O empenho do presidente

Bacana o PR nessa sua cruzada pela moralidade e pelos bons costumes.

Sinto falta desse mesmo “sangue nos olhos” na defesa da reforma da Previdência. O último tuite do PR sobre o assunto foi no dia 20/02, há exatas duas semanas, quando a proposta foi enviada ao Congresso. Desde então, foram 69 tuítes e retuítes, uma média de quase 5 por dia, divididos entre anúncios de obras e agenda cultural e de costumes. Custava ter, sei lá, um tuite por dia sobre o assunto? Sobravam ainda 4 para os temas preferidos do PR.

Aprovar a reforma já é difícil com o engajamento pessoal do presidente, sem isso a coisa fica complicada.

Algum amigo precisa avisar o PR que o governo dele acaba se a reforma da Previdência não for aprovada. Mesmo com a aprovação há ainda muito trabalho a fazer, mas sem a aprovação é game over.

Retirem o presidente do debate, por favor

Estavam reclamando que o Bolsonaro ainda não tinha entrado em campo para defender a reforma da Previdência.

Pois bem, a pedidos, hoje o presidente conversou com jornalistas a respeito.

Jogou às feras as mudanças no BPC e a idade mínima da mulher. E isso porque a CCJ nem foi instalada ainda, os debates no Parlamento ainda estão nas preliminares.

Talvez seja o caso de repensar se Bolsonaro precisa mesmo entrar no debate.

Método

Era óbvio que os áudios Bolsonaro-Bebianno iriam aparecer. Não se humilha uma pessoa em praça pública sem troco, se essa pessoa puder dar o troco.

Pode até ter havido quebra de confiança, e os áudios indicam que potencialmente houve sim, com ou sem culpa de Bebianno, pouco importa.

Isso é uma coisa.

Outra coisa é a forma ginasiana como o assunto foi tratado. Qualquer neófito em política sabe como se demite um ministro: primeiro diz que está prestigiado, depois chama o dito-cujo, diz que ele está demitido e combina com o demitido a melhor forma de sair.

Chamar o demissionário de mentiroso em rede social é jogar gasolina na fritura. Uma falta de habilidade política espantosa.

A não ser que…

A não ser que seja método. Um aviso de que todo auxiliar que quebrar a confiança do presidente será pendurado pelado de cabeça para baixo em praça pública.

Bebianno é um personagem absolutamente irrelevante. A República não vai cair com ele. A vida continua. Mas o episódio serviu para mostrar que ou falta a Bolsonaro habilidade política ou o presidente tem um método de tratar auxiliares que pode se voltar contra ele ao longo do tempo. O vazamento dos áudios foi somente uma amostra.

Bolsonaro é isso aí

Depois de ler vários análises sobre o discurso de ontem do Bolsonaro, essa foi a que mais se aproxima daquilo que penso.

Complemento: quem está cobrando um discurso de estadista de Bolsonaro (Bolsonaro!) são as viúvas de um político que não existe, a saber, uma estrela de alta grandeza do PSDB que encarnasse o anti-petismo furioso do capitão.

Um recado para as viúvas: a indigência da presidência Bolsonaro é consequência direta da indigência política do PSDB, que não foi capaz de entender em que país se encontrava. Agora, o melhor que têm a fazer é conformar-se em serem representados pelo simplório Bolsonaro, que sequer sabe comer com talheres de prata. Lembrando sempre que a alternativa seria o boneco de ventríloquo do presidiário, que certamente faria um “discurso de estadista” em Davos.

O peso da palavra do presidente da República

Ainda sobre a fala de Bolsonaro criticando o aumento da alíquota de 11% para 14% dos funcionários públicos de alguns Estados e municípios.

Imagine você sendo o prefeito de São Paulo. Depois de uma longa batalha legislativa, com direito a briga de rua, consegue aumentar a alíquota de contribuição dos servidores públicos municipais de 11% para 14%. Não se trata de uma escolha sádica, pelo puro prazer de ferrar a vida das pessoas. Foi a única forma encontrada para fechar as contas. Quer dizer, há outras, como aumentar os impostos de toda a população ou cortar verbas de outras áreas. A solução de aumentar as alíquotas para pagar o rombo do sistema previdenciário pareceu a forma mais justa.

Aí vem o presidente da República, e diz que 14% é um exagero, que 11% está de bom tamanho. Por que 11%? Por que não 8% ou 5%? De onde saiu o número mágico de 11% ser justo, enquanto 14% é demais? E mais. Qual a sugestão do presidente para que o prefeito de São Paulo possa equilibrar o sistema previdenciário sem aumentar a alíquota? Que medidas o presidente sugere ao prefeito? Ou fez simplesmente uma declaração populista vazia? Fosse eu o prefeito de São Paulo, estaria agora dizendo que aceitaria voltar com a alíquota de 11%, desde que o governo federal complementasse os outros 3%.

O presidente Bolsonaro precisa entender o peso da faixa que tão orgulhosamente vestiu no dia primeiro. Suas palavras têm peso e influenciam políticas públicas. Simplesmente dizer que “não é justo” não resolve os problemas. Se continuarmos nessa toada, vamos mal, muito mal.

A ausência

Dos 5 ex-presidentes vivos, Sarney e Collor estavam presentes à posse de Bolsonaro. É compreensível que Dilma e Lula não tenham comparecido.

FHC deve ter tido um bom motivo para não ter dado o ar de sua graça.

Muito estranho!

Sabe aqueles grupos de zapzap que criaram só pra fazer campanha pro Bolsonaro? Esqueceram de desativar, e agora não para de chegar mensagens de Feliz Natal no meu telefone. Só pode ser coisa de uma grande central manipuladora. Afinal, é muito estranho mensagem de Feliz Natal no dia 24 de dezembro. Aí tem!!!!

Feliz Natal para todos os meus amigos!

Insegurança jurídica

Este é um excelente exemplo de como a insegurança jurídica ferra a vida de quem produz no País.

O Funrural é uma contribuição de caráter previdenciário, que, em tese, deveria financiar a aposentadoria do trabalhador rural.

Ocorre que foi declarada inconstitucional pelo STF em 2011. Desde então, os produtores rurais deixaram de recolher.

No entanto, o mesmo STF voltou atrás e declarou a contribuição constitucional em 2017. Essa “dívida” dos produtores rurais se refere ao período que vai de 2011 a 2017, período no qual a mais alta corte do País considerava o tributo não devido.

Imagine que, em determinado momento, o STF suspenda o pagamento do IPVA. Você, todo feliz, deixa de recolher. Então, 6 anos depois, o mesmo STF diz “Rá, pegadinha do malandro! O IPVA continua valendo, e você vai precisar pagar os 6 anos retroativos!”

Esse é o imbróglio. Obrigado STF, por mais este relevante serviço prestado ao País.

Como se fabrica uma fake news

Texto da página de Pedro Burgos


Um bom caso para entender como as fake news se espalham é a história de “bolsonaristas estão vaiando quando Freddie Mercury beija outro homem nas sessões de Bohemian Rhapsody.” Você já deve ter ouvido (ou compartilhado/comentado) o caso a essa altura.

Procurei bastante ontem, e o primeiro tuíte sobre o assunto já fala da história em segunda mão, a pessoa em questão não havia presenciado nada, mas “lido”. Foi publicada na hora do almoço do sábado. Teve 25 mil RTs (http://bit.ly/2AOkplc). Nas 10 mil interações do tuíte, a tônica é “na minha sessão não aconteceu isso, por sorte. O povo até chorou/aplaudiu. Mas que coisa horrível!”

O tuíte foi a única fonte da “reportagem” de duas “matérias” no dia seguinte. Logo de manhã cedo, estava no Diário do Centro do Mundo (http://bit.ly/2PKaMfH). A postagem na seção “Essencial” tinha o título “Bolsominions vaiam cenas gays do filme sobre Freddie Mercury, Bohemian Rhapsody”. Ela só tinha uma frase e uma imagem do tuíte. Não precisou mais para ter 21 mil curtidas no Facebook.

No Cinepop: “Brasileiros estão vaiando as cenas gays de ‘Bohemian Rhapsody’”. Teve 140 mil interações no Facebook. Para dar um verniz de jornalismo sobre um texto que só tem um tuíte de fonte, a coisa é colocada assim: “parece que uma parte dos espectadores brasileiros não gostaram das cenas homoafetivas exibidas no longa. E o descontentamento invadiu a Internet.”

Começaram a surgir dúvidas sobre o fato. Aí o Hypeness ontem usou um título comum a agências de “fact-checking”: “Sim, os brasileiros estão vaiando cenas gays da biografia do Queen no cinema.” 174 mil pessoas curtiram isso no Facebook. Dessa vez, o texto não traz sequer um link ou captura de imagem de um tuíte. A coisa é verdade porque é verdade, oras.

E aí chego ao cerne da questão. O texto do Hypeness passa a maior parte do tempo falando não sobre o “fato” do título, mas sobre a vida de Freddie, com coisas como “Talvez estas pessoas não saibam, mas apesar de raramente falar sobre a vida pessoal, o africano nascido em Zanzibar nunca fez questão de esconder a orientação sexual.” (na verdade ele se definia como bi).

O objetivo dessas postagens e compartilhamentos então não é denunciar um absurdo, mas demarcar a superioridade moral, o conhecimento sobre a ignorância e preconceito. Nas redes sociais, notícias são acessórios para o que os americanos chamam de “virtue signaling”. Então, quando a “notícia” é só uma muleta, ela ser verdadeira ou falsa é menos importante. Por isso que acho que fake news são mais consequência que causa. A crença em desinformação é o sintoma de uma sociedade fraturada, em que um lado acredita que o outro é capaz de coisas grotescas — seja encenar um atentado ou distribuir mamadeiras eróticas.

Veja, é perfeitamente possível que em alguma sessão pessoas tenham vaiado cenas do filme. E elas podem ser eleitoras do Bolsonaro, claro. Mas o comentário mais comum nessas notícias, mesmo de gente que acreditou nelas, foi de como nas sessões em que elas viram havia só choro de emoção — e até aplausos. Por que a exceção não confirmada é “notícia”, então? O fato de tantas pessoas escolherem um evento isolado sem qualquer comprovação para generalizar o comportamento do “inimigo” diz mais sobre essas pessoas do que elas imaginam. E a quantidade de jornalista que escreve artigo denunciando fake news e no minuto seguinte compartilha isso, olha…