Bobo Vox

Bobo Vox tem uma visão estereotipada do Brasil, assim como a maioria dos estrangeiros. Para ele, o Brasil é carnaval. Não admira que também tenha uma visão estereotipada de Bolsonaro. Seu tempo é muito precioso para perder com as nuances de um país continental e multifacetado.

Bobo Vox se acha a consciência política da humanidade. Não passa de um bocó repetidor de estereótipos.

Ambiente de conflito permanente

Hoje condenei Haddad por não ter telefonado para cumprimentar Bolsonaro pela sua eleição.

Deve ter ouvido as críticas, e preferiu mandar um tuite. Bela iniciativa, ainda que com um certo atraso.

Parece claro que preferiu um tuite a um telefonema para que a coisa ficasse pública, e não restrita aos dois, sujeita às versões de ambos os lados. Um sinal de desconfiança, plenamente justificável, dado o clima geral.

O tuite de Haddad foi simpático e respeitoso, estendendo uma bandeira branca. Muito distante do tom entre choroso e belicoso da véspera.

O que fez Bolsonaro com a bandeira estendida? Desprezou-a. A frase “Realmente o Brasil merece o melhor” não precisa de complemento. Para bom entendedor, pingo é letra: o melhor sou eu.

Precisava disso? A campanha não acabou? Não poderia simplesmente parar no agradecimento? Ou complementar com algo do tipo “O Brasil espera o melhor de todos nós”?, uma frase que chamaria o PT à sua responsabilidade de ser uma oposição leal?

Ok, o PT já fez coisa muito pior e não é um partido confiável. Mas o gesto de Haddad não seguiu a linha do partido e a resposta de Bolsonaro só serviu para provar que estavam certos aqueles que aconselharam Haddad a não mandar mensagem alguma, que certamente existiram.

Bolsonaro perdeu a chance de ajudar a distender o ambiente. Talvez não lhe interesse um ambiente sem animosidades, talvez somente se sinta à vontade em um ambiente de conflito permanente. Assim como o PT.

A natureza do escorpião

Ontem, tanto Márcio França quanto Paulo Skaf ligaram para João Doria para cumprimenta-lo pela vitória. Não tenho dúvida de que Doria teria feito o mesmo caso o vencedor do pleito fosse qualquer um dos outros dois.

Aécio ligou para Dilma em 2014, assim como todos os candidatos derrotados nas últimas eleições presidenciais ligaram para os vitoriosos.

O derrotado parabenizar o vitorioso faz parte da liturgia de um processo eleitoral democrático. É sinal de uma oposição que pode ser forte, mas não será desleal.

Haddad não ligou ontem para Bolsonaro. Segundo ele, “porque não sabia como sua ligação seria recebida”. Parece coisa de adolescente, mas é só o cacoete de um partido hegemônico, que não aceita a derrota.

Se Bolsonaro iria ligar para Haddad em caso de derrota? A julgar pelo seu discurso da fraude nas urnas, provavelmente não. Mas isso seria apenas a confirmação de sua imagem anti-democrática.

Haddad, ao contrário, ganhou muitos votos de última hora por representar pessoalmente a imagem da “resistência democrática” ao avanço autoritário. Muitos votaram em Haddad apesar do PT, pois o seu bom-mocismo e seu ar intelectual sempre lhe deram esse ar meio PSDB.

Haddad, ao não parabenizar Bolsonaro, perdeu a chance de ouro de distender o ambiente e se mostrar um verdadeiro democrata. Perdeu a chance de se tornar um líder relevante da oposição. Vai desaparecer no meio da gritaria antidemocrática do PT.

Haddad demonstrou ontem a verdade da velha máxima, a de que o escorpião não perde a sua natureza.

A escolha do menos pior

A soma de votos brancos e nulos foi de 8,79% no 1o turno e de 9,57% no 2o turno. Um aumento de apenas 0,78%. Este é o montante do eleitorado que realmente não encontrou, em um dos dois finalistas, alguém que merecesse o seu voto. O que indica que uma parte relevante do eleitorado tapou o nariz e exerceu o seu direito de escolha, mesmo sem ter declarado seu voto publicamente.

O ridículo da legislação eleitoral

A propaganda eleitoral terminou oficialmente na sexta, mas continua a todo vapor nas redes, onde se dá a verdadeira campanha.

Quando nossos legisladores e tribunais vão acordar para o papel ridículo que estão fazendo ao tentar regular algo que, por natureza, é impossível de regular?

Protejam a rede de proteção

Um dos argumentos utilizados por apoiadores do PT é de que essa história de transformar o Brasil em uma Venezuela é completamente fora de propósito. O PT esteve 13 anos no poder e, aí vai o “argumento”, “não nos transformamos em uma Venezuela”.

Parece aquela piada do cara que cai do 10o andar de um prédio e, ao passar pelo 5o andar, alguém na janela lhe pergunta se está tudo bem. Ao que o homem responde: “tirando o vento na cara, por enquanto está tudo bem”.

A resposta é tão idiota quanto o “argumento” usado pelos petistas. O vento estava batendo nas nossas caras até o impeachment, mas para os petistas estava “tudo bem”.

Quais as evidências de que nos aproximávamos do solo?

– Assim como a PDVSA, a Petrobras foi usada para implementar políticas desenvolvimentistas e para fazer populismo tarifário. Claro, a PSVSA é muito mais importante para a economia da Venezuela do que a Petrobras é para o Brasil, mas mesmo assim o impacto foi relevante.

– Assim como na Venezuela, o governo Dilma adotou política econômica intervencionista, mexendo profundamente com o sistema de preços relativos e a confiança dos agentes econômicos. Eu diria que este é o fator, tomado isoladamente, mais importante para explicar a pior recessão da história brasileira.

– Assim como na Venezuela, as estatais e outros órgãos do governo foram aparelhados até a medula, tornando-se instrumentos do partido para a manutenção do poder.

– Assim como na PDVSA, a Petrobras foi usada para manter um esquema gigantesco de corrupção do sistema político.

– Assim como fez o chavismo na Venezuela, o PT tentou emplacar uma “constituinte” por meio de um plebiscito. Isso aconteceu como resposta às manifestações de 2013, uma das 5 medidas propostas pelo governo para “dar uma resposta às ruas”. Não custa lembrar que esta mesma ideia voltou no programa de governo do PT deste ano e foi espertamente retirada por Haddad.

– O governo Dilma tentou emplacar uns tais “conselhos populares”, em que decisões importantes de governo passariam pelo crivo popular. Uma forma de driblar o Congresso.

– A exemplo da Venezuela, está ainda no programa do PT uma tal “regulação econômica da mídia”. Juram que é só para acabar com os monopólios. Ok, acreditamos.

Sim, é verdade que não nos transformamos em uma Venezuela nos 13 anos do PT. Mas isso só não aconteceu porque as instituições brasileiras, a imprensa livre e o povo nas ruas estendeu uma rede de proteção, impedindo a continuidade da queda.

Não se engane: o que o PT quer fazer agora é retirar a rede de proteção.

Respeito à imprensa

Quem teve paciência de ler os Diários da Presidência (eu li o 1o volume e foi o suficiente) viu como FHC passa grande parte do tempo reclamando das injustiças publicadas pela imprensa. Houvesse Twitter na época e fosse FHC um histriônico como Trump, seus tuites não seriam muito diferentes.

Além disso, é o PT que ameaça a imprensa livre em seu programa, prometendo implementar um tal “controle social da mídia”.

Sim, intimidar a imprensa livre é uma ameaça à democracia, e isso é inadmissível.