Amigo do amigo

O ex-deputado Alberto Fraga, amigo pessoal de Bolsonaro, foi o padrinho de Augusto Aras na PGR.

Lembro aqui a ordem de prioridades que descrevi outro dia, e que comandam as decisões de Bolsonaro:

1) Parentes/amigos
2) Agenda de costumes
3) Agenda econômica
4) Agenda anti-corrupção

A indicação de Aras segue exatamente esta ordem.

A voz do povo

Sempre que lia alguma análise dizendo que o Moro poderia ser candidato a presidente, eu descartava como coisa de analista que não tem o que fazer. Afinal, o Moro, com uma vaga garantida no STF, a troco do que vai arrumar essa sarna pra se coçar.

Isso foi até hoje, quando ouvi um diálogo na copa do escritório onde trabalho, entre a copeira e o office boy. Na TV, a noticia de que Moro tem o dobro da aprovação de Bolsonaro.

– Se ele se candidatar, meu voto é do Moro, diz o boy.

– Tenho pena de quem vai concorrer com ele, não vai ter nem 1% dos votos, completou a copeira.

Por essa voz do povo eu não esperava.

Quem tem padrinho não morre pagão

O texto a seguir é de Osmar Lannes Jr. A ôtoridade a que ele se refere é a deputada Carla Zambelli. Que saiu às ruas contra “a falta de ética na política”.

Descansem os espíritos timoratos: a lei de abuso de autoridade não vai alcançar a deputada e nem o seu padrinho.

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“Desabafo.

Uma de minhas filhas decidiu, com 14 anos, fazer o ensino médio no Colégio Militar de Brasília. Por não preencher os requisitos previstos para ingresso direto no CMB, a única alternativa que lhe restava seria prestar um concurso. Não um concurso qualquer, mas um duríssimo concurso, em que centenas de candidatos disputariam as pouquíssimas vagas reservadas para essa modalidade de acesso.

Sujeitou-se, por isso, durante um ano inteiro, a uma dura rotina de estudos. De segunda a sexta-feira, tinha aulas, atividades e provas num dos melhores colégios da cidade. Às 18:00 horas, a mãe a buscava no colégio e a levava a um curso preparatório para o concurso. O jantar dela se dava no carro, durante o trajeto. Tinha aula no cursinho das 18:30 às 22:30 horas. Chegava em casa, toda noite, depois das 23:00 horas. No dia seguinte, às 7:00 horas, já estava pronta para o colégio. Fins de semana eram dedicados a mais estudo e deveres. Com 14 anos de idade.

Ao final de um ano inteiro de esforço incomum e uma assombrosa dedicação, foi aprovada no concurso do Colégio Militar, conquistando uma de apenas DEZ VAGAS, contra mais de MIL CANDIDATOS.

Enquanto isso, em abjeta contradição com o ethos de trabalho, dedicação e meritocracia que constitui a base da instituição militar, o filho de uma personalidade pública é agraciado com uma das vagas no mesmo Colégio Militar de Brasília. Sem concurso. E sem direito legal ou normativo ao ingresso no Colégio sem concurso.

Mais uma bofetada na face dos brasileiros que, tolamente, acreditam que as regras valem para todos. Que, teimosamente, optam pelo trabalho e pelo esforço próprio. E que, ingenuamente, acreditaram em promessas de novos tempos.

Lamento MUITO que o Exército Brasileiro tenha coonestado essa gritante violação aos mais basilares princípios da própria Instituição.

No fundo, somos todos OTÁRIOS. Aliás… todos, não: quase todos.

RIP, Brasil.”

Ciclofaixas e eleições

Ontem senti falta da ciclofaixa do domingo, mas pensei: deve ser por causa da chuva, né?

Nada disso: foi incompetência da prefeitura mesmo, que não conseguiu repor o patrocinador que desistiu do contrato.

Não sei se foi um problema do contrato, que não previa aviso prévio, ou da prefeitura, que dormiu no ponto. Pouco importa. O culpado será sempre o prefeito.

Bruno Covas tem tentado se destacar com pautas da esquerda bem-cheirosa. A falta da ciclofaixa atinge em cheio justamente esse público, digamos, mais sensível à causa. O atual prefeito corre o risco de acabar o mandato falando sozinho.

Esperto é o Doria, que já se movimenta em direção ao seu plano B: Joice Hasselmann. E mais esperto ainda é o Bolsonaro, que já avisou que Joice não é a sua candidata.

As eleições para a prefeitura de São Paulo serão, como sempre, interessantes.

Reconhecimento

Dois trechos que me chamaram a atenção na entrevista de Bolsonaro hoje, no Estadão. Nos dois, o presidente reconhece os avanços feitos no governo anterior.

Lula, quando assumiu o governo em 2003, fez questão de fazer tábula rasa do governo FHC. “Herança maldita” foi o termo usado. Nada, nada, nada prestava. Tudo tinha que ser reconstruído. Esse foi o discurso quando, na verdade, Lula construiu (para depois destruir) sobre os alicerces deixados por FHC.

A fala de Bolsonaro, reconhecendo boas coisas feitas pelo governo Temer, é uma lufada de ar fresco na política brasileira. Seja por cálculo político ou simplesmente por espontaneidade, Bolsonaro muda a prática política que, se não inaugurada pelo PT, foi levada ao cume da perfeição pelo partido de Lula.

Velha política a todo vapor

A história é a seguinte (leia aqui): Bolsonaro indicou dois conselheiros técnicos para o CADE, um indicado por Sérgio Moro e o outro por Paulo Guedes. No entanto, o presidente do Senado, o pequeno Davi, não gostou de não ter sido “consultado” antes das indicações. Como é o Senado que tem a prerrogativa de aprovar os nomes, criou-se um impasse.

Mas aí, acontece o plot twist: Bolsonaro, interessado na aprovação do 03 como embaixador em Washington (o que também depende de aprovação do Senado), retirou os nomes indicados para o CADE. Resultado: tudo parado, aguardando a “negociação” entre Bolsonaro e o pequeno Davi.

Nunca pensei que escreveria as palavras “negociação” e “Bolsonaro” na mesma frase. “Negociação” sempre foi sinômino de corrupção no léxico do capitão. Entretanto, bastou que estivesse envolvido algo realmente importante para o presidente, algo de muito significado, para que velhas convicções fossem jogadas ao mar.

Se era para negociar, que se fizesse desde o início. Não estaríamos com o CADE parado há um mês, com efeitos deletérios sobre a atividade econômica (recomendo a leitura do artigo no link). Mas não: Bolsonaro, como sempre, deu uma de durão, indicou sem negociar com ninguém, e agora resolveu recuar porque seus interesses pessoais foram contrariados.

Quem me acompanha aqui sabe que sempre considerei a negociação como parte da Política. Negociação não precisa necessariamente estar identificada com corrupção. Minha ficha caiu com relação a este governo no início da tramitação da reforma da Previdência, quando finalmente entendi que Bolsonaro não fora eleito para negociar com o Congresso. Seu exercício da Política seria feito através da imposição de uma agenda suportada pelo “povo nas ruas”, e pela indicação de quadros técnicos sem o aval de congressistas. Esperar que Bolsonaro adotasse a “velha política” da negociação era pura perda de tempo.

Descobrimos agora que a “nova política” serve somente para assuntos secundários, como a reforma da Previdência. Quando se trata de algo realmente importante, como a indicação de seu filho para a embaixada dos EUA, a “velha política” serve muito bem.

O poder das frases infelizes

Bolsonaro escandaliza o mundo bem-pensante. Diz o que lhe vem na telha, sem nenhuma “estratégia”, conforme confidenciou em bate-papo com uma jornalista do Globo. Bate-papo esse, aliás, que faz também parte da “falta de estratégia” do presidente: foi improvisado, simplesmente porque “a jornalista pediu”.

Das incontáveis análises que li nos últimos dias sobre o assunto, posso resumir o que se esperava de Bolsonaro ao assumir a presidência: que “descesse do palanque,” que “respeitasse a liturgia do cargo”, que “preservasse as instituições”, que “trabalhasse para a união dos brasileiros”.

Bem, sinto dizer que quem esperava isso de Bolsonaro estava no mundo da Lua, e não aqui no Brasil-sil-sil. Bolsonaro foi eleito justamente como reação a um grupo que dilapidou as instituições brasileiras, nunca desceu do palanque e trabalhou incansavelmente pela desunião dos brasileiros. Na visão do núcleo duro do Bolsonarismo, aquele que lhe deu uma base eleitoral inexpugnável e levou o capitão ao segundo turno, o PT de tal forma envenenou as instituições, que não restaria outra saída a não ser uma política de terra arrasada, para daí construir algo completamente novo. É isso o que Bolsonaro vem fazendo, e não decepciona uma vírgula o seu núcleo duro.

Há muitos (entre os quais me encontro), no entanto, que votaram em Bolsonaro simplesmente para “evitar o PT”. Estes queriam votar em Alckmin, no Meirelles ou no Amoedo, mas foram obrigados a engolir Bolsonaro por conta do núcleo duro do Bolsonarismo, que o colocou no 2o turno. Alguns destes esperavam que Bolsonaro fosse uma versão mais histriônica dos candidatos mais “instucionais”, mas que, ao fim e ao cabo, “respeitasse as instituições, trabalhasse pela união e blá blá blá”. A minha ficha particularmente caiu quando se iniciaram as negociações com o Congresso para a aprovação da reforma da Previdência. Até escrevi um post a respeito. Ali, ficou claro que Bolsonaro não fora eleito para fazer o que Alckmin faria. Falta cair a ficha de um monte de gente ainda, que espera de Bolsonaro o que esperaria de Alckmin.

Arrependimento por ter votado em Bolsonaro no 2o turno? De maneira alguma! Entre dois polos destruidores das instituições, prefiro o novo. Aliás, é bom notar: não há termos de comparação entre a meia dúzia de frases infelizes de Bolsonaro com anos e anos de rapina e implosão das instituições democráticas perpetrados pelo PT, com o feliz concurso do sistema político e sob as barbas do institucional PSDB. Aos que estão genuinamente preocupados, recomendo calma: o poder das frases infelizes ainda não chegou a tanto.

Os pais da reforma

379 votos para uma reforma impopular como a da Previdência não é para qualquer um.

Filho bonito tem muitos pais e, quem diria, a Reforma da Previdência se transformou em um filho lindo, disputadíssimo.

Afinal, quem são os pais da reforma?

Temer é o primeiro deles. Ao lado de outras reformas importantíssimas, o governo Temer foi o primeiro a propor uma reforma abrangente depois de quase 20 anos após a última, no governo FHC. Foi dado o início de todo um trabalho de convencimento da opinião pública, e a reforma teria sido aprovada não fosse o escândalo conhecido como “Joesley Day”.

O segundo pai é a dupla Bolsonaro/Guedes, que tiveram a iniciativa de enviar a proposta de uma reforma para o Congresso. Apesar de poderem ter utilizado a reforma de Temer, optaram pelo caminho mais arriscado de enviar um projeto totalmente novo, muito mais ambicioso. Conseguiram.

O terceiro pai é Rodrigo Maia. Ele assumiu para si a tarefa de articular os apoios que terminaram na acachapante votação de hoje. Não há dúvida de que, se não fosse o empenho de Maia, que era o único a afirmar ser possível votar a reforma antes do recesso, essa proposta não teria saído do lugar.

O Congresso brasileiro é o quarto pai dessa reforma. É difícil imaginar que uma reforma tão impopular tenha sido aprovada por “interesses menores”. Posso estar sendo ingênuo, mas acredito que a maioria dos deputados, neste caso bem específico, estava realmente convencida de que precisávamos evitar o precipício. Não aprovar a reforma seria entregar o país de volta ao PT, o que não interessa a ninguém, a não ser aos próprios petistas.

Por fim, o quinto pai dessa reforma são todos os técnicos que trabalharam na proposta e no convencimento dos congressistas e da opinião pública, entre os quais destaco Paulo Tafner e Pedro Fernando Nery. Mas há muitos outros, que trabalharam no governo Temer e trabalham no governo Bolsonaro, sem os quais não teria sido possível esta aprovação.

Quase 74% do Congresso votando a favor da Reforma da Previdência, que é uma das reformas mais impopulares em qualquer lugar do mundo. Só no Brasil.