A diversidade de Harvard

Os alunos brasileiros de Harvard organizam anualmente uma conferência sobre os problemas brasileiros. Neste ano de eleição, estão presentes todos os pré-candidatos à presidência da República: Ciro Gomes, João Doria, Eduardo Leite, Simone Tebet, Sergio Moro e, representando Lula, Jaques Wagner.

Sentiu falta de alguém? Sim, isso mesmo, cadê o André Janones?

PS.: se você acha que uma conferência que pretende discutir os problemas do Brasil deveria convidar um representante do governo brasileiro, é porque não alcançou o real significado da palavra “diversidade”, que orienta a escolha dos palestrantes.

A direita já tem dono

Quem me acompanha já leu isso aqui: o PSDB precisa se colocar à direita de Lula. O conselho do neo-tucano Rodrigo Maia é só o óbvio ululante.

Maia afirma que a aproximação de FHC e outros próceres tucanos com Lula confundiu a cabeça do eleitor. Acho que ele está errado. Na verdade, essa aproximação somente confirmou o que os eleitores do PSDB já desconfiavam: o partido é linha auxiliar do PT.

Quando Doria tomou de assalto o partido, foi para colocá-lo firmemente à direita de Lula. Suas campanhas de 2016 e 2018 foram, antes de tudo, anti-PT. Esse, aliás, é um dos motivos pelos quais Doria sofre restrições dentro do partido.

Mas, como diz o outro, “muito pouco, muito tarde”. Doria e Maia têm a percepção correta, mas como Maia diz, é muito difícil colocar-se à direita do PT quando Bolsonaro já está lá. Esse movimento deveria ter ocorrido lá em 2005, no mensalão. Hoje, a bandeira anti-PT encontra-se firmemente nas mãos de Bolsonaro. E, se já é difícil convencer o eleitor de que se é tão anti-petista quanto Bolsonaro, imagine prestando a cortesia de visitar Lula.

A data errada

Ontem foi 31 de março, dia da Revolução, nome pelo qual a mudança de regime de 64 era chamada quando eu estava no primário, e a data era comemorada em todas as escolas.

Note que evitei o nome “golpe” para fazer referência ao que aconteceu naqueles dias. Revendo jornais da época, você não vai encontrar essa palavra, por mais que procure. O Estadão, periódico acima de qualquer suspeita quando se trata de defender os valores democráticos, estampa em sua edição de 3 de abril a manchete: “Democratas dominam tôda a Nação”. A palavra “golpe” foi usada somente muitos anos depois, quando o evento sofreu a releitura comandada pelos ventos da história.

Ao chamar de “golpe” a deposição de Jango, a oposição a Bolsonaro perde o “big picture” e se apega a detalhes de fácil refutação histórica. E Bolsonaro, fincando pé nos acontecimentos de 31 de março e ”esquecendo-se” dos mais de 20 anos que se seguiram, perde a chance de se mostrar o democrata que afirma ser.

O verdadeiro golpe não se deu em 31 de março. Aquele movimento foi amplamente apoiado por todas as forças democráticas do país e, como diz Bolsonaro, Castelo Branco foi empossado pelo Congresso Nacional com o apoio de toda a mídia liberal. O golpe veio depois, quando Castelo não cumpriu a sua promessa de chamar novas eleições em 1965. O problema é que, como todo processo político, não há uma data a ser lembrada para esse golpe. Aos poucos, como dizia Magalhães Pinto, as nuvens da política se modificam lentamente e, quando você vai ver, a correlação de forças é outra.

A oposição a Bolsonaro deveria lhe confrontar não a respeito de 31 de março, com a fake news de que Jango foi derrubado fora da lei pelos militares, mas com o que se seguiu após 1965, quando os civis deveriam ter retomado o poder, de acordo com os princípios democráticos que nortearam a deposição de Jango. Ao confundirem as duas coisas, dá espaço a Bolsonaro para rebater facilmente com fatos históricos.

E Bolsonaro, se de fato tivesse a intenção de se mostrar um democrata, deveria condenar o regime que se seguiu ao não cumprimento da promessa de novas eleições em 1965. Ao não fazer isso e se apegar aos acontecimentos de 31 de março como representativos dos 20 anos seguintes, dá amplo espaço aos que duvidam de suas convicções democráticas. O fato de, até hoje, não ter atentado contra as instituições, não lhe serve de álibi, pois sabemos que atos são a combinação de convicção, instrumentos e oportunidade. Não ter dado o golpe não diz nada sobre a sua falta de convicção, mas somente sobre a falta de instrumentos e oportunidade. A sua convicção pode ser medida pela ausência de condenação aos 20 anos da ditadura militar.

Enfim, os dois lados dessa disputa erram ao se fixar na data de ontem. Apesar de marcar a queda de Jango, o início do novo regime somente se dá em algum momento de 1965. É neste ponto que ambos os lados deveriam focar seu embate.

Os projetos pessoais acima dos partidos

A notícia da aprovação, por parte da Rede, da composição de uma federação com o PSOL, é o fio da meada que nos permitirá entender a natureza da política partidária brasileira.

Comecemos por Marina Silva. Marina apareceu no cenário nacional nas eleições presidenciais de 2010, quando obteve um surpreendente terceiro lugar sendo filiada ao pequenino PV. Chegou a ser chamada de “Lula de saias” pela sua origem humilde. Empoderada pela sua performance, quis tomar conta do partido, mas não contava com a astúcia do dono do PV, José Luis Penna, que lhe fechou a porta. Assim, Marina Silva deixou o PV em 2011 e se lançou à aventura de formar o próprio partido. Descobriu, a duras penas, que é mais fácil obter 20 milhões de votos em uma eleição do que 500 mil assinaturas para formar um partido. Mas o ponto a que eu queria chamar a atenção é outro: Marina privilegiou seu projeto pessoal em detrimento da fidelidade a um partido.

Marina não está sozinha. A Rede elegeu 5 senadores em 2018. Hoje só resta um, Randolfe Rodrigues. Um desses senadores, Alessandro Vieira, migrou para o Cidadania, certamente de olho em voos mais altos. Com o anúncio da federação entre PSDB e Cidadania, e a óbvia dificuldade de tirar Doria do posto de candidato do agrupamento, Alessandro anunciou a saída da legenda. Seu projeto pessoal foi mais forte do que a fidelidade a um partido.

Fabiano Contarato foi outro senador eleito pela Rede que acabou de anunciar a desfiliação para tocar o seu projeto pessoal de se candidatar ao governo do Espírito Santo. Lula, que de bobo não tem nada, lhe dará a legenda.

Mas projetos pessoais não são monopólio da Rede. O governador Eduardo Leite, derrotado nas prévias do PSDB, deve se desfiliar para tocar o seu projeto pessoal de ser candidato à presidência. Alckmin também se desfiliou do PSDB para tocar o seu projeto pessoal. Bolsonaro, não tendo conseguido fundar um partido para chamar de seu e tendo perdido a briga com Luciano Bivar pelo controle do PSL, migrou para o PL para continuar tocando o seu projeto pessoal. Mesmo o PT não passa de um grande projeto pessoal de Luís Inácio Lula da Silva. No dia em que Lula desaparecer do cenário político nacional, o PT será apenas mais um par de letras na sopa de letrinhas que forma a política partidária brasileira.

Obviamente, o elemento pessoal conta muito em eleições, aqui no Brasil e em qualquer lugar do mundo. Isso é uma coisa. Outra coisa é subordinar os interesses do partido a projetos pessoais. Em democracias consolidadas, por mais carismático que seja um político, ele não sai do lugar se não conquistar corações e mentes de um grande partido, o que lhe dá sustentação para governar depois. Aqui, os partidos são meras fachadas para projetos pessoais. Não à toa, a governabilidade somente é possível na base de mensalões, petrolões e emendas secretas.

Tem jeito? Não. Mesmo políticos com ares modernos, como Eduardo Leite ou Alessandro Vieira, não escapam dessa lógica. É da nossa natureza, está em nosso DNA. Conforme-se, é o que temos para hoje.

O verdadeiro culpado pela volta do PT

Em meu post de ontem, em que crítico a fala do presidente defendendo neutralidade em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia, muitos contra-argumentaram que o Brasil votou a favor da condenação do ataque no Conselho de Segurança da ONU, que é o fórum que importa. Portanto, seria uma má vontade com o presidente pinçar uma frase dita à beira da praia durante o carnaval e simplesmente esquecer o voto do Brasil na ONU.

Pode parecer algo bobo, sem importância, mas essa dicotomia diz muito sobre o presidente e sua torcida organizada. Vejamos.

O primeiro ponto importante a considerar é que estamos diante de dois fatos que pertencem ao mundo real. De fato, o presidente afirmou que o Brasil deveria buscar a neutralidade e, de fato, o Brasil votou pela condenação ao ataque no Conselho de Segurança. Devemos concordar, de início, que estes dois fatos são reais, aconteceram. O primeiro objetivo, portanto, é tentar entender porque o voto brasileiro no Conselho de Segurança não ornou com as declarações do presidente. Temos três hipóteses.

A primeira hipótese é que a diplomacia brasileira não segue a orientação do presidente. Seguisse e fosse coerente com o discurso de neutralidade, teria optado pela abstinência na votação da ONU, como fizeram China, Índia e Emirados Árabes.

A segunda hipótese é que, por algum misterioso motivo, o presidente falou uma coisa na praia, mas orientou o seu oposto para a diplomacia. Uma possível explicação para essa dicotomia é que Bolsonaro detesta entrar em conflito com grupos de interesse. Quando se trata de confrontar a esquerda ou o politicamente correto, não tem pra ninguém. Mas quando a situação exige confrontar corporações do serviço público ou lobbies, Bolsonaro sempre procura contemporizar. Vimos isso acontecer, por exemplo, durante a tramitação da reforma da Previdência, em que as declarações do presidente frequentemente iam de encontro ao projeto do próprio governo. Nesse caso, não seria mera coincidência a citação aos fertilizantes, uma pauta cara ao setor do agribusiness.

Por fim, a terceira hipótese é de que o presidente se arrependeu da posição do Brasil na ONU. As declarações se deram após a votação, e esse lapso temporal explicaria a mudança de posição.

Em qualquer das três hipóteses, o voto no Conselho de Segurança não serve como alívio para a fala do presidente. Na primeira hipótese, porque o voto não teria sido orientado pelo presidente. Na segunda, por que se trataria de uma forma de dissimular a verdadeira posição do governo no assunto, como se falar uma coisa e fazer outra passasse despercebido. E, na terceira, porque teria havido arrependimento, o que revelaria a sua posição mais atual sobre o tema.

Para terminar, um palavra final sobre a torcida organizada. Criticar o presidente da República, qualquer que seja ele, é uma prerrogativa que assiste a qualquer pessoa em regimes democráticos. Isso não significa que se vai automaticamente votar em seu oposto. Se eu deixo de escrever as minhas críticas, não significa que o comportamento criticável desaparecerá. As pessoas observam e tomam as suas posições. Há uma tentativa de inversão da culpa: o culpado pela derrota eleitoral do presidente seria aquele que escreve sobre o comportamento do presidente e não o próprio presidente, autor do comportamento.

Costuma-se dizer que o “culpado” pela eleição de Bolsonaro foi o próprio PT, com sua montanha de erros acumulados. Da mesma forma, o culpado pela eventual volta do PT serão tão somente os erros acumulados do presidente. Não culpem o mensageiro.

Bolsonaro sempre está certo

– Bolsonaro não deu nenhuma declaração pessoal condenado a invasão de Putin.

– Claro, trata-se de um assunto delicado, há muitos interesses comerciais envolvidos, fertilizantes, por exemplo.

– O Brasil não assinou a declaração da OEA.

– Claro, a OEA não é o fórum, é uma organização feita somente para dar pitaco em coisas que acontecem nas Américas.

– O Brasil votou a favor da resolução que condena a Rússia no Conselho de Segurança na ONU.

– Tá vendo como o governo Bolsonaro se posiciona?

Enquanto isso, no universo paralelo:

– Bolsonaro deu uma declaração dura contra a invasão russa.

– Tá vendo, Bolsonaro não tem medo de dizer a verdade, doa a quem doer.

– Bolsonaro assinou a declaração da OEA.

– Sem dúvida, estamos todos juntos contra essa agressão, quanto mais se posicionar contra, melhor.

– O Brasil se absteve de condenar a Rússia no Conselho de Segurança

– Esse Conselho é mero teatro, o governo já sabia que a Rússia vetaria, seria inútil se desgastar aí.

Aprenda, Bolsonaro sempre estará certo

Notícias nada boas para Bolsonaro

Atualizei este gráfico com as pesquisas dos últimos 3 meses, média da Datafolha, Ipec, CNT/MDA e Ipespe. Para quem está chegando agora, trata-se da popularidade líquida dos presidentes: ótimo/bom menos ruim/péssimo.

No início dos anos eleitorais, tínhamos as seguintes popularidades líquidas:

  • 1989: -44 (Sarney)
  • 1994: -28 (Itamar)
  • 1998: +26 (FHC)
  • 2002: -9 (FHC)
  • 2006: +13 (Lula)
  • 2010: +68 (Lula)
  • 2014: +9 (Dilma)
  • 2018: -64 (Temer)
  • 2022: -32 (Bolsonaro)

As notícias não são nada boas para Bolsonaro. A única vez em que um presidente fez seu sucessor com tamanha impopularidade no início do ano eleitoral (Itamar Franco em 1994), houve nada menos que um Plano Real no meio do caminho. Em todas as outras eleições, o sucessor foi feito com o mandatário no campo ao menos positivo de popularidade: FHC em 1998 (+26), Lula em 2006 (+13), Lula em 2010 (+68) e Dilma em 2014 (+9). Em 2002, FHC (-9) não conseguiu fazer seu sucessor, assim como, obviamente, Sarney (-44) em 1989 e Michel Temer (-64) em 2018.

Com uma popularidade líquida de -30, estável nos últimos 5 meses, a não ser que Bolsonaro tire da cartola algo equivalente a um Plano Real, a reeleição fica realmente muito distante. Claro que toda escrita está aí para ser quebrada, mas este é o quadro frio dos números.

PS.: faço a média de 4 institutos para amenizar eventuais vieses de uma ou outra pesquisa.

Complô

Na análise que vai a seguir, vou assumir que Bolsonaro não é um sonso. Ou seja, ele sabe exatamente o alcance e significado das palavras. Trata-se de uma hipótese plausível, para um sujeito que chegou ao cargo máximo da República.

Também vou assumir que Bolsonaro esteja sendo sincero em sua surpresa diante da carta de Barra Torres. Afinal, ele não menciona a palavra “corrupção”. Portanto, não foi de corrupção a acusação.

Então, do que se trata? Voltemos à fala do presidente, reiterada em entrevista à Jovem Pan: “o que está por trás do que a Anvisa vem fazendo”? Bem, se a premissa inicial estiver correta, Bolsonaro sabe que essa frase significa desconfiança de que há algum conflito de interesses nas decisões da agência, que não estaria seguindo os critérios técnicos que deveriam ser o único critério para os seus atos.

Tomando por base a segunda hipótese, a de que o interesse conflitante não seria fruto de corrupção, o que seria então?

Para quem tem contato com as bolhas bolsonaristas mais profundas, a resposta é óbvia: a Anvisa estaria fazendo parte de um grande conluio dos globalistas para a implementação de controle social, com o objetivo de acabar com a liberdade dos cidadãos e subjuga-los a um grande governo global totalitário. As campanhas de vacinação seriam apenas mais uma parte do grande plano de dominação, a Nova Ordem Mundial.

Se o que vai acima parece um delírio, é porque é mesmo. Mas, acredite: Bolsonaro se acha ungido para contrapor-se a esse suposto movimento global, e seus mais fiéis seguidores acreditam nisso. Quando o presidente acusa a Anvisa de “segundas intenções”, se não é a isso que se refere e nem à corrupção, fica o desafio de dizer qual é a acusação.

Barras Torre, sendo um homem comum, só conseguiu pensar na hipótese da corrupção. Se houvesse pensado na outra, ao invés de indignado, provavelmente teria caído na gargalhada.

O que está por trás?

Todo mundo comentando a nota do presidente da Anvisa, almirante Barra Torres, sinto-me na obrigação de também dar o meu pitaco.

Eu sempre gosto de pensar no contrafactual. No caso, o cenário em que essa nota não tivesse sido publicada. Ou tivesse sido publicada de outra maneira. Havia algumas escolhas a serem feitas.

O almirante poderia ter ouvido o “qual o interesse da Anvisa?” e pensado: “bem, esse é o presidente que temos, o tiozão do pavê, aquele que está entrando em ano eleitoral e está falando para fidelizar a sua grei, um cara que se comunica mal”, enfim, todas as desculpas que conhecemos para essas falas de Bolsonaro. Nesse caso, poderia simplesmente passar por cima, ignorar olimpicamente, e a fala, como tantas outras, estaria esquecida em 24 horas.

Ou o chefe da Anvisa poderia tomar as dores da agência que representa, seus funcionários e colaboradores, colocar-se no lugar deles e avaliar que a fala mereceria alguma resposta protocolar, para dar uma satisfação interna. Nesse caso, seria algo do tipo “a Anvisa tem orgulho de seus processos, sendo guiada pelo mais alto padrão ético em todas as suas decisões”. Algo anódino, mais uma defesa do que um ataque. Estaria dada a resposta e o caso seria esquecido em 24 horas.

Mas Barra Torres decidiu por uma terceira linha, a do confronto. E o pior, um confronto pessoal, EXIGINDO retratação de ninguém menos que o presidente da República. A nota apenas resvala na defesa da agência, ela toda é uma defesa pessoal apaixonada.

Para ter escolhido essa linha, das duas uma: ou escreveu essa nota com a cabeça quente, sem pensar, ou fez de caso pensado, mandando um recado. É difícil pensar que um profissional com a rodagem do presidente da Anvisa teria soltado uma nota no calor da hora, só para lacrar. O mais provável é que pensou bem no que escreveu e no tipo de reação pública que queria suscitar.

Se essa terceira hipótese for a mais próxima da realidade, podemos ver aqui mais uma reação de uma ala dos militares, em que Santos Cruz é o mais proeminente, que não está nada contente com o capitão. Nesse sentido, a entrevista do general Silva e Luna, presidente da Petrobras, dizendo que a empresa não pode fazer política pública e afirmando que o presidente atrapalha quando “anuncia” aumento ou redução de preço de combustíveis, pode ser visto também como algo nessa linha.

Bolsonaro encheu o Executivo de militares, pois é somente neles que ele confia. O que a carta de Barras Torre pode estar indicando é que a recíproca não é verdadeira para uma parte da caserna. Para Bolsonaro, mais útil do que perguntar qual o interesse da Anvisa por trás da liberação da vacina infantil, é se questionar qual o interesse por trás dessa nota do presidente da Anvisa.

Liberdade seletiva

“Prefiro morrer a perder a liberdade”.

O presidente poderia estender a sua campanha pela liberdade para outras esferas da vida social.

Por exemplo, até hoje o serviço militar é obrigatório. O certificado de reservista é exigido de todos os homens do país que queiram exercer seus direitos civis, como votar e tirar passaporte. Essa coleira precisa acabar.

Aliás, por falar em passaporte, por que exigir passaporte de quem entra no Brasil? Isso é um atentado ao direito de ir e vir dos cidadãos. O governo Bolsonaro deveria simplesmente extinguir essa coleira, liderando um movimento global pela liberdade.

O comprovante de votação é outra coleira exigida dos cidadãos, que são obrigados a votar, senão não conseguem exercer outros direitos civis.

Dirigir meu carro quando quero e onde quero? Também não tenho essa liberdade. Agora mesmo estou sendo obrigado a renovar minha carteira de motorista, com direito a exame médico fake, para apresentar essa coleira ao primeiro guarda que me parar em uma blitz. As mães são obrigadas a mostrar a carteira de vacinação dos seus filhos para fazer matrícula nas escolas públicas. Quando Bolsonaro nos livrará de mais essa coleira?

Fumar em estabelecimentos públicos é outra liberdade que me foi tirada (em tese, porque não fumo, mas e se eu quisesse começar?). Não exigem passaporte de não-fumante, porque a nicotina não sai do pulmão do fumante para o ar, mas, mesmo assim, trata-se de um atentado à minha liberdade.

Bolsonaro está claramente falhando nessa batalha pela nossa liberdade. Não está honrando o salário que recebe como presidente, pago com meus impostos. Aliás, tem coleira maior do que ser obrigado a pagar impostos para manter governantes ineptos no poder? Espero que Bolsonaro também se atente a essa falta de liberdade e torne voluntário o pagamento dos impostos. Ou a liberdade, que enche a boca do presidente, é seletiva?