Melhor puxar um banquinho para esperar sentado

O indiano Raghuram Rajan, ex-presidente do BC indiano e ex-economista-chefe do FMI, dá uma entrevista muito boa hoje no Valor. Destaquei o trecho abaixo porque representa uma boa parte do otimismo (ou seria melhor dizer “fio de esperança”) que nos resta: a esperança de que os oligarcas deponham Putin para preservarem as suas fortunas, alvos das sanções ocidentais.

Rajan sopra um ar gélido sobre a chama da esperança, ao dizer que Putin, assim como qualquer líder autocrata, legitima a própria existência dos oligarcas. Ou seja, ao derrubar Putin, esses oligarcas estariam dinamitando a própria estrutura que os sustenta. A entrada de outro dirigente, autocrata ou não, significaria começar o jogo do zero, o que torna o futuro imprevisível para esses oligarcas. Assim, entre perder uma parte de sua fortuna ou a sua legitimidade, a escolha é óbvia.

Mas Rajan deixa ainda uma fresta aberta na porta da esperança: os movimentos de massa, que poderiam forçar a troca do regime. Na medida em que mais soldados russos morrem em uma campanha que não faz sentido, seria cada vez mais provável uma insurreição da população, o que presumivelmente levaria à queda de Putin.

Lamento ter que eu mesmo soprar um ar gélido sobre essa outra chama de esperança de Rajan e de muita gente. Há pouco tempo, escrevi a resenha de um livro que descreve o regime de terror de Stálin, Sussurros, do historiador britânico Orlando Figes. Um dos capítulos narra a Grande Guerra Patriótica, nome pelo qual ficou conhecida a 2a Guerra na União Soviética. Neste capítulo, Figes descreve como os soldados russos tiveram contato com a chamada “civilização ocidental” na medida em que suas tropas foram avançando pela Alemanha, e como esse contato fez “cair a ficha” das mentiras contadas pelo regime a respeito de seu próprio bem-estar e da produtividade de seus campos. Em certo momento, houve a esperança de que esse seria um catalisador para a mudança do regime, pois os soldados voltavam falando sobre tudo o que viram e reclamando do governo de maneira aberta.

No entanto, como sabemos, Stálin continuou a governar o país com mão de ferro até a sua morte, em 1953. E uma revisão do stalinismo somente ocorreu em 1956, quando Kruschev se sentiu suficientemente seguro para implantar o seu próprio regime. Ou seja, somente 11 anos depois do “desmascaramento” das mentiras do regime. Ocorre que um regime de força dispõe de instrumentos de terror para lidar com esse tipo de pressão. Agora mesmo, Putin está prendendo ativistas, censurando redes sociais e contando a sua própria história nos telejornais. Para quem tem curiosidade sobre como uma única pessoa pode tornar refém um país inteiro durante anos, sugiro a série documental da Netflix, Como se Tornar um Tirano.

Portanto, quem espera que Putin caia para resolver o problema da guerra na Ucrânia, talvez seja melhor puxar um banquinho e esperar sentado.

Posando de social democrata para Semler ver

Vi Ricardo Semler uma vez. Foi em uma palestra na sede do PSDB a que um amigo meu, filiado ao partido, levou-me no final da década de 80. Semler acabara de lançar o livro que o alçaria ao seu breve estrelato, Virando a Própria Mesa, em que conta como havia feito uma revolução na empresa que havia herdado (ou iria herdar, não sei ao certo), a Semco. Foi um precursor da parte S do ESG: muito atento ao bem-estar dos funcionários e coisas do tipo. A única coisa que lembro da palestra foi ele ter contado que sua empregada doméstica recebia um salário que lhe permitia vir para o trabalho em sua casa de carro. Achei aquilo o máximo e a informação arrancou suspiros de admiração da plateia. Claro, estava terminando a faculdade, e não tinha ideia de como era sustentar uma casa de classe média com o próprio salário. Semler não tinha esse problema, aparentemente.

Esse longo preâmbulo serve para introduzir um artigo de Ricardo Semler publicado hoje na Folha. Em resumo, Semler defende que os empresários devem parar de procurar uma terceira via que não existe, e cerrar fileiras de uma vez em torno de Lula, o único que pode nos salvar das garras do troglodita que ocupa o Palácio do Planalto desde 2019.

Em primeiro lugar, é louvável assumir uma posição sem ambiguidades. Muitos por aí se dizem atrás de uma opção de terceira via, mas nenhum dos nomes que estão aí lhes agradam, de forma que vão votar em Lula ou em Bolsonaro porque “faltam opções”. Opções não faltam, o que falta é a transparência que sobra a Semler sobre a sua opção preferencial. Não fosse assim, os dois candidatos não estariam sobrando nas pesquisas sobre todos os outros rivais.

Tendo dito isso, não deixa de ser engraçado o contorcionismo mental que o empresário faz para justificar a sua opção. Não podendo dizer que não houve grossa corrupção nos governos do PT (“em medida menor”), Semler quer dar uma “segunda chance” para o partido. E se sai com uma comparação do arco da velha: assim como a Alemanha se rearmar não significa que os nazistas vão voltar, dar o poder novamente ao PT não significa que a corrupção vai voltar.

Dizem que o amor cega. Deve ser este o caso. O empresário simplesmente “esquece” que a Alemanha criminalizou o nazismo, condenou todos os oficiais nazistas que não fugiram ou se mataram, e passou, talvez, pela maior ajoealhada no milho da história da humanidade. Até hoje, os alemães sentem vergonha do que aconteceu. O PT, por outro lado, não reconheceu uma vírgula do que ocorreu. Segundo o partido, os bilhões roubados da Petrobrás sumiram como que por um passe de mágica, não houve um ladrão. Como Semler quer comparar os dois casos?

Depois lança mão do mais puro e perfumado whataboutismo. Afinal, por que a resistência dos empresários a Lula, que sequer tem ilhas secretas e contas na Suíça como Putin, quando apoiaram sem pudor nenhum os Sarneys, Malufs e Quércias da vida. Como se esses fossem candidatos hoje. Semler parou naquela palestra do final dos 80, em que Lula era o baluarte incorruptível contra a sujeira da política brasileira. O que veio depois foi apenas um acidente de percurso, que pode ser “perdoado” como fizemos com a Alemanha arrependida do nazismo. Francamente.

O que Semler ignora olimpicamente em seu artigo é que os empresários estão pouco se lixando para a corrupção de Lula, assim como estavam se lixando para a corrupção de Sarney, Maluf e Quércia. O que realmente importa é uma política econômica que faça sentido, e não um amontoado de iniciativas que beneficiam apenas os amigos do rei, associadas a ideias já testadas e reprovadas ao longo da triste história econômica brasileira. Do que os empresários se pelam de medo é da continuidade do governo Dilma, apeada do poder, entre outras coisas, por ter uma visão jurássica de economia, e que nos causou a maior recessão desde a década de 30.

Semler intui este problema, ao propor que os empresários “negociem” com Lula que este junte ao seu time economistas como Armínio Fraga, Pedro Malan e Pérsio Arida. Seria uma forma de garantir que Lula fosse, na verdade, um FHC na economia. Só tem um problema: Lula foi FHC somente nos primeiros três anos de seu governo. No resto, incluindo o governo Dilma, Lula foi Lula. E deu no que deu. Lula aprendeu com seus erros? Que erros, ele vai perguntar, a mesma resposta que daria para os casos de corrupção. Lula e o PT nunca erram.

Não, Lula não vai topar que Armínio, Malan e Pérsio façam parte de sua equipe, pois não comunga de seus pontos de vista. E tampouco Armínio, Malan e Pérsio topariam fazer parte de um governo Lula. Não estamos mais em 2002, em que economistas como Marcos Lisboa, Alexandre Schwartsman e Joaquim Levy toparam fazer parte do governo. Passaram-se 20 anos, e o filme que passou neste período não foi nada bonito. Talvez Geraldo Alckmin seja o único que topa emprestar o seu nome para que Lula pose de social democrata para Semler ver.

Os projetos pessoais acima dos partidos

A notícia da aprovação, por parte da Rede, da composição de uma federação com o PSOL, é o fio da meada que nos permitirá entender a natureza da política partidária brasileira.

Comecemos por Marina Silva. Marina apareceu no cenário nacional nas eleições presidenciais de 2010, quando obteve um surpreendente terceiro lugar sendo filiada ao pequenino PV. Chegou a ser chamada de “Lula de saias” pela sua origem humilde. Empoderada pela sua performance, quis tomar conta do partido, mas não contava com a astúcia do dono do PV, José Luis Penna, que lhe fechou a porta. Assim, Marina Silva deixou o PV em 2011 e se lançou à aventura de formar o próprio partido. Descobriu, a duras penas, que é mais fácil obter 20 milhões de votos em uma eleição do que 500 mil assinaturas para formar um partido. Mas o ponto a que eu queria chamar a atenção é outro: Marina privilegiou seu projeto pessoal em detrimento da fidelidade a um partido.

Marina não está sozinha. A Rede elegeu 5 senadores em 2018. Hoje só resta um, Randolfe Rodrigues. Um desses senadores, Alessandro Vieira, migrou para o Cidadania, certamente de olho em voos mais altos. Com o anúncio da federação entre PSDB e Cidadania, e a óbvia dificuldade de tirar Doria do posto de candidato do agrupamento, Alessandro anunciou a saída da legenda. Seu projeto pessoal foi mais forte do que a fidelidade a um partido.

Fabiano Contarato foi outro senador eleito pela Rede que acabou de anunciar a desfiliação para tocar o seu projeto pessoal de se candidatar ao governo do Espírito Santo. Lula, que de bobo não tem nada, lhe dará a legenda.

Mas projetos pessoais não são monopólio da Rede. O governador Eduardo Leite, derrotado nas prévias do PSDB, deve se desfiliar para tocar o seu projeto pessoal de ser candidato à presidência. Alckmin também se desfiliou do PSDB para tocar o seu projeto pessoal. Bolsonaro, não tendo conseguido fundar um partido para chamar de seu e tendo perdido a briga com Luciano Bivar pelo controle do PSL, migrou para o PL para continuar tocando o seu projeto pessoal. Mesmo o PT não passa de um grande projeto pessoal de Luís Inácio Lula da Silva. No dia em que Lula desaparecer do cenário político nacional, o PT será apenas mais um par de letras na sopa de letrinhas que forma a política partidária brasileira.

Obviamente, o elemento pessoal conta muito em eleições, aqui no Brasil e em qualquer lugar do mundo. Isso é uma coisa. Outra coisa é subordinar os interesses do partido a projetos pessoais. Em democracias consolidadas, por mais carismático que seja um político, ele não sai do lugar se não conquistar corações e mentes de um grande partido, o que lhe dá sustentação para governar depois. Aqui, os partidos são meras fachadas para projetos pessoais. Não à toa, a governabilidade somente é possível na base de mensalões, petrolões e emendas secretas.

Tem jeito? Não. Mesmo políticos com ares modernos, como Eduardo Leite ou Alessandro Vieira, não escapam dessa lógica. É da nossa natureza, está em nosso DNA. Conforme-se, é o que temos para hoje.

Malvinas e Ucrânia: a história se repete?

Um governo autoritário se lança em uma aventura militar para galvanizar o sentimento patriótico da população e, assim, desviar a atenção de seus problemas internos. Não, não estamos nos referindo à invasão da Ucrânia pela Russia. Essa é a descrição da invasão das Malvinas pela Argentina em 1982.

Claro que todo paralelo histórico tem seus defeitos. No caso, a Ucrânia é um país soberano, ao passo que as Falklands (vou usar os dois nomes das ilhas para não parecer que estou tomando partido rsrsrs) são uma possessão do Reino Unido. Assim, a marinha da rainha veio em defesa do território invadido, ao passo que a Ucrânia precisa se virar sozinha, pois nem a OTAN pode lhe vir em socorro nessa hora. No entanto, os países do ocidente determinaram sanções que, no dizer de Putin, equivalem a uma declaração de guerra. Portanto, na prática, mesmo sendo um país soberano e não uma possessão, a Ucrânia pode contar, em certa medida, com o esforço de guerra do ocidente.

Outra característica que aparentemente enfraquece o paralelo são as motivações. Enquanto os generais argentinos enfrentavam crescente descontentamento interno e usaram a guerra para prolongar a sua sobrevida, Putin, em tese, contava com razoável apoio interno e, segundo uma parcela significativa dos analistas ocidentais, teria feito esse movimento para proteger seu território contra o avanço da OTAN. O curioso, no entanto, é que o discurso de Putin não tem sido esse. Naquela longa aparição na semana da invasão, o líder russo gasta a sua saliva para contar a história da grande Mãe Rússia, e de como a Ucrânia faz parte inseparável dessa história. Longe, portanto, de uma posição defensiva. Assim como Galtieri não levantou a possibilidade de uma invasão da Argentina pelo Reino Unido para justificar a operação, da mesma forma Putin não usou a carta da defesa como justificativa para a invasão da Ucrânia. Mesmo porque, a possibilidade de uma invasão da Rússia pela OTAN é tão alta como a possibilidade de uma invasão da Argentina pelo Reino Unido. O contrário, como se viu, não é verdadeiro.

Mas, apesar dessas possíveis falhas no paralelo (e que, como vimos, com um pouco de esforço podem ser superadas), há uma semelhança entre os dois eventos a que seria bom estarmos todos atentos: um dos dois lados necessariamente sairá derrotado e humilhado deste evento. A não ser que a Ucrânia seja um país de schrödinger, ao final da guerra os ucranianos terão um país soberano ou um país submetido às regras de Moscou. No primeiro caso, Putin, assim como ocorreu com Galtieri, cairá e, com ele, o seu sistema de governo. No segundo caso, os governos ocidentais observarão, constrangidos e sem margem de manobra, a Rússia com o domínio sobre um país antes soberano.

Claro que há nuances. A hipotética vitória russa não será tão clara em um primeiro momento. As tropas de Putin podem tomar Kiev e instalar um governo fantoche sem que os governos ocidentais reconheçam a sua vitória. Neste caso, as sanções econômicas poderiam perdurar por anos, sem que nenhum dos dois lados cedesse (vide os casos de Venezuela e Irã). Não se trata de uma perspectiva muito boa para a economia global, mas é uma possibilidade real.

Outra nuance importante é que, hipoteticamente, pode se chegar a uma solução de compromisso, com a Ucrânia cedendo os territórios do sudeste mais a Crimeia para a Rússia, além do compromisso de não aderir à OTAN, em troca de sua soberania para aderir à União Europeia. No entanto, neste caso, a aparente saída honrosa, na verdade, seria uma vitória superlativa da Rússia. Com a força das armas, arrancou territórios e o compromisso de um país soberano sobre o seu próprio destino. Antes da guerra, a Ucrânia poderia fazer o que bem entendesse. Depois da guerra, a Ucrânia não pode aderir à OTAN e, ainda mais, perdeu territórios. Gostaria de ver algum país ocidental defendendo que essa solução não significa uma derrota humilhante. Além disso, existe uma fila de países no mundo com vontade de aumentar os seus territórios pela força das armas, a começar pela China.

Dadas as consequências, o melhor resultado é a derrota da Rússia e a queda do regime. No entanto, é difícil saber como se comportará um país derrotado de forma humilhante pela segunda vez em 30 anos. Não seria um problema, não fosse a presença do segundo maior arsenal nuclear do planeta.

O espírito do Cruzado continua vivo e alerta

Ha alguns anos, tive um problema com uma compra na internet. Não lembro exatamente com o quê, porque faz muito tempo. Decidi procurar o PROCON para tentar resolver. Lembro que, a muito custo, consegui registrar a minha reclamação, em um site pouco amigável.

Foi quando descobri o site do Reclame Aqui. A diferença era brutal: fácil de usar, consegui registrar minha reclamação em uma fração do tempo que havia gasto no site do PROCON. Em poucos dias, havia resolvido a minha situação. Algum tempo depois, recebi um e-mail do PROCON, solicitando o envio de uma série de documentos para dar andamento à reclamação! Ali ficava clara a inutilidade do órgão.

O diretor do PROCON-SP, Fernando Capez, quando aparece no jornal, é para ameacar empresários de praticarem “preços abusivos”. Enquanto o papel do PROCON, que é proteger consumidores de práticas abusivas de empresas, é feito por uma empresa privada, a autarquia se preocupa em “controlar preços”, algo sem amparo algum na lei. No Brasil, os preços são livres. Se um dono de posto quiser colocar a gasolina a R$ 20 o litro, não há lei nenhuma que o impeça. A única lei que regula o impulso do dono do posto é a lei da oferta e da demanda.

A preocupação do PROCON deveria ser evitar a formação de cartel. Mas, nesse caso, a fala do diretor do órgão deveria ser “o PROCON vai combater a cartelização”, e não a “especulação”. Como, de resto, deveria ser papel permanente do órgão, e não somente quando a Petrobras aumenta seus preços.

Com essa fala, o diretor do PROCON sanciona o potencial comportamento abusivo de seus fiscais. O dono do posto, depois de investir o seu bom dinheiro no estabelecimento de um negócio, pagar seus funcionários, recolher impostos e, depois disso, ainda tentar dar lucro, precisa lidar com os pequenos xerifes da justiça social, que sabem qual o preço “justo” do combustível. O espírito do cruzado, que, em 1986, prendeu donos de supermercado por praticarem “preços abusivos”, continua vivo e alerta. O brasileiro médio concorda com Fernando Capez, é preciso tratar esses empresários com rédea curta.

O curioso é que Fernando Capez foi nomeado pelo governador João Doria, o champion da iniciativa privada. Doria, depois de uma fala desse tipo, para ser coerente com suas convicções liberais, deveria demitir o diretor do PROCON sumariamente. Mas coerência não é artigo em abundância no mercado hoje em dia.

Não há saída não humilhante

Essa história de que o governo russo agora admite não derrubar Zelensky é tão crível quanto as promessas de que não haveria invasão, mesmo acumulando tropas nas fronteiras. Putin realmente estaria satisfeito com um pedaço de papel assinado por Zelensky abrindo mão da adesão à OTAN? E, se fosse somente pelas províncias russas orientais, não precisaria ter ocorrido uma invasão de grandes proporções, vide Crimeia.

E falta um ator na mesa de negociações: os EUA. Estariam Biden e seus aliados dispostos a abrirem mão das sanções na hipótese de Zelensky topar abrir mão da OTAN sob a mira de uma baioneta? A Rússia voltaria normalmente ao convívio das nações depois de ter conseguido o seu objetivo usando a sua máquina de guerra contra uma nação soberana? No momento em que os países ocidentais assumiram um lado no conflito, amarraram o seu destino a esse lado e fazem parte da guerra. Não à toa, Putin considerou as sanções como um ato de guerra.

Posso estar enganado, mas acho que estamos em uma situação em que não há saída não humilhante para nenhum dos lados. Putin não consegue voltar ao status quo anterior somente com uma promessa nas mãos, assim como é difícil que Biden e seus aliados levantem as sanções sem que Putin volte ao status quo anterior. Por outro lado, não há guerra sem vitoriosos e derrotados. Portanto, um dos lados vai ceder no final. Ainda não está claro quem vai ceder e quando, e as consequências do novo arranjo para o futuro.

Putin merecia o benefício da dúvida?

Em meu último artigo sobre a guerra, desenvolvi a hipótese de que os países do leste europeu poderiam ter o mesmo destino da Ucrânia se não tivessem se aliado à OTAN. A evidência, para mim, foi justamente o fato de esses países QUEREREM se aliar à OTAN, mesmo conhecendo o risco de serem mal-entendidos pela Rússia. Supus que ninguém conhece melhor a “alma russa” do que os seus vizinhos.

Pois bem, fui inundado de artigos de respeitados especialistas afirmando o contrário (como se eu já não tivesse lido todos eles): que a Rússia estava quieta no seu canto, e foi provocada pela OTAN. Hoje, o Estadão traz uma entrevista com um especialista em Rússia, que nao não é um zé mané palpiteiro como eu, e que tem o mesmo ponto de vista do meu artigo.

Significa que ele está certo? Não. Significa apenas que essa é uma discussão em aberto. A história é uma ciência em que o contrafactual é impossível. Portanto, quem afirma com certeza que “teria acontecido isso se aquilo”, ou “não teria acontecido isso se não aquilo” está apenas chutando, por mais especialista que seja.

Historiador é como economista: é muito bom para explicar o passado, mas péssimo para desenhar o futuro. Existe um viés bem conhecido em investimentos chamado “hindsight”. Esse viés nos leva a acreditar que eventos que ocorreram eram óbvios, dava para prever com relativa facilidade. Como sempre vai haver um historiador ou um economista que “previu” aquele cenário (tem sempre um monte de gente falando um monte de coisa), o que foi dito é recuperado e toma ares de profecia, com a ilusão da previsibilidade se estabelecendo. Falta, obviamente, o contrafactual: o que teria acontecido se as premissas da previsão não tivessem se concretizado.

Portanto, é preciso tomar cuidado ao concluir rapidamente sobre a direção da causalidade em eventos históricos. É possível que Putin estivesse agora em seu canto se a OTAN limitasse a sua presença às fronteiras da Alemanha? Sim. Assim como é possível que estivesse agora bombardeando Varsóvia, como está fazendo em Kiev. Tudo é possível. E, como tudo é possível, os países do leste europeu não quiseram jogar com a sorte. Não acho uma atitude condenável.

Índio não quer potássio

Em reportagem investigativa, o Estadão nos revela que grande parte das minas de potássio na Amazônia não estão em terras indígenas. Portanto, o projeto de permissão de exploração mineral em terras indígenas, defendido por Bolsonaro, estaria usando a desculpa do potássio para fazer passar um projeto que seria uma ameaça existencial aos índios.

Bem, como algumas verificações burras de fact checking às vezes fazem, a reportagem acerta no literal mas perde o big picture conceitual. De fato, strictu sensu, as minas não estão em reservas indígenas, não há como negar olhando o mapa que acompanha a reportagem. Mas, conceitualmente, é como se estivessem, como mostra artigo de Antônio Caberera, ex-ministro da agricultura de Collor, publicado apenas duas páginas antes.

A única mina citada nominalmente pela reportagem é a de Autazes, pertencente à empresa canadense Potássio do Brasil. Coincidentemente, é a única mina também citada pelo ex-ministro em seu artigo, o que nos leva a crer que este é, de longe, o projeto mais importante da região. E o que está acontecendo? Para saber, precisamos juntar informações da matéria e do artigo.

A reportagem afirma apenas que a mina está a 8 km de distância de uma reserva indígena, e que, por isso, é necessário consultar os índios para obter a licença de exploração. Por outro lado, no artigo, ficamos sabendo que a empresa vem tentando obter essa licença desde 2015!

Observe a situação: o principal projeto de exploração de potássio na região amazônica está parado desde 2015 porque a justiça exige consulta aos índios MESMO A MINA NÃO ESTANDO EM TERRAS INDÍGENAS. Então, como afirma a matéria, de fato não há minas em reservas indígenas. Mas isso não impediu que a justiça exigisse a consulta aos índios, que moram no Tatuapé, se uma obra na Praça da Sé iria atrapalhar sua tranquilidade.

É digno de nota a redação usada pela reportagem: “busca de um acordo em relação ao impacto na região, mas não de inviabilidade do projeto”. Quem leu meu artigo sobre o linhão Manaus-Boa Vista vai reconhecer essa linguagem. Naquele projeto, aprovado em 2011 e que, até hoje, não saiu do papel, os índios também não tinham como impedir o projeto, mas precisavam ser consultados. Essa “consulta”, na verdade, é uma desculpa para impedir o projeto, como demonstra mais de 10 anos de história. O caso da mina de potássio parece seguir pelo mesmo caminho, pois lá já se vão 7 anos de “consultas”.

Bolsonaro quer aprovar legislação que permita a exploração mineral em terras indígenas, como se isso fosse resolver alguma coisa. Como vimos no caso em tela, a mina sequer está em terra indígena. Mas isso não foi barreira para que a nossa brava justiça defendesse os interesses indígenas. No caso do linhão, assim como neste, a questão passou por governos de diferentes cores e tendências ideológicas. Mas, entra governo, sai governo, o que manda mesmo é a justiça federal, juízes e promotores, em sua missão de fazer justiça social às custas do bem-estar da população.

Sacrifício tem limite

Moisés Naim, colunista do Estadão, sugere que o modelo de união entre os governos ocidentais seja também usado para ações de combate às mudanças climáticas. Afinal, segundo o colunista, o mundo está provando que é possível reagir a uma ameaça comum com união e assertividade.

Bem, é realmente difícil entender de onde o escriba tirou o paralelo entre as duas situações. Na superfície há alguma semelhança. Mas basta um pouco de análise para verificar que as situações são completamente diferentes, quando não opostas. Vejamos.

Grosso modo, ações de combate às mudanças climáticas significam colocar algum preço na emissão de carbono, o que, por sua vez, significa aumentar o preço da energia com origem em combustíveis fósseis de maneira permanente. Ou, até que novas tecnologias possam baratear novamente o preço da energia, o que pode levar décadas. Nesse sentido, as sanções econômicas contra a Rússia tiveram o mesmo efeito: aumento do preço do petróleo. Mas as semelhanças param por aí.

A primeira grande diferença é o período de tempo do sacrifício exigido. Os sacrifícios impostos por uma guerra são tanto mais toleráveis quanto mais fica claro que são transitórios. Em algum momento a guerra vai terminar, e vai se voltar ao status anterior. Nas mudanças climáticas não há esse horizonte. A energia ficará cara “para sempre”, porque é difícil estabelecer prazos para mudanças tecnológicas. Claro, os governos poderiam vender a ideia de uma guerra longa mas que terá um fim. As pessoas aguentariam as privações, se vissem sentido naquilo. Mas aí é que entra a segunda e principal diferença.

Para que as pessoas aceitem fazer sacrifícios são necessários símbolos fortes. No caso, a Rússia, liderada por uma figura que nos acostumamos a ver associada nos filmes ao inimigo, atacando famílias indefesas que poderiam ser nossas vizinhas de bairro, é um símbolo muito poderoso.

Por outro lado, o que acontece com as mudanças climáticas? Em um passado muito remoto, enchentes, furacões, incêndios, secas eram vistos como uma punição dos deuses pelos pecados dos homens. Na medida em que a humanidade foi dominando a ciência, aprendemos que esses fenômenos têm uma explicação natural. Agora, essa mesma ciência quer voltar a nos convencer de que esses fenômenos são devidos a nossos pecados, principalmente o hedonismo de querermos ar-condicionado no verão e calefação no inverno. Isso está longe, muito longe, de servir como símbolo. Estamos acostumados a ver secas e dilúvios desde que nascemos e a encarar isso como fenômenos naturais. Convencer as pessoas de que se trata de uma punição de Gaia vai ser difícil.

Assim, os governos precisariam convencer os eleitores de que nós somos os culpados pelas desgraças que estão caindo sobre nossas cabeças e, se não fizermos nada, o Armagedom nos aguarda (notem que até a narrativa do Juízo Final foi apropriada pelo discurso das mudanças climáticas). E, depois desse convencimento, precisariam prometer que a guerra terá um fim, que as privações serão temporárias, até que nossos bravos cientistas encontrem formas de produzir energia barata e confiável, que não signifique inundar terra de índios (o povo eleito de Gaia) ou produzir detritos nucleares tóxicos. Haja simbologia!

Não é à toa que os governos em todo o mundo estão tentando desesperadamente encontrar soluções para os preços altos dos combustíveis fósseis. Eles sabem que os seus eleitores não têm muita paciência para energia cara. Até topam um sacrifício rápido, se for para enfrentar o inimigo número 1 da humanidade, Putin. Mas a coisa muda completamente de figura quando se trata de combater as mudanças climáticas porque, neste caso, o inimigo somos nós mesmos.

Você compraria um carro usado deste homem?

Na batalha das narrativas sobre a guerra na Ucrânia, ganhou força na esquerda uma que coloca a culpa do conflito, adivinha, nas costas dos Estados Unidos.

A narrativa é mais ou menos a seguinte: depois da dissolução da União Soviética, estavam os russos quietos no seu canto, lambendo as feridas do orgulho ferido por terem sido rebaixados de superpotência para mercado emergente, quando os Estados Unidos, do nada, levam a OTAN até o quintal dos russos. Estes, sentindo-se ameaçados, desenharam uma linha vermelha na Ucrânia e, quando esta ameaçou juntar-se também à aliança ocidental, não restou outra alternativa a Putin do que ocupar o país vizinho. Que, by the way, historicamente faz parte da Rússia, como deixou claro o mandatário russo.

Para reforçar a imagem, perguntam, no melhor estilo xeque-mate, como os EUA reagiriam se o México fosse aliado da Rússia e esta colocasse mísseis nucleares ao longo do Rio Grande, a poucos minutos das grandes cidades americanas. A conclusão, óbvia, é que os Estados Unidos não deixariam a coisa chegar neste ponto, e invadiriam o México para evitar que isso acontecesse.

O que dizer?

Bem, essa narrativa seria uma versão crível dos fatos se tivesse alguma lógica. Para entender por que se trata de uma versão discutível dos fatos, é preciso voltar um pouco no tempo. Mais especificamente, para 1949, quando a OTAN é constituída.

A Europa vinha de uma guerra terrível em várias dimensões. Havia uma unanimidade em torno da ideia de que era necessária uma estrutura militar permanente que prevenisse que algo semelhante ocorresse novamente. O diagnóstico é que o militarismo nacionalista, concretizado na ascensão nazista na Alemanha, precisaria ser evitado a todo custo. Para isso, duas coisas eram necessárias: uma presença militar norte-americana permanente no continente europeu e uma maior integração europeia em torno de ideias democráticos. A presença norte-americana foi uma quebra de paradigma, pois os EUA sempre resistiram muito a sair de seu casulo, tendo sua entrada na 2a guerra sido feita a fórceps. E a ideia de uma integração europeia com suporte em uma aliança militar era nada mais do que uma rendição ao fato de que boas intenções somente se concretizam na base da, digamos, dissuasão militar.

O estabelecimento da OTAN se precipita em 1949, quando a União Soviética testa a primeira bomba nuclear. Os EUA não eram mais a única potência nuclear, e os europeus ficam alarmados. Este é um primeiro fato importantíssimo para entender o que vem a seguir. Os europeus (no caso, Bélgica, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal e Reino Unido) não buscam a União Soviética como aliada, mas os Estados Unidos. Parece uma escolha óbvia e natural, mas não é. A União Soviética foi aliada dos Estados Unidos e Reino Unido contra a Alemanha. Mas aquela aliança havia sido circunstancial; a União Soviética tinha um regime completamente alienígena ao espírito da aliança militar que se estava formando. É bom sempre ter isso em mente quando analisamos os acontecimentos que se seguiram desde então: não estamos falando de dois polos opostos e equivalentes. Não. De um lado temos uma aliança eminentemente defensiva, que tem como objetivo evitar o ressurgimento do militarismo nacionalista e suportar a integração do continente europeu em torno de ideias democráticos. Do outro, temos uma ditadura sanguinária, que tem como objetivo implementar o regime comunista a ferro e fogo, e que não tem pudor em usar o peso da máquina estatal contra seus próprios cidadãos para atingir seus objetivos. Portanto, não se tratava de dois polos opostos simétricos, cada um buscando seus próprios interesses, com se tanto fizesse que o mundo, hoje, fosse dominado pelos Estados Unidos ou pela União Soviética.

A OTAN, portanto, foi formada com os objetivos de evitar uma escalada militarista nacionalista e promover a integração europeia, aos quais foi acrescentado um terceiro objetivo: fazer frente à agressividade (agora nuclear) da União Soviética. Este terceiro objetivo acabou por ser o dominante nos anos seguintes, até 1991, quando a União Soviética desaparece. Mas é bom ter em mente os dois primeiros objetivos quando nos determos sobre os acontecimentos pós-1991.

A história segue e, em 1955, a Alemanha Ocidental adere à OTAN, o que leva a União Soviética a estabelecer, em seguida, o Pacto de Varsóvia, a união militar da URSS com seus satélites. Sim, aqui temos uma reação da União Soviética a uma ação dos Estados Unidos. Mas, para entender esse movimento da OTAN, é preciso voltar um pouco no tempo, para 1945, quando se encerra a 2ª Guerra. As potências aliadas dividem a Alemanha em 4 zonas administrativas, cada uma delas controladas, respectivamente, por Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética. Com o passar do tempo, foi ficando claro que os países democráticos estavam de um lado e a União Soviética estava do outro. Em 1949, dois países surgiram no lugar da antiga Alemanha: a Alemanha Ocidental, correspondente à ocupação de Estados Unidos, Reino Unido e França, e a Alemanha Oriental, correspondente à ocupação da União Soviética. A Alemanha Ocidental, sob o comando de Konrad Adenauer, percebendo o risco de um enclave soviético em sua fronteira (a Alemanha Oriental), solicitou a admissão na OTAN. Portanto, a admissão na OTAN veio em resposta à presença ameaçadora de uma potência nuclear não confiável em suas fronteiras. Este mesmo tipo de raciocínio servirá como base para os pedidos de admissão pela OTAN dos antigos membros do Pacto de Varsóvia e das antigas repúblicas soviéticas anos depois. Tudo se resume na palavra CONFIANÇA. Voltaremos a isso mais à frente.

Avançando no tempo, temos a queda do muro de Berlim em 1989 e a dissolução da União Soviética em 1991. A Federação Russa, ou simplesmente Rússia, passa a ser a herdeira da antiga União Soviética. Sob a liderança de Boris Yeltsin, a Rússia parece ter se tornado um país democrático e capitalista, o que fez com que Francis Fukuyama escrevesse, em 1992, o seu famoso ensaio “O Fim da História”, tomando como certa a vitória do regime democrático sobre o autoritário, e do capitalismo sobre o socialismo, para todos os efeitos práticos. Esta leitura, vista de hoje, parece um tanto ingênua, ainda que, de fato, até a China seja capitalista hoje em dia. Mas um mundo liderado por apenas uma superpotência benigna, em uma espécie de “pax americana”, parece uma visão cada vez mais distante da realidade.

Voltando. Todos sabemos em que direção as pessoas correram quando o muro de Berlim caiu. Da mesma forma, os antigos países do Pacto de Varsóvia procuraram correr para longe da esfera russa assim que puderam. Novamente: é interessante observar que países como Grécia ou Turquia, que faziam parte da OTAN desde 1952, não se interessaram em correr para o colo da Rússia. Mas Polônia, República Tcheca e Romênia correram para o colo dos Estados Unidos em 1999, sendo admitidas pela OTAN naquele ano.

Alguns podem se perguntar por que a OTAN não seguiu o mesmo caminho do Pacto de Varsóvia, e foi simplesmente desativada com o fim da União Soviética. Para entender por que isso aconteceu, é útil voltar lá no início do texto, e relembrar os objetivos fundantes da OTAN: evitar uma escalada nacionalista militar na Europa e suportar militarmente a integração europeia. Para entender por que estes dois objetivos ainda davam sentido à existência da OTAN, basta lembrar que a 2ª Guerra havia terminado há menos de 50 anos, e ainda estava viva na memória os seus horrores. Assim, a presença militar norte-americana no continente europeu e a adesão de mais países ao tratado ornava com os objetivos de manter a paz no continente. Como sabemos, o preço da paz é a eterna vigilância.

Nesse sentido, é digno de registro o estabelecimento, em 2002, de um Conselho OTAN-Rússia, em que a Rússia, já sob a direção de Putin, foi colocada em igualdade de condições com os outros membros da aliança para discutir questões de segurança. Este Conselho ainda existe formalmente, mas perdeu totalmente o seu sentido em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia. No site do Conselho, o último documento disponível é de 2013. De qualquer forma, fica claro que os objetivos da OTAN incluíam a cooperação com a Rússia, em busca da manutenção da paz no continente europeu.

A OTAN, em linha com seus objetivos, sempre deixou as portas abertas para o ingresso de novos membros. A pergunta, portanto, não é porque a OTAN (leia-se Estados Unidos) admitiu países do Pacto de Varsóvia em 1999 e antigas repúblicas socialistas em 2004. A pergunta correta é: porque esses países ESCOLHERAM fazer parte da OTAN.

Como mencionado acima, a palavra-chave é CONFIANÇA. No final do dia, tudo se resume a saber de quem você compraria um carro usado, de Putin ou de Biden. Não que Biden (ou Trump, ou qualquer outro ex-presidente norte-americano) seja pessoalmente mais confiável do que Putin. A questão são os pesos e contrapesos que só regimes democráticos maduros são capazes de garantir. Biden não é um ditador, assim como não foram nenhum dos seus antecessores (o que às vezes exaspera quem espera soluções “rápidas” para os problemas), de modo que a estrutura é mais confiável do que a estrutura russa de poder. É por isso, e somente por isso, que Letônia, Estônia, Lituânia e uma longa lista de países procuraram proteção no guarda-chuva da OTAN. Os ucranianos devem estar se lamentando não terem sido tão ágeis quanto seus antigos companheiros de União Soviética.

Da forma como está sendo contada a versão da “Rússia defendendo-se de uma ameaça ocidental” para justificar o ataque à Ucrânia, a coisa parece uma profecia autorrealizada: com medo da Rússia, os países da antiga União Soviética correram para a OTAN, o que fez com que a Rússia efetivamente atacasse, confirmando os receios que levaram os países do leste europeu a fazer o movimento que fizeram. Segundo essa versão, se esses países tivessem ficado no seu canto, Putin agora estaria se dedicando a fazer bolinhos de chuva e tricotando no Kremlin.

É esta parte da versão que não é crível. Putin nunca foi confiável. Semana passada, a Economist publicou artigo da primeira-ministra da Lituânia, Ingrida Simonyte, que chamou Putin de um “mentiroso patológico”. Segundo ela, ditadores só conhecem o idioma da brutalidade. Sim, a Lituânia pegou a boia salva-vidas da OTAN em 2004.

Alguém poderá dizer que é compreensível o temor das ex-repúblicas soviéticas, o que não é compreensível é que a OTAN tenha provocado o tigre com vara curta. Quem faz esse raciocínio não entende a lógica do nacionalismo militarista, justamente aquele que a OTAN tem como objetivo combater: a chance de surgimento de um regime doidivanas é tanto menor quantos mais países são agregados ao guarda-chuva militar. Não é à toa que, em seu site, a OTAN afirma que “está aberta a qualquer outra nação europeia em posição de implementar os princípios deste Tratado e de contribuir para a segurança da área do Atlântico Norte”.

A pergunta correta, portanto, é quem é a Rússia na fila do pão para impedir que a Ucrânia faça a sua adesão à OTAN. O raciocínio da guerra fria, de que o avanço da OTAN significa uma ameaça existencial à Rússia faz sentido somente na cabeça paranoica de um ditador tirânico. Que Putin pense assim, é compreensível. Que analistas ocidentais, movidos por um anti-americanismo atávico, comprem essa narrativa, é de chorar.

Os Estados Unidos e seus aliados não são anjos de bondade, todos têm os seus interesses e seus erros históricos. Isso é uma coisa. Outra coisa é colocar os regimes democráticos ocidentais no mesmo nível de confiabilidade da governança russa, como se se tratasse de uma simetria perfeita. Não é. A democracia tem muitos defeitos, mas, como dizia Churchill, é o pior regime com exceção de todos os outros. Isso inclui o autoritarismo russo, que não é confiável de maneira alguma.