As pessoas precisam entender

“As pessoas precisam entender que…”, e então vem aquilo no qual eu acredito e assumo como verdade universal.

Só que “as pessoas” entendem coisas diversas e reagem de acordo com o que elas próprias entendem, não com o que um luminar entende. Por exemplo, se o teto de gastos for eliminado, as pessoas não vão entender que a economia vai crescer porque o governo, como num passe de mágica, se tornou eficiente no investimento em infraestrutura. É mais provável que as pessoas entendam que a dívida do governo vai voltar a uma trajetória insustentável e vai ficar impagável.

Gostaria de ver a Monica como ministra da Economia, dando entrevista em dia de pânico nos mercados, dizendo que “as pessoas precisam entender que…”. O mercado não entende nada, só reage para salvar sua própria pele. E antes que perguntem quem é o mercado, respondo: somos todos nós. É isto que Monica de Bolle precisa entender.

Mais uma voz se alevanta

Esta fala não é de um economista qualquer. Esta fala é de Felipe Salto, diretor-geral do Instituto Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado Federal. Felipe é um economista respeitado, da banda ortodoxa, mainstream. E dirige um órgão ligado a um dos poderes da República. Portanto, sua palavra tem peso.

Vejamos:

1) O BNDES não se retirou do papel de financiador. Quem se retirou foram os tomadores de empréstimos a juros subsidiados. O “papel” do BNDES perdeu sentido quando acabaram os subsídios. Não existe uma fila de tomadores desesperados por empréstimos do BNDES. Pelo contrário, sobra dinheiro no caixa, por isso o BNDES está devolvendo dinheiro para o governo.

2) Os juros subsidiados terminaram porque acabou o dinheiro. Não foi este governo que mudou isso, foi o governo Temer, que procurou arrumar a casa da mãe Joana que havia se tornado esse negócio de juros subsidiados, paraíso das empresas que tomavam dinheiro barato para aplicar no mercado financeiro.

3) Sim, os subsídios deveriam ser decididos pelo Congresso. E o foram. As dotações para o BNDES foram aprovadas pelo Congresso, e o custo dessas dotações era (ou deveria ser) do conhecimento dos congressistas. Mas estávamos na época do “Brasil Grande”, dos “Campeões Nacionais”, todo mundo feliz. Quem iria dizer alguma coisa contra, a não ser uns poucos heróis da resistência, que eram taxados de anti-patriotas?

4) Esta é mais uma voz que se alevanta para clamar por investimentos do governo. Só tem um pequeno detalhe, chamado “teto de gastos”. Os gastos obrigatórios do governo estão comendo aceleradamente a margem para investimentos e, daqui a pouco, não vai sobrar mais nada. A PEC emergencial, que poderia abrir alguma margem para ajustes, está parada no Congresso. E medidas mais estruturais, como a reforma administrativa, sequer foram enviadas pelo governo. Uma forma de “driblar” o teto de gastos é capitalizar as estatais, o que já foi feito com a Emgepron, por exemplo. Se isso realmente virar política comum, será o fim do teto de gastos na prática, com todas as suas consequências para os mercados.

5) Imaginar que há um “meio-termo” para o uso de juros subsidiados é o mesmo que dizer para um alcoólatra em recuperação que ele deveria beber “só socialmente”. Os juros subsidiados viciam, e não existe isso de “caminho do meio” para o seu uso. A experiência que vivemos deveria ter sido suficiente para demonstrar isso.

Como disse, Felipe Salto não é um economista qualquer. Ele é ouvido pelos senadores. A pressão pelo “faça alguma coisa” só está começando. Com a consequente volta da trajetória insustentável da dívida. Não será bonito estar nos mercados quando o teto de gastos for flexibilizado.

O Brasil e o controle de epidemias

Hoje topei com este site (GHS Index). Trata-se de uma parceria entre a Economist e a Johns Hopkins Center, que estuda essa questão de epidemias.

Foi uma surpresa para mim. Entre 195 países, o Brasil está em 22o lugar no ranking total de segurança contra epidemias, à frente de países como Itália, Áustria, Nova Zelândia e Israel.

O ranking é formato por 6 quesitos, e o Brasil se sai muito bem ou relativamente bem em 4 deles:

– Prevenção de surgimento ou de liberação de patógenos: 16o lugar.

– Detecção e comunicação rápidas de epidemias com potencial de preocupação global: 12o lugar

– Resposta rápida a e mitigação da propagação de uma epidemia: 9o lugar

– Suficiente e robusto setor de saúde para tratar os doentes e proteger os trabalhadores da saúde: 33o lugar

Nos outros dois quesitos, nossa posição é a de sempre:

– Compromisso de melhorar a capacidade nacional, financiamento e aderência a normas: 135o lugar

– Risco ambiental e vulnerabilidade a ameaças biológicas: 94o lugar

De qualquer forma, trata-se de uma boa notícia de maneira geral: o Brasil tem um sistema de prevenção e resposta a epidemias que se compara com os melhores do mundo, segundo o ranking. O que significa que algo aprendemos com a dengue, chicungunha e zika.

Congresso carimbador

O presidente classificou as manifestações convocadas para o dia 15 como “espontâneas”, “bem-vindas” e “pró-Brasil”. Vejamos:

1) Esses atos podem ser tudo, menos espontâneos. O único ato espontâneo do qual participei foi logo após a divulgação do papo reto entre a ex-presidenta e o ex-presidiário. Dirigi-me espontaneamente à Paulista e lá encontrei uma multidão espontânea, sem nenhuma convocação. Todas as outras manifestações foram convocadas por grupos organizados. Esta não é diferente.

2) Quando Vera Magalhães revelou que o presidente havia repassado as convocações via WhatsApp para um grupo restrito, foi um deus-nos-acuda. Foi chamada de mentirosa para baixo. Ao chamar de “bem-vindas” as manifestações, o presidente não deixa a jornalista mentir sozinha. A revelação de Vera era grave, pois significava que o presidente estava avalizando um ato popular contra os dois outros poderes. Não é nada disso, dirão, trata-se de um ato “a favor do Brasil”. Se é isso, por que a irritação contra a jornalista?

3) O presidente e seus apoiadores têm um peculiar entendimento do que seja “pró-Brasil”. “Pró-Brasil” é tudo aquilo que está de acordo com a agenda do presidente, e contra o Brasil é tudo o que vai contra a agenda do presidente. Seus 56% de votos válidos no 2o turno ter-lhe-iam dado o dom de traduzir tudo o que os brasileiros querem. Nesse contexto, o Congresso deve ser um mero carimbador das decisões presidenciais. Este é o significado de fundo do “pró-Brasil”.

Bolsonaro afirma que aqueles que dizem que as manifestações são contra a democracia estão mentindo. Bem, os atos servem para mostrar aos congressistas que o povo está ao lado do presidente e, portanto, devem votar de acordo com a pauta do Executivo, para não atrapalhar o Brasil. Por mais que eu analise, não consigo distinguir entre um Congresso que aprova tudo o que o sai do Executivo de um Congresso fechado. O efeito final é exatamente o mesmo.

O Congresso venezuelano continua aberto e funcionado, aprovando tudo o que sai da caneta de Maduro. E não falta povo na rua para apoiar esse estado de coisas.

Torcendo os números

O jornal eletrônico Nexo conseguiu traduzir em linguagem simples a lorota da divisão entre “PIB do Governo” e “PIB Privado”. Essa divisão simplesmente não tem como ser feita. Não por outro motivo, a SPE não abre a metodologia que usou. O que podemos dizer é que os gastos do governo caíram, mas isso não é novidade, é fato corriqueiro no 1o ano de qualquer governo, que sempre é um ano de ajuste.

O fato nu e cru é que o PIB cresceu só 1% em 2019, e deve crescer menos de 2% em 2020. Quero é ver a convicção privatista desse governo se o pibinho insistir em ficar entre nós. Até Mauricio Macri, que tinha bem mais convicção que Bolsonaro, cedeu aos apelos populistas quando a água bateu em suas nádegas liberais. Que dirá o corporativista recém-convertido ao credo liberal. E aí, não vai adiantar o Guedes tentar torcer os números para que contem uma história bonita.