É uma questão de matemática

Reportagem do Estadão traz informações interessantes sobre as aposentadorias no Chile, apesar de não ter sido essa a intenção do jornalista. A matéria em si é totalmente enviesada, focando nas “agruras” dos aposentados chilenos. Enviesada porque não faz questão de contrapor estas informações com nenhum depoimento de algum economista, mostrando o custo de se pagar aposentadorias maiores. Fica tudo no nível da “injustiça” herdada do ditador Pinochet.

Mas, voltando ao ponto: achei a reportagem interessante porque traz alguns números, que podem ser vistos nos trechos destacados abaixo. O jornalista entrevista uma mulher chamada Eugenia López. Eugenia tem 56 anos, e vai se aposentar daqui a 4 anos, pois a idade mínima para aposentadoria é de 60 anos para mulheres no Chile. Eugenia ganha 500 mil pesos e contribui com 80 mil/mês para a sua conta-aposentadoria. A contribuição mínima é de 10%, mas Eugenia está contribuindo com 16% do seu salário. Mas a informação importante é quanto ela acumulou até o momento: 30 milhões de pesos após 25 anos de contribuição. Ou seja, Eugenia, por algum motivo, começou a poupar quando tinha 31 anos de idade. Talvez por isso esteja poupando mais do que 10% do seu salário, para compensar o tempo perdido. Por fim, temos a informação de que Eugenia vai se aposentar com 150 mil pesos/mês, o que, suponho, seja uma retirada vitalícia, ou seja, até falecer.

Planilhei esses dados, primeiro para tentar chegar nos 30 milhões de pesos hoje, e, mais importante, para estimar em quanto tempo este dinheiro terminaria. O gráfico está abaixo.

Considerando que as retiradas sejam atualizadas por uma inflação de 2% ao ano e as reservas sejam remuneradas por uma taxa de juros de 3% ao ano, esse dinheiro terminaria quando Eugenia tivesse 85 anos de idade, em 2048. Parece ok para uma renda vitalícia, em um país com expectativa de sobrevida para mulheres de 21,5 anos aos 65 anos de idade (dado da OECD).

Então, a conta é essa mesma. A questão que se coloca é se 150 mil pesos para um salário de 500 mil pesos são “justos” ou “suficientes”. 500 mil pesos equivalem a aproximadamente R$ 2.700 pelo câmbio atual, ou aproximadamente R$ 2.400 se considerarmos o mesmo poder de compra da moeda (conceito PPP). A aposentadoria no Brasil para este nível de salário, aos 60 anos de idade e 30 anos de contribuição é integral (leia aqui). Para ter este mesmo nível de reposição, a chilena deveria ter contribuído com o triplo do que contribuiu, ou 53% do seu salário. No Brasil, a contribuição é de 9% para o empregado e 20% para o empregador. Faltariam 14% de contribuição para ter o salário integral. Não é à toa que o sistema roda com déficit.

A questão não é de justiça, mas de matemática: para tirar o mesmo salário que tirava na ativa, Eugenia deveria ter contribuído (ou alguém no lugar dela) com o triplo do que contribuiu. A saída brasileira foi taxar o empresário. O efeito disso? Entre 1991 e 2018, a média do desemprego no Brasil foi de 10,9%, enquanto no Chile foi de 7,8% (dados do FMI). Escolhemos um desemprego estrutural 40% maior para financiar uma previdência “justa”. Valeu a pena?

Como funciona a imprensa

“Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Para mim, essa frase de Millôr Fernandes é a melhor síntese do papel da imprensa em uma sociedade democrática.

Muitos dos comentários ao meu post sobre a Globo referem-se a uma espécie de “dois pesos e duas medidas” no tratamento que a emissora estaria dando ao caso do porteiro do condomínio. Afinal, por que o foco em Bolsonaro? Onde está o noticiário sobre o depoimento de Marcos Valério incriminando Lula no caso Celso Daniel? Onde está a repercussão da delação de Pallocci? Isso demonstraria a má vontade da emissora com o governo.

Então. É necessário compreender como funciona a editoria de um jornal. São inúmeras as notícias que chegam diariamente, e há uma seleção daquilo que será noticiado, e com qual ênfase. Qual o critério?

O critério é a notícia. E, de preferência, a notícia que vende jornal. A experiência diz que notícias que se referem a quem está exercendo o poder naquele momento são mais relevantes e, portanto, vendem mais jornal. Simples assim.

O PT está fora do poder há mais de 3 anos. Por mais que seja ainda um partido importante, suas ações têm, hoje, muito menos relevância do que tinham há 3 anos. Eles não decidem mais nada. Quem tem a caneta bic, hoje, é Jair Bolsonaro.

Essa discussão me lembra quando os petistas reclamavam que a Globo só focava no PT e deixava as falcatruas do PSDB em 2o plano. “E o mensalão mineiro? E o Aécio?”, gritavam. O PSDB já estava fora do poder há 3 anos quando se deu o mensalão e há 12 anos quando o Petrolão veio à tona. Era irrelevante o que fazia ou deixava de fazer o PSDB. O PT era o poder, o foco era no partido que exercia o poder.

A imprensa não tem a obrigação de “balancear ideologias”. Tantos minutos dedicados à direita, tantos minutos dedicados à esquerda. A cobertura não é justa nesse sentido. O critério da cobertura se dá pela relevância da notícia. E notícias são mais relevantes quanto mais se aproximam do poder. É assim em qualquer democracia.

Caridade com o chapéu alheio

Parece que a fábrica da Ford vai fechar mesmo, apesar de toda espuma criada pelo Doria.

A coisa, como sempre, dependia de uma ajudinha do governo, no caso, via BNDES. Aparentemente, acabou o “dinheiro barato” para sustentar projetos inviáveis.

Nunca tivemos taxas de juros tão baixas no país. A CAOA poderia vir a mercado e tomar os recursos necessários. Provavelmente não faz isso por ser um grupo com risco de crédito alto, e as taxas que pagaria refletiriam esse perfil mais arriscado. A não ser que o BNDES desse a molezinha.

A disciplina do BNDES na concessão de crédito é uma boa notícia, ainda que nunca seja uma boa notícia o fechamento de vagas de trabalho. Mas o sindicato da categoria poderia ter pensado nisso antes, e ter negociado uma redução de salários de até 30% com a própria Ford, como agora está combinado com a CAOA. Tarde demais.

Ataque à imprensa

Parece mais do que óbvio o interesse jornalístico sobre um áudio incriminando potencialmente o presidente da República. Qualquer veículo não chapa-branca daria notícia sobre isso. Bolsonaro ataca a TV Globo por simplesmente cumprir o seu papel.

Não posso ser acusado de comprar qualquer narrativa jornalística. Devem ser contados às dezenas os posts em que critico acidamente coberturas jornalísticas, principalmente da Globo News. Normalmente, referem-se a vieses ideológicos.

Mas criticar a Globo por cumprir o que se espera de um veículo de imprensa em uma democracia não está entre meus hobbies. Quando a Globo News deu em primeira mão o áudio do Bessias, ou quando o Jornal Nacional fez uma cobertura incisiva sobre o Petrolão, ficamos todos muito contentes. Não nos ocorria chamar a Globo de “Globolixo”, apelido dado pelos petistas. Watergate, Mônica Lewinsky, Mensalão, Petrolão, e uma longa lista de etceteras, nada disso teria vindo à tona não fosse a imprensa não chapa-branca.

Estou lendo neste momento uma biografia de Roberto Marinho. Estou na altura do governo João Goulart, e descobri as origens do ódio mortal que Brizola nutria pelo jornalista, em função da cobertura que o jornal fazia do governo de seu cunhado. Nenhum governante gosta da imprensa. FHC era só lamúrias em seus diários, Lula expulsou o correspondente do NY Times. A imprensa é o quarto poder em uma democracia, e nenhum governante gosta de um poder paralelo. Cuba e Coreia do Norte são países onde os governantes são apoiados incondicionalmente pela “imprensa”. Acho que não gostamos muito desses exemplos.

Não sou advogado da Globo, nem eles precisam disso. A única coisa que defendo com convicção é o papel de uma imprensa não chapa-branca em uma democracia. Bolsonaro, ao atacar a Globo por veicular matéria jornalística, ataca um dos pilares da democracia. Não foi o primeiro nem será o último governante a fazer isso.

Ainda a prescrição de pena

Escrevi exatamente isso aqui ontem. O ministro Marco Aurelio toca no nervo do problema: a prescrição é só a cereja do bolo, a questão verdadeira são as décadas que processos levam para serem julgados em Brasília. Queremos a punição após a 2a instância como uma gambiarra constitucional para um problema de celeridade da justiça.

Óbvio que o STF não vai mover uma palha para diminuir a possibilidade de embargos dos embargos dos embargos, nem mudará uma vírgula seus supremos procedimentos. Então, a prisão após condenação em 2a instância é o que resta no país dos puxadinhos.

Lista de prioridades

Lembrem-se sempre da ordem de prioridades deste governo, que já repeti aqui algumas vezes:

1) Parentes
2) Agenda cultural/ideológica
3) Agenda econômica
4) Agenda de combate à corrupção

As tais “razões políticas e estratégicas” para não participar das manifestações em prol da prisão após condenação em 2a instância devem seguir essa lógica aí.

Let me try again

Artigo hoje no Valor, basicamente defendendo que o FMI deveria suportar os déficits fiscais da Argentina enquanto o país não volte a crescer. Afinal, a austeridade já se mostrou deletéria, e é hora de tentar “outra coisa”. Como se essa “outra coisa” não tivesse levado a Argentina para o buraco onde se encontra.

Tenho um amigo que tem primos argentinos. Segundo ele, dois deles são funcionários públicos e contam com 55 dias úteis de férias por ano, viajam para o exterior todo ano e moram bem. Ambos são peronistas e estão vibrando com a vitória de Alberto Fernandez.

Sim, o FMI deveria promover políticas fiscais expansionistas na Argentina. Afinal, como os primos do meu amigo vão conseguir manter o seu padrão de vida?