Nova York está morta?

O Brazil Journal postou um texto que teve grande repercussão nos EUA (NYC is dead forever. Here is why). O autor defende a tese de que a cidade de Nova York está morta para sempre.

Trata-se de um texto bem longo, em que o autor analisa várias dimensões do fenômeno do abandono da cidade, por parte de seus moradores, para outros lugares do país. O vetor que proporciona esta oportunidade de mudança é a banda larga de internet.

Segundo o autor, as pessoas não precisam mais morar em grandes cidades para terem grandes oportunidades. Você, vivendo em uma cidade pequena, sem as dores de cabeça da grande metrópole e com um custo de vida muito mais baixo, pode hoje ter as mesmas oportunidades. Pode trabalhar em uma grande empresa, ter acesso a grandes universidades, fazer grandes negócios, tudo isso sentado na varanda de sua casa no meio do nowhere. O social distancing teria levado as pessoas a descobrirem que podem viver muito bem sem contato humano, pelo menos no que se refere a negócios.

Vou aqui colocar a minha opinião, certamente influenciada pela visão de minha geração. Talvez os mais jovens tenham uma visão diferente. E o mundo, afinal, será deles.

Minha opinião tem origem em duas experiências bem concretas. A primeira é o home office e a segunda é a aula remota.

Trabalho em uma empresa de médio porte. Estamos todos em home office desde março. É horroroso. Quer dizer, no início foi até interessante: não perder tempo no trânsito, não ter a sua atenção desviada por papos paralelos, minha produtividade até subiu. Mas, com o tempo, quatro coisas foram ficando claras:

1) A interação presencial com os colegas é fundamental. Sentar ao lado de um colega para discutir uma ideia ou tratar de um problema é insubstituível. Claro, você sempre pode resolver as coisas por telefone, mas não é a mesma coisa. A sensação é que se está em uma camisa de força, não se tem a mesma agilidade. Discutir uma planilha pelo telefone é um inferno, não funciona direito. Além disso, o ambiente de camaradagem vai se perdendo aos poucos, ficamos cada um em sua própria ilha particular. Isso é tudo, menos uma empresa.

2) A interação remota com clientes pode até funcionar, mas nada substitui uma reunião presencial. O body language faz mais de 50% da comunicação. Estar em contato com clientes remotamente serve como um substituto pobre para o verdadeiro relacionamento.

3) A formação dos mais novos perde muito com a falta de contato. Muito da cultura de uma empresa é adquirido no contato do dia-a-dia, nos almoços, na copa. Ficar em casa realizando tarefas não é exatamente o que vai formar um novo profissional. Há pessoas que foram contratadas que não conheço pessoalmente. Muito triste isso.

4) Trabalhar no mesmo lugar em que você dorme não é exatamente algo que chamo de saudável. No início tudo bem, mas depois aquilo vai embotando a sua mente. Se esta fosse uma situação permanente, eu já estaria procurando um escritório para alugar.

Com relação à minha segunda experiência, dou aulas em um curso preparatório para um teste no mercado financeiro. Neste mês comecei a dar aula remota. Horrível. A interação pessoal é praticamente nula, parece que você está falando com ninguém. Alguns alunos até interagem, mas é muito, mas muito diferente da aula presencial. Até um aluno dormindo em aula é mais interativo do que aula remota. Sem condições. O home office é até uma experiência que pode ser adotada parcialmente. O ensino à distância nem isso.

Bem, tudo isso para dizer que acho que o autor do artigo dizendo que Nova York morreu está errado. O ser humano é um animal gregário. A banda pode ser larga até o ponto de colocar um holograma perfeito na nossa frente. Nada vai substituir o contato humano. Nunca.

Os seres humanos vivem em cidades não porque não possam fazer as mesmas coisas à distância. Os seres humanos vivem em cidades porque precisamos uns dos outros por perto. Nos odiamos mas não podemos viver uns sem os outros. Por isso Nova York e São Paulo vão continuar aí, com suas mazelas e suas promessas. Porque assim é o ser humano.

O manifesto dos profissionais que trabalham com economia

“Profissionais que trabalham com economia” publicaram um manifesto pelo fim do teto de gastos. Ainda bem que não são “economistas”! Aliás, já disse aqui que economia é a ciência que procura descrever sistemas em que os recursos são escassos. Em um mundo onde os recursos são infinitos, pois criados sem limites pelo Estado, os economistas são profissionais dispensáveis. Restam os “profissionais que trabalham com economia”, que são basicamente aqueles que contam histórias para justificar o fracasso de suas teorias.

Tive a paciência de ler o manifesto, apesar de já saber o que iria encontrar. Além da desonestidade intelectual de sempre, há um desconhecimento brutal de como funciona a realidade do mundo real.

A desonestidade vem de narrativas como a de que a retomada pífia do crescimento econômico a partir de 2017 se deveu à aprovação do teto de gastos no ano anterior. Ora, o teto de gastos não será um limitador de gastos até 2021 ou 2022! Ou seja, o governo continuou gastando normalmente (entre gastos discricionários e não discricionários) como se o teto não existisse, com exceção desse ano de 2020, quando foram aprovados gastos discricionários para combater os efeitos da pandemia. Ou seja, não houve limitador algum! O crescimento foi pífio por outros motivos, não pelo teto. Há outras desonestidades no “manifesto”, mas vamos ao cerne da questão.

Os “profissionais que trabalham com economia” apontam corretamente o problema básico que o teto de gastos veio endereçar: a trajetória explosiva da dívida pública. Achei isso digno de nota, porque normalmente nesses “manifestos” esse problema não é abordado. Gasta-se muita tinta falando-se de “direitos” e “incentivos ao crescimento”, como se essas necessidades, por si só, tivessem o condão de criar dinheiro do nada.

Mas, ao citar o problema, os “profissionais que trabalham com economia” tiveram que propor uma solução. E a solução foi… negar a existência do problema!

Segundo os manifestantes, os países desenvolvidos estão agora mesmo empilhando incentivos fiscais sem se preocuparem com a dívida. Cita Espanha e Itália, que sequer podem imprimir a própria moeda, fazendo a mesma coisa. E nós, que imprimimos o poderoso Real, porque não podemos fazer o mesmo???

Sinto-me até constrangido em explicar coisa tão básica. Sou engenheiro e, portanto, não sou sequer um “profissional que trabalha com economia”, quanto mais um economista. Mas não precisa ser um especialista da área para distinguir países desenvolvidos de países subdesenvolvidos.

Uma pequena digressão. Para financiar a guerra da independência, a União norte-americana emitiu títulos de dívida, comprados pela elite econômica das colônias. Obviamente, depois da guerra, a União não tinha como pagar aquela dívida, e então os seus detentores venderam seus títulos a preço de banana para especuladores, que tinham alguma esperança de receber algum dinheiro por aquilo. Deu-se então um embate dentro do governo: de um lado, Jefferson defendia o calote, pois esses especuladores não tinham o direito de receber 100% da dívida, na medida em que aufeririam um lucro injusto. Do outro lado estava Hamilton, o pai do sistema financeiro norte-americano, que defendia que dívida é dívida, e precisa ser paga para, assim, se manter a credibilidade do devedor. Hamilton venceu a batalha, e os títulos foram pagos a valor de face.

Conto essa história para mostrar que os EUA têm mais de 200 anos de credibilidade acumulada. É considerado um país sério, que cumpre seus compromissos. Todos confiam no papel pintado que o governo afirma ter valor, o dólar. Mesmo com tudo isso, há uma crescente desconfiança no mercado sobre a sustentabilidade da dívida americana.

Vamos ao caso de Espanha e Itália. Ambas emitem dívida em euros. O país que está verdadeiramente por trás do euro é a Alemanha, outro país absolutamente confiável. Há não muito tempo, a Grécia (que também emite dívida em euros) preferiu fazer um ajuste fiscal draconiano a abandonar o euro. Por que fizeram isso? Porque sabem que com o dracma sua população iria empobrecer ainda mais, pois a moeda seria rapidamente comida pela inflação. Espanha e Itália também sabem disso e, portanto, mantém suas contas fiscais mais ou menos em ordem. A grande dívida que têm só é possível PORQUE emitem em euro, não APESAR DE emitirem em euro, como afirmado no manifesto.

E o Brasil? Bem, nosotros somos um pobre rapaz latino-americano sem dinheiro no banco. Temos histórico de calote de dívida em várias dimensões: calote mesmo (em 1987 decretamos moratória da dívida externa), confisco (Collor em 1990) e hiperinflação da década de 80, que é a forma mais perversa de dar calote na dívida. Estamos vivendo um período inédito, em que nossa moeda não perde muito valor com o tempo, mas trata-se de uma exceção em nossa história, não uma regra. Essa conquista só foi possível porque mantivemos algum grau de disciplina fiscal nos últimos 25 anos. A mesma disciplina vilanizada pelos “profissionais que trabalham com economia”.

Este “profissionais” sugerem que, pelo fato de os financiadores da dívida serem , em sua grande maioria, brasileiros, não haveria problema de financiamento, pois não haveria para onde fugirem. Chegam ao extremo de sugerir que, se houvesse uma “fuga de capitais” para o exterior, o Banco Central teria instrumentos para lidar com o problema. Claro, fechando as fronteiras para o livre fluxo de capitais, o que nos tornaria no momento imediatamente posterior, um pária internacional sem acesso à poupança externa. Como geramos déficit em conta corrente, não teríamos com quem nos financiar, gerando uma desvalorização brutal da moeda e inflação. Já vimos esse filme muitas vezes.

O que esses “profissionais que trabalham com economia” estão sugerindo é uma volta a um passado de irresponsabilidade. Queremos caminhar para frente, não para trás. Corremos sério risco de jogar 25 anos de estabilidade monetária pela janela. Espero sinceramente que os verdadeiros economistas, aqueles que trabalham com escassez de recursos, façam ouvir a sua voz.

Números em queda?

Há alguns dias, o Estadão publicou um gráfico produzido pelo município de São Paulo, mostrando uma queda drástica do número de óbitos na cidade (abaixo).

Vi alguns comemorando o dado, mas trata-se do erro clássico de considerar o número de óbitos na data do óbito e não na data do registro. Por que um erro clássico? Porque os óbitos podem demorar até um mês para serem registrados. Então, aquele número que parece baixo no final do gráfico vai engordar nos dias seguintes.

É o que mostra o segundo gráfico que reproduzo abaixo, elaborado pelo Estadão e publicado hoje. Aquele mesmo número baixo se transformou em um número na média apenas 3 dias depois. Os óbitos “atrasados” foram contabilizados, mostrando que aquela tendência de queda tratava-se de uma miragem.

Isso significa que os números não estão em queda? Não. O site Observatório COVID Brasil faz uma estimativa do número de óbitos com base nas características da doença até hoje conhecidas e nos dados oficiais (abaixo). De fato, a tendência parece ser de queda, mas não tão intensa como sugere o site da prefeitura. Ou seja, dá até para comemorar, mas não muito.

Diagrama dos Partidos Políticos Brasileiros

Você fica muitas vezes confuso com a profusão de siglas partidárias no Brasil? Eu também.

Por isso, elaborei um diagrama com os Partidos Políticos Brasileiros.

Não sou o rei do layout, pelo contrário. O esquema está bem tosco. Mas foi o melhor que pude fazer dentro das minhas limitações.

O diagrama contém todos os partidos que pude encontrar desde o Império, passando por todas as fases da República. Na última fase, chamada de Nova República, só coloquei os partidos que tiveram alguma relevância.

Os partidos em azul já foram extintos, enquanto os partidos em cinza são os que existem atualmente.

As linhas cheias indicam fusão ou sucessão de partidos, enquanto as linhas pontilhadas indicam migração de integrantes de um partido para fundar outro. Caixinhas com mais de um nome de partido significa simplesmente mudança de nome do partido.

A distribuição espacial é mais ou menos por espectro ideológico, sendo que os partidos de esquerda ficam à direita (?!, sorry, só depois que comecei vi a burrada, mas aí ficou difícil consertar). Mas não levem essa distribuição muito a série, pois a geleia ideológica às vezes é difícil de definir.

Em cada caixinha coloquei a sigla do partido, o nome, uma ou duas lideranças de relevo (em itálico) e os anos de existência.

A fonte utilizada foi a confiável Wikipedia. Portanto, se encontrarem algum erro, por favor me avisem.

O arquivo está em um folder público do One Drive. Recomendo baixar e carregar em um leitor de PDF. Como está em um papel A4, as letras ficaram muito pequenas, então precisa aumentar bem para ver.

Espero que vocês se divirtam ao ler tanto quanto eu me diverti ao fazer esse diagrama.

Tudo é uma grande gambiarra

Sou cliente do Sem Parar. É um serviço bem útil.

Mudei de casa há coisa de um ano e meio e entrei no site do Sem Parar para mudar os dados do meu endereço. E esqueci esse assunto.

Hoje, recebendo a fatura, percebi que constava o endereço antigo. Fui ao site novamente para mudar o endereço e, para meu espanto, o endereço novo já estava lá, pois já havia mudado.

Liguei para a empresa para entender o que estava acontecendo. Depois de uns 10 minutos falando com a máquina, consegui ser atendido por um humano, muito simpático por sinal. Ele não escondeu o jogo: é que há um sistema de cobrança que gera a fatura e outro sistema (que não sei para que serve) ao qual o usuário tem acesso quando visita o site. Eu fiz a alteração nesse sistema que eu não sei para o que serve, mas o sistema de cobrança não foi atualizado!

Perguntei retoricamente ao atendente simpático se os dois sistemas não se falavam. Obviamente ele disse que não, caso se falassem eu não estaria perdendo meu tempo nessa ligação. Outras perguntas me ocorreram, como por exemplo pra que serve aquele endereço que eu digitei no site e como uma empresa de tecnologia tem dois sistemas que não se conversam. Mas não as fiz, pois fiquei com pena do coitado do atendente.

Pelo menos ele tinha meus dados no sistema dele, de modo que ele não precisou digitar, só confirmar. Ganhamos tempo. Em seguida, me informou que iria repassar os dados para o departamento de cobrança para que eles atualizassem o cadastro. Fiquei imaginando o rapaz anotando os dados em um pedaço de papel e colocando na mesa do colega do departamento ao lado. Mas foi só minha imaginação, certamente eles têm um sistema que faz a comunicação entre o departamento de anotação de dados e o departamento de cobrança.

Conto essa experiência porque só confirma uma convicção minha que só faz crescer: tecnologia é um troço que exige muito, mas muito, muito mesmo, investimento. Não se improvisa. Quando você tem um app que funciona direitinho, saiba que por trás tem um exército de programadores e analistas remendando coisas feitas em diferentes momentos, e que devem acompanhar a evolução do negócio. A função deles é fazer com que você não perceba que tudo é uma grande gambiarra, como aconteceu entre os dois sistemas “que não se conversam” do Sem Parar.

O mundo depende cada vez mais da Tecnologia da Informação. Deus nos proteja.

A “nova-política” está sepultada

No início do governo Bolsonaro, escrevi aqui alguns posts defendendo o diálogo político como forma de avançar a agenda do governo no Congresso. Em determinado momento, caiu-me a ficha ao ler o post de um bolsonarista-raiz: que raios afinal eu queria? Que o governo eleito com o discurso da anti-política, que defendia uma tal “nova política”, entrasse em conchavos típicos da “velha política”? De fato, aquilo não fazia sentido.

A “nova política” seria a política dos superiores morais: o bom, o belo e o justo se imporiam com a força do povo nas ruas. Todas as reformas, econômicas, políticas e morais, se fariam realidade pela liderança de um ser impoluto, a encarnação do bem, liderando uma verdadeira limpeza do ambiente político. O Congresso seria um mero detalhe, um coadjuvante nesse processo.

Na época concordei com esse ponto de vista, ainda que não visse muito futuro nessa linha. Afinal, por mais que a “verdade que liberta” estivesse ao lado do governante de plantão, o sistema político reflete a complexidade de um país multifacetado. Bolsonaro recebeu mais de 50 milhões de votos, mas não conseguiu sequer eleger a maior bancada do Congresso. Bancada essa que se esfacelou em poucos meses. Como ainda temos Congresso, e não parece que estejamos a ponto de fechá-lo, de alguma maneira haveria de haver uma composição.

Não acho estranho que a composição tenha acontecido. Afinal, Bolsonaro pode ser tudo, menos lunático. O que realmente me espanta é que os bolsonaristas, desde os parlamentares até os seus apoiadores aqui na rede, tenham perdoado Bolsonaro por ter “entrado no jogo” da velha política. Afinal, ficou claro que não se segue uma agenda, mas uma pessoa. Esta pessoa já abandonou a agenda anticorrupção e a agenda liberal. Falta a agenda de costumes, mas esta faz parte do núcleo anti-esquerda, então será mais difícil abandonar. E, convenhamos, ao contrário das outras duas, não é preciso abandoná-la para compor com uma parte relevante do Congresso.

A historinha da “nova política” está sepultada. E os bolsonaristas estão fazendo cara de paisagem.

O enigma da popularidade

Ontem e hoje li várias análises de um fenômeno que mesmerizou a oposição a Bolsonaro: a melhora de sua popularidade no DataFolha. Afinal, como pode o presidente do país que lidera mundialmente a lista de mortes por coronavírus, em meio à recessão mais brutal de toda a história (a recessão de Dilma foi maior, mas espalhada por 2 anos, não 2 meses), além de atacar a democracia, a Amazônia, a Ciência, as mulheres, os negros, os LGBTs, os ateus, o bom, o belo e o justo?

De todos esses assuntos, vou me ater às duas primeiras questões (doença e economia), pois são os elementos novos que, todos esperavam, iriam lançar Bolsonaro no 5o círculo do inferno da impopularidade.

Sobre a epidemia. Para analisar o fenômeno, precisamos procurar entender a percepção. Para que um governante de um país pobre pudesse ser irremediavelmente ligado às mortes, seria necessário ver gente morrendo nas ruas, nas casas, sem tratamento nos hospitais. Com exceção talvez de Manaus no início da pandemia, isso não aconteceu em lugar nenhum. Poucos devem ter morrido por falta de atendimento. Sendo assim, a única possível culpa do governante é não ter tomado medidas para evitar o contágio. E é disto que os a analistas mesmerizados acusam o governo.

Ora, em um país pobre (reitero o adjetivo) as pessoas simplesmente não têm poupança para ficar em casa sem trabalhar. O discurso do presidente, para grande parte da população faz mais sentido. Não estou aqui entrando na seara do certo ou do errado, estou tratando de percepções. Mesmo entre aqueles que tiveram entes queridos morrendo por conta da doença, isso vai ser colocado na conta de Deus, não de Bolsonaro. Afinal, o que o presidente tem a ver com a vida e a morte?

Ainda no campo das percepções, a cobertura jornalística de qualquer fenômeno vai cansando com o tempo. No início, é tudo novidade, os fatores surpresa, espanto, indignação, trabalham a todo vapor. Com o tempo, no entanto, aquele “produto” jornalístico vai perdendo relevância. Quando 1.000 mortes por dia são reportadas por dois, três meses seguidos, começa a ser um novo normal. Li em algum lugar que a população se acostumou com a tragédia. Sim, assim como se acostumou com as 50 mil mortes violentas por ano, também um recorde mundial. O ser humano tem uma incrível capacidade de se adaptar à realidade.

(Abre parênteses: nesse quesito de “acostumar-se”, entram também as notícias da rachadinha e dos cheques na conta da primeira dama. Me faz lembrar um cartoon em que um mágico, no seu primeiro truque da noite, tira uma baleia azul de dentro da cartola. Aquilo deixa todos os espectadores extasiados. No truque seguinte ele tira um coelho, depois faz um truque com cartas, e os espectadores começam a vaiar e ir embora. A baleia azul é o Petrolão – aliás, essa semana o “doleiro dos doleiros” assinou um acordo com o MP se comprometendo a devolver 1 bilhão (!!!). 72 mil na conta da primeira-dama? Sério? Querem que o brasileiro médio preste atenção nisso? Fecha parênteses)

O segundo aspecto é a economia. Sim, a recessão é brutal. Mas os 600 reais do corona voucher foram mais que suficientes para compensar a perda de renda agregada da população. Por mais que suficiente quero dizer que a renda SUBIU ao invés de cair. Que impopularidade resiste a isso? Pode-se perguntar porque então, se a renda subiu, as pessoas não ficaram em casa. A resposta me parece simples: porque a renda continua baixa. Somos um país pobre, lembra?

Uma pandemia que é só mais uma desgraça no mar de desgraças que é a vida do brasileiro pobre, um programa do governo que enche o bolso desse mesmo brasileiro. Não me parece tão difícil assim entender a recuperação de popularidade do presidente. Mas a reação dos “analistas” e “especialistas” tem sido raivosa. Em praticamente todo lugar, acusam o brasileiro de ser imoral. Isso mesmo, imoral. Li em algum lugar que o percentual de pessoas que acham o governo ótimo/bom/regular é o mesmo percentual que não obedeceu às normas de distanciamento social, sugerindo que coincidem no desprezo pela vida humana. Bela forma de analisar a realidade. Assumir superioridade moral certamente não leva a bom porto, como pode experimentar o PT e como agora está experimentando o bolsonarismo, que está tendo que engolir o centrão. Mas isso é tema para outro post.

Futebol não é somente uma atividade econômica

Os que leem essa página já devem ter percebido que sou da classe dos capitalistas selvagens. Para mim, a atividade econômica se resume a oferta e demanda, o que você recebe pelo que você paga, valor adicionado, produtividade, essas coisas.

Mas dentro desse coração duro feito pedra mora uma exceção: o futebol.

O futebol não pode ser classificado como uma atividade econômica como as outras. Seria o mesmo que tentar classificar o amor de uma mãe pelo seu filho de acordo com relações de trocas econômicas. Simplesmente não dá.

Futebol é paixão irracional. Seu time de coração é isso mesmo: o time de coração. E o coração tem razões que a própria razão desconhece, diz o ditado.

Outra coisa: futebol é estádio. Acho graça da molecada hoje em dia torcendo para o Barça ou Real Madrid, sem nunca terem ido a um estádio ver um jogo desses times. É quase como um vídeo game. Aliás, faz sentido. Para uma geração formada por Felipe Neto no youtube e viciada em vídeo games, o futebol virtual é até melhor. Mas isso não cria paixão. O estádio é o lugar onde se vive e se morre por um time. Onde estão as lembranças dos entes queridos que nos transmitiram seu amor pelos seus times, e onde comungamos o mesmo destino e a mesma paixão com desconhecidos que se tornam nossos irmãos na tristeza e na alegria. O futebol sem a torcida no estádio não é futebol, que me desculpem. Sim, sim, eu sei que o futebol é também uma atividade econômica. Quanto mais torcedores o time tiver, quanto mais bem organizado for o “time-empresa”, mais condições terá de ganhar títulos e novos torcedores, em um círculo virtuoso. E o contrário também é verdadeiro.

Mas um time de futebol transcende a esfera puramente econômica. Não me perguntem porquê, mas é assim. Por isso, seria preciso pensar em algum arranjo que sustente os times com torcidas menores, que têm mais dificuldade de montar equipes competitivas. Claro, é preciso que a administração seja profissional, esta é uma condição sine qua non que precisa estar garantida. Mas o poderio de um time não pode ser somente função do tamanho de sua torcida. Se assim for, terminaremos com 1 ou 2 times dominando o futebol, como aliás acontece na Europa.

Entendo perfeitamente a lógica de uma Globo, que quer a máxima audiência possível, o que a faz pagar mais para os times com maior torcida. Mas uma competição dominada por um time só perde a graça e, no limite, a audiência. Esta lógica econômica também precisa ser incorporada no processo de decisão.

Essas reflexões me vieram à mente quando li o post do meu amigo José Mauro Delella, a respeito dos 100 anos da Portuguesa de Desportos, que tive o prazer de ver jogar contra o meu Santos, em um 3 x 3 épico, com apresentação de gala de Eneas, que fez os 3 gols da Lusa.

Não se preocupe Zema. A Portuguesa nunca vai morrer enquanto você estiver vivo. Porque um time vive de verdade é no coração dos seus torcedores.


Da página de José Mauro Delella:

Há exatos 100 anos, 5 portugueses que representavam seus times espalhados por São Paulo se uniram para formar um maior e deram a ele o nome de Associação Portuguesa de Desportos. Um desses times se chamava Portugal Marinhense, time de meu bisavô, José Rodrigo, e de seus filhos.

Mesmo bem antes de saber essa história eu já amava a Portuguesa completamente. Amor pouquíssimo correspondido, a propósito. Mais sofrimento que alegria. Mas amor puro. O amor pela Portuguesa tem muito a ver com as nossas ligações familiares. É o meu caso e da maior parte dos torcedores. Sou um sobrevivente de tardes e noites passadas no Canindé com pessoas que já se foram. Minha avó, a mais fanática de todas, meu nonno, italiano convertido, seus três filhos, Antonio, Anibal e José Nicola. Este, meu pai e referência de vida. Descendentes daquele José Rodrigo.

Sempre foi difícil torcer pra Portuguesa. Mesmo em tempos bem melhores, ser o único da classe era regra. Mas os últimos 20 anos foram cruéis. Uma derrocada terrível a partir de 2002 e a morte “de morte matada” em 2013. Muitos jogadores indignos de vestir o manto que já vestiu Djalma Santos, Julinho, Dener, Enéas, Felix, Pinga, carregaram as cores rubroverdes e isso me fez um pouco mais triste.

Talvez haja alguma forma de ressurreição, talvez não. Mas esse amor vai me acompanhar até o fim. Junto com aqueles que já se foram e a quem eu represento.

Se eu torcesse para outro time, eu seria outra pessoa. Parabéns Associação Portuguesa de Desportos.

O patriotismo do mercado

Ontem Bolsonaro fez uma longa live sobre o tema do momento: teto de gastos.

Mostrou consciência de que se trata de aumento de endividamento, o que é bom. Mas (e sempre tem um ‘mas’), mostrou também ignorância sobre um tema básico: como funciona o mercado financeiro.

Não vou culpá-lo. Afinal, trata-se de tema difícil, que a maioria dos brasileiros realmente desconhece. Claro, poderíamos dizer que do presidente da República se deve exigir que pelo menos tenha noções básicas de como funciona a economia. Afinal, são dele as decisões que, em última instância, influenciarão a vida de todos os brasileiros. Mas deixa prá lá. Aqui no meu humilde espaço, vou tentar explicar porque é uma imbecilidade pedir “patriotismo” para o mercado.

O que é o mercado financeiro? Se fizéssemos uma pesquisa com brasileiros comuns, leigos, a resposta seria provavelmente algo parecido com “os grandes bancos” ou “os especuladores” ou ainda “os operadores da bolsa”. Estes são os personagens que encarnam essa entidade etérea chamada genericamente de “mercado financeiro”.

Sim, o mercado é isso também. Mas é muito mais do que isso. Vamos nos ater apenas à questão da dívida pública, que é o que nos interessa aqui. Afinal, o teto de gastos só existe para controlar a dívida pública.

A dívida pública brasileira totalizou 4 trilhões, 389 bilhões e 940 milhões de reais no final de junho. Ou, R$ 4.389.940.000.000, em números redondos. Isso representa mais ou menos 85% do PIB. Devemos chegar no final do ano com uma dívida de aproximadamente 5 trilhões de reais.

Vira e mexe os partidos mais radicais de esquerda levantam a bandeira da “auditoria da dívida”. Mas não tem segredo nenhum. Esta montanha de dinheiro não surgiu do nada. Foi fruto de um trabalho perseverante, em que necessidades muito nobres foram sendo empurradas para dentro do orçamento ao longo de décadas. Como diz o presidente em outro trecho de sua fala de ontem, é dinheiro “para a água no Nordeste, revitalização de rios, Minha Casa Minha Vida”. É óbvio que nunca se pede mais dinheiro para pagar lagostas no STF ou para alimentar as emas do Alvorada, mas, por algum motivo ainda misterioso, este dinheiro de fim tão nobre acaba pagando por este tipo de coisa.

Mas meu ponto aqui é outro. Quem são os financiadores desta dívida? Afinal, se há um devedor, há também um credor. Aí é que entra o famigerado “mercado financeiro”. Este seria o pérfido credor, aquele que pensa antes em si do que no país. Um anti-patriota, por assim dizer.

Vamos analisar a questão mais de perto. O Tesouro Nacional publica um relatório mensal em que divulga os detentores da dívida pública. Em junho, estes detentores eram os seguintes:

  • Previdência: 24,5%
  • Instituições Financeiras: 27,5%
  • Fundos de Investimento: 25,8%
  • Estrangeiros: 9,1%
  • Governo: 3,9%
  • Seguradoras: 3,9%
  • Outros: 5,4%

Observe que apenas 27,5% da dívida pública está nas mãos dos bancos. E, mesmo estes, não são “donos” desse dinheiro. O dinheiro que os bancos investem em títulos públicos pertencem aos depositantes e poupadores. O banco é apenas o intermediário entre o cliente e a dívida pública. Quando você deposita dinheiro na caderneta de poupança, ou compra CDB de um banco, este usa o dinheiro para emprestar para outras pessoas, inclusive para o governo.

O mesmo acontece com os Fundos de Investimento. Você aplica o seu rico dinheirinho em um fundo, e o fundo compra títulos públicos.

No caso da Previdência, os títulos públicos servem como lastro das aposentadorias a serem pagas. Os credores da dívida pública, neste caso, são os aposentados atuais e futuros.

Em resumo: os detentores da dívida pública somos todos nós que poupamos. A nossa poupança, de uma maneira ou de outra, acaba por financiar a dívida do governo. Ou seja, o mercado financeiro somos todos nós.

Esta noção é muito importante. O mercado financeiro, entendido de maneira estrita como o conjunto dos seus operadores, é apenas a ponta do iceberg. Os operadores do mercado são empregados daqueles que poupam e investem, e fazem o que estes desejam.

Tenho certeza que o presidente tem lá os seus investimentos. Será que ele seria patriota o suficiente para abrir mão de seus rendimentos? Ou, até melhor, doar o seu dinheiro para abater a dívida pública? Pois é disso que se trata. Os operadores do mercado são pagos pelos investidores para maximizar os ganhos e evitar perdas. Quando se diz que “o mercado não vai gostar disso ou daquilo”, o que se quer dizer é que os operadores vão tentar proteger os seus clientes de perdas. E os clientes somos todos nós que investimos.

Portanto, nada contra fazer as coisas por patriotismo. Trata-se de um sentimento muito nobre. Só tome o cuidado de saber quem é o patriota que vai colocar a mão no bolso pelo país.