A cobradora do ônibus lendo um livro.
Sim, o pulso ainda pulsa.


Apenas um repositório de ideias aleatórias
A cobradora do ônibus lendo um livro.
Sim, o pulso ainda pulsa.



A nova fórmula de cálculo do ICMS, proposta pelo presidente da Câmara, é a seguinte: o imposto incidiria sobre a média de preços dos combustíveis nos últimos dois anos, e permaneceria fixo durante um ano. Essa fórmula retiraria permanentemente receitas dos estados somente na implausível hipótese de que o preço do petróleo subisse para sempre. Caso o preço do petróleo caísse (o que um dia vai acontecer, como sempre aconteceu), os estados vão travar um preço mais alto do petróleo durante algum tempo.
O efeito sobre os preços dos combustíveis é que o repasse tanto da alta quanto da baixa do preço do petróleo será mais lento. Quando o preço do petróleo baixar no mercado internacional, é bem provável que subamos vários lugares no ranking dos combustíveis mais caros do mundo.
Do ponto de vista de arrecadação de longo prazo, dá na mesma: o que não for arrecadado agora será compensado no futuro, com bases de cálculo mais altas do que aquelas que seriam justificadas pelos preços correntes do petróleo.
Do ponto de vista de sinalização para o consumidor, trata-se de medida distorsiva: o preço alto do petróleo sinaliza escassez, o que deveria ser acompanhado por redução do consumo. O preço mais baixo artificialmente leva a uma demanda incompatível com a oferta do produto. E vice-versa: quando o preço do petróleo cair, a demanda ficará aquém da oferta, pois o preço do combustível estará artificialmente alto.
Finalmente, do ponto de vista da inflação, essa metodologia representará um alívio imediato, mas ao custo de uma queda da inflação mais lenta ao longo do tempo, quando o preço do petróleo cair. Particularmente, acho que essas fórmulas ad hoc introduzem mais distorções que benefícios. Mas o populismo tarifário sempre fala mais alto.

No meu colegial, optei por um curso técnico de informática. Processamento de dados, chamava-se na época. Não cheguei a terminar o curso, mas aprendi o suficiente para arranjar meu primeiro emprego: professor de Basic, uma linguagem de programação, em uma das muitas escolinhas de informática que começavam a pulular pelo país. O ano era 1983, e donas de casa, estudantes e profissionais das mais diversas formações vinham aprender o que fazer com aquela geringonça, que não passava de uma máquina de escrever mais sofisticada. Eu achava aquele aparelho meio inútil, considerando o preço, nada atrativo em função da nossa brilhante Lei da Informática.
Comprei meu primeiro computador pessoal somente em 1997. O que me fez mudar de ideia? A internet. Foi com o advento da internet que comecei a ver valor agregado suficiente para compensar o investimento.
Hoje estamos mergulhados na internet. Nós não notamos a presença do ar, a não ser quando nos falta. A falha nos aplicativos de Mark Zuckerberg nos fez notar o quanto dependemos da internet. Mas já chegaremos lá.
Como dizia, estamos mergulhados na internet. Mas nem sempre foi assim. No banco onde eu trabalhava, uma grande multinacional inglesa, lembro quando a internet chegou. Ela ficava isolada em um computador solitário, onde as pessoas podiam fazer suas consultas. Os computadores pessoais dos funcionários não estavam ligados na rede mundial. Como toda tecnologia nova, havia muito receio de “contaminação”. Os ciberataques atuais demonstram que esses receios não eram infundados. Mas a esperança venceu o medo e, depois de algum tempo, todos puderam ter acesso à internet em suas próprias máquinas. Isso faz pouco mais de 20 anos. Imagine agora um mundo sem internet. Ontem, o Facebook e seus irmãos menores saíram do ar. Foi um caos. Imagine agora que, por algum misterioso motivo, toda a internet caísse para não mais retornar. O efeito provável seria uma desaceleração da atividade econômica global que deixaria o que aconteceu durante a pandemia no chinelo.
Somos hoje absolutamente dependentes da internet. Mas, por mais incrível que possa parecer, um dia vivemos sem ela. Há 30 anos, poderíamos estar escrevendo como seria o mundo sem os grandes computadores, que haviam revolucionado processos administrativos e de produção. E, no entanto, 70 anos atrás, não havia computadores. Assim como há 120 anos não havia automóveis e há 250 anos não havia máquinas a vapor. Cada uma dessas conquistas tecnológicas elevou o patamar de conforto da humanidade, ao melhorar a eficiência dos processos produtivos e comerciais. Um pobre de hoje vive com mais conforto que um rico de 200 anos atrás.
Daqui a 20 ou 30 anos, alguém estará escrevendo sobre como seria o mundo sem [preencha aqui]. Alguma nova tecnologia dominante está, neste momento, sendo gestada, e não conseguimos imaginar o que nos estará “escravizando” daqui a 20 ou 30 anos. Uso a palavra “escravizando” porque, a se julgar pelas matérias sobre a queda de Facebook e cia, a dependência desses aplicativos é tão grande que nos tornamos seus escravos.
Se pensarmos bem, somos escravos de todas as tecnologias que criamos. Não conseguimos imaginar nossas vidas sem elas. É de sua natureza que seja assim. Acostumamo-nos com o novo nível de conforto, e seria muito doloroso dar um passo atrás. A constatação de que dependemos dos aplicativos do Zuckerberg é o mesmo que constatar que dependemos do elevador em um prédio de 20 andares. É só dependência tecnológica, nada de novo desde a Revolução Industrial.

Em uma noite de setembro de 2017 recebi um telefonema devastador: meu pai, que já estava extremamente debilitado por um Parkinson agressivo, tinha sofrido um AVC. Fui até o hospital da Prevent Senior onde ele havia sido internado.
Depois de me mostrar as radiografias e tentar me explicar, da melhor maneira possível, o que havia acontecido, o médico deu seu veredito: o cérebro do meu pai estava irremediavelmente perdido, ele viveria como um vegetal dali em diante e, provavelmente, não por muito tempo. Junto com ele estava uma médica paliativista. Era a primeira vez que eu ouvia falar dessa especialidade. Com muita delicadeza, ela me explicou que, dali em diante, havia pouco o que o hospital pudesse fazer. O melhor procedimento seria mantê-lo em casa, para que vivesse seus últimos dias cercado dos cuidados da família.
Claro que desconfiei daquilo. A primeira coisa que você pensa é que o hospital paga esses profissionais para poupar custos. Não tive dúvida: depois da alta, procurei um médico de minha estrita confiança, ao preço de R$ 1.100 a consulta. Coloco o preço da consulta como uma demonstração da experiência do médico.
Este médico, após examinar meu pai, reuniu a família para dar o veredito: meu pai ficaria melhor longe dos hospitais. O mais adequado para ele, naquele momento, seria receber cuidados paliativos. Em um hospital fariam de tudo para mantê-lo vivo, prolongando artificialmente uma vida que a natureza já dava insistentes sinais de que estava chegando ao fim. Exatamente o mesmo arrazoado da médica da Prevent. Meu pai veio a falecer 5 meses depois.
Fiz questão de contar essa história porque esse tema dos cuidados paliativos foi uma das acusações que os médicos anônimos fizeram ao plano de saúde. A minha experiência é só a minha experiência, mas mostra que esse assunto é realmente muito delicado e pode ser facilmente confundido com controle de custos.
O fato é que as pessoas querem um plano de saúde que garanta a vida eterna a preços módicos. A vida não tem preço, mas mantê-la custa caro. Eu poderia ter batido o pé e internado meu pai para mantê-lo vivo, na esperança de que, um dia, ele acordaria de seu estado vegetativo. Quanto tempo mais ele viveria, sofrendo entubado em uma cama de hospital?
A Prevent Senior é uma empresa. Como tal, deve gerar lucro para sobreviver e continuar a oferecer os seus serviços. Eu fico aliviado toda vez que ouço dizer que a Prevent tem muito lucro. Isso significa que os planos que oferece, de custo razoável, são suficientes para fechar a conta. O fato de buscarem redução de custos não é pecado, é virtude. Claro, sempre no melhor interesse razoável de seus clientes.
Minha sogra tinha um seguro-saúde da Sul América, que custava mais de R$ 3 mil por mês. Isso há mais de 5 anos. Meus pais eram clientes da Prevent há muitos anos, sempre muito satisfeitos com o atendimento. Fomos pesquisar, exatamente como preconiza a reportagem do jornal: a Prevent tinha menos reclamações por segurado do que a Sul América, tanto na ANS quanto no Reclame Aqui.

O segredo é simples: como a Prevent é verticalizada, não há discussão sobre coberturas: cliente da Prevent entrou em um hospital da Prevent, tudo ali vai ser coberto. Grande parte das reclamações contra planos de saúde se dá pelas coberturas, o que vai ser pago pelo seguro, o que vai ser pago pelo segurado. Na Prevent não tem isso, tudo ali é pago pela Prevent. Nesse sentido, funciona como o SUS.
Agora, a Prevent está no olho do furacão. A reportagem afirma que “todos” esperam que a Prevent seja punida pelos seus malfeitos, mas que o plano continue a prestar os seus serviços, pois não há alternativa mais eficiente. Quase uma contradição em termos.
O grande pecado da Prevent teria sido o de forçar a prescrição do chamado “kit tratamento precoce”. Ora, se a operadora tem como objetivo o lucro, seria no mínimo uma contradição receitar remédios ineficazes contra uma doença. Se o fez, é porque estava convicta de que funcionavam. Aliás, há um grande ausente na reportagem: o Conselho Federal de Medicina. Como órgão regulador da atividade médica, seria ele a determinar o limite entre medicina e curandeirismo. Por que não foi ouvido pela reportagem?

A matéria clama por mais supervisão. A lógica é que a operadora privada vai sacanear seus clientes se não houver supervisão do Estado. Como se uma empresa que sacaneia seus clientes de maneira contumaz não estivesse fadada ao fracasso. No limite, vamos todos para o SUS, onde é o Estado que atende diretamente o cidadão. Nesse caso, não há que se falar em interesses privados na relação hospital-médico-paciente. Sem a iniciativa privada estragando tudo, o SUS deveria ser um modelo de atendimento da população. A julgar pela procura por planos privados, não é o que acontece. Por algum estranho motivo, as pessoas preferem pagar para serem sacaneadas pela iniciativa privada.
Da forma como eu vejo, o que temos hoje é uma empresa que foi apanhada (provavelmente em função do ego de seus fundadores, que achavam que encontrariam a cura da Covid) em um enredo político. Tem os seus podres, como toda empresa os tem. Seus clientes, no entanto, estão, em geral, satisfeitos. Daqui a alguns meses, a vida voltará ao normal: a Prevent continuará funcionando normalmente para os remediados que podem pagar os seus planos, enquanto os políticos da CPI continuarão se internando no Sírio, que ninguém é de ferro.

A CPI da Covid quer levar Bolsonaro ao tribunal de Haia. Não consigo pensar em argumento melhor para demonstrar o fracasso dessa comissão.
Houvesse crimes tipificados pelo código penal brasileiro, o nosso STF estaria mais do que satisfeito em receber as denúncias. Ir a Haia é a admissão que tudo isso não passa de pastel de vento. Alias, é o que candidamente reconhece uma advogada entrevistada na reportagem: não tem porque Haia aceitar uma denúncia vinda de um país em que as instituições da justiça estão funcionando sem intervenção do Executivo.

O único resultado político de impacto dessa CPI seria a abertura de um processo de impeachment. Ocorre que não há votos no Congresso para isso. Se houvesse, Lira já teria sido forçado a abrir o processo. Para que isso acontecesse, a CPI teria que ter incendiado o país, levando milhões às ruas. Amanhã, teremos mais uma oportunidade de observar se a CPI funcionou. As últimas notícias dão conta de que os organizadores dos protestos incluirão na pauta questões econômicas, como inflação e desemprego. Mais um sinal de que a CPI “não pegou”. Talvez por isso seus organizadores, tendo perdido a Paulista, estejam se mudando para Haia.

Não há detalhes, mas digamos que o subsídio que a Petrobras irá patrocinar represente R$20 de desconto sobre o preço do botijão de gás. Com R$ 300 milhões, daria para financiar esse subsídio para 1 milhão de famílias durante 15 meses. São 14 milhões as famílias que recebem o Bolsa Família. Portanto, uma gota no oceano.
O problema, no entanto, não é o montante, mas o conceito. A Petrobras está subsidiando o seu produto, subsídio este que deveria ser financiado pelo orçamento do governo. Trata-se, portanto, de um orçamento paralelo.
Claro que as empresas têm liberdade para financiar programas sociais. Aliás, o que mais se exige hoje das empresas é que tenham “consciência social”, não pensem somente no lucro, mas que deem retorno também para a sociedade, não somente para os acionistas.
Ainda que, neste ponto, concorde com Milton Friedman, que afirmava que a principal contribuição social das empresas é gerar lucro para os seus acionistas, reconheço que o zeitgeist hoje favorece a benemerência por parte das empresas. A Petrobras estaria somente reforçando o S da sigla ESG.
Bem, seria assim se fosse assim. Se a Petrobras estivesse doando R$ 300 milhões para, digamos, hospitais, provavelmente não estaria sendo questionada. Trata-se de um montante pequeno perto do seu lucro, e poderia ser separado anualmente para a benemerência social. Isso é uma coisa. Outra coisa bem diferente é subsidiar um de seus produtos.
É diferente porque a empresa está sendo pressionada pelo alto preço dos combustíveis, um item politicamente muito sensível. Nada garante que esses subsídios não sejam aumentados no futuro. Inclusive através de uma política de defasagens de preços. Hoje, os preços da gasolina e do diesel já estão defasados, apesar dos últimos aumentos.
Por enquanto, são só R$ 300 milhões. Mas mostra que o atual governo vê a Petrobras com o mesmo óculos de seu antecessor, uma fonte para “políticas sociais”. Estamos longe de termos uma PDVSA. Mas o caminho é este.
Ontem e hoje foram publicadas reportagens sobre a autorização da Funai e do Ibama para a construção do Linhão de Tucuruí, que um dia ligará essa usina a Boa Vista, em Roraima, único estado brasileiro não ligado ao sistema elétrico nacional.

Quem lê a reportagem e não tem nenhuma outra informação, sai com a impressão de que os índios foram “pegos de surpresa” e sequer foram consultados. Bolsonaro, em sua sanha anti-ambientalista, teria forçado os órgãos responsáveis para, finalmente, 10 anos depois do leilão, levantar o linhão.
Nada mais falso. Em abril desse ano, publiquei um post com extensa e detalhada pesquisa a respeito desse assunto. A história é bem longa, mas podemos listar ao menos duas “imprecisões” (eufemismo para falsidades) na narrativa:
1) Os índios foram sim consultados. Todos os detalhes técnicos foram inclusive traduzidos (!) para a língua nativa. A história de que os índios não são contra a obra mas querem somente ser consultados não tem aderência com a realidade.
2) Em 2015, também pressionados pelo então governo Dilma Rousseff, o Ibama e a Funai deram o seu aval para a obra. Portanto, Dilma e Bolsonaro estão de mãos dadas em sua “sanha anti-ambientalista”.
Por fim, para aqueles animados com o início das obras, especialmente a população de Boa Vista, recomendo calma. Não é a primeira vez que o governo federal promete que “agora vai”. O mais provável é que as obras sejam mais uma vez paralisadas por alguma liminar da justiça. É o que tem ocorrido nos últimos 10 anos, e não há motivo para ser diferente agora.
“Apesar de adotar objetivos progressistas, governo democrata enfrenta número excessivo de imigrantes”.

Este é o lead da matéria sobre o imbróglio que o governo Biden está enfrentando nessa questão da imigração. Digamos, em uma realidade alternativa, que o lead fosse o seguinte:
“Por causa de seus objetivos progressistas, governo democrata enfrenta número excessivo de imigrantes”.
Este segundo hipotético lead seria interpretado como propaganda do governo Trump e só poderia ter sido publicado em algum site alt-right. Já o primeiro é, supostamente, neutro. Só que não.
O uso do “apesar” também faz uma ligação entre as “políticas progressistas” e o “número excessivo de imigrantes”: trata-se de uma relação de não causalidade. Ao usar “apesar”, o jornalista está afirmando que as políticas progressistas NÃO SÃO responsáveis pelo número excessivo de imigrantes. A causa da crise humanitária deve ser procurada em outro lugar.
Sairá de mãos abanando os que procurarem, na matéria, possíveis explicações para o aumento do número de imigrantes. Parece mais uma força incontrolável da natureza, uma catástrofe que calhou de cair sobre os ombros do presidente democrata. Um azar, dado que justamente ele adotou “políticas progressistas”.
A matéria seria neutra se deixasse essa bobagem de “políticas progressistas” de lado. Existe uma crise humanitária e o governo Biden não está conseguindo enfrentá-la, ponto. Avaliações sobre “políticas progressistas”, em clara contraposição às “políticas reacionárias” de seu antecessor, só mostram o lado do jornalista. E abrem o flanco para um leitor medianamente inteligente chegar à óbvia conclusão de que são exatamente essas “políticas progressistas” que estão causando a vaga de imigrantes.
Para terminar: em favor do jornalismo profissional, é de se notar que esse tipo de reportagem sequer teria espaço em um veículo puramente militante. O Granma não publica os problemas do sistema cubano, como o fazem o NYT ou o Washington Post em relação aos problemas do governo americano, apesar dos vieses. O fato de se publicar matérias sobre a crise dos imigrantes, apesar da tendência do jornalista, mostra a importância de termos uma imprensa profissional independente em uma democracia. Cabe a nós, leitores conscientes, separar o joio do trigo, evitando jogar o bebê junto com a água suja da banheira.
“Os governadores têm de se sensibilizar, têm que dar sua cota de sacrifício”.
Falou em redução de impostos, eu sou o primeiro na fila a aplaudir. O problema é quando essa redução de impostos não vem acompanhada de redução de gastos. Então, a redução de impostos se transforma em aumento de dívida.
A maior parte dos estados está quebrada. O que Lira está sugerindo é que os estados se endividem ainda mais. Tenho uma outra sugestão: que tal o governo federal subsidiar a gasolina, devolvendo para os estados uma eventual renúncia fiscal do ICMS? Ah, não tem dinheiro? Pois é…
Lira estava falando desde a sua base eleitoral, em Alagoas, estado governado pelo seu desafeto Renan Filho, do clã Calheiros. Não por outro motivo, Fernando Collor o estava acompanhando no palanque. Ao pedir “sensibilidade” aos governadores, Lira estava fazendo política paroquial com um assunto nacional de extrema importância. É desse nível de “estadista” que dependem os destinos da nação. Como dizia o Gil do Vigor, o Brasil tá lascado.
Adriano Pires, um dos maiores especialistas brasileiros em energia, escreve artigo no Brazil Journal em que explica o aumento absurdo dos preços dos combustíveis fósseis, principalmente gás, no mundo inteiro.

Resumindo a ópera: a demanda encontra-se em patamar muito maior que a oferta. Por trás desse truísmo econômico encontra-se uma realidade para a qual precisamos nos preparar: a oferta de energia “limpa” é instável e não confiável. Depende essencialmente da boa vontade da Mãe Natureza, que pode simplesmente se negar a colaborar, como temos visto na estiagem desse ano, que praticamente desligou Belo Monte, e na falta de ventos no Mar do Norte, que diminuiu a produção de energia eólica na Inglaterra.
Combustíveis fósseis, grandes lagos de hidroelétricas e átomos de plutônio são reservatórios de energia que servem como estoque para essas ocasiões em que mamãe natureza não colabora. Ocorre que a retirada de energia desses reservatórios gera poluição (ou, no caso dos lagos, a morte de muitas espécies), o que não combina com uma sociedade moderna e atenta aos problemas causados por esses processos.
O resultado é um descompasso entre oferta e demanda. Destaquei o trecho do artigo que acredito ser o mais importante.

Tenho repisado esse ponto toda vez que escrevo sobre o assunto: o problema está na demanda, não na oferta. Não existe uma migração de energias “sujas” para energias “limpas” sem custo. A energia limpa é mais cara, pelo simples fato de não ter fornecimento confiável ao longo do tempo. A solução é diminuir a demanda. Queremos um mundo mais limpo? Desliguemos nossos ar-condicionados e nossos sistemas de aquecimento (no caso do hemisfério norte). Achar que vamos continuar consumindo a mesma quantidade de energia, só que limpa, é pura ilusão. É isso que Adriano Pires mostra nesse artigo.
No final, quem sofre, como sempre, são os mais pobres. A migração para energias “limpas” torna a energia mais cara, e o preço é pago por todos, inclusive os mais pobres. Claro que as alterações climáticas afetarão também os mais pobres. Estamos no típico caso do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A solução? Não vejo outra, a não ser diminuir o consumo. Conseguiremos abrir mão do conforto? Pouco provável.
O resultado é um preço de energia estruturalmente mais alto. É bom nos acostumarmos com a ideia.