Tecnologia em controle de preços

Hahahahaha

Podemos exportar tecnologia para os chilenos. Tivemos 5 planos de controles de preços, somos experts mundiais no assunto.

Os chilenos não estão contentes em viver em um país onde as coisas funcionam, querem sentir na pele o que são prateleiras vazias. Cada um com seu gosto.

Startups jabuticaba

Startups brasileiras estão ajudando passageiros a processarem companhias aéreas.

As startups de tecnologia normalmente surgem lá fora para atender problemas universais, que afetam pessoas de todos os países. Se uma startup para resolver um determinado problema nasceu no Brasil e, o que é o pior, só tem no Brasil, então pode ter certeza de que aquele problema só existe no Brasil.

E não estou me referindo a atrasos em voos e malas extraviadas. Isso acontece no mundo inteiro. O que provavelmente é único do Brasil seja uma mistura de um setor que trata o consumidor com desprezo com um sistema judiciário de difícil acesso e que trata o empresário como bandido. Esta mistura é explosiva, e criou um mercado explorado por essas startups.

Os EUA é um exemplo notório de país onde tudo se judicializa, é a terra dos advogados. Se há muito menos judicialização lá no setor aéreo, deve ser porque as companhias aéreas tratam melhor seus clientes em caso de problemas, ou porque o judiciário não dá ganho de causa para qualquer demanda ou, o que é mais provável, uma combinação de ambas.

Essas startups estão aproveitando uma oportunidade de mercado que só existe no Brasil. Não adianta culpá-las pelo excesso de judicialização no setor (um “câncer”, segundo o presidente da Latam). É preciso que as empresas aéreas e o judiciário fechem essa “oportunidade de mercado”.

O populismo é insaciável

Quando houve as manifestações de 2013, o governo Dilma respondeu do jeito PT: uma lista de 5 grandes programas, dos quais 4 ficaram na promessa. O único que saiu do papel foi o Mais Médicos. Ou seja, Dilma aproveitou os protestos para tocar a sua própria agenda. A outra única concessão foi o município de São Paulo voltar atrás no aumento dos ônibus (o que havia sido o estopim dos protestos). O resultado é que hoje José Serra está tentando passar no Senado uma lei que permite aos municípios adiar o pagamento de precatórios, de modo a dar um fôlego para o caixa da cidade. Sim, aquele subsídio está sendo pago até hoje.

Piñera, no Chile, está indo muito além de cancelar o aumento dos transportes. Mexeu em pedágios, aumentou o salário mínimo e, agora, voltou atrás em uma isenção tributária para empresas, entre outras benesses. Mas os protestos não param. E não param por dois motivos.

Primeiro, porque são protestos políticos. Note que, nas reportagens do que está acontecendo no Chile, você sempre vai tropeçar com o nome de Pinochet. Piñera, nesse contexto, seria como que herdeiro das políticas da ditadura. Anteontem publiquei um post calculando a aposentadoria de uma chilena chamada Eugenia. Não descrevi naquele post o contexto, mas conto aqui: Eugenia é funcionária pública e estava chupando limões para compensar os efeitos do gás lacrimogêneo. Diz ela que estão na terra de Pinochet, então estão acostumados a chupar limões. I rest my case.

A segunda razão pela qual os protestos não param tem a ver com a insaciabilidade do ser humano. Por que um salário mínimo de X, e não de X+1? E por que de X+1 e não de X+2? Ao ceder rapidamente, Piñera mostrou fragilidade. É óbvio que vão querer mais, sempre mais. Como disse o cientista político da reportagem, se era assim tão fácil, por que demorou a fazê-lo? De onde se segue que, com um pouco mais de pressão, o governo cede mais.

Assim como as manifestações de 2013, estas também terminarão. E teriam terminado por esgotamento, com Piñera fazendo ou não concessões. As concessões feitas custarão caro ao povo chileno e não evitarão que Piñera perca o poder nas próximas eleições. Porque, se é para ter políticas populistas, melhor votar no original do que na imitação, não é mesmo?

As cores da social-democracia

Entrevista de João Doria hoje.

O PSDB não é mais social-democrata.

Mas vai manter “social-democrata” no nome porque PSDB é uma sigla bacana.

Para mostrar que não é mais social-democrata, ao invés de trocar o nome, trocou as cores. Fica claro para todos que verde-amarelo não é social-democrata.

Desse jeito, PT e Bolsonaro vão se alternar no poder ainda durante muitos anos.

Lei da Gravidade

“No Chile, tudo é regulado pelo mercado”.

É como dizer: “no Chile, a lei da gravidade vale para tudo”. Como se pudesse ser diferente.

A lei de mercado (ou de oferta e demanda) é a única lei econômica que existe. Há sociedades que se revoltam contra isso, mas nem por isso a lei de mercado deixa de funcionar. Trata-se de uma lei irrevogável.

A vida econômica é uma vida de trocas comerciais. Tudo é precificado de acordo com a oferta e demanda de produtos e serviços. Inclusive os bens mais essenciais. Se precisam ser produzidos, então também obedecerão à lei de mercado.

Se o Estado se mete a regular os preços sem considerar a lei de mercado, as distorções vão se acumulando até o castelo de cartas cair. Não preciso aqui listar os vários exemplos com que a História nos brinda.

Você pode se revoltar contra a lei da gravidade e se jogar pela janela, esperando que ela não funcione para você. Mas depois não reclame quando se espatifar no chão.

O valor da imprensa em uma democracia

Ontem, fiz uma defesa apaixonada da liberdade que a imprensa deve ter em qualquer democracia. Recebi muitas contestações, a maioria muito educada, outras nem tanto. Rebati várias, mas uma em especial me pegou.

Refiro-me à abordagem que a Globo adotou na reportagem sobre o presidente. Na minha cabeça, a matéria cumpria todos os requisitos do bom jornalismo: noticiou um fato (o depoimento do porteiro), checou possíveis contradições e deu voz “ao outro lado”, no caso o advogado do presidente e o próprio presidente. Escapou-me, na avaliação, que o simples fato de associar o nome do presidente a um assassinato rumoroso é deletério para qualquer reputação, independentemente da “forma” correta. Faltou, na minha avaliação, colocar o aspecto de “percepção”.

Esse tipo de avaliação deveria ter sido feita pela Globo. Trata-se de uma associação muito grave e, por mais que a “forma” de apresentar possa ter sido correta, no mínimo a ênfase foi equivocada: o problema estava no falso testemunho do porteiro, não na alegação que fez. A “contradição” foi mostrada como um complemento da notícia, quando na verdade deveria ser a própria notícia principal. Afinal, por que o porteiro quis envolver o nome do presidente nesse assunto?

A bem dizer, dada a fragilidade da coisa toda, talvez a melhor coisa que a Globo poderia ter feito era investigar mais um pouco antes de colocar a coisa no ar.

Claro que todo o raciocínio acima tem como pressuposto o papel da imprensa em uma democracia. É sobre isso o texto a seguir, que roubei da timeline do amigo Thiago Nogueira. Gostei, por que é um texto que descreve muito bem o que é uma democracia e o papel da imprensa neste regime. Por mais que a Globo tenha errado, ou mesmo se agiu de má-fé, continua sendo melhor ter a Globo (ou qualquer outro veículo jornalístico) do que não tê-la.

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O Poder e a Liberdade de Imprensa
Fernando Schüler

Segundo o Ministério Público, o porteiro mentiu. É isso. Mesmo antes do MP se manifestar, muita gente já “sabia” que era mentira. Uma outra turma, mesmo depois, continua “sabendo” que é tudo verdade. A verdade líquida, na era digital, tem dessas coisas.

De qualquer forma, tenho uma intuição. Se tudo se mostrar de fato um balão furado, Bolsonaro sairá disso com um bônus retórico semelhante ao que ganhou após o atentado que sofreu, antes das eleições.

Mas há um tema complicado aí, que diz respeito às relações do poder com a liberdade de imprensa. É aí que Bolsonaro insiste em um erro. Não um erro em sua estratégia política, mas para nossa democracia. De um tipo que tem uma longa história.

Todos se lembram de Leonel Brizola e sua infatigável disputa com a Rede Globo. Segundo Brizola, concessões de TV eram como linhas de ônibus, “não pode transportar uns e não transportar outros”. O problema, por óbvio, era explicar o que isso significava exatamente.

Mesmo que o princípio abstrato do “transportar a todos” seja correto, sua aplicação será dada pela própria imprensa. Cada veículo definirá quando e de que jeito cada um entra em cena. É injusto? Talvez.

Justo seria um mundo onde uma equidistante inteligência distribuísse a verdade, para todos, ou desse espaços iguais a cada inverdade? Lamento. Esta superinteligência não existe, e todas as vezes que alguém tentou fantasiar algo nessa linha foi um desastre.

No início de seu mandato, Lula protagonizou um episódio dantesco, tentando expulsar do país o então correspondente do The New York Times no Brasil, Larry Rohter. Foi um episódio isolado, mas revelador.

Todos se lembram, ainda há exatos três anos, do repórter Caco Barcellos sendo agredido no centro do Rio de Janeiro, aos gritos de “abaixo a Rede Globo”. Os donos da verdade, à época, eram outros.

Outros presidentes, incluindo-se aí Sarney, Fernando Henrique, Dilma e Temer, tiveram posturas de um modo geral republicanas com a imprensa. Diante da quase obsessão de setores da esquerda em “regular a mídia”, Dilma cravou a frase que deveria ser exposta permanentemente no Palácio do Planalto: “Sobre a mídia, só o controle remoto”.

São exemplos importantes por uma simples razão: é disso que é feita a democracia. O argumento em favor da liberdade de expressão é há muito conhecido. Um de seus heróis foi John Stuart Mill, dizendo o óbvio: que a única razão para permitir que apenas ideias verdadeiras fossem veiculadas seria uma extrema confiança na infalibilidade humana.

Tudo isso é sabido, ainda que frequentemente esquecido por quem detém o poder. Recentemente tivemos um exemplo disso, vindo de nossa Suprema Corte. No episódio de interdição da revista Crusoé, o presidente da corte nos brindou como uma frase lapidar: “Se você publica uma matéria chamando alguém de criminoso (…) e isso é uma inverdade, tem que ser tirado do ar. Ponto. Simples assim”.

Na verdade, é bem complicado. Ninguém tem, na democracia, o dom de revelar a verdade. Ela surge, a mais das vezes, do contraditório, da fratura, do cotejo dos fatos. A condição para o acerto, no mundo da informação, é precisamente a possibilidade do erro.

É claro que se deseja que as pessoas ajam com responsabilidade (por muito tempo se discutirá se a Globo agiu com responsabilidade, neste episódio, e imagino que a própria emissora fará esta avaliação). É evidente que a imprensa pode ser criticada, inclusive por quem ocupa posições de poder. A imprensa está longe de ser uma “instituição” que observa a sociedade de fora.

As democracias vêm assistindo, em nossa época, a um processo agudo de polarização, e boa parte da imprensa terminou igualmente polarizada. Isto é um erro, sinal de mau jornalismo, na minha visão, mas é a expressão de um direito. O parcialismo da imprensa profissional fará apenas com que ela perca mais e mais espaço e credibilidade em meio ao caos informacional de nossa época. Mas quem deve julgar isso são os leitores, os ouvintes, os cidadãos. Não o poder.

É exatamente nisso que consiste o erro do presidente Bolsonaro. Ele tem o direito de criticar este ou aquele veículo de mídia, e eventualmente extravasar a sua indignação.

Mas não pode, sob nenhuma hipótese, lançar mão de instrumentos de poder que a República lhe confere para arbitrar ou interferir nesta ou aquela opinião, neste ou naquele jornalista ou veículo de mídia. E não pode por uma singela razão: ele lida com poderes dos quais é um guardião, mas que não lhe pertencem.

Porque somos uma república, afinal de contas.

Apartheid

APARTHEID

O jornalista repete a palavra usada por um especialista na reportagem.

Ou os dois não sabem o que foi o apartheid, ou a reportagem quer imprimir um viés. Adivinha qual a alternativa correta.

No Chile, como em qualquer lugar do mundo, os mais ricos estudam nas melhores escolas privadas, enquanto os mais pobres estudam nas escolas públicas. O que diferencia os países é a qualidade da escola pública.

O Chile tem o melhor PISA da América Latina, o que demonstra a qualidade de suas escolas públicas em relação ao resto do continente. Mesmo assim, ainda não é suficiente para que os pobres cheguem no mesmo nível para disputar vagas nas melhores universidades.

A questão é: qual modelo o Chile deveria seguir para alcançar melhores resultados? Certamente não é adotando modelos que não deram certo em países como o Brasil. Se no Chile os pobres estão longe das universidades, no Brasil essa distância é ainda maior.

Há um esforço para caracterizar o modelo liberal do Chile como o pai de todos os males. Apontar um suposto “apartheid” educacional é somente mais um tijolo nessa construção. O Chile deveria abrir mão do modelo que lhe permitiu ter a melhor educação da América Latina, em nome de uma “igualdade” que não existe em lugar nenhum do mundo? Essa é a questão.

Pontas soltas

Ontem fiquei pensando nas pontas soltas dessa história do porteiro. O Estadão descreve-as no quadro acima. Resumindo:

1. Por que o porteiro mentiu em algo tão facilmente verificável? Será que ele mentiu? Ou foi pressionado a mentir? Se sim, por quem? Ou será que ele simplesmente se enganou?

2. Bolsonaro, Toffoli, Aras e provavelmente meio mundo em Brasília já sabiam dessa história desde o dia 10. A coisa era facilmente refutável. Porque precisou a Globo jogar a farofa no ventilador, 19 dias depois, para que viessem os óbvios desmentidos, já que a história não para em pé?

Para o primeiro ponto, a resposta parece simples: o porteiro pode ter sido ameaçado por milicianos a falsificar seu testemunho. Colocar o nome do presidente no jogo seria uma forma de embolar as investigações, o que interessaria aos investigados. A coisa, no entanto, foi muito amadora para profissionais do crime, dado que era uma mentira facilmente verificável. Fica a questão: por que tentaram um expediente tão ingênuo? Bolsonaro acusa Witzel de ter forçado o delegado do caso a incluir o depoimento com o objetivo político de incrimina-lo. Parece também uma versão fantasiosa, mas vai saber.

O segundo ponto é ainda mais misterioso para mim. As mais altas autoridades da República sabiam dessa história há quase 3 semanas, uma história comprovadamente falsa mas explosiva, e deixaram a coisa em banho-maria. Por que?

Esse “banho-maria” pode explicar o vazamento do inquérito para a Globo. Alguém do MP-RJ ou da própria equipe de investigação, inconformado com a demora do processo em Brasília ou com algum interesse ainda a ser esclarecido, vazou a coisa para a Globo.

Bolsonaro ficou tremendamente irritado não com a história em si, mas com o vazamento e com a publicidade dada pela Globo. Ele sabe que, apesar de ser uma mentira deslavada, a simples associação de seu nome com o caso Marielle é explosivo. Talvez esta seja uma explicação para entender a demora em Brasília: por mais que fosse mentira, as altas autoridades sabem que se trata de assunto muito delicado.

Bem, em resumo: tem muita ponta solta nesse assunto ainda para pular para conclusões definitivas. A Globo, nessa história, só serviu como correia de transmissão de interesses, tendo ela própria seus interesses. O mundo é muito mais complexo do que um super-inimigo contra um super-amigo. Nós, na planície, temos pouca informação para julgar. O que significa que nesse angu ainda vai aparecer caroço para todos os gostos.

Gastos com publicidade do governo

Tem se falado muito que a Globo e a grande imprensa em geral estariam perseguindo Bolsonaro pelo fato de seu governo ter cortado verbas de publicidade. Ontem alguém me mandou esse gráfico como prova dessa afirmação. Fui verificar.

Em primeiro lugar, não consegui checar diretamente os dados. No site do SECOM não existem esses dados, seria necessário pedir com base na lei de acesso à informação. Fui checar em fontes alternativas.

O primeiro lugar foi o portal da transparência do próprio governo, que informa os gastos aprovados e empenhados do orçamento. O problema é que aquilo se refere apenas aos gastos com publicidade de utilidade pública, feitos pelos diversos ministérios. Isso aí soma apenas algumas dezenas de milhões de reais. O grosso da publicidade do governo é (era) feita pelas estatais.

Fui verificar a lista dos maiores anunciantes do Brasil em 2016 (abaixo), curiosamente o último ano mostrado no gráfico, que depois pula para 2019. Por que será? Tenho uma hipótese, que exponho adiante.

Pois bem, na lista dos maiores anunciantes, temos Caixa, BB e Petrobras, com gastos somados de aproximadamente R$3,5 bilhões. Bem mais, portanto, do que os R$1,5 bi que aparece no gráfico. Não consegui compatibilizar um número com o outro, mas não tem problema, porque o ponto é outro: na lista de 2019 (também anexado abaixo), não há estatais! Ou seja, o grosso da retirada de patrocínios deve ter sido por parte das estatais.

Agora, vem a questão: por que são omitidos os números de 2017 e 2018? Provavelmente porque, com a saída do PT e o início do saneamento das estatais já no governo Temer, esses gastos com publicidade devem ter recuado muito já em 2017. Ora, isso vai contra a narrativa de “punição” à mídia. O que provavelmente ocorreu é que as estatais, quebradas, deixaram de investir em publicidade nos montantes anteriores. Essa é a explicação que tenho para a omissão de 2017 e 2018 nesse gráfico.

Outro ponto: os gastos das estatais foram de R$3,5 bi em 2016, em um bolo de R$130 bi. Ou seja, cerca de 2,7% dos gastos com publicidade. Mesmo que a iniciativa de cortar gastos tenha sido do governo Bolsonaro, não me parece que uma perda de faturamento de pouco menos de 3% seja capaz de quebrar uma Globo.

A imprensa tradicional tem enfrentado o desafio das novas mídias, aqui e no resto do mundo. Google e Facebook estão ficando com partes cada vez maiores do bolo publicitário. Este é o problema que esta indústria está enfrentando, não o fato do governo Bolsonaro ter supostamente cortado verba de publicidade.

Por fim, este mais um argumento para privatizar todas as estatais: serão um instrumento de coerção a menos na mão de governos de qualquer coloração, seja para agradar, seja para punir a imprensa.