Eu gostaria de ter escrito esse texto


Pare e pense: você seria capaz de viver com R$ 387,07 por mês?

Duro, não?

Mas acredite: há 52 milhões de brasileiros sobrevivendo com essa quantia por aqui. Se nós colocássemos todas essas pessoas numa ilha, ela seria mais habitada que o Canadá e a Espanha.

E R$ 220? Impossível?

Segundo o IBGE, há outros 24,8 milhões de brasileiros vivendo com ainda menos do que isso. Incríveis 12,1% da população.

Se você não tem muita dimensão do que isso significa, eu desenho: há uma Austrália vivendo no Brasil com dinheiro suficiente no mês apenas para abastecer um carro com 52 litros de gasolina, ou adquirir 14 Big Macs, ou ainda conseguir pagar a metade de uma cesta básica. E mais nada.

E tem gente em situação ainda pior. Outros 4,4 milhões de brasileiros – o equivalente a uma Croácia – se viram como podem todos os meses com o mesmo que dois ingressos de cinema: R$ 73.

Se você ainda tinha alguma dúvida é a hora do fim da inocência. Nós indiscutivelmente não somos um país rico – dos brasileiros que trabalham, metade recebe menos que um salário mínimo por mês.

É uma vida do cão. E nas piores condições.

São quase 100 milhões de pessoas (mais do que a população da Coreia do Sul e da Argentina somadas) sem coleta de esgoto, 17 milhões (uma Holanda) sem acesso à coleta de lixo e outras 4 milhões (mais que um Panamá) sem um mísero banheiro em casa.

Eu não faço ideia de quem você seja, mas a sua situação é certamente melhor do que essa. Só por estar lendo este texto tenho certeza que o seu futuro é mais promissor que o de 50 milhões de brasileiros analfabetos ou analfabetos funcionais que não seriam capazes disso.

Também sei que você é mais rico que 35% da população sem qualquer conexão à internet.

Com um salário de R$ 1.500 por mês você ganha mais que 84% dos baianos. Com R$ 2 mil você está melhor que 91% dos maranhenses. Com R$ 2.500 você está acima de 86% dos mineiros. Com R$ 3.500 você está na lista dos 10% com os maiores salários do Brasil.

E o pior: você provavelmente nem sabia disso.

9 em cada 10 brasileiros acham que estão na metade mais pobre do país. Nós somos tão ignorantes a respeito da nossa condição socioeconômica que 68% dos brasileiros que ganham ao menos R$ 4.700 por mês – ou seja, entre os 7% mais ricos do país – acham que estão na parte de baixo da pirâmide social.

E antes que me esqueça – nós evidentemente somos um país com diferenças salariais abissais entre a imensa maioria da população e uma pequena parcela de brasileiros que recebem bem acima desses valores.

Mas não é como se dividir o dinheiro de todo mundo de forma igual fosse uma opção. Primeiro porque esse dinheiro dividido não resolveria a vida de ninguém – a renda domiciliar per capita no Brasil é de R$ 1.268.

Segundo porque essa tentativa já foi realizada em mais de vinte países no século passado e resultou apenas em fuga em massa, desemprego, baixa produtividade, escassez de produtos básicos e violência generalizada.

A grana iria secar rápido.

Como resolver? Não tem outro jeito: aumentando a nossa produtividade.

E eu sei que isso soa economês castiço, mas é bem mais simples do que parece.

A produtividade geral do trabalho no Brasil está entre as mais baixas do mundo: US$ 19,52 por pessoa empregada por hora. A média dos países analisados pelo International Institute for Management Development é de US$ 40,54.

Ou seja: se colocar um brasileiro e um gringo para produzir um prego, eles produzirão o dobro da gente no mesmo espaço de tempo. Nós seremos humilhantemente derrotados.

E não será por acaso.

A nossa educação é pior que a deles. A nossa infraestrutura também. Mas especialmente: as nossas leis são as mais estúpidas do mundo.

Neste momento, cada empresa brasileira segue uma média de 3.796 normas tributárias, com mais de 11 milhões de palavras – o correspondente a quase 6 quilômetros de normas para cada uma delas; uma fila interminável de papel.

Literalmente não há nenhum outro lugar do planeta onde isso aconteça.

Segundo o Banco Mundial, nós estamos apenas na posição 109 no ranking de facilidade de fazer negócios – atrás de Zâmbia, Tonga, Guatemala e Namíbia.

Tudo isso bloqueia a nossa produção de riqueza. E essa não deveria ser uma posição ideológica: o maior programa social é o crescimento econômico. Mesmo os defensores de uma maior presença do Estado na vida das pessoas deveriam entender que a única maneira de construir bem-estar social sustentável é destravando os mecanismos capazes de aumentar a renda média da população.

Não existe milagre.

Passou da hora de medir riqueza pela sua régua. Você vive numa bolha de classe média. Tem gente lá fora sofrendo de verdade. Gente suja, ignorante e mal paga, abandonada por instituições com cada vez menos poder de proteção.

Essas pessoas deveriam ser a prioridade do país. É no colo delas que cai cada tragédia.

E aqui, só entre nós: redistribuição de renda não resolverá os nossos problemas. O esgoto neste país é muito mais baixo. E ele fede muito menos na sua casa.

Rodrigo da Silva, editor do Spotniks

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