STF: o autoritarismo por trás das boas intenções

Esse editorial é de extrema importância. Não somente porque aponta inutilidade da ação do Supremo (chamada de “utopia”), mas porque, principalmente, dá parcialmente nome aos bois, acusando o STF de pretender substituir a política. Volto a esse “parcialmente” mais à frente.

Já comentei aqui sobre a pretensão do recém-empossado presidente do Tribunal máximo do país, Luis Roberto Barroso, de transformar a Corte em Guia Genial doa Povos. A expressão que utilizou foi “empurrar a história”. O STF deveria usar seu poder para “empurrar a história” na direção correta.

Não há como negar que essa ideia tem um apelo especial. Por exemplo, é comum encontrar pessoas que acham que a nossa Constituição deveria ser escrita por uma “Comissão de Notáveis”, que teriam o dom especial de escrever uma Carta “certa”, e não essa joça que foi parida por políticos venais há 35 anos. Essa ideia de que haveria um grupo especial de seres humanos que resolveriam todos os nossos problemas é reconfortante. O único problema é que se trata de uma ideia autoritária, palavra que faltou no editorial.

Por trás de todo o seu discurso democrático, Luis Roberto Barroso tem uma ideia autoritária do papel do STF. Como bem aponta o editorial do Estadão, sua pretensão é substituir a política, o embate de posições a respeito das várias questões nacionais. O STF seria esse “coordenador-mor” do país, na feliz expressão do editorialista. Sempre, claro, com a boa intenção de “empurrar a história” na direção correta.

No caso específico, a Suprema Corte definiu a situação dos presídios como um “estado de coisas inconstitucional”. Claro, sem dúvida. Assim como se constituem “estados de coisas inconstitucionais” as submoradias, o analfabetismo (incluindo o funcional), as filas ultrajantes no SUS, a falta de saneamento básico etc etc etc. Para todos esses problemas nacionais, que aviltam a dignidade humana, o STF vai exigir “planos” do Executivo, com prazo certo e a serem homologado pelos supremos?

Recentemente, o ministro Alexandre de Moraes determinou que o Executivo elaborasse um “plano” para lidar com a população sem-teto. Fazer planos é a coisa mais fácil. O papel aceita tudo. O problema sempre está em colocar o plano em prática e medir seus resultados. Os ministros do STF vão também acompanhar a execução dos planos? Com que estrutura? Se não forem cumpridos, qual será a punição? Impeachment? Essa moda de “mandar fazer planos” parece mais uma forma de parecer preocupado com os problemas nacionais do que efetivamente trabalhar para resolvê-los.

O problema fundamental do país é a sua pobreza. Se o Brasil tivesse a renda per capita, digamos, da França, com certeza haveria mais recursos para manter presídios dignos. Com recursos escassos sendo disputados a tapa no Congresso, não deveria surpreender que reste muito pouco para os presídios. E não há sentença judicial que resolva.

Quer o judiciário ajudar a resolver o problema? Trabalhe na direção de aumentar a segurança jurídica no país. A insegurança jurídica é um dos principais pontos do chamado Custo Brasil, que diminui a produtividade e impede o país de crescer. Mas os luminares do Supremo preferem “empurrar a história” com sentenças inócuas.

Quem paga a conta do desaquecimento global?

Os especialistas estão realmente assustados com as altas temperaturas. Um deles afirmou: “as mudanças climáticas são reais e a gente precisa agir”.

No mesmo jornal, algumas páginas adiante, um exemplo de ação na direção desejada pelos especialistas: querosene de aviação verde (SAF). Colei a reportagem inteira, por ser muito esclarecedora.

Alguns pontos que me chamaram a atenção:

para produzir o SAF são necessárias enormes quantidades de matéria-prima e água doce que, como sabemos, é escassa;

– a possibilidade de sintetizar o combustível (o eSAF) exige quantidades enormes de energia. Para produzir todo o eSAF para abastecer a frota da Lufthansa seria necessário usar metade da eletricidade produzida hoje na Alemanha;

– hoje, somente 0,15% do combustível usado na aviação é SAF. Tudo o que é produzido é consumido;

O presidente da Emirates expressou o pensamento-chave desse imbróglio: “a descarbonização do planeta custará trilhões de dólares e temos de encontrar o dinheiro para realizar as mudanças”. Pois é, no final sempre chegamos à questão de quem pagará a conta.

Ao que parece, a União Europeia está caminhando na direção de obrigar as companhias aéreas a usarem o SAF. Obviamente, no atual estágio de desenvolvimento e até onde a vista alcança, isso significa custos mais altos e passagens aéreas bem mais caras. Ou seja, no final, quem vai pagar será o consumidor, aliás, como deve ser. O resultado desse movimento será a redução da demanda pela expulsão dos mais pobres deste mercado. Voltaremos à elitização das viagens aéreas, com menos voos e, como consequência, menor produção de gases de efeito estufa. Talvez seja este mesmo o objetivo.

O radicalismo bipartidário

Só agora consegui um tempo para analisar uma questão que vem me incomodando há alguns dias: a deposição do presidente da Câmara dos EUA, o republicano Kevin McCarthy. E vem me incomodando porque a cobertura da imprensa, sem exceção, vem classificando o episódio como uma vitória dos “radicais trumpistas do partido republicano”.

Antes, um pouco de contexto. McCarthy teve o seu cargo colocado em cheque quando chegou a um acordo provisório com os democratas para evitar o shutdown do governo Biden. Este shutdown é a consequência do limite de endividamento do governo. Sim, nos EUA existe limite de endividamento, que deve ser elevado pela Câmara toda vez que é alcançado, sob pena de paralisia total do governo. Não deixa de ser sintomático que, para continuar funcionando, o governo americano precisa continuar se endividando, mas esse é um papo para outra ocasião.

A “moção de remoção” foi apresentada por um aliado de Trump na Flórida, o deputado Matt Gaetz, que, ironicamente, se aproveitou de uma mudança de regra regimental aprovada pelo próprio McCarthy no início do seu termo como presidente, e que permitiu a moção apresentada por apenas um deputado.

A questão que me incomoda na versão sendo contada pela imprensa é justamente os números da votação. O tal “radicalismo republicano” se limitou a meros 8 votos, de uma bancada de 221 deputados, ou 3,6% da base. Ok, alguém irá dizer, mas é o suficiente para desequilibrar o jogo em uma Câmara com divisão muito apertada, como foi o caso. Peraí, desequilibrar em favor de quem? Dos democratas? Quer dizer que os 3,6% de radicais republicanos irão punir seu próprio partido votando em pautas democratas? Claramente não faz sentido. Se há algo que os radicais fazem é radicalizar, e isso não orna com pautas democratas. Simplesmente não faz sentido.

Mas a falta de lógica não para por aí. E o que dizer dos “democratas moderados”? McCarthy costurou um acordo para salvar o governo Biden, e recebeu em troca 208 votos democratas pela sua saída. Ou seja, nenhum mísero deputado democrata conseguiu se desvencilhar de sua filiação partidária e apoiar a permanência de um republicano moderado na presidência da Casa. Preferiram ver o circo pegar fogo, e se arriscar a ter um presidente mais radical, que tornará a vida do governo Biden ainda mais dura. Pergunto: os radicais estão apenas do lado republicano? Pelo resultado da votação, o correto seria dizer que toda a bancada democrata é formada por radicais.

Vou dizer uma coisa óbvia: para haver polarização é necessário ter dois lados opostos. A imprensa adora chamar Trump e seus seguidores de radicais, ok. Mas os democratas não ficam atrás, como ficou demonstrado por essa votação. Se houvesse bom senso do lado democrata, seria mais fácil isolar Trump. Mas parece que a maioria democrata aposta que o caos trará maiores dividendos políticos. A disfuncionalidade da política americana é obra de muitas mãos.

Pimenta nos olhos dos outros

Depois desse artigo de Eugênio Bucci, as definições de “pimenta nos olhos dos outros é refresco” foram atualizadas. Destaquei abaixo os trechos mais importantes, mas o artigo todo merece ser lido.

Comecemos com a avaliação do mestre em relação à “justeza” da greve. Lembremos que Bucci está do outro lado da mesa. Então, a pauta dos grevistas, segundo sua visão, já foi, ou está sendo, amplamente atendida. Portanto, a greve não tem sentido. Bem, essa é a postura de 100% dos que estão do outro lado da mesa em qualquer greve. Os “estudantes” têm uma pauta de 23 reivindicações distribuídas em 5 eixos. Bucci abordou duas questões. E as outras 21??? Não, meu caro Bucci, do ponto de vista dos grevistas, a greve é mais do que justa. Não deixa de ser curioso que o defensor dos “direitos democráticos” não se coloque a favor de uma greve em que grande parte das reivindicações ainda não foi atendida.

Mas a coisa piora. Segundo Bucci, a truculência dos grevistas só serve à “extrema direita anti-democrática”, que seria contra a universidade pública e gratuita. Entendam bem: não é que essa esquerda seja truculenta e anti-democrática. De maneira alguma. É que, no caso, esses métodos típicos da esquerda truculenta e anti-democrática são um tiro no pé, pois dão razão aos que acham erradamente que a universidade é um antro da esquerda truculenta e anti-democrática. Entenderam?

Aliás, essa é a mesma crítica que temos ouvido à respeito da greve dos metroviários: não é que a população seja refém dos metroviários, é que a greve passou a impressão de que a população é refém dos metroviários e, portanto, foi um tiro no pé. Ou seja, procura-se separar o exercício da truculência, que é inerente a esses movimentos, do movimento em si, como se isso fosse possível.

É comovedor o malabarismo que Bucci faz entre a crítica à greve e ao direito que os alunos têm de fazer greve. Nada contra o direito, mas ESSA greve é injusta e irresponsável, capice? Aliás, Bucci vai na mesma linha que adotei em meu post de ontem: os alunos estariam “treinando” seus posicionamentos políticos na universidade, seria uma espécie de campo de testes para os líderes políticos de amanhã, em um ambiente controlado. Sem dúvida! Boulos está aí para não nos deixar mentir. Portanto, greves são “uma força” da universidade, não uma fraqueza. Mas não ESSA greve.

Não Bucci. A legitimidade de uma greve não é função do que você acha justo ou injusto. Ou bem nenhuma greve de alunos financiados pelos impostos dos desdentados é justa, ou qualquer greve é justa. O gênio foi tirado da garrafa por pessoas como você, que defendem que os alunos tenham uma “vivência política” na universidade, como se os partidos políticos não tivessem seus próprios interesses, desconectados dos interesses da universidade. Agora, resta fazer malabarismos em artigos de jornal.

Brincando de greve

Reportagem no site da Adusp (Associação dos Docentes da USP) nos dá detalhes da greve que não existem nas matérias dos grandes jornais. Para dar o devido crédito, cheguei nesse site através da menção em reportagem de ontem do Estadão.

Em primeiro lugar, ficamos sabendo que Eugênio Bucci (sim, ele mesmo) está na mesa de negociações pelo lado da reitoria. Muito legal ver o champion da democracia lidando com as consequências do tipo de pensamento que representa.

Em segundo lugar, delicioso ver que as negociações não passaram sequer das preliminares, a pauta que seria discutida. Pudera, irmão: “23 reivindicações em 5 eixos” é coisa pra dedéu. Aliás, ouviu a palavra “eixo”, já sabe que é coisa de planejamento estatal. O programa do PT está cheio de “eixos”, e o recém-nascido plano de segurança pública do Dino tem mais “eixo” do que medidas concretas. Bem, os representantes da reitoria, incluindo Bucci, não toparam a pauta.

Mas o melhor vem agora: surpreendentemente, uma das líderes do movimento, Mandi Coelho, é filiada ao PSTU! Quem diria! A moça tem 28 aninhos e é diretora do Centro Acadêmico da Letras. Sua página no Facebook tem uma ilustração de Lênin, que, como sabemos, implantou a democracia na União Soviética.

Por fim, foram 11 os “representantes” dos estudantes nessa reunião com a reitoria, mas apenas os nomes de Mandi Coelho e Allan Terada são citados. Este último está terminando Geografia, e cursou o colegial no Colégio Santa Cruz, um celeiro de lideranças. Terada ameaçou “subir o tom” se as negociações não caminhassem, o que quer que isso signifique.

Sinceramente, essa greve me faz lembrar aquelas atividades de “ONU” no colégio, em que alunos assumem o papel de diplomatas para entender como a coisa funciona. Nessas dinâmicas nada está realmente em jogo, os atos dos “diplomatas-mirins” não têm maiores consequências para si mesmos ou para os outros. Nessa greve dos “estudantes”, também não há risco para os estudantes ou para a comunidade acadêmica. No final, ninguém será punido, ninguém repetirá de ano, todo mundo vai sair com seu diploma e os professores vão continuar recebendo os seus salários. Mas os “estudantes” terão vivido a experiência de uma greve, em que “negociam” com autoridades que entram no jogo para que os “estudantes” tenham uma experiência imersiva completa. Com a atividade lúdica encerrada, todos voltarão para a casa de seus pais, onde têm cama, comida e roupa lavada. Afinal, a vanguarda do proletariado merece.

Som da Liberdade – uma resenha e uma análise

Ontem assisti ao filme Som da Liberdade. Por algum motivo que a mim me escapa, esse filme está cercado de polêmica, sendo pomo de discórdia entre os dois lados do espectro político. Vou aqui analisar o que vi e tentar entender porque existe a polêmica.

O filme em si é realmente muito bom. Um thriller de tirar o fôlego, salpicado com momentos de emoção. Confesso que foi difícil segurar as lágrimas em uma cena. Na fila do toilette feminino depois do filme, ouvi uma mulher dizendo: “chorei em várias partes do filme”. As atuações são convincentes, com destaque para as duas crianças que protagonizam a história.

O filme é competente também em como revela o mundo interior de Tim Ballard, o policial interpretado por Jim Caviezel. Sua religiosidade sólida (falaremos mais sobre isso adiante) aparece somente em uma única frase dita em um diálogo, e depois repetida no final do filme: “God’s children are not for sale”, que foi erroneamente traduzida como “as crianças de Deus não estão à venda”, quando, na verdade, em inglês, essa frase se refere a “filhos de Deus”, o que a torna muito mais ampla. Esta frase levanta levemente o véu da alma de Tim, o porquê ele fez o que fez.

O filme, portanto, é bom, mas sua qualidade não explica sozinha porque está em primeiro lugar nas bilheterias do Brasil. No post sobre cotas para filmes nacionais, mencionei que o diretor do Cinemark afirmou que um filme, para bombar, precisa ser promovido. As verbas de marketing dos grandes blockbusters são gigantescas. Ocorre que Som da Liberdade foi produzido pela Angel Studios, um pequeno estúdio Mórmon de Utah que, com certeza, tem verba limitada de marketing. Vale a pena falar um pouco sobre essa Angel.

Nascida como VidAngel, a empresa se dedicava a comercializar um filtro de controle de conteúdo de streaming para pais. Foi processada pelos estúdios por uso não autorizado de direitos autorais, o que a fez mudar de ramo, produzindo seus próprios conteúdos para famílias conservadoras. O estúdio se financia através de crowdfunding, o que funciona muito bem em nichos em torno de temas que mexem com convicções profundas, como é o caso dos valores conservadores. As pessoas colaboram porque estão convencidas de que estão fazendo um bem para o mundo. No final do filme, o ator Jim Caviezel aparece pedindo doações para o estúdio, para que ingressos possam ser doados. Um código QR na tela redireciona para uma página de doações. Vi vários no cinema apontando suas câmeras. Essa é a promoção possível para quem não tem verba de marketing. E tem funcionado.

A Angel comprou os direitos de Som Da Liberdade por US$ 5 milhões (dinheiro de crowdfunding) da Disney, que havia engavetado o projeto quando comprou a 20th Century Fox, estúdio que havia produzido grande parte do filme. Dando uma olhada na bilheteria até o momento (mais de US$ 200 milhões and counting), parece que a Disney, no mínimo, tomou uma decisão comercial errada. Se é que a decisão foi tomada somente por motivos comerciais, mas aí já estaríamos no campo das teorias da conspiração.

E por falar em teorias da conspiração, tente googlar “Sound of Freedom” e “QAnon”. Em largas pinceladas, QAnon é um movimento underground surgido em 2017, que defende que o mundo estaria dominado por adoradores de Satanás, que operariam uma grande rede de pedofilia no mundo. Trump seria o presidente que iria desmantelar essa rede, por isso a perseguição que a grande mídia, atores de Hollywood e grandes bilionários como George Soros (sim, sempre ele) travaram contra o ex-presidente.

Bem, essa é a teoria. Como o filme foca no tráfico de crianças e tem uma pegada conservadora, foi o suficiente para que se visse uma “mensagem subliminar” em apoio à teoria do QAnon. A ligação do filme com o QAnon parece, em si, uma teoria da conspiração. Claro, cada um vê o que quer, e é por isso que as teorias da conspiração existem. O ser humano é um animal em busca de sentido, e teorias da conspiração são o hipersentido da realidade, histórias que fazem encaixar fatos que, de outra forma, pareceriam insuportavelmente aleatórios. O filme retrata uma realidade dura de uma maneira heróica e delicada, e precisa ter muita má vontade para ligá-lo a algo remotamente semelhante à teoria doidivanas do QAnon. Mesmo porque, o filme começou a ser produzido em 2015, portanto, dois anos antes do surgimento do QAnon. Um discurso de Jim Caviezel em uma convenção cristã em Las Vegas em 2021 é citada como evidência de sua ligação com o QAnon, porque ele usou a palavra “storm”, que seria a descrição, segundo o QAnon, do que Trump faria com a rede pedófila global. É ou não é teoria da conspiração na veia?

O fato é que o filme foca no drama das crianças, e só. Fala muito pouco, quase nada, sobre os responsáveis por isso. As críticas ao filme parecem antes estar ligadas à sua pegada conservadora. Em um dos diálogos, um dos personagens conta como evitou o suicídio após transar com uma menina por ter ouvido a voz de Deus. Aquilo o fez mudar de vida. O diálogo é bom, bem escrito, não é piegas, mas revela um perfil que não cai no gosto de todos. Ok, justo. Mas daí a fazer o salto triplo mortal carpado de que haveria uma ligação com o QAnon, é muita vontade de polemizar.

De qualquer forma, os produtores agradecem. As críticas que o filme vem recebendo só atiça a curiosidade pra ver o que a baiana tem. Foi por isso que fui ao cinema. Não me arrependi, o filme é bom mesmo, valeu o ingresso.

A surpresa do reitor

Entrevista com o reitor da USP, onde alguns alunos e professores estão em greve. Não pude deixar escapar gostosas gargalhadas com a surpresa do reitor, ao constatar que os mesmos estudantes que “defenderam a democracia” ao se colocarem contra a reeleição de Bolsonaro, agora atuam na direção contrária, impedindo seus colegas, de maneira truculenta, de assistirem às aulas.

Não sei exatamente em que planeta vive o reitor, ao pensar que o PT e seus satélites têm alguma credencial democrática. O modus operandi dessa turma é esse aí: não tem debate, tem porrada. Só tem debate (como no caso da relação entre Planalto e Congresso) quando o outro lado tem um porrete maior. Aí, entra em cena o vitimismo: “ain, estão querendo impor na base da força”. Caso contrário, é isso que estamos vendo na USP: “estudantes” ligados a esses partidos políticos botando pra quebrar.

E ai de quem quiser “argumentar” ou “dialogar”. Fascista é o adjetivo mais elegante. A prova de que o reitor vive no mundo de Nárnia é a sua sugestão de que os alunos contra a greve compareçam às assembleias para votar. Como se essas “assembleias” fossem espaços democráticos. A condução dessas votações faria Arthur Lira parecer a Madre Teresa.

A parceria que os social-democratas (entre os quais o reitor) fez com os partidos de esquerda para vencer Bolsonaro não autoriza a ilusão de que todos estão no mesmo barco democrático. A democracia não venceu com Lula. Quem venceu foi essa mesma esquerda truculenta infensa ao diálogo, e que tanta surpresa causa ao reitor.

A matemática não tem semântica

Juros. Essa palavra dá nome à remuneração do capital. É o aluguel, ou o preço, do dinheiro. Só faz sentido falar em juros, portanto, quando nos referimos ao empréstimo de dinheiro. É este entendimento que embasa as normas contábeis de entidades como o FMI e os bancos centrais mundo afora, inclusive o brasileiro.

No entanto, o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, propõe uma novilíngua contábil: juros seriam todos os encargos sobre pagamentos em atraso, independentemente de sua natureza. Atrasou aluguel? Juros. Atrasou a mensalidade escolar? Juros. Atrasou precatórios? Juros. A interpretação é a seguinte: o atraso gerou um empréstimo de dinheiro implícito do credor para o devedor. Portanto, esse atraso se transformou em uma operação financeira, e juros são devidos por essa operação. Funciona como um escambo: ao invés de o credor ter emprestado dinheiro, ele emprestou um bem ou serviço, e os juros seriam a remuneração desse “empréstimo implícito” no bem ou serviço. Acho que já deu pra notar a ginástica semântica. Não é à toa que esse tipo de interpretação é rechaçada pelos manuais contábeis.

Essa entrevista traz a informação que eu estava procurando: cerca de 35% do estoque de precatórios são “juros”. Ou seja, conforme a interpretação larga que vimos acima, 35% do pagamento dos precatórios não seriam contabilizados como gasto primário, mas como gasto financeiro, que não entra na meta de superávit primário. Esse tipo de reclassificação tem como resultado a piora da trajetória da dívida pública, e é fácil de entender o porquê. Ao tirar 35% dos precatórios de dentro dos gastos primários, esse espaço será usado para outros gastos primários que, de outro modo, teriam que ser comprimidos para dar lugar aos encargos dos precatórios. Só que os gastos com esses encargos não deixam de existir, continuam pressionando a dívida pública, mas agora classificados como “despesas financeiras”. Nada nessa mão, nada nessa mão e…

Ceron me faz lembrar outro famoso secretário do Tesouro, de triste memória: Arno Augustin. Ele também costumava chamar seus críticos de ignorantes, que não sabiam sequer interpretar um texto. Enquanto isso, explorava as possibilidades semânticas da língua portuguesa. O problema é que a matemática não tem semântica, e acaba, mais cedo ou mais tarde, cobrando o preço pela esperteza.

Demonizar serve para fazer política, não para resolver problemas

Relatório preliminar do ONS responsabiliza as usinas eólicas e solares do Nordeste pelo apagão de agosto. A coisa é mais ou menos a seguinte.

Por algum motivo, a linha de transmissão Quixadá-Fortaleza caiu, mais ou menos como um disjuntor cai quando há alguma sobrecarga em uma residência. Coloco o mapa abaixo para dar uma ideia do tamanho da linha (165 km) em relação ao Brasil. Obviamente, não pode ter sido a única explicação para que um terço do país, de norte a sul, ficasse sem energia. E não foi.

Em casos como esses (que são mais ou menos comuns), há um sistema de backup, com a entrada em ação de geradoras dos arredores para compensar aquela linha que caiu. Ocorre que, nos modelos do ONS, as usinas eolicas e solares poderiam gerar muito mais do que efetivamente geraram naquele momento. Aparentemente, houve uma bela diferença entre o que os geradores informaram ao ONS e aquilo que efetivamente entregaram na hora do vamos ver. O relatório propõe uma série de mudanças para que isso não ocorra novamente, principalmente no que se refere à real capacidade dessas usinas.

Não se trata de demonizar as usinas eólicas e solares, que são muito úteis em uma matriz elétrica diversificada, mas apenas dimensionar corretamente a sua capacidade de entrega de energia. Demonizar é prática de quem quer usar qualquer assunto para ganhos políticos, como fez o governo Lula, ao atribuir o apagão à privatização da Eletrobrás. Trata-se de problema técnico que afeta milhões de brasileiros, e que deve ser tratado de maneira técnica.

Miss Congresso

O site Congresso em Foco promove anualmente um concurso de beleza cívica, com o objetivo de coroar os parlamentares mais belos, bons e justos de nosso Congresso. Para garantir o seu objetivo, faz uma lista prévia, em que retira todos os parlamentares que porventura sejam objeto de inquérito na justiça e, principalmente, não tenham praticado atos “em flagrante confronto com o Estado Democrático de Direito e o respeito aos direitos humanos fundamentais”.

Depois desse filtro inicial, sobraram 419 deputados e 64 senadores aptos a serem escolhidos. Com esses critérios, imagino a lista de parlamentares que ficou de fora.

A deputada Sâmia Bonfim foi a grande vencedora da noite, sendo eleita Miss Congresso tanto pelo júri popular quanto pelo júri dos jornalistas. Em seu discurso da vitória, a deputada, visivelmente emocionada, declarou: “esse prêmio de melhor deputada é uma resposta à violência política de gênero!”, uma fala que arrancou suspiros da plateia e certamente estará na edição revisada de O Pequeno Príncipe.

Houve três tipos de votação: popular (via internet), jornalistas políticos e júri especializado.

A lista dos 25 jornalistas escolhidos para o concurso foi a seguinte:

  • Reinaldo Azevedo – Folha / Bandnews
  • Ricardo Noblat – Metrópoles
  • Denise Rothenburg – Correio Braziliense
  • Wilson Lima – O Antagonista
  • Guilherme Amado – Metrópoles
  • Eduardo Bresciani – Jota
  • Rafael Moraes Moura – O Globo
  • Ana Lúcia Caldas – EBC
  • Eliane Cantanhêde – Estadão / Globonews
  • Isa Stacciarini – CBN
  • Cristina Serra – ICL Notícias
  • Dora Kramer – Bandnews / Jovem Pan News
  • Anthony Broadle – Reuters
  • Hiury Wdson – Radioweb
  • Rubens Valente – Agência Pública
  • Carla Benevides – TV Senado
  • Adriano Oliveira – Bandnews
  • Cristiane Sampaio – Brasil de Fato
  • Renata Varandas – Record TV
  • Julianna Sofia – Folha
  • Luciana Lima – Meio
  • Raphael Felice – Correio Braziliense
  • Edilene Lopes – Itatiaia
  • Isabel Mega – SBT
  • Iasmin Costa – Jovem Pan News

A lista dos 6 componentes do júri especializado foi a seguinte:

  • Mara Karina Sousa-Silva – ativista contra o racismo
  • Priscila Cruz – Todos Pela Educação
  • Adayse Bossolani – ambientalista
  • Sylvio Costa – fundador do Congresso em Foco
  • Carlos Melo – cientista político
  • Ricardo Sennes – analista político

Os resultados das três votações estão anexados. Duas observações a respeito desses resultados:

– o “júri popular” não escolheu sequer um deputado de direita (ou mesmo de centro) entre os 25 mais votados. Entre os senadores, Soraya Thronicke, Marcos Pontes e Otto Alencar são menções honrosas. O que demonstra duas coisas: 1) o tipo de público que lê O Congresso em Foco e 2) como essas votações na internet não servem como proxy de nada, dado que os congressistas mais votados nessa lista estão longe de serem os mais votados do Congresso. Aliás, essa é uma boa contraprova de como popularidade na internet não se traduz necessariamente em voto, um ponto frequentemente levantado para colocar em dúvida o resultado das eleições.

– o resultado da votação dos jornalistas está muito mais próximo do resultado da votação pelo júri popular do que pelo júri especializado. O que demonstra que os jornalistas, na média, estão mais para leigos com uma caneta na mão do que profissionais especializados no que fazem. E leigos com um determinado viés.

Sou conselheiro do Ranking dos Políticos, uma organização que, como o nome diz, ordena os congressistas de acordo com determinados critérios. Ao contrário desse concurso de beleza cívica do Congresso em Foco, o Ranking dos Políticos tem critérios bastante objetivos: os conselheiros atribuem pesos para cada projeto de lei a ser votado no Congresso, tanto positivo quanto negativo. A nota do congressista é resultado do seu voto concreto, ponderado pelos pesos dados pelos conselheiros do Ranking. Assim, a atuação dos parlamentares é medida pelo que mais importa: como votou o deputado, para usar a expressão eternizada pelo inesquecível Eduardo Cunha.

Além de objetivo, o Ranking dos Políticos não se pretende isento e imparcial. Seu viés liberal é público e notório, de forma que ninguém é enganado quando vê o resultado do ranking, que pontua melhor os congressistas mais liberais. Já o concurso de beleza cívica do Congresso em Foco é apresentado como se fosse a coisa mais isenta do mundo, em que os parlamentares seriam escolhidos por supostos “critérios universais”. Assim é se assim lhe parece.