Araguainha, o retrato da tragédia brasileira

Araguainha, no Mato Grosso, vive a experiência socialista perfeita: todos os empregados da cidade trabalham para o Estado. Quer dizer, “todos” é modo de dizer. Certamente deve haver uma vendinha ou outra na cidade de 1.000 habitantes, dos quais 300 trabalham na prefeitura. Mas eventual empregado dessas vendinhas não tem carteira assinada. Não espere sindicatos ou o governo Lula se mobilizando para defender seus direitos.

A reportagem nos informa que somente 5% da população conta com tratamento de esgoto, o que certamente deve incluir o prefeito e os 9 vereadores da cidade. No portal da Câmara Municipal de Araguainha, destaque para o deputado federal Juarez Costa, que garantiu quase R$ 300 mil de recursos de emenda parlamentar para a saúde dos araguainhenses. O que deve ser alocado integralmente para o pagamento dos enfermeiros lotados na prefeitura.

Obviamente, uma cidade de 1.000 habitantes não precisa de prefeito, vice-prefeito, 9 vereadores e 300 funcionários públicos. Boa parte dessa máquina está a serviço de deputados federais, que pagam com a moeda das emendas. A cidade em si é claramente inviável economicamente, não sendo capaz de produzir um único emprego formal fora do Estado.

A solução óbvia é fundir este município com outro maior, enxugar a máquina e passar os funcionários públicos demitidos para o Bolsa Família (ao menos o salário que recebem seria contabilizado na rubrica correta). Qual a chance?

Ozark vs. Breaking Bad: o tira-teima

Depois de minha resenha de Ozark, vários amigos me recomendaram assistir a Breaking Bad, pois a temática é a mesma, mas seria ainda melhor. Tive que fazer o tira-teima.

Em primeiro lugar, a temática é parecida, mas não exatamente a mesma. Ambos abordam o tráfico de drogas, mas enquanto em Ozark o foco é na lavagem de dinheiro, em Breaking Bad o foco é na fabricação da droga. Isso parece um detalhe, mas não é. Marty Byrde é um profissional da lavagem de dinheiro, enquanto Walter White conhece muito de química, mas nada do submundo das drogas. Isso dá um ar profissional a Ozark e amador a Breaking Bad. Pelo menos nas duas primeiras temporadas.

As duas primeiras temporadas, como posso dizer, é o mesmo que comparar O Poderoso Chefão com Máfia no Divã. A temática é a mesma, mas um é profissional e o outro, amador, quase risível. Ozark começa a 200 por hora, a tensão é onipresente desde o primeiro episódio, e não baixa a guarda até o final. Já Breaking Bad começa a 20 por hora, com Walter White tentando encontrar o seu papel, em que o personagem carece de lógica. Impulsivo, explosivo, White comete erros grosseiros, que Marty Byrde jamais cometeria. Fica uma coisa meio aleatória, que pode dar errado simplesmente porque o personagem não tem lógica.

A coisa começa finalmente a engrenar na terceira temporada, com a entrada em cena de Gus Fring, o mega traficante que, este sim, lembra Marty Byrde, pela sua capacidade de organização. A partir daí a série começa a ficar realmente séria. Walter White vai ganhando confiança, e começa a agir de maneira muito mais sombria e inteligente. Sua capacidade de manipulação das pessoas e situações vai aparecendo cada vez mais. Nesse sentido, White se parece mais com Wendy Byrde, a esposa manipuladora e gananciosa, mas de uma maneira mais convincente, menos caricata.

As relações pessoais em Breaking Bad são mais complexas, principalmente a que liga White com seu parceiro, Jesse Pinkman. Marty Byrde tem uma relação semelhante com Ruth Langmore em Ozark, mas mais linear, como chefe e empregada. É difícil descrever o que sentem White e Pinkman um em relação ao outro ao longo de toda a série, o que acaba originando muitas situações-chave.

Como dizia, Breaking Bad decola a partir da terceira temporada, em um vórtice de tensão e loucura. Se fôssemos comparar Ozark e Breaking Bad com um jogo de futebol, poderíamos dizer que, nas duas primeiras temporadas, Ozark está ganhando com folga por 3×0. No entanto, a partir da 3a temporada, Breaking Bad começa a virar o jogo e, eu diria, ganha por 5×4 no final. Enquanto Ozark termina no mesmo tom de toda a série (o que não é ruim), Breaking Bad acaba insanamente. O fim, em Ozark, é mais do mesmo. Em Breaking Bad, é o ápice.

Enfim, duas excelentes séries, com leve vantagem para Breaking Bad.

O Ó do Borogodó

Essa é o ó do borogodó, literalmente.

O titulo da matéria é enganoso: o bar não vai necessariamente acabar, ele simplesmente vai precisar mudar de lugar. Eu sei, é uma dor de cabeça e tals. Mas o proprietário está no seu direito de dispor de sua propriedade, no caso, o imóvel. Ou não?

Digamos que a prefeitura decida que o bar não pode ser despejado. Qual seria o ânimo de outros proprietários alugarem seus imóveis para bares e restaurantes que poderiam, no futuro, reivindicarem o mesmo tratamento? O efeito será a falta de imóveis para esse tipo de comércio. Eu, fosse proprietário, evitaria esse risco de agora em diante.

Não sei quanto custa uma ida ao Ó. Uma visita a barzinhos da Vila Madalena não costuma sair por menos do que R$ 100 por pessoa, ainda mais com o couvert artístico. Ou seja, a frequência é de gente bonita, muito ligada na cultura raiz do país, desde que seja em espaço gourmet. Para manter esse privilégio, vão impedir que centenas de empregos para pessoas de baixa renda sejam criados na construção de um prédio no lugar, além de impedir que a prefeitura arrecade impostos que poderiam ser usados em programas sociais. Tudo em nome do direito de ouvir música em um só e determinado lugar.

Tenho certeza de que um assunto recorrente nas mesas do Ó é a desigualdade de renda, e de como as elites do país são agarradas aos seus privilégios. Privilégios que têm muitas facetas, algumas tão sutis que nem os privilegiados notam.

Quem paga pela mitigação das mudanças climáticas?

Apenas uma minoria das empresas multinacionais investem em “ações climáticas”, faz-nos saber reportagem de hoje. Se é assim com as multinacionais, imagine só as nacionais…

O que leva esses dirigentes a ignorar o alerta vermelho do Inmet sobre as temperaturas recordes que nos aguardam nesse fim de semana? Será que não entendem a emergência climática que vai nos carbonizar a todos muitos bilhões de anos antes da programada expansão do Sol?

A pista é dada na própria matéria: “consumidores continuam com o mesmo padrão de consumo e investidores continuam cobrando retorno”. What a surprise!

Há um gigantesco esforço regulatório para que empresas e investidores profissionais se adequem a regras de investimentos que têm por objetivo mitigar as mudanças climáticas, além de outras questões sociais que não são o foco dessa reportagem. A ideia parece simples e genial: convença os donos do dinheiro de que os consumidores e investidores estão ávidos por mitigar as mudanças climáticas, de modo que aquelas empresas e fundos de investimento que não sigam por esse caminho estão fadados à extinção.

Só que não. A realidade nua e crua é que a ameaça das mudanças climáticas ainda está longe de tocar os corações e mentes da imensa maioria dos consumidores e investidores. Por alguma estranha razão, o senso comum atribui esse calorão de fim de inverno a oscilações normais do padrão climático. E, pior: mesmo que houvesse uma consciência maior do perigo que nos ameaça, a imensa maioria simplesmente não tem orçamento para investir em mitigantes para o problema, preocupados que estão em sobreviver ao dia. Mitigar as mudanças climáticas custa caro, e ninguém está realmente disposto a pagar por isso.

Empresas e investidores profissionais não passam de escravos dos seus clientes, que são os verdadeiros “donos do dinheiro”. Se os consumidores insistem em escolher produtos pelo seu preço e investidores insistem em exigir retornos maiores, o que empresas e investidores profissionais podem fazer a respeito, a não ser obedecer a esses desejos expressos?

Menino precoce

Lula foi eleito primeiro presidente do PT em 1980. Digamos que ele tenha “vivido dentro de uma fábrica” nos 27 anos anteriores, o que é só uma figura de linguagem, como sabemos. Isso nos dá 1953 como o ano em que Lula mudou sua residência para uma fábrica. Lula nasceu em 1945, o que nos permite concluir que Lula “viveu dentro de uma fábrica” desde os 8 anos de idade. Menino precoce desde sempre.

Ainda sobre o parcelado sem juros

Raras vezes um artigo meu recebeu tantas críticas quanto o de ontem, a respeito do parcelado sem juros. As críticas podem ser agrupadas em três tipos de argumentos: 1) lobby dos bancos, 2) liberdade dos agentes econômicos e 3) estratégia comercial legítima. Como demonstração de apreço pelo contraditório, vou procurar, mui respeitosamente, argumentar contra cada uma dessas tres objeções.

O primeiro argumento diz que cobrar juros nas compras parceladas só interessa aos bancos e, portanto, deve ser algo ruim. Antes de descartar liminarmente esse “argumento” conspiracional, afirmo que é justo o oposto: ao permitir a compra à vista com desconto, o banco é sacado para fora do esquema, com ganhos para vendedores e compradores. Demonstro isso mais à frente.

O segundo argumento é filosófico: a liberdade deve prevalecer nas relações comerciais. Portanto, qualquer arranjo livremente aceito entre as partes deve ser respeitado. Alguns amigos, inclusive, acharam estranho que eu, supostamente defensor de princípios liberais, compactuasse com ideias de regulação e limites impostos pelo Estado na livre relação entre os agentes econômicos. Essa objeção é séria e merece uma resposta mais elaborada.

Em primeiro lugar, e de maneira mais genérica, liberalismo não é anarquismo. Uma economia liberal não vive sem regras e regulações. Inclusive, a segurança jurídica, essencial para o crescimento econômico, supõe a existência de regras. Sendo assim, ser contra qualquer regulação não é ser liberal, é ser anarquista, o que é outra coisa.

Em nosso caso específico, a liberdade somente pode ser plenamente exercida se todos os agentes econômicos estiverem plenamente informados sobre os termos da troca que está sendo realizada. Caso contrário, não há verdadeira liberdade, apenas um seu arremedo. Se eu sou informado de que há uma cama elástica me esperando se eu pular pela janela, quando na verdade não há nada, minha decisão de pular não foi livre, pois não fui devidamente informado das consequências.

Pode-se argumentar que a tarefa de buscar informações é, no caso, do comprador. Caberia a mim olhar pela janela e verificar se há mesmo uma cama elástica me esperando caso eu pule. Nesse sentido, caberia ao comprador simplesmente saber que há juros embutidos no parcelado sem juros, assim como cabe ao comprador verificar os preços da concorrência, não cabendo ao vendedor informá-los. É um bom ponto, a menos de um problema: os preços da concorrência são acessíveis, ao passo que os juros são inacessíveis. Eles estão lá, embutidos no preço, e não há como saber o seu montante. E pior: a propaganda AFIRMA que não há juros. Trata-se de propaganda enganosa, que envenena qualquer relação comercial livre. Um dos objetivos principais da regulação econômica é justamente eliminar essas assimetrias informacionais, tópico que exploraremos a seguir.

O terceiro argumento é mais prático e estipula o seguinte: o comerciante escolhe obter menos margem ao vender à prazo pelo preço à vista, tendo como contrapartida um maior volume de vendas. Em outras palavras, o vendedor sacrifica a sua margem unitária para vender mais e, supostamente, obter lucros maiores na operação como um todo, somente possível porque o parcelado sem juros permitiu vender um volume maior. Sendo assim, a prática não teria nada de imoral, seria apenas mais um arranjo comercial entre as partes envolvidas.

Este argumento é bem elaborado, e confesso que levei algum tempo para entender o seu problema. Vejamos um exemplo numérico. Um comerciante compra uma mercadoria por 70 e vende por 100. Sua margem, portanto, é de 30. No entanto, para aumentar o volume de vendas, o comerciante aceita parcelar a compra em 10 vezes sem juros. Neste caso, ao custo de 70 da mercadoria junta-se o custo financeiro dessa operação, pois o comerciante precisa do dinheiro à vista. Ao antecipar esse recebível, o comerciante obtém 95 ao invés dos 100, sendo 5 o custo financeiro. Sua margem, portanto, passa a ser de 25, e não mais de 30. Tudo muito bem até aqui: o comerciante recebeu 95, a instituição financeira recebeu 5 e o consumidor pagou o equivalente a 97 (as 10 parcelas de 10 trazidas a valor presente pela taxa de juros de um investimento qualquer). A diferença de 2 entre aquilo que o consumidor pagou (97) e o comerciante recebeu (95) é a margem da instituição financeira, o chamado spread bancário.

A questão que se coloca, no entanto, é a seguinte: por que o comerciante simplesmente não coloca o preço da mercadoria em 96? Nesse preço, comerciante e consumidor estariam dividindo entre si o spread bancário: a margem do comerciante seria 1 a mais (25 para 26) e o preço para o consumidor seria 1 a menos (97 para 96). Por que simplesmente não eliminar a instituição financeira da jogada, em um jogo ganha-ganha? A resposta é simples: o jogo seria percebido como ganha-ganha somente se houvesse simetria de informações. Ocorre que a matemática acima é totalmente opaca para o consumidor. E é aí que entra a sacanagem: a imensa maioria entra nessa com a ilusão de que se trata de uma escolha sem custo algum. Aqui, voltamos à argumentação anterior: somente pode existir real negociação entre as partes quando ambas conhecem todos os termos do negócio. Parcelar sem juros pode ser uma boa estratégia mercadológica para o comerciante, pois aumenta as suas vendas. Mas não o é para o consumidor, que é induzido a comprar uma mentira.

Nesse sentido, o mercado construído pelo parcelado sem juros é um exemplo adaptado do que o economista e prêmio Nobel George Akerlof chamou de “lemon market”, um mercado em que o vendedor tem mais informações sobre o produto que está vendendo do que o comprador. O típico exemplo é o mercado de carros usados. Adaptando o conceito ao nosso caso, a mercadoria vendida a prazo “sem juros” é mais cara do que o consumidor é levado a acreditar. O vendedor sabe disso, mas não o consumidor. Para resolver essa assimetria, Akerlof sugere, entre outras coisas, aperfeiçoar o sistema informacional, de modo a diminuir a assimetria de informações entre vendedores e compradores. Cobrar juros ao parcelar uma compra é uma maneira de fazê-lo.

Parcelado sem juros, um instrumento de deseducação financeira

Anúncio de página inteira defendendo a manutenção do crédito parcelado sem juros no cartão. Aliás, esse não é o primeiro assinado pela Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel). Fica aqui a charada: porque um setor que não vende à prazo está tão interessado no assunto? Sigamos.

Tem havido muita controvérsia a respeito dessa modalidade de crédito, principalmente em relação a quem estaria pagando os juros embutidos no parcelamento. Que há juros, não há dúvida. A prova é que o consumidor, ao parcelar, pode investir o dinheiro não gasto na compra à vista e obter rendimentos no mercado. No final, terá mais dinheiro do que o valor do bem adquirido. A diferença é uma parte dos juros embutidos.

Fugindo um pouco dessa discussão sobre a quem pertence a conta, gostaria de abordar a questão do ponto de vista da educação financeira. O parcelado sem juros é um instrumento de deseducação financeira, na medida em que induz o consumidor a adquirir bens de valores mais altos “sem dor”.

Se o valor do bem aumentasse pelo fato de se estar parcelando, o consumidor se veria menos tentado a parcelar, diminuindo seu apetite pelo consumo. Não por outro motivo, os comerciantes estão alucinados para manterem o “carnezinho gostoso” do parcelado sem juros.

E não resolveria se os comerciantes diminuíssem seus preços, de modo a que o total parcelado igualasse o preço anterior quando acrescido dos juros. O consumidor “ancora” a sua percepção de preço no preço à vista atual, ele não conhece o preço à vista anterior à diminuição do preço. Em outras palavras, o parcelado sem juros é uma maneira muito mais eficaz de induzir o consumo do que um desconto à vista sobre um preço anterior desconhecido.

Os patrocinadores deste anúncio mencionam o Desenrola, programa do governo para liberar o orçamento dos inadimplentes, de modo que possam voltar ao consumo. O que eles não dizem é que o parcelado sem juros é um dos grandes motivos que explicam porque tantos consumidores foram parar nos serviços de proteção ao crédito. Sem esse instrumento de deseducação financeira, com certeza teríamos menos gente recorrendo ao rotativo do cartão, e menos gente inadimplente. O Desenrola sem o fim do parcelado sem juros é equivalente a eliminar as consequências do vício no álcool e continuar frequentando o bar: é só questão de tempo para voltar à situação anterior.

Claro, o fim do parcelado sem juros representaria inicialmente um tombo nas vendas. Mas teríamos um mercado de credito mais saudável, com menor inadimplência. Sim, vender a prazo “sem juros” movimenta a economia e sustenta milhares de negócios e empregos. Mas o preço é alto: o sofrimento de milhões de famílias enredadas em dívidas, levadas a essa situação por truques como o “parcelado sem juros”.

Desigualdade de renda, um problema sociológico

Reportagem de ontem informa que a desigualdade de renda permanece mesmo naqueles municípios onde há grande investimento público. Estou estupefacto: quer dizer então que a desigualdade não se resolve na base da canetada governamental? Quem diria…

No meu livro Descomplicando o Economês há uma tabela com os dez países menos desiguais e os dez países mais desiguais do mundo em termos de índice de Gini. Adivinha em qual dessas tabelas o Brasil está.

O mais incompreensível é que isso aconteça mesmo com uma boa parte dos gastos do governo sendo direcionados para a assistência social, a começar da Previdência, passando por educação e saúde, até chegar no Bolsa Família turbinado. Por que, afinal, depois de décadas de políticas social democratas de distribuição de renda, o nosso índice de Gini não se mexe em relação à média global? Por que continuamos a ser um dos países mais desiguais do mundo?

Os economistas Gustavo Loyola e Marcelo Nery arriscam algumas hipóteses. Loyola afirma que investimentos públicos muitas vezes não são direcionados para aliviar as necessidades dos mais pobres, como educação e saúde, mas para construir equipamentos para os mais ricos, como aeroportos. Já Nery chama a atenção para o fato de que a mesma mão que dá o Bolsa Família retira o benefício através dos impostos indiretos. Ambos analisam facetas diferentes do mesmo problema: o poder das elites de manterem suas posições.

Seriam as elites brasileiras tão piores do que as de outros lugares do mundo a ponto de estarmos entre os 10 países mais desiguais do mundo? Não acho que seja assim. E aqui entra a minha tese sobre este assunto.

Se analisarmos o ranking da desigualdade de renda, vamos observar que os países menos desiguais, com índice de Gini menor que 0,3, estão no leste europeu (antigos satélites e repúblicas da União Soviética), alem sos países escandinavos e Japão. A seguir, com Gini entre 0,3 e 0,4, estão os países da Europa Ocidental. Com Gini entre 0,4 e 0,5, temos os EUA e os países mais desenvolvidos dentre os emergentes, como Chile. Por fim, com Gini acima de 0,5, temos os países mais desiguais do mundo, como os africanos e o Brasil-sil-sil. O que nos diz esse quadro?

Minha tese é a seguinte: o nível de desigualdade de renda tem mais a ver com a formação do país e a homogeneidade de seu povo do que com características econômicas. É mais uma questão sociológica do que econômica. Países escandinavos e do leste europeu são muito mais homogêneos do que os da Europa Ocidental, que receberam muito mais imigrantes. Além disso, o socialismo imposto de cima para baixo no leste europeu certamente teve o seu papel, em um movimento que dificilmente seria tolerado em países com tradição democrática.

Já os EUA, apesar de sua riqueza, têm a marca da escravidão, e um contingente imenso de imigrantes, o que o torna um ponto fora da curva dentre os países mais ricos. No entanto, levam uma vantagem sobre o Brasil, que também teve escravidão e imigrantes: nunca teve uma Corte, que criou a ideia da fidalguia. Nos EUA, há elites como aqui, mas não com a ideia de uma espécie de direito divino aos privilégios.

A discussão sobre a reforma tributária é um laboratório sociológico nesse sentido. As elites se agarram aos seus privilégios, como por exemplo, a OAB pressionando para que os escritórios de advocacia continuem a ter tributação especial. No Brasil, o imposto sobre consumo (a mão que tira o que a outra mão deu) é proporcionalmente muito maior em relação ao imposto sobre a renda do que em países onde as elites têm menos poder. Aqui, a própria previdência social beneficia os mais ricos, ao privilegiar os trabalhadores com carteira assinada, além dos funcionários públicos. Aliás, a reforma da previdência foi também um laboratório que revelou o quanto as elites são capazes de preservarem seus privilégios, caminhando apenas milímetros na direção de uma distribuição mais justa da renda.

Somos um país pobre e desigual. A pobreza é um problema econômico, que se resolve com mais crescimento. Já a desigualdade é um problema sociológico, que só se resolve se e quando as elites políticas e econômicas decidirem que enough is enough e assumirem a sua responsabilidade.

PS.: quem são as elites? Resposta: as elites são sempre os outros.

O golpe do exército de Brancaleone

Foi ou não foi tentativa de golpe?

Espantalhos são úteis como palavras de ordem que aglutinam paixões, enquanto desviam o foco das questões realmente relevantes. O espantalho do “golpe de estado” é tão real (e tão útil) quanto o espantalho do “comunismo”. Vamos focar aqui no primeiro, que está na ordem do dia.

Cantanhêde, e boa parte da intelligentsia brasileira, parece acreditar piamente que escapamos por um triz de um golpe militar a la 1964. Seria cômico se não fosse trágico. Essa crença ignora a dinâmica do golpe de 64, em que todas as forças institucionais do país concorreram para a deposição de Jango, no contexto global da Guerra Fria. Os militares simplesmente compuseram com as instituições, em um movimento elogiado pelos grandes órgãos de imprensa. Sério que querem comparar aquilo com Bolsonaro e seus camisas pardas?

A frase “golpe nunca mais!” e as condenações do STF colocam a intelligentsia brasileira e os lunáticos de Bolsonaro no mesmo nível: ambos os lados realmente acreditam que estávamos à beira de um golpe de estado liderado pelos militares.

Os auto-intituladas democratas do país davam risada (e com razão) dos acampamentos em frente aos quartéis, geradores de abundantes memes. Afinal, aquilo era nada mais que folclórico. A diferença concreta dos acampamentos para os eventos de 08/01 é que as poltronas dos ministros do Supremo foram quebradas, o que mereceria pena de morte, se houvesse essa previsão em nosso ordenamento jurídico. Aqueles eventos não avançaram um milímetro na direção de um golpe militar, a não ser na cabeça da Cantanhêde e dos lunáticos. E esse ponto é importante.

Aquela multidão realmente achava que estava provocando a reação dos militares. São abundantes as referências a uma suposta “intervenção militar”. Aliás, não é de hoje. Faixas pedindo intervenção e com os dizeres “eu autorizo” eram frequentes nas manifestações em apoio a Bolsonaro. Os acampamentos em frente aos quartéis fazem parte desse quadro. Nesse sentido, a condenação se explica: afinal, não é a impossibilidade concreta de cometer um crime que absolve a tentativa. Os acampamentos e a invasão tinham como objetivo a intervenção militar, por mais doidivanas que possa parecer. Portanto, na cabeça daquelas pessoas, havia sim um crime tipificado sendo executado, e não foi só a depredação, o que justifica a condenação.

O tom patético da coisa se dá pelo auto-nivelamento da intelligentsia (STF incluído) com o bolsonarismo mais rasteiro, ambos acreditando piamente que um golpe de estado estava no forno. Os champions da democracia se regojizam, como se combater o bolsonarismo fosse o suprassumo da defesa do Estado Democrático de Direito. Infelizmente, não existe crime de imbecilidade, que seria a tipificação correta para o caso. Então, que seja pelo crime de atentado às instituições democráticas, que, de fato, era a intenção. Mas, pelo menos, poderiam nos poupar do ridículo de elevar o caso a uma questão de vida ou morte para a democracia brasileira.

PS.: parabéns para a Justiça brasileira, que mostrou uma celeridade exemplar neste caso. Espero que seja a nova norma para o trâmite dos processos que não envolvam a quebra das poltronas dos ministros do Supremo.

Alguém sempre está pagando pelas políticas públicas

O Senado decidiu não incluir cotas para filmes nacionais nos cinemas. O projeto em tramitação na Casa discutirá cotas apenas para a TV paga. Matéria no Estadão volta a discutir essa questão.

Cinema é uma diversão cara. Uma única meia-entrada custa uma mensalidade do Netflix. Por isso, as pessoas pensam muito bem antes de escolher onde vão gastar o seu rico e suado dinheirinho. E como é tomada essa decisão? O consumidor forma a sua opinião com base em alguns elementos: “hype” (todo mundo está falando), grandiosidade da produção, interesse pelo tema etc.

Mas, antes de mais nada, é preciso que o filme seja conhecido de alguma forma. O consumidor comum não é um cinéfilo especializado, que acompanha a indústria e seus festivais. De maneira geral, o filme que ocupa as salas é acompanhado de uma grande campanha de marketing, que procura convencer o consumidor de que vale a pena assistir àquele filme no cinema e não esperar pelo streaming. Para isso, é preciso ter verba de publicidade.

É a isso que se refere o representante das salas Multiplex. A decisão de colocar um filme em uma sala envolve risco. Uma sala vazia é prejuízo. Uma boa estratégia para minimizar esse risco é justamente acompanhar as campanhas de marketing em torno dos filmes. Quanto maior a campanha, maior a chance de ocupar a sala.

Por outro lado, o especialista em cinema defende uma certa “liberdade de escolha”. Estabelecer cotas para filmes brasileiros seria uma forma de garantir essa liberdade ao consumidor. O problema desse raciocínio está em definir quem paga por essa liberdade. Sim, porque alguém precisa pagar pelas salas ocupadas apenas por cinéfilos especializados, que assistem a filmes com baixa verba de publicidade. As cotas transferem esse custo de marketing para os exibidores, que substituem, com o seu prejuízo, a verba inexistente de publicidade. Como os exibidores não conseguem sobreviver com o prejuízo, o custo é repassado para o preço dos ingressos, elitizando ainda mais o divertimento.

Não sou a favor nem contra cotas para filmes brasileiros. Cada sociedade deve definir suas prioridades. A única observação que faço é que não existe política pública “de graça”. Alguém sempre está pagando, mesmo sem perceber.