Colonizando o orçamento público

Quando TODAS as centrais sindicais se unem para publicar um anúncio de página inteira, o melhor a fazer é segurar sua carteira.

O assunto é a desoneração da folha de pagamento. O fim, como sempre, é muito nobre e também eficiente, quando se trata de disfarçar transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos, função que nossas leis cumprem muito bem.

Para quem está chegando agora, trata-se de diminuir a contribuição patronal para a previdência social. Como não há fonte alternativa de recursos e as aposentadorias continuam sendo pagas religiosamente, há que se sacar dinheiro de outro lugar. Ou outro imposto é criado, ou aumenta-se a dívida pública. De qualquer forma, alguém irá pagar por isso.

O mais curioso é que as centrais sindicais foram absolutamente contra a reforma da previdência. Quer dizer, defendem uma previdência com as regras mais generosas do mundo, mas na hora de pagar a conta, tentam empurrar o papagaio para os outros.

Nesse sentido, vale ler o último parágrafo do manifesto, em que as centrais defendem que o “financiamento da previdência seja amplamente reformulado”. Em outras palavras, que se encontre alguém para pagar pelas nossas aposentadorias. O ministro Guedes já encontrou essa solução: a volta da CPMF, um imposto que todos pagam, inclusive os mais pobres. Está aí, pela enésima vez, um mecanismo de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos, no caso, dos trabalhadores sem carteira para os trabalhadores com carteira assinada.

O lobby é muito forte e a extensão da desoneração será aprovada. Será apenas mais um exemplo de como as elites extrativistas colonizam o orçamento para o seu próprio benefício. Depois, saímos correndo para encontrar R$ 30 bilhões para matar a fome dos descamisados. Descamisados estes que são roubados do outro lado sem perceber.

O verdadeiro legado dos governos do PT

Só falta um pequeno detalhe nesse artigo: o governo Dilma, nome que não foi citado uma única vez.

Mas esse não é, nem de longe, o principal problema. O problema, de fato, é o desfile de números sem uma demonstração de causa e efeito. Por exemplo, quando diz que a dívida pública no governo FHC aumentou, sem dizer que o governo tucano foi o responsável por tirar inúmeros esqueletos fiscais dos seus respectivos armários. Ou seja, houve um reconhecimento de uma dívida que já existia. Ou quando fala das condições macroeconômicas do governo Temer, quando este, na verdade, herdou-as todas do governo daquela que não se pode pronunciar o nome. Ou ainda, quando fala do investment grade, que foi obtido justamente porque o primeiro governo Lula seguiu o receituário “neoliberal”.

A grande vantagem de termos tido um governo Dilma é conhecermos o modelo petista de governo em seu estado puro. Além disso, serviu como desaguadouro dos excessos que tiveram início no governo de seu mestre, para que não tenhamos dúvida de quem foi a culpa.

Não é que os economistas neoliberais não reconheçamos o legado dos governos do PT. Pelo contrário, reconhecemos todos eles. Talvez fosse melhor para os petistas que os esquecêssemos.

Inception

Ontem o governo anunciou que iria enviar um projeto de lei para o Congresso com o objetivo de vender suas ações da Petrobras, de forma a perder o controle da companhia. Mais ou menos o que vai acontecer com a Eletrobrás. Obviamente, ninguém deu muita importância para o assunto. Imagine tentar privatizar a mãe de todas as estatais em ano eleitoral. Na verdade, imagine tentar privatizar a mãe de todas as estatais, independentemente do ano. Claro que se tratou de uma manobra diversionista, para distrair o distinto público dos problemas com os preços dos combustíveis. E, porque não, dar uma de governo liberal depois da lambança com o teto de gastos na semana passada.

Mas, independentemente da motivação, gostaria de chamar a atenção para um fato: Bolsonaro é o primeiro chefe de governo que toma uma iniciativa nessa direção. Na verdade, é o primeiro chefe de governo que simplesmente fala em privatizar a Petrobrás.

Dos chamados “presidenciáveis” com alguma chance, talvez os dois pré-candidatos do PSDB fossem os únicos a aventar a hipótese. Lula e Ciro, nem pensar.

No entanto, Eduardo Leite (que privatizou empresas do setor elétrico no RS), ao ser perguntado, em entrevista no Valor Econômico de ontem, sobre uma eventual privatização da Petrobras em um seu governo, respondeu: “Falar em privatização da Petrobras inteira é equivocado. Privatização de subsidiária, sim, mas ceder o controle é precipitado e difícil de fazer. Não se consegue comprador e, mais uma vez, tem um custo político alto com resultados pouco concretos”. Portanto, com Leite, a privatização nem seria tentada.

Não conheço a opinião de Doria sobre o assunto. Mas para um governador que não moveu uma única palha na direção da privatização de uma mera empresa de saneamento como a Sabesp, difícil imaginar que gastaria seu tempo com algo muito maior e mais complicado.

Ser dono da Petrobrás tem o ônus político de ter o país inteiro na sua cola quando o preço do combustível sobe e os bônus de poder “controlar” a inflação via controle dos preços dos combustíveis, apadrinhar aliados políticos em cargos na estatal e, eventualmente, saquear a empresa. Para um presidente que não está interessado em nenhum desses bônus, só resta o ônus. Talvez Bolsonaro tenha finalmente percebido isso.

No filme Inception (A Origem), um “engenheiro de sonhos” ganha a vida penetrando na mente das pessoas para inserir ideias que resultarão em atos na vida real. Este movimento de Bolsonaro não vai dar em nada agora, mas pode funcionar como um pequeno “inception” na mente da sociedade brasileira. Alguém teve a ousadia de concretamente propor o impensável, a privatização da mãe de todas as estatais. Em outros tempos, isto seria mais que um tiro no pé, seria um tiro no coração de qualquer candidato a presidente. Hoje, aparentemente, o jogo mudou.

Quem sabe não estejamos presenciando o início de um processo que nos livrará, em alguns anos, desse peso para a sociedade brasileira, que deveria estar investindo em educação e saúde, mas continua gastando suas energias e foco em furar poços de petróleo. Sonhar não custa nada.

Um verdadeiro anti-vaxx

Tive uma preguiça invencível quando li a notícia. Ainda bem que meu amigo Paulo Buchsbaum não é preguiçoso e fez a lição de casa sobre o assunto.

De qualquer modo, a fala irresponsável do presidente serve, de uma vez por todas, para demonstrar que não passa de um anti-vaxx. Não percam seu tempo tentando me convencer de que a cruzada contra o passaporte da vacina é pela “liberdade”.

Corno manso

Já escrevi aqui sobre o uso da conjunção adversativa “mas”. Trata-se de uma palavrinha que quer passar a ideia de que ambas as ideias ligadas são igualmente importantes, ainda que opostas. No entanto, quem tem algum treino de leitura, sabe que a segunda ideia domina a primeira, ainda mais se estão opostas uma ideia geral e conceitual e outra mais, digamos, prática, da vida.

Assim, por exemplo, na frase “sou a favor da fidelidade conjugal, mas sabe como é, a carne é fraca”, a fidelidade conjugal faz o papel de um objetivo desejável mas impossível de ser alcançado diante da fraqueza da carne. Claro está que a primeira ideia é somente uma declaração de intenções, enquanto é a segunda que determina a real intenção do orador.

O ministro da economia continua querendo nos convencer de que é um defensor da austeridade e do teto de gastos. Mas aí vem a palavrinha “mas”, com a ideia que realmente é importante: não dá para deixar 17 milhões de pessoas passando fome. Esta é a parte prática, a que realmente importa. Assim como o marido que trai a mulher (ou vice-versa, para não me chamarem de misógino), a tal fidelidade é somente uma declaração de intenções.

Infelizmente para o ministro da Economia, o mercado não é corno manso. Pelo contrário, costuma ser muito vingativo.

Fazendo a coisa certa

Nos últimos dias, vimos o bolsonarismo virando suas baterias para o mercado financeiro. Desde o próprio presidente, que chamou o mercado de “nervosinho”, passando pelo ministro da Economia, que afirmou que prefere não tirar 10 no fiscal para ajudar os “mais necessitados”, até as redes sociais, que estão acusando os que são contra o auxílio de serem os mesmos “liberais” que disseram para o povo ficar em casa.

O problema para os bolsonaristas é que, ao contrário das pessoas, não tem como cancelar o mercado. Pode xingar à vontade, o mercado estará lá, no dia seguinte, precificando as ações do governo. Trata-se de um “inimigo” de natureza diferente.

A maior parte dos brasileiros (o que inclui petistas e bolsonaristas, mas não só) acha que o mercado financeiro é um bando de meia dúzia de especuladores que ganham dinheiro às custas do sofrimento do restante dos brasileiros, incluído aí o presidente da república. Vou aqui procurar fazer um serviço de utilidade pública. Sabemos que o primeiro passo para resolver qualquer problema é diagnostica-lo corretamente. Vou procurar, neste post, definir a natureza do mercado financeiro. Dessa forma, o presidente e seus fãs poderão melhor enfrentar esse novo inimigo da pátria.

Para explicar o mercado, vou tomar como exemplo o dólar, mas o que vou explicar vale também para os juros e a bolsa. Como qualquer outro ativo, a cotação do dólar é fruto das negociações entre compradores e vendedores da moeda. Se há mais compradores do que vendedores, a cotação do dólar sobe, e vice-versa. Resta saber quem são esses compradores e vendedores e as suas motivações.

O senso comum atribui esse papel exclusivamente aos tais “especuladores”, seres das trevas que se reúnem em salas elegantes para manipular as cotações do dólar em seu próprio proveito. Os especuladores, de fato, existem, e abordaremos suas motivações por último. Antes disso, vamos discutir o papel de outros agentes na formação do preço do dólar, e que são muito mais importantes na tendência de longo prazo.

O primeiro agente são as empresas que dependem, de alguma maneira, do câmbio. Podem ser exportadores, importadores, multinacionais que recebem investimentos ou remetem dividendos. Há uma gama enorme de grandes empresas que se enquadram em alguma dessas categorias. Seus administradores estão o tempo inteiro avaliando o cenário para decidir se compram ou vendem dólares. Agora mesmo, por exemplo, as empresas exportadoras brasileiras não estão internalizando as suas vendas no exterior, preferindo manter os dólares lá fora. Ao fazer isso, não vendem dólares para comprar reais, o que ajuda a desvalorizar o real.

Um segundo agente são os próprios bancos que financiam as empresas que têm operações no exterior. Ao financiar essas empresas em dólar, os bancos podem tomar decisões sobre proteger ou não seus balanços da variação cambial.

Um terceiro agente são as pessoas físicas. Seja por motivo de viagem internacional, seja por quererem diversificar seu patrimônio em outras moedas, as pessoas físicas também compram dólares. O ministro da Economia, com sua offshore, é somente um exemplo. Uma outra forma de comprar dólares é aplicar em fundos com variação cambial no Brasil. Neste caso, o gestor desses fundos é obrigado a comprar ativos dolarizados, pressionando a cotação do dólar para cima.

E por falar em gestores de fundos, chegamos ao quarto agente, os especuladores propriamente ditos. Existem dois tipos de gestores de fundos: aqueles que fazem a gestão de fundos que têm necessariamente exposição ao dólar, e aqueles que usam o dólar somente para atividades especulativas, ou seja, procuram simplesmente lucrar com a variação da moeda.

O primeiro tipo é escravo do investidor: se o investidor escolheu um fundo cambial, cabe ao gestor somente comprar os dólares, sem discussão. Esse é o objetivo do fundo, e foi por isso que o investidor colocou seu dinheiro ali. Mas é o segundo tipo o de maior interesse aqui.

O gestor de patrimônio que usa o câmbio para tentar ganhar algum dinheiro é agnóstico. Isso quer dizer que tanto faz se o dólar sobe ou cai, o que interessa é estar na ponta certa quando uma dessas duas coisas acontecer. Esse gestor (que é o tal “especulador”) sabe que seu tamanho é minúsculo perto dos outros agentes (empresas, bancos e pessoas físicas em seu conjunto). Portanto, em um mercado gigantesco como o cambial, não há como sonhar em manipulação. O sonho do especulador é poder surfar a onda correta, seja de valorização ou desvalorização do dólar.

Para tomar suas decisões, o especulador procura antecipar o que os outros agentes vão fazer. Para isso, analisa os fundamentos que guiam as decisões de empresas, bancos e indivíduos. Sabemos que esses agentes, em países subdesenvolvidos, não costumam confiar muito em suas moedas. A desvalorização cambial nada mais é do que a desconfiança de que, no futuro, a moeda local estará depreciada, pela inflação, em relação à moeda estrangeira. Quando essa desconfiança aumenta, o real se desvaloriza.

Foi o que vimos na semana que passou. Mudar a regra fiscal de maneira casuística passa a mensagem de que o governo vai rodar a maquininha de imprimir dinheiro sempre que “imperativos políticos” prevalecerem. Assim, os tais “especuladores” somente estão procurando antecipar o que os outros agentes econômicos vão descobrir somente mais tarde. E pretendem lucrar com isso.

O governo quer acabar com a farra dos especuladores? Basta fazer a coisa certa. Assim, a inflação cai e o dólar também, punindo quem apostou no caos. E, para deixar claro, fazer a coisa certa não é demonizar o mercado nas redes sociais. O tal mercado não costuma se sensibilizar com isso.

Enchendo os bolsos com consciência social

Não importa onde você leia uma análise da série Round 6. Pode ser positiva, negativa, focar no sucesso do audio-visual coreano ou na violência, pouco importa. Estará lá, indefectível, a alusão à “crítica ao capitalismo” ou à “desigualdade de renda”.

Se isto pode ser verdade para Parasita, está longe de sê-lo para Round 6. Na reportagem, os personagens são caracterizados como “desempregados em dificuldades financeiras”. Bem, não sei a que série o repórter assistiu. Na série a que eu assisti, o protagonista está super endividado porque é um tremendo de um preguiçoso irresponsável. A tal “sociedade capitalista” não marginalizou o sujeito. Ele se auto-marginalizou.

Ok, sem dúvida há um imenso fosso entre ricos e pobres, principalmente em sociedades onde alguns são tratados melhor do que outros pela lei. Por outro lado, tratar as pessoas como incapazes de melhorar suas próprias vidas através das suas escolhas livres, é falsear a realidade. Essa discussão sobre desigualdade de renda é um pouco como a questão do aquecimento global: todo mundo concorda que algo precisa ser feito, cobra dos governos alguma atitude, mas ninguém quer se mover um milímetro do seu lugar. O problema são sempre os outros.

O mais paradoxal nessas obras ditas de “crítica social” (a matéria cita também o filme Coringa) é que seu resultado prático final é concentrar ainda mais a renda nos bolsos dos seus produtores, no caso, a Netflix. A série Round 6 já vale quase US$ 1 bilhão, e os acionistas da empresa não devem estar reclamando. E se, como no caso, o dinheiro vem junto com uma “crítica social”, melhor ainda. Afinal, nada como ganhar dinheiro construindo um outro mundo possível.

O alheamento de Brasília

O filme “Procura-se um amigo para o fim do mundo” é interessante, entre outras coisas, porque mostra as diversas atitudes que as pessoas podem ter em relação ao fim da vida. Uma das mais interessantes é o completo alheamento, representado pela faxineira mexicana que faz a limpeza semanal da casa do protagonista.

Uma vez tendo conhecimento do meteoro que iria chocar-se contra a Terra, o protagonista diz para a faxineira que ela estava dispensada. Afinal, que sentido havia limpar uma casa a duas semanas do fim do mundo? Ao ouvir que estava dispensada, a faxineira muda o semblante, mostrando tristeza e decepção. Estava sendo despedida! Por que? O serviço não estava agradando? O protagonista, então, percebe que ela não estava sabendo de nada. Sua vida continuava como antes. Para não decepciona-la, ele concorda em manter o serviço. Ela sai toda contente da casa e efetivamente volta na semana seguinte, como se nada estivesse para acontecer.

Nos últimos dias, a bolsa despencou, os juros e o dólar subiram, mas as pessoas continuam nas ruas, em suas rotinas, como se nada estivesse acontecendo. Às vezes, podemos ter a impressão de que o mercado é uma espécie de ente à parte, formado somente por especuladores em busca do lucro, divorciados da realidade das pessoas. Nada mais longe da realidade. O mercado financeiro é uma espécie de pele sensível, que sente antes de todo mundo os problemas econômicos. É o dinheiro de todos nós, empresas e pessoas, buscando proteger o seu poder de compra.

O mercado antecipa os meteoros. No final do livro Big Short (não me lembro se esta cena está também no filme A Grande Aposta), um dos protagonistas observa as pessoas na rua, andando despreocupadas, como se nada estivesse para acontecer, e pensa como a vida dessas pessoas vai virar de cabeça para baixo por causa da crise do subprime. De fato, o mercado estressou em 2008, mas a grande recessão econômica ocorreu somente em 2009.

O mercado está nervoso, muito nervoso, avisando que tem um meteoro vindo em direção ao Brasil. Mas, em Brasília, os políticos continuam cuidando da faxina da casa como em um dia qualquer.

A ponta do iceberg

As manifestações de 2013 começaram com um aumento das passagens dos ônibus em São Paulo. O aumento havia sido de apenas R$0,20, e parecia um exagero protestar contra algo tão irrisório. Por isso, o mote que marcou as manifestações foi “não é pelos vinte centavos”.

Os R$0,20 foram a gota d’água que fez transbordar o balde da insatisfação popular. Insatisfação contra os péssimos serviços públicos oferecidos em troca de uma carga tributária escorchante. Insatisfação contra as corporações que tomaram conta do estado brasileiro, e dele extraem benefícios negados ao restante dos cidadãos. Insatisfação contra a corrupção em todos os níveis do governo. Enfim, os R$0,20 eram de fato muito pouco, mas o suficiente para acender uma reação épica. Com o mercado está acontecendo mais ou menos a mesma coisa. Os R$30 bilhões que o ministro Guedes pediu licença para gastar são uma gota d’água no oceano. Afinal, o que são R$30 bilhões para ajudar os pobres em um país tão rico?

Mas não é pelos R$30 bilhões, assim como não era pelos R$0,20. Esses R$30 bilhões são a gota d’água que transbordou o balde da paciência do mercado. Não tem dinheiro para o bolsa família, mas tem para as emendas parlamentares. Não tem dinheiro para o bolsa família, mas tem para os 2 meses de férias no judiciário e para mais um TRF. Não tem dinheiro para o bolsa família, mas tem para pagar universidades públicas para os filhos da classe média. Não tem dinheiro para o bolsa família, mas tem para pagar aposentadorias para pessoas que sequer completaram os 50 anos de idade. Não tem dinheiro para o bolsa família, mas tem para pagar pensões para filhas solteiras de militares. Não tem dinheiro para o bolsa família, mas tem para subsidiar empresas que têm o lobby mais forte em Brasília. Enfim, não tem dinheiro para o bolsa família, mas tem para manter essa máquina balofa e ineficiente chamada Estado brasileiro.

O mercado, ao contrário das pessoas, não sai às ruas para protestar. O seu protesto (o nosso protesto) é vender os ativos que vão ser corroídos pela inflação. No limite, quem pode vende todos os seus ativos e envia o dinheiro para países onde a moeda é respeitada pelo governo. Na prática, a moeda do país torna-se um mero papel pintado, e as pessoas só confiam na moeda estrangeira. Não chegamos lá ainda, mas estamos caminhando perseverantemente na direção do desastre. Nessa toada, é uma questão de “quando”, não uma questão de “se”.

Não é pelos R$30 bilhões. Essa é apenas a ponta do iceberg.

Perdendo a virgindade

Todos conhecem a piada do namorado que, tentando convencer a namorada virgem a transar, a tranquiliza dizendo algo que não vou repetir aqui para não ferir suscetibilidades.

Quando o ministro da Fazenda, que é, em tese, o guardião da disciplina fiscal, usa o mesmo artifício do namorado, sabemos que a virgindade foi para o espaço. No caso, o teto de gastos, para todos os efeitos, não existe mais.

Lula está esfregando as mãos. Com sua capa de defensor dos pobres, exige que o auxílio seja de R$600.

Por que não? Afinal, como sabe qualquer casal de namorados, uma vez iniciado o ato, é impossível qualquer tipo de controle. Por que só R$ 30 bilhões? Por que não 60 ou 100 ou 200? Afinal, os pobres estão precisando, e não podemos nos tornar escravos do mercado, como afirmou o sábio Mourão.

O Congresso já está falando de um auxílio de R$500, e para chegar nos R$600 de Lula é um pulinho. Lula não se importa com os eventuais ganhos eleitorais de Bolsonaro porque é reconhecido como o pai do programa, desde sempre vilipendiado por Bolsonaro. Além disso, a deterioração das condições macroeconômicas, com o aumento dos juros, dólar e inflação, pode significar uma perda líquida de popularidade para o presidente no final do dia.

Há um suposto embate ideológico encomendado para o ano que vem, com candidatos de esquerda e de direita polarizando as eleições. Nada mais falso. O inimigo do Brasil não é o comunismo ou o capitalismo. O verdadeiro inimigo do Brasil é o populismo, terreno em que a esquerda e a direita tupiniquim se encontram festivamente.