Não é comigo

Bolsonaro fixou o tuíte abaixo em sua TL. Parece que acordou para o problema que uma parte de seus correligionários vem causando à sua campanha.

E chama a atenção para um fato: a fabricação de agressões. Não que estas não existam, muito pelo contrário, que o diga o cidadão baiano morto a facadas. Mas a indústria de fake news está longe de ser uma exclusividade dos bolsonaristas.

Não vai ter estelionato eleitoral

“Você não pode ter uma política predatória no preço combustível para salvar a Petrobras e matar a economia brasileira. Qualquer coisa no combustível reflete no preço da mercadoria que tá lá na ponta. Ninguém quer a Petrobras com prejuízo, mas também não pode ser uma empresa que usa do monopólio para tirar o lucro que bem entende.”

Ciro não teria dito melhor.

Dilma não teria dito melhor.

Um mérito Bolsonaro tem: ninguém vai poder acusá-lo de estelionato eleitoral.

Lamentar é pouco

Estes são prints de mensagens que recebi de uma amiga ontem no WhatsApp. A linguagem é tão xucra, que até parece fake. Difícil imaginar alguém em pleno século XXI falando nesses termos.

Bolsonaro veio ontem a público lamentar a morte do capoeirista na Bahia e agressões desse tipo. Diz que não consegue controlar as ações de milhões de seguidores. É verdade, mas é muito pouco.

Bolsonaro, ontem, no Twitter, chamou Haddad de canalha ao condenar o candidato do PT pela disseminação de fake news. O ex-capitão sabe como ser contundente quando quer. Apenas “lamentar” é quase uma declaração de conivência, dado a forma como normalmente o candidato se comunica.

Até onde eu sei, racismo é crime no Brasil, e continuará sendo sob um governo Bolsonaro. O candidato deve deixar claro, muito claro, acima de qualquer suspeita, de que isso é verdade. E, para isso, precisa condenar atos desse tipo em termos muito, mas muito mais veementes, do que simplesmente “lamentar” é dizer que não tem nada a ver com isso.

Olhe o exemplo do Sul

“Não adianta uma proposta que aos olhos apenas de economistas e de alguns políticos é maravilhosa, mas que não passa no Parlamento.”

Essas são palavras de Bolsonaro a respeito da reforma da previdência. Para ele, a “reforma do Temer” não passa.

É bom Bolsonaro dar uma olhada para o nosso vizinho ao sul. Na Argentina, Macri tentou fazer um “ajuste gradual”, e deu no que deu. Agora, está sendo obrigado a fazer um ajuste de verdade, muito mais duro do que seria se tivesse encarado o problema de frente.

Essa ladainha de que não se faz reforma para “agradar o mercado” acaba quando termina a paciência dos credores.

Em direção ao centro

O 2o turno obriga os candidatos a procurarem acenar para um espectro mais amplo do eleitorado. Isso começou a ficar claro ontem, nas entrevistas de Bolsonaro e Haddad no JN. Tanto um quanto o outro desautorizaram declarações que poderiam colocar em dúvida seus compromissos com as instituições democráticas.

Ao longo da campanha, é provável que Haddad também acene para o centro em questões econômicas, enquanto Bolsonaro deve reafirmar seu compromisso com os mais pobres, que é o eleitorado do PT.

O 2o turno, no mínimo, eleva o preço de um estelionato eleitoral.

No final do dia, é bom que tenhamos um 2o turno. A votação do vencedor será maior do que teve no 1o turno, conferindo-lhe ainda mais legitimidade, além de termos uma plataforma mais “centrista” no final. O candidato vence porque conseguiu atrair mais eleitores fora do seu campo político, o que é bom.

Saldão do 1o dia de campanha no 2o turno

Saldão do 1o dia de campanha no 2o turno:

– Haddad foi a Curitiba, receber novas orientações de seu chefe. Levou uma bronca, porque é claro que não deveria estar ali, aquilo seria visto como um radicalismo, como ele não sabia disso? Foi dispensado de novas visitas, e orientado a “amaciar” alguns pontos do seu Programa de Governo, como uma nova constituinte. Haddad, que estava pouco à vontade em seu figurino radical, vai poder finalmente despir a fantasia e assumir toda a moderação que Deus lhe deu. (Deus não, que ele é ateu. Lula.)

– FHC declarou sua neutralidade. Nada que resista ao Haddad “social-democrata” que se apresentou na entrevista ao JN.

– Bolsonaro recebeu apoios políticos: Ana Amélia, tentando reconstruir suas pontes com o PP do RS, Amazonino Mendes e João Doria, procurando surfar na popularidade do ex-capitão no 2o turno de seus respectivos estados. O caso de Amazonino Mendes é interessante: é do PDT, mesmo partido de Ciro, e no Amazonas a disputa foi muito igual entre Bolsonaro e Haddad. Ou seja, não teria motivo para não apoiar Haddad. No caso de Doria, o amor não foi correspondido: Bolsonaro disse que será neutro na disputa paulista.

– Haddad também recebeu apoio político. De Boulos. […] Não, Haddad ainda não recebeu apoio político.

– Bolsonaro mesmo não fez nada, a não ser a entrevista no JN. Deu um puxão de orelhas ao vivo e em cores no General Mourão por suas declarações desastradas. Só faltou dizer: “Mourão, aprende com a Manu D’Ávila, fica calado no canto aí”.

– Um capoeirista petista foi morto por um maluco bolsonarista. Foi facada. Haddad, provavelmente, já deve estar pensando em um estatuto do desarmamento envolvendo armas brancas.

Os votos de Ciro

Meu professor na academia votou no Ciro.

Hoje, quando cheguei para a aula, me cumprimentou com um “agora é mito”.

Qual a lógica? Ele é anti-petista declarado. Votou no Ciro para tentar tirar Haddad do 2o turno e não precisar escolher entre o ex-capitão e o puppet do presidiário. Não deu certo.

No 2o turno, seu anti-petismo falará mais alto. Assim como de vários de seus amigos que fizeram a mesma coisa, segundo me disse.

Ciro teve 12,5% dos votos válidos. Se 1/3 dos eleitores de Ciro pensarem dessa maneira, Bolsonaro não precisaria dos votos de mais ninguém para se eleger.

Parece meio puxado para um eleitorado como o de Ciro, que não é, em sua maioria, anti-petista. Se fizermos este mesmo raciocínio somente com os eleitores do Sudeste e Sul, essa migração deveria subir para 2/3 somente nessas regiões (e zero nas outras regiões), pois o coronel recebeu metade dos seus votos abaixo da Bahia. Também parece puxado.

De qualquer forma, é uma amostra de como os votos de Bolsonaro no 2o turno não deverão vir apenas dos partidos mais à direita. O anti-petismo fará o serviço.

A verdadeira cor do Novo

O Novo fez uma campanha linda. Elegeu 8 deputados federais, 12 estatuais e Amoêdo chegou em 5o lugar. Acho que teria o dobro de votos não fosse o voto útil.

Mas não vamos nos iludir: o futuro governador de Minas só está nessa posição por conta de seu apoio a Bolsonaro. Se dependesse apenas do Novo, seria mais um Chequer da vida.

Zema foi votar de amarelo, não de laranja. Por isso está no 2o turno.