Negócio imperdível

O BNDES não quis emprestar R$2 bilhões para o seu CAOA comprar a fábrica da Ford.

Haveria outras alternativas. Por exemplo, há outros bancos na praça que poderiam emprestar o dinheiro. Ou, o seu CAOA poderia emitir debêntures no mercado e captar o dinheiro diretamente do grande público.

O problema dessas outras alternativas provavelmente estaria na taxa de juros / prazos compatíveis com o risco de crédito do grupo CAOA. Taxas altas e prazos não muito longos. O BNDES é aquela mãe que empresta dinheiro para o filho a juros e prazos camaradas. Parece que acabou o dinheiro da mãe.

Fosse um negócio realmente imperdível, não faltaria financiamento em um mundo de taxas de juro zero e excesso de liquidez. Talvez a compra da fábrica da Ford não seja um negócio imperdível. Talvez por isso a Ford tenha fechado a fábrica. São só conjecturas.

As mentiras convenientes dos políticos

A Economist traz um artigo (traduzido pelo Estadão) criticando as “mentiras” contadas pelos políticos de todas as colorações. Quando você vai ler, as “mentiras” não passam do que conhecemos como “promessas de campanha”.

Em uma campanha política, cabe aos candidatos inculcar nos eleitores “ideias de esperança” em relação a si próprios e “ideias de medo” em relação aos seus adversários. Quando o PT prometia pleno emprego, ou quando dizia que seus adversários iriam acabar com o bolsa-família, estava obviamente mentindo. Mas eram mentiras dentro do contexto de uma eleição. Cabe aos eleitores discernirem o que é factível daquilo que não passa de promessas delirantes.

Aí é que mora o problema. As pessoas querem ouvir notícias boas e rejeitam ouvir as más notícias, mesmo sendo verdadeiras. Muitas vezes não estão preparadas para a verdade nua e crua dos fatos. No mundo dos investimentos, por exemplo, as pessoas tendem a não gostar quando ouvem que “não tem como gerar esse nível de retorno que você quer”. Essa é a mensagem verdadeira, mas que é rejeitada por muitos investidores, que acabam caindo em arapucas que prometem “muita rentabilidade sem risco”.

Vão longe os tempos em que um Churchill não prometia nada além de “sangue, suor e lágrimas”. Hoje todos os políticos mentem. A sociedade assim o quer.

Paul Volcker e a política monetária raíz

Você consegue imaginar a inflação nos EUA em 12% e a taxa básica de juros (a Selic deles) em 20%? Pois é, isso aconteceu nos selvagens inícios dos anos 80.

Com o 2o choque do petróleo em 1979, a inflação subiu de maneira descontrolada no mundo desenvolvido. Paul Volcker era então o presidente do Federal Reserve, o equivalente ao Banco Central norte-americano, responsável por manter o poder de compra da moeda. O instrumento para isso, assim como hoje, eram as taxas de juros básicas, determinadas pelo board do Fed.

Paul Volcker não teve dúvida: para uma inflação que já estava em dois dígitos, não se deixou levar pela cantilena do “esse é um choque de oferta, não um problema de demanda em excesso”, argumento preferido dos adeptos do “um pouco mais de inflação para um pouco mais de crescimento”. Para Volcker, inflação era inflação, não tinha raça nem cor.

A política monetária de Volcker jogou os EUA em uma grande recessão, além de quebrar os países mais endividados, como México e Brasil. Mas controlou a inflação, que era o seu objetivo. E os EUA, para não variar, saíram melhores do que entraram. Tudo porque o presidente do Banco Central, que cumpriu seu mandato sob presidentes democratas e republicanos, teve a ousadia e a autonomia para cumprir o que prescrevia o livro-texto.

RIP, Paul Volcker.

A volta dos que não foram

Essa história do imposto sindical me faz lembrar aquela da CPMF: balões de ensaio e, depois, “nunca ninguém disse isso”.

A seu favor, Rogério Marinho realmente tem em seu histórico a defesa intransigente do fim dessa excrescência. É justo o contrário de Marcos Cintra, que construiu a sua carreira na defesa do “imposto único”. Portanto, deve ter sido um mal-entendido mesmo, ou a tentativa de tumultuar o ambiente da reforma sindical.

De qualquer forma, foi útil toda essa confusão: a exemplo do caso da CPMF, ficou claro para todos os envolvidos que o imposto sindical não tem espaço sequer para discussão.

Falando sério sobre distribuição de renda

Eliane Catanhêde dá a sua dose de contribuição para o debate sobre o IDH. Destaquei sua opinião porque representa a média do que se ouve falar por aí: o Brasil é um país rico, mas injusto. O problema é distribuir essa riqueza mais igualmente.

Que a distribuição de renda no Brasil é uma vergonha não se discute. Ninguém em sã consciência é contra redistribuir riquezas. O problema é a premissa anterior, a de que somos um país rico. Ouço essa afirmação muitas vezes: com tantas riquezas minerais, florestas, produção agrícola, mar, etc, o Brasil é muito rico. Só [preencha com o que preferir aqui] impede o país de deslanchar. A desigualdade é a última moda em “causas para o nosso subdesenvolvimento”.

Não, o Brasil não é um país rico. Nem no século XVI se media riqueza pelos recursos naturais, quanto mais hoje, em uma sociedade tecnológica. Somos um país remediado, que faz questão de redistribuir migalhas enquanto castas públicas e privadas sugam o orçamento público sob os mais diversos argumentos de “direitos adquiridos”. Ninguém quer ceder um milésimo de sua posição para melhorar as condições do todo.

Como jornalista, Eliane não deve ser CLT. Portanto, paga menos imposto do que minha empregada doméstica. O que ela não paga de imposto é compensado com impostos sobre bens de consumo, que minha empregada compra. Injustiça na ida e na volta. Vamos começar a falar a sério sobre redistribuição de renda?

O IDH e o PIB/capita

O IDH foi criado para servir como substituto do PIB/capita como medida do bem-estar de um povo. Assim, ao PIB/capita somaram-se a expectativa de vida e os anos de escolaridade para compor o IDH. Desse modo, sociedades que conseguissem maior longevidade e mais anos de estudos de sua população poderiam compensar o fato de serem, afinal, pobres.

Montei um pequeno gráfico que mostra o óbvio: quanto mais rico um país, maior o seu IDH. Não há, via de regra, como escapar da lógica da pobreza: quanto mais pobre, menor o nível educacional e menor a longevidade. Não estou aqui estabelecendo causalidades, estou apenas constatando um fato.

O gráfico foi construído com o logaritmo do PIB/capita. Ou seja, o que importa não é tanto o NIVEL da riqueza, mas a sua VARIAÇÃO. Em outras palavras, um país tende a crescer 1 ponto no IDH se sua renda/capita crescer um certo percentual, independentemente do nível atual. Portanto, o CRESCIMENTO econômico é o que manda. O coeficiente de determinação dessa regressão é de 0,9.

Assim como o PISA, daqui a 50 anos “especialistas” estarão discutindo como melhorar o IDH de um país que caiu na armadilha da “renda média”, que distribui suas riquezas antes de produzi-las.

A diferença entre a Noruega e o Brasil

A Noruega encontrou petróleo no mar do Norte. Foi um bilhete de loteria. Então, estabeleceram um Fundo Soberano, onde guardam as receitas geradas pela exploração do petróleo, e gastam apenas os rendimentos financeiros gerados pelo Fundo. Resultado: o capital fica lá, intacto, para as próximas gerações usufruírem.

O Brasil encontrou petróleo na camada do pré-sal. Foi um bilhete de loteria. Então, a União fez uma capitalização da Petrobras que reforçou o caixa do governo com uma contabilidade criativa, o RJ entrou em uma orgia de gastos públicos antes que o primeiro real dos royalties entrasse no seu caixa, usaram a Petrobras como vaca leiteira da corrupção do sistema político e dividiram as receitas da concessão de exploração da área antes mesmo do leilão. Resultado: as gerações futuras já nascem endividadas.

O problema de fundo é que na Noruega nascem noruegueses, enquanto no Brasil nascem brasileiros. Se pudéssemos dar um jeito nisso, haveria esperança.