Whataboutism

O “whataboutism” é uma forma de argumentação que lança mão do oposto para relativizar a gravidade de uma condenação, apontando uma suposta hipocrisia do interlocutor. Por exemplo, “e o PT?” virou o meme de uma clássica resposta whataboutista para críticas ao governo Bolsonaro. Como se cada crítica a cada ator político precisasse ser sempre acompanhada de uma crítica igualmente virulenta ao seu campo oposto, sob pena de o crítico ser tachado de petista ou bolsonarista, a depender do lado da crítica.

Ontem, as redes foram invadidas de “whataboutism” com respeito ao affair Monark/nazismo. A crítica mais comum era a falta de igual condenação ao comunismo, que também foi responsável pela morte de milhões de pessoas inocentes. A pergunta que as pessoas se fazem, e que foi verbalizada por Monark e pelo deputado Kim Kataguiri, é porque um partido comunista é legal em vários países, inclusive no Brasil, e um partido nazista não o é. A porca torceu o rabo quando os dois avançaram o sinal, e sugeriram que um partido nazista deveria também ser legalizado.

Não vou aqui entrar no mérito dessa sandice, já objeto de meu post de ontem. Meu objetivo é procurar entender porque existe essa diferenciação de tratamento entre o comunismo e o nazismo. Que fique claro, desde o início, que o que vai a seguir é uma análise da realidade como ela é, não como eu particularmente gostaria que ela fosse, ok?

Para essa análise, será útil artigo de Eugênio Bucci publicado hoje.

Bucci é o arquétipo do intelectual de esquerda, e o que ele escreve é bastante útil para entender o que vai na cabeça desse pessoal. Hoje, o professor da ECA comenta o affair Monark/nazismo desde o ponto de vista do esquecimento da História. O jovem Monark seria o representante de uma geração que, esquecendo as lições da História, tende a repetir suas barbaridades. E é o canal por onde o fascismo, o grande inimigo da história, ressurge. Para ilustrar a sua tese, Bucci usa como exemplo o último filme de Almodóvar, Mães Paralelas. O trecho em destaque abaixo mostra duas mães, uma querendo se livrar de sua família “burguesa”, a outra, procurando o túmulo do bisavô morto pelo franquismo. Para Bucci, a História tem somente um lado: o fascismo, representado aqui pela burguesia e pelo franquismo, é o inimigo. No entanto, mais útil do que enfurecer-se com essa clara preferência por um dos lados da disputa, é procurar entender o por quê dessa preferência.

Pode ser uma imagem de texto que diz "mesmas: Ana (Milena Smit) quer se libertar da família bur- guesa, enquanto Janis (Penélo- pe Cruz), mais velha que a com- panheira de quarto, está empe- nhada em encontrar o lugar em que foi sepultado o seu bisavô, executado na Guerra Civil por tropas do franquismo. A partir daí, as verdades íntimas de cada uma delas se descortinam em paralelo com os fatos históricos que vão sen- do exumados. A subjetividade irredutível de Ana e Janis vai ganhando consistência no mesmo ritmo em que os cri- mes contra a humanidade são dados à luz."
Pode ser uma imagem de texto que diz "E o que é que não se cala? Ο fascismo. Dia desses, um rapaz -que dizem ser famoso nas re- des sociais defendeu publica- mentealegalização de um parti- do nazista no nosso País. É recalcado que retorna, nos bra- ços da ignorância e do esqueci- mento da história."

A crítica à existência do partido comunista, que mereceria a lata de lixo da história onde está o partido nazista, se resume a números. O comunismo foi também responsável por milhões de mortes de inocentes. Nesse campeonato macabro, deixa o nazismo no chinelo. Desculpem-me, mas quem usa esse argumento está errando o alvo de longe. Como teria dito Stálin, uma morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística. Para a narrativa, o que importa não é o número de mortes, mas as circunstâncias que levaram a essas mortes.

Por essa narrativa, o comunismo matou traidores da revolução: os chamados “inimigos do povo” e os kulaks, a burguesia da época. Passou um pouco da medida, é verdade, mas a sua intenção era boa, implementar uma sociedade nova, em que todos fossem iguais. Já tive a oportunidade de resenhar o livro “Sussuros – A vida privada na Rússia de Stálin”, onde isso fica bastante claro. Nada a ver, portanto, com o nazismo, que montou uma máquina de extermínio contra minorias étnicas.

O partido comunista, portanto, continua sendo o porta-voz desse ideal de uma sociedade nova. Teria abandonado os métodos stalinistas, canalizando a sua luta dentro da lei. Os milhões de mortos em suas costas foram como que um acidente de percurso, algo que não deveria ter ocorrido, mas que não é suficiente para nublar o futuro radioso que nos espera.

Na verdade, o partido comunista ser ou não legal é irrelevante, diante do zeitgeist que permite a uma Marilena Chauí gritar, para quem quiser ouvir, que “odeia a classe média”, a burguesia. O fato de ela mesma, e Eugênio Bucci, serem classe média, não os impede de colocar-se ao lado do “bem” contra o “mal”. E o mal é tudo aquilo que se opõe a um “outro mundo possível”.

Desse modo, não é de se estranhar que o partido comunista seja legal. Eles estão do lado do bem, do belo e do justo, mesmo que, para isso, tenham empilhado cadáveres ao longo da história. Se alguém defendesse que o nazismo tinha uma boa intenção, e teve que lidar com “inimigos do povo” (os judeus eram assim considerados), certamente seria tachado de genocida. O comunismo, no entanto, conta com essa licença poética, fomentada e compartilhada por uma intelectualidade que não consegue lidar com as “injustiças” criadas pelo “capitalismo burguês”.

Uma última observação, na forma de conselho: evite o whataboutism. Essa é uma argumentação que relativiza o outro lado, por mais que se coloque disclaimers avisando que também não se concorda com o outro lado. Se for necessário, escreva dois textos, um para condenar um lado, o outro para condenar o outro lado. Colocar as duas condenações juntas separadas por um “mas” inevitavelmente diminuirá a importância ou, até mesmo, inocentará o que vem antes da conjunção adversativa. Foi o que Monark sentiu na pele.

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