições fortes e confiáveis.

A julgar pelo resultado dessa pesquisa, o brasileiro está pronto para uma aventura autoritária. Como sabemos, todos concordam que a democracia é um bom sistema de governo, mas o melhor mesmo é uma ditadura comandada por um ditador que comungue das minhas ideias. E este é o problema do caminho autoritário: as minhas ideias são muito particulares, ainda que eu esteja convencido de que são as melhores possíveis. Em uma ditadura, as instituições se resumem ao ditador. É a lei da selva.

Na matéria que apresenta os resultados da pesquisa, o coordenador afirma que a única forma de “salvar” a democracia é distribuir melhor os resultados do crescimento econômico. Seria a única maneira de evitar que um ditador populista propusesse com sucesso fazer o mesmo. Ele cita a China como exemplo de sucesso econômico sem democracia, o que demonstraria a possibilidade. Em que pese que o gigante asiático não se destaca especialmente pela distribuição de renda.

Quer dizer, a má distribuição da renda estaria por traz da falta de credibilidade das instituições democráticas. É uma tese. Vou propor outra: a falta de instituições fortes está por traz da má distribuição de renda. A primeira tese implica uma solução econômica: distribuir renda, seja por que meio for (inclusive autoritário, que foi o caminho cubano) levaria a um aumento da democracia. A segunda tese implica uma solução política: o fortalecimento das instituições (ou seja, o fortalecimento da democracia) levaria a uma melhor distribuição de renda. A primeira solução é tecnocrática, envolve desde o reforço de programas como o bolsa-família, até grandes reformas, como a tributária. A segunda solução envolve as elites (todas elas) abrindo mão de seu poder discricionário para estabelecer meias-entradas para si próprias e respeitando as instituições, a começar da lei que beneficia a todos e não somente às próprias elites.

Solução econômica ou solução política para a má distribuição de renda? Eu tenho a minha tese de qual é a única que funciona.

Teoria dos jogos e o radicalismo na política

A Economist torce o nariz para os candidatos conservador e trabalhista, anunciando seu apoio aos liberais-democratas. É um pouco como se a imprensa liberal local (o Estadão, por exemplo) anunciasse seu voto em Geraldo Alckmin contra Bolsonaro e Haddad. Tem pouco efeito prático, como se viu nas eleições de 2018.

É até certo ponto um enigma a falta de votos do chamado “centro razoável”. É lugar-comum o raciocínio de que a maior parte do eleitorado não é radical e estaria, portanto, pronta a votar em um candidato “de centro”. Há uma “avenida a ser explorada”, dizem.

Uma pista do porquê do fracasso das alternativas de centro pode ser intuída da própria matéria da Economist. A revista acha “razoável” um aumento “razoável” de gastos públicos com um aumento “razoável” de impostos. O candidato liberal-democrata seria esta alternativa “razoável”.

Ocorre que uma parcela crescente da população não aguenta mais “pagar imposto pra sustentar vagabundo”, enquanto outra parcela quer “que os ricos distribuam sua renda para os pobres”. E esta clivagem, por incrível que pareça, tem pouco a ver com a renda: tem muito pobre muito cioso do seu mérito em ter conseguido o pouco que conseguiu, e tem muito rico com peso em sua consciência social. Se fosse somente uma questão de renda, não precisaria de eleição, bastaria um censo econômico.

Assim, estes dois grupos, ainda que minoritários, põem-se firmemente ao lado de candidatos com ideias radicais. O que acontece com o centro, que de fato é majoritário se comparado aos extremos? Aqui entra um pouco de Teoria dos Jogos: o eleitor de centro, apesar de ser de centro, tem um certo viés para um dos dois lados mais radicais. A sua primeira opção seria o centro, mas uma segunda forte opção é evitar que o “outro lado” vença. Como votar no candidato de centro é assumir o risco de que o outro lado vença, o voto vai para o segundo ótimo, que é o candidato radical do lado “menos ruim”. O eleitor centrista serve então como o fiel da balança entre dois candidatos radicais, mas sem poder para eleger um candidato centrista. Está aí John Nash explicando a polarização atual.

Eleição é emoção. Difícil imaginar um candidato de centro defendendo apaixonadamente um programa de “um pouco mais de impostos para um pouco mais de benefícios sociais”. Somente candidatos radicais conseguem despertar paixões. Alckmin foi o símbolo máximo dessa falta de emoção. O povo, a essa altura do campeonato, quer ver o circo pegar fogo. E os bombeiros do centro vão continuar votando no incendiário menos deletério.

O peso do setor financeiro

Em seu primeiro dia de negociação na Nasdaq, a XP foi cotada a US$33/ação, o que resulta em um valor de mercado de aproximadamente US$18 bi. Isso faz da XP a 12a maior empresa brasileira de capital aberto, empatada com a Magazine Luiza. O ranking das 20 maiores empresas de capital brasileiro aberto é o seguinte (valores em dólares):

  • 1. Petrobras: 99 bi
  • 2. Itaú: 79 bi
  • 3. Ambev: 70 bi
  • 4. Bradesco: 64 bi
  • 5. Vale: 63 bi
  • 6. Banco do Brasil: 32 bi
  • 7. Itaúsa: 28 bi
  • 8. B3: 23 bi
  • 9. Vivo: 22 bi
  • 10. BTG Pactual: 19 bi
  • 11. Magazine Luiza: 18 bi
  • 12. XP: 18 bi
  • 13. BB Seguridade: 17 bi
  • 14. JBS: 17 bi
  • 15. Weg: 16 bi
  • 16. Suzano: 12 bi
  • 17. Eletrobrás: 12 bi
  • 18. Lojas Renner: 10 bi
  • 19. Sabesp: 10 bi
  • 20. Hapvida: 10 bi

Note que, dos 12 primeiros lugares, 7 são do mercado financeiro, sendo 4 bancos . Isso porque a Caixa não tem capital aberto, senão certamente figuraria entre as maiores 12 empresas.

Dentre as 12 maiores empresas americanas, 4 são do mercado financeiro, sendo 2 bancos. E 5 são de tecnologia.

A XP surge como um disruptor do modelo centrado nos bancos. Atrás dela outras startups certamente surgirão. Mas o peso do setor financeiro no Brasil continuará o mesmo durante ainda muito tempo.

Personalidade do Ano

Fosse Bolsonaro o escolhido como Personalidade do Ano, a quantidade de gente lembrando que a Time tem Adolf Hitler em seu curriculum seria uma enormidade. Portanto, colocar o bigodinho para desqualificar as escolhas da Time pode servir para qualquer um, a depender do lado de quem faz a comparação.

Os editores da Time já esclareceram várias vezes que suas escolhas para a “Personalidade do Ano” não tem nada a ver com as ideias da pessoa escolhida, mas com sua influência e destaque naquele ano. Neste sentido, a escolha de Greta Thunberg é coerente com os critérios adotados. Acho que eu mesmo já escrevi mais sobre Greta aqui do que sobre qualquer outra personalidade internacional. O ambientalismo encontrou em Greta Thunberg o seu rosto. De fato, não tem nada que representa melhor o catastrofismo ambientalista do que as caras e bocas de Greta. E, sem dúvida, o ambientalismo é um tema onipresente hoje, concorde-se com isso ou não.

Pode-se afirmar que Greta não passa de um produto bem acabado de marketing, criado por interessados no tema. Ou seja, não teria mérito próprio para conseguir a indicação. Mas isso é não entender a natureza da escolha. Não se trata do Prêmio Nobel da Paz, que exige alguma iniciativa pessoal para ser obtido. A revista já escolheu como Personalidade do Ano o computador pessoal, o americano médio e o próprio planeta Terra. Trata-se, portanto, de uma indicação antes de tudo midiática. E, gostemos ou não, Greta é midiática, um símbolo do fast food em que se tornou o debate de qualquer assunto atualmente.

Qual o centro da política?

Rosângela Bittar, nova colunista do Estadão, defende a tese de que não há polarização na política brasileira. Para provar a sua tese, Rosângela afirma que há pelo menos três “anti-Lulas” na praça, o que indicaria um quadro mais multifacetado. A tese é discutível, mas o que me chamou a atenção foi a classificação que a experiente colunista faz dos “anti-Lula”: Bolsonaro seria “extrema-direita”, Doria seria “direita” e Ciro Gomes seria “centro”!

Ok, classificar Bolsonaro como “extrema-direita” é uma necessidade atávica da imprensa brasileira, o que puxa todos os seus adversários para a órbita da direita. Mas classificar Ciro como “centro” é só a demonstração de como essa classificação é capenga. A classificação mais óbvia seria Bolsonaro à direita, Doria como “centro” e Ciro como “esquerda”. Mas aí teríamos que assumir que Lula é “extrema-esquerda”, o que obviamente não confere com a narrativa.

Imagine o inverso: o “anti-Bolsonaro” da extrema-esquerda seria Lula, da esquerda seria Ciro e do centro seria Doria. É absolutamente simétrico com a classificação anterior, mas seria um Deus-nos-acuda.

Essa classificação entre “direita” e “esquerda” é sempre sujeita a muita discussão. Mas tem coisas que são indiscutíveis. Uma delas é afirmar que Ciro Gomes é uma alternativa de centro. Simplesmente não dá.

Inspiração

O vigia noturno aqui da empresa disse que vai se inspirar no novo presidente da Argentina: só vai pagar sua dívida com o Bradesco quando tiver um aumento de salário.