Fica Sampaoli!

O Santos não ganhou nada esse ano. A julgar pelos resultados frios, a torcida deveria estar pedindo a cabeça de Sampaoli.

Não foi o que se viu ontem na Vila Belmiro. A torcida entoou várias vezes o coro “fica Sampaoli!”. Por que outros times, com resultados tão pífios quantos os do Santos, trocaram de técnicos como se troca de camisa, enquanto Sampaoli é idolatrado pela torcida?

Falo como torcedor santista: ganhando ou perdendo, dá gosto de ver o Santos jogar. Sempre com vontade, sempre pra frente, sempre agudo, nunca burocrático. Em entrevista ao Estadão ontem, Rodrygo afirmou que chamou sua atenção a intensidade do futebol europeu. Mas, como era o mesmo tipo de treinamento que fazia com Sampaoli no Santos, não teve dificuldade de adaptação. Coincidência ou não, Rodrygo vem brilhando.

Claro que todo mundo gosta de título. Mas ganhá-los depende de uma série de fatores, às vezes se perde no detalhe. Agora, jogar um bom futebol é obrigação de todo time de futebol profissional. E a torcida reconhece o bom futebol quando o vê. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, diz a música dos Titãs.

Se eu fosse a diretoria do Santos, entregava toda a premiação pelo vice-campeonato para Sampaoli e sua equipe. Esse título é dele. Fica Sampaoli!

As coisas sempre podem piorar

A página Inflacionistas descobriu essa relíquia, uma matéria com a visita de Joseph Stiglitz à Venezuela nos idos de 2007. Destaquei o trecho acima, em que Stiglitz defende que o BC não pode ter “autonomia excessiva”. A Venezuela implementou os ensinamentos de Stiglitz, e hoje, como sabemos, tem a maior inflação do mundo.

Argentinos, as coisas sempre podem piorar.

Pancadões e cidadãos de segunda classe

O seu direito termina onde começa o meu.

Esse princípio basilar da justiça é colocado em cheque com os pancadões. Festas realizadas nas ruas, os pancadões opõem o direito à diversão dos jovens ao direito ao silêncio dos moradores. Todos os artigos que li até o momento sobre o assunto glamurizam os pancadões: seriam autênticas expressões da cultura brasileira ou, o que é mais comum, a única forma de diversão para uma juventude desempregada. Segundo reportagem do Estadão, serve também para movimentar a economia das comunidades.

Estou seguro de que todos os que escreveram essas análises moram confortavelmente em seus apartamentos de classe média, e não precisam conviver com som nas últimas até altas horas da madrugada. Na prática, tratam os seus concidadãos que vivem nas comunidades como cidadãos de segunda classe, pessoas que não teriam direito ao silêncio como todos os outros.

Não se tratam os pancadões como o que são: crime. Assim como roubos e assassinatos, os pancadões são tratados como “falhas da estrutura da sociedade”. “Os jovens não têm onde se divertir” é o equivalente para “o jovem não tem emprego” que justifica os outros crimes. Sem dúvida há problemas sociais que devem ser endereçados. Mas nunca devem ser usados para justificar crimes. A polícia existe para combater crimes. Portanto, estão cumprindo o seu dever ao atender chamados para coibir os pancadões. Óbvio que isso não justifica agressões deliberadas contra inocentes, e a corporação tem um belo quebra-cabeça para resolver, compatibilizando a repressão ao crime com o direito de inocentes não serem importunados. Mas é óbvio também que caracterizar a atuação policial como um crime em si, como repressão a uma “manifestação cultural”, está fora de lugar.

Os pancadões não podem ser tratados como “terra sem lei”, funcionando como “pics” de bandidos, onde esses seriam inalcançáveis pelo longo braço da lei. A primeira coisa que faz uma sociedade democrática é tratar todos as pessoas como cidadãos de primeira classe, com direitos iguais. O fato de uma pessoa morar em uma favela não a faz ter menos direito ao silêncio do que qualquer outra.

O jovem economista heterodoxo

Para a nossa total não surpresa, Alberto Fernandez nomeou um “jovem ministro heterodoxo” para a Economia, discípulo de Joseph Stiglitz, um dos dois prêmios Nobel da área (o outro é o Krugman) que defende que imprimir dinheiro faz as pessoas ficarem mais ricas.

Uma das primeiras ideias do “jovem economista” é a óbvia “reestruturação” da dívida da Argentina, nome mais bonito para calote. Essa é uma medida que qualquer governo, de qualquer coloração, tomaria, dada a completa impossibilidade do país continuar pagando uma dívida impagável. O problema é o que vem depois.

Como bom discípulo de um desenvolvimentista raiz, o “jovem economista” deverá aplicar a cartilha já conhecida: gastos governamentais para “estimular” o crescimento econômico. Daí, o crescimento geraria as receitas para o governo pagar as suas dívidas. É a velha ilusão do moto-perpétuo fiscal, que só funciona, segundo os próprios proponentes da Moderna Teoria Monetária, se o governo fosse “eficiente” nos seus gastos. Aí é que mora o problema, como todos sabemos.

O “jovem economista”, no entanto, vai enfrentar um pequeno problema: convencer o FMI a continuar a financiar déficits primários. Segundo dados do FMI, o déficit primário da Argentina chegou a 4,8% do PIB em 2016! Só para comparar, o déficit primário brasileiro atingiu o pico de 2,5% do PIB no mesmo ano, e já foi um Deus-nos-acuda. Macri, com sua abordagem “vamos devagar com o andor”, reduziu o déficit para 4,2% em 2017 e, com a piora da crise e o acordo com o FMI, teve que acelerar o ajuste, fechando 2018 com um déficit de 2,2%. Para este ano, a previsão é de um déficit de 0,6% (menos negativo que o brasileiro).

Um país que gera déficits não tem capacidade de pagar suas dívidas. A matemática, neste ponto, independe de ideologia. O que os heterodoxos propõem é que se deixe a geração de superávits mais para frente, quando a economia voltar a crescer. Muito lógica essa abordagem anti-cíclica, desde que se acreditasse que governos populistas vão realmente economizar quando a economia estiver crescendo. Aliás, qual o nível de crescimento que seria o “suficiente” para começar a gerar superávits primários? São só pequenos “detalhes”.

Stiglitz sempre foi crítico aos termos desse acordo com o FMI. Para ele, essa abordagem ortodoxa não levaria a Argentina a lugar nenhum. Bem, agora teremos a oportunidade de ver o “jovem economista heterodoxo” aplicando as ideias de Stiglitz na vida real. Na minha bola de cristal, caso o FMI continue dando suporte, vejo um surto de crescimento econômico de curto prazo, seguido de nova crise da dívida, com empobrecimento geral da população. Esse é o verdadeiro moto perpétuo dos heterodoxos.

O mea-culpa de Eros Grau

No dia 22/11, espinafrei o ex-ministro do STF Eros Grau por um artigo escrito no Estadão defendendo que seria necessária uma Constituinte para mudar o entendimento da prisão após o trânsito em julgado. Eros Grau foi o ministro que, em 2009, relatou o voto que mudou o entendimento do STF a respeito da prisão após condenação em 2a instância.

E não é que, apenas duas semanas depois, Eros Grau volta ao mesmo espaço fazendo um mea culpa? Não, ele não mudou o entendimento sobre o seu voto de 2009. A sua mudança refere-se ao modo do Parlamento introduzir a prisão após condenação em 2a instância na ordem jurídica brasileira.

Depois de um longo e tortuoso voto, quer dizer, artigo, Eros Grau conclui que basta mudar o Código Penal, estabelecendo que o trânsito em julgado ocorre após o julgamento em 2a instância. Recursos aos tribunais superiores seriam então apenas “ações rescisórias” e não mais “recursos”. Palavrório técnico à parte, o que Eros Grau reconhece é que o julgamento das provas ocorre até a 2a instância, estabelecendo a culpa ou inocência do réu aí. Este é o “trânsito em julgado”. Quer dizer, Eros Grau sai de uma Assembleia Constituinte para um simples projeto de lei!

Admiro quem admite que se enganou, e Eros Grau mostra que tem integridade, não se aferrando a suas opiniões quando vê que está errado.

E, a conclusão mais importante: o trânsito em julgado pode ser definido em legislação infra-constitucional. Portanto, não é necessária uma PEC para mudar o entendimento sobre a prisão após a condenação em 2a instância, basta um projeto de lei mudando o Código Penal.

Os parlamentares estão com óbvia má vontade em relação a este tema. Vamos continuar pressionando.

A cartilha de Peron

Três professores da FEA-USP cometem hoje o primeiro de três artigos sobre a ascensão e queda da Argentina.

Para os luminares, o peronismo (1943-1955) foi uma exceção à regra da decadência. Segundo os doutores, Peron reverteu parte da distância das economias mais desenvolvidas através de uma cartilha populista e desenvolvimentista, favorecendo as camadas mais baixas da população. O incrível na “análise” é que, apesar de reconhecer todos os erros cometidos pelo peronismo, atribuem a queda posterior da economia argentina ao “pensamento ortodoxo”. O maior mal que fez Peron teria sido reforçar o pensamento ortodoxo! É mais ou menos como o sujeito que trai a mulher e depois achar que o maior erro não foi a traição em si, mas sim a sua mulher procurar outro.

Mal posso esperar pelos próximos dois artigos.

Greve de alunos pelo clima: uma insanidade

Já estava com saudades da Greta.

Não havia me tocado sobre o mote de sua campanha: “greve das escolas pelo clima”.

Não consigo pensar em nada mais idiota. A quem prejudica uma greve de alunos, senão aos próprios alunos? É o que sempre digo aos meus filhos: você não está estudando para mim, está estudando para você. Eu já me formei, já estou trabalhando e ganhando a vida. Seus estudos hoje vão te permitir fazer isso amanhã, não precisa estudar pra me agradar.

Vai ver que o raciocínio é o seguinte: como amanhã a Terra vai acabar em uma grande bola de fogo se nada for feito “pelo clima”, então não vale a pena estudar hoje. É um raciocínio.

Além disso, qual seria o “resgate” pedido? O que os governos precisam entregar para que os estudantes voltem a estudar? “Promessas”, pelo jeito, não serão suficientes. Greta já deixou isso claro, em seu discurso cheio de caras e bocas na ONU. O que então?

Greta diz que as pessoas estão menosprezando o poder das “crianças zangadas”. Já enfrentei algumas ao longo da minha vida de pai. Entregar o que querem, mesmo que não faça sentido, é o caminho para criar adultos mimados. Aliás, que adultos continuem a adular uma criança como Greta diz algo sobre o grau de maturidade da discussão.

Greta está fazendo a sua parte: está em greve escolar há já muitos meses. Em um país com um dos melhores PISAs do mundo, isso não deve fazer tanta diferença. Em países pobres como o nosso, propor greve escolar é um crime.

A realidade por trás do Pisa

Esse é a lista dos 20 primeiros “países” no ranking de leitura do Pisa. Tá vendo aquele asterisco do lado da China? Significa que não é, de fato, a China. Essa nota refere-se às 4 principais e mais ricas cidades chinesas. Seria como se pegássemos apenas as notas das cidades de São Paulo, Rio e Brasília. Não representa a China, né? Ok que a soma das populações dessas cidades é quase metade da população brasileira, mas o ponto é que não representa o país como um todo.

Faz-me lembrar do ranking do ENEM, em que colégios como Objetivo e Etapa destacam os melhores alunos e os separam em um “colégio” à parte só para aparecerem bem no ranking. Fake.

Os próximos da lista são também “cidades-Estado”: Cingapura, Hong Kong, Macau. O primeiro país “de verdade” é a Estônia. A rede privada de elite brasileira tem, portanto, nota igual ao melhor país da amostra. É a nossa “cidade-estado” incrustada na miséria geral.