A vontade do povo

Onde os analistas políticos erraram, e erraram feio? Na crença de que a máquina política era decisiva em uma eleição de um pais-continente, com mais de 100 milhões de eleitores.

Máquina política significa cabos eleitorais trabalhando pelo candidato nos mais longínquos grotões, além de tempo de TV.

A máquina em torno de Geraldo Alckmin era verdadeiramente portentosa. Tão grande, que praticamente dispensaria uma mensagem. Bastaria “jogar parado”, com um discurso de eficiência administrativa e “anti-extremos”, para que a eleição lhe caísse no colo. Assim pensava o candidato, assim pensavam os analistas, eu incluído. Ainda bem que não vivo disso!

O que acabou acontecendo foi o contrário: a mensagem criou a máquina. Bolsonaro incorporou o anti-petismo e o anti-establishment, a busca por segurança e pelos valores conservadores.

A mensagem criou os votos. Os votos criaram a máquina. Máquina que agora trabalha pela candidatura de Bolsonaro. Doria, Witzel, Zema e tantos outros Brasil afora vão trabalhar pela candidatura Bolsonaro, em um processo que se auto-alimenta.

Nunca o adágio “a vontade do povo é soberana” foi tão verdadeiro.

O anti-pobre

Essa é a única tática que pode ser uma real ameaça à eleição de Bolsonaro: colar a imagem de “anti-trabalhador”, “anti-pobre” no ex-capitão. Se de fato o PT insistir nessa linha e esquecer essa bobajada de “democracia ameaçada” e de “defesa de minorias”, fará com que a campanha do candidato do PSL tenha que sair da zona de conforto.

PS.: aos mais apressados, informo que dou muito valor à democracia e às minorias. Estou apenas falando de táticas eleitorais. A defesa dessas duas pautas não vai retirar um voto sequer do ex-capitão.

Os desafios de cada um

Bolsonaro e Haddad (mais este último), terão que fazer acenos para o centro.

Bolsonaro, em seu discurso pós-resultado, repisou todos os pontos de sua campanha, que lhe garantiram 46% dos votos válidos. Mas acrescentou algo importante: falou em bancada no Congresso, em 300 deputados honestos com os quais pode contar. Com essa sinalização, mata dois coelhos com uma cajadada só: demonstra apreço pelo Congresso e, indiretamente, pela democracia e, além disso, mostra que pode ter governabilidade, que é o grande receio do establishment empresarial.

Haddad, por outro lado, tem como seu primeiro compromisso de campanha a sua visita semanal ao presidiário de Curitiba. Não consigo pensar em coisa mais sectária do que isso. Se tem algo que Haddad não precisa, neste momento, é reforçar seus laços com o lulismo. A única chance de Haddad é ser mais Haddad e menos Lula. Os eleitores de Lula ele já os tem todos, ele precisa conquistar aqueles que não gostam de Lula, mas não têm nada contra o ex-prefeito de São Paulo.

Os dois candidatos têm o desafio (muito maior no caso de Haddad, obviamente) de não perder os votos do 1o turno e conquistar votos no 2o turno. Os primeiros movimentos de ambos mostram que Bolsonaro sai em vantagem, e não só nos votos que recebeu. Mas o 2o turno será longo.

Da minha consciência cuido eu

Como assim, judeus? Eu sou judeu e ninguém me perguntou minha posição antes de falar por mim.

Mais adequado seria “judeus de esquerda que se escondem por trás de sua identidade étnica para defender suas pautas ideológicas” divulgam nota de repúdio a Bolsonaro.

Sem dúvida, a fala de Bolsonaro sobre o direito das maiorias em relação às minorias é condenável. Tão condenável quanto o conhecido apoio do PT a vários regimes liberticidas ao redor do mundo, incluindo o Irã, onde a homossexualidade é punida com a morte. No entanto, pode esperar sentado a condenação do PT por parte desses policiais da consciência judaica.

Pessoal, muito obrigado pelo esforço, mas da minha consciência cuido eu mesmo.

Alea jacta est

Da página de Eduardo Affonso

Amanhã vou tirar um sábado sabático e não falar nem pensar em política.

A menos que vaze a delação do Marcos Valério, o Haddad adquira vida própria ou o Mourão dê mais um tiro no pé, nada haverá a dizer, e tudo já terá sido dito por quem entende melhor de pesquisas e tendências ou tem trânsito nos bastidores (o FB comprovou que deixamos de ser 200 milhões de técnicos de futebol para nos tornar 200 milhões de analistas políticos).

Mas lembra quando a professora mandava, ao término da leitura de um livro, fazer o “fichamento”? Vamulá.

1.

“Nem quem ganhar nem quem perder vai ganhar nem perder.” Sábias palavras. O grande vencedor desta eleição, mesmo perdendo, será o Lula.

Trancafiado na carceragem da Polícia Federal, ele fez (impunemente) propaganda irregular no rádio e na televisão, campanha no New York Times, comício no Le Monde, e só não ligou o megafone na Folha de São Paulo porque o Fux puxou o fio da tomada.

Cravou dois postes, um no PT e outro no PSOL; furou o olho do ex-atual-futuro aliado do PDT; escolheu (e conseguiu, com o PSL) o adversário dos seus sonhos para levar ao (possível) segundo turno.

Se seu avatar vencer, Lula vai obsedar a política brasileira pelos próximos quatro – ou quarenta – anos, cravar uma estaca no coração da Lava-Jato e terminar o serviço do petrolão. Se perder, seu partido voltará a ser a baliza ética na nação, o bastião da moralidade pública, o bote salva-vidas dos valores mais puros – além da vanguarda na luta contra o “fascismo”.

2.

Bolsonaro corre o risco de ser eleito não pela direita, mas pelo avesso. Mais que pelo voto útil ou ideológico, pelo voto vingança.

É o sujeito errado, na hora errada, com as concepções de mundo erradas, mas o universo parece conspirar a seu favor.

Se parar de defender torturador e de bater boca com as minorias, pode ser que tenhamos a chance de ver que o conservadorismo não é nenhum bicho papão, e, sim, um contraponto necessário. E que (clichê dos clichês) a alternância no poder é saudável à democracia.

3.

O grande derrotado (além do bom senso) é o PSDB. Alckmin tinha todo o tempo do mundo no horário eleitoral e o maior arco de alianças. De bônus, a melhor vice disponível no mercado. Faltou combinar com os russos.

4.

Ciro foi o bronco de sempre.

E ainda vai se prestar ao papel da noiva abandonada no altar que engole o choro e topa ser a amante.

5.

O Troféu Abacaxi vai para Marina, que largou bem e depois foi ladeira abaixo.

Pena.

Teria sido (sem trocadilho) uma alternativa.

6. O melhor desempenho foi o do João Amoêdo. Num partido novo (com trocadilho), sem verba pública e sem poder participar dos debates na televisão, conseguiu superar Meirelles (MDB) e Álvaro Dias (Podemos), e encostar em Marina (Rede).

Em 2022 (toc toc toc), tudo vai ser diferente.

7.

Cabo Daciolo foi a revelação (divina), e a nação repreendida sentirá falta do alívio cômico que ele proporcionou nesta novela de suspenses, traições, facadas e notícias falsas.#gloriaadeuxxx

8.

Por fim, esta foi uma eleição que ignorou (à exceção de um) todos os ex-presidentes vivos (ou mortos-vivos).

Ninguém deu a menor pelota para Sarney, Collor, FHC, Dilma ou Temer (que já é ex-presidente há algum tempo, e não sabe).

Se isso é bom ou ruim, não faço ideia. Só é um consolo imaginar que daqui a quatro anos talvez olhemos para trás e vejamos que este apocalipse de domingo que vem não foi o fim do mundo.

Bom fim de semana, boa eleição e “alea jacta est” (“agora Inês é morta”, em latim).

Coincidência

Zema é o único candidato do Novo com alguma chance em eleição majoritária.

Coincidentemente, Zema é o único candidato do Novo que não esconde sua preferência por Bolsonaro.

Coincidência.

Talkey

Para a S&P, é melhor ter um presidente insider que vai tentar fazer a coisa errada do que um presidente outsider que vai tentar fazer a coisa certa.

Talkey, S&P.