Narrativas

Bolsonaro culpa o ex-ministro Sérgio Moro pelo desfecho da investigação sobre a tentativa de assassinato a faca durante a campanha.

Bem, há 4 meses temos outro ministro da justiça e chefe da PF. Por que o inquérito não foi reaberto? Ou seria essa mais uma afirmação sob medida para os que não podem viver sem uma teoria da conspiração? Daqui a uma semana completar-se-ão 6 meses desde que Bolsonaro prometeu “para amanhã” mostrar provas de fraudes nas urnas eletrônicas. Ficou o dito pelo não dito.

Talk is cheap, como dizem os americanos. Bolsonaro joga no ar afirmações ilógicas mas que apelam para os que têm resposta para tudo, pois tudo é sempre explicado a partir de uma grande conspiração contra o paladino da justiça.

Fica difícil entender como Bolsonaro ganhou eleições fraudadas, ou que interesse teria Moro em abafar investigações. Mas esses são detalhes menores. O que importa, no final, é manter a narrativa do herói contra tudo e contra todos, para consumo de sua grei.

Assim é se assim lhe parece.

Boicote oficial

Acho que é a primeira vez na vida que vejo uma campanha oficial de governo DESESTIMULANDO o uso de vacina. Não, acho não, tenho certeza.

Dizem que existe uma lei que permite ao governo obrigar os cidadãos a tomarem vacina. Desconheço. Mas, mesmo que tivesse, acho que nunca foi utilizada. O que ocorre normalmente são as chamadas Campanhas de Vacinação.

Nessas campanhas, o governo estimula a população a tomar vacinas, de modo a evitar a sobrecarga do sistema público de saúde com doenças evitáveis. Sem contar, é claro, com a desgraça pessoal que é sofrer de poliomielite, meningite, tuberculose etc.

Sim, é verdade, ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina. Nem por isso o governo deveria usar o seu poder de comunicação para vender a ideia de que se trata de uma opção como outra qualquer. Não é. Trata-se de saúde pública. A sua doença vai me afetar, pois será um a mais ocupando um leito hospitalar e alguém a menos para produzir para o país. O governo não precisa obrigar, mas tem o dever de estimular. Mensagens como essa têm o efeito contrário.

Até entendo que essa mensagem vem em resposta a uma pressão para tornar a vacina obrigatória. Mas, com o objetivo de rechaçar uma indevida intromissão nas liberdades individuais, o governo joga o seu peso institucional na direção inversa, quase uma mensagem de boicote. E isso é grave quando parte da autoridade constituída.

Não somos idiotas

“Jovem com problemas mentais, pedreiro sem antecedentes criminais, usando uma arma de brinquedo”. Note a quantidade de palavras usadas para caracterizar pureza. Assim o jornalista descreve o sequestrador do ônibus na ponte Rio-Niterói, em um perfil sobre o governador afastado do Rio feito para demonizar a agenda de confronto adotada pela polícia do Rio.

Não vou entrar aqui no mérito da adequação ou não dessa política de confronto. Não tenho opinião formada sobre isso. Meu ponto é só a maneira idiota (não consegui pensar em outro adjetivo) para defender o ponto de vista contrário.

Havia uma situação de risco para os passageiros do ônibus, as negociações se mostraram infrutíferas, a polícia agiu conforme o protocolo para salvar as vidas de inocentes. Caracterizar essa ação como o assassinato de um inocente é uma ofensa à inteligência alheia. Por isso, idiota.

A polícia tomou o risco de matar um inocente? Sem dúvida. Mas o risco inverso também existia: se escolhesse não matar o sequestrador, outros inocentes poderiam morrer. Afinal, a polícia não sabia que se tratava de um “jovem com problemas mentais, pedreiro sem antecedentes criminais, usando uma arma de brinquedo”. No cálculo de riscos, parece-me que a polícia tomou a decisão correta, nesse caso específico. Acho que o jornalista concordaria comigo se tivesse um parente naquele ônibus.

Esse tipo de abordagem adotada pelo jornalista causa o efeito justo oposto: ao tratar as pessoas como idiotas, o efeito é aumentar o apoio a medidas extremas. Certamente há formas mais inteligentes de ganhar apoio para a “causa da não-violência”.

A injustiça do VAR

Sou do tempo em que Maradona fez o gol de mão contra a Inglaterra. La mano de Dios. Um erro claro da arbitragem. Mas claro no replay. Na hora, o gênio fez com que todos acreditassem que um jogador de 1,65m ganhou de cabeça de um goleiro muito mais alto que saiu com as mãos. Se houvesse o VAR, teríamos sido privados de um momento histórico, épico, comentado até hoje, mais de 30 anos depois.

Quando lançaram o VAR, critiquei aqui. Hoje foi apenas mais um dia em que aprofundei na convicção de que o VAR não tem nada a ver com futebol.

Futebol é a vida, com seus erros e acertos, com a sua não linearidade, poucos momentos apoteóticos cercado de mesmice por todos os lados. Futebol só é o esporte mais popular do mundo porque é assim. O VAR torna o esporte mais parecido com outras coisas em que a tecnologia tem um papel fundamental na decisão de quem é o vencedor. Natação ou atletismo, por exemplo.

Ninguém gosta de ser vítima de um erro do árbitro, claro. O VAR veio acabar com essas supostas injustiças. Mas o que se viu hoje na Vila Belmiro foi justamente o oposto: o VAR cometeu injustiça, mesmo cumprindo a letra fria da regra.

Nos dois lances, o impedimento era impossível de ser visto a olho nu. Foi um centímetro, se muito. É muito difícil defender que este “adiantamento” tenha sido decisivo para que o gol tivesse sido marcado. Se o jogador estivesse um centímetro para trás, provavelmente o desfecho teria sido o mesmo.

O que eu quero dizer é que lances impossíveis de serem detectados pelo juiz em campo (com a possível exceção a atitudes anti-desportivas) deveriam fazer parte daquilo que chamamos, na vida, de “erro normal”. Nos tempos em que não existia o VAR, esses dois lances seriam revisados pelos comentaristas, haveria muita discussão sobre se havia ou não impedimento, mas a conclusão seria unânime: impossível o bandeirinha perceber.

Antes de dizerem que o choro é livre, estaria escrevendo a mesma coisa se o erro do VAR fosse a favor do meu time. Sim, erro do VAR. Não se anula um gol quando são necessários 5 minutos para se concluir que havia impedimento. Se a máquina demora essa eternidade, então é porque tem algo muito errado nisso tudo.

Enfim, acho a tecnologia interessante quando avisa o juiz quando a bola ultrapassou a linha, ou que houve uma atitude anti-desportiva. Mas o que se viu hoje foi a letra vencer o espírito, a regra vencer a alma do jogo. Não, me desculpem, isso é tudo, menos futebol.

O lobo concursado

Até o momento não tinha formado uma opinião sobre a tal nota de R$200. Desde o início, a iniciativa me pareceu um pouco esquisita, em um país: 1) com trauma inflacionário, onde a impressão de notas mais altas sempre foi identificada com a desvalorização da moeda, 2) pobre, onde grande parte da população não vê com frequência quantias múltiplas de R$200 e 3) onde se guardam grandes quantias de dinheiro em malas dentro de apartamentos, ou em valises carregadas às pressas de dentro de pizzarias, ou ainda sacadas do caixa de lojas de chocolate.

Mas a justificativa parecia fazer sentido: o auxílio emergencial havia injetado bilhões de reais na economia, e os beneficiários precisavam sacar o dinheiro. Assim, estavam faltando notas, e é mais barato imprimir R$200 do que R$ 100.

Gustavo Franco desmonta a tese toda neste artigo.

Em primeiro lugar, faz um apanhado geral das práticas internacionais. E, para aqueles que comparam os R$100 (a nossa maior nota) com os US$ 100 (a maior nota americana), ele responde com a comparação entre as rendas per capita. Sim, os nossos R$100, para fins práticos, são equivalentes aos US$ 100 dos EUA. E lá, estão discutindo a eliminação dessa nota, justamente para dificultar o crime. Tente você usar uma nota de US$ 100 no dia a dia nos EUA. É muito difícil. Aqui, o uso dos R$100 também é difícil (já foi mais), imagine usar a nota de R$200.

Neste ponto, Franco faz uma comparação certeira: o que é mais difícil, usar os R$200 em dinheiro vivo ou dentro de um aplicativo do celular? Ah, mas o povo não tem celular. Bem, esse povo que não tem dinheiro nem para comprar um celular vai ter a mesma dificuldade de usar os R$200 no comércio.

Pra surpresa de ninguém, estamos indo na contramão do mundo. Enquanto se eliminam cédulas maiores para dificultar a vida do crime e se estimulam os meios de pagamento eletrônicos, aqui vamos produzir uma nota de maior valor. O lobo-guará está em extinção, mas deve haver meios mais inteligentes de mantê-lo circulando por aí.

Todo mundo depende do Estado

45% da população está recebendo algum auxílio do Estado. Quarenta e cinco por cento!

É muito? É muito.

Mas, e se eu te disser que é muito mais que isso? É muito mais que isso.

Nesses 45% não estão computados todos os aposentados que recebem de um INSS quebrado, que precisa de dinheiro do governo para pagar as aposentadorias.

Nesses 45% não estão computados os empregos mantidos por empresas que sobrevivem somente porque recebem subsídios do governo, como as da Zona Franca de Manaus.

Nesses 45% não estão computados todas as famílias que têm filhos estudando em universidades públicas.

Nesses 45% não estão computados todos os que se beneficiam de deduções no imposto de renda.

Nesses 45% não estão computados todos os que, de alguma maneira, recebem subsídios do governo para exercerem suas atividades profissionais, como os PJs que na verdade são PFs e as empresas do Simples.

Nesses 45% não estão computados todos os funcionários do Estado, ativos e inativos, que são legião.

Etc.

Enfim, será difícil encontrar alguém nesse Brasilzão que não tenha algum auxílio vindo do Estado. O Bolsa Família atual custa R$34 bilhões/ano, e consta que o novo Renda Brasil vai custar algo próximo de R$50 bilhões. Isso em um orçamento de R$3.250 bilhões. Os outros R$3,2 trilhões vão para todos os brasileiros, os que recebem Bolsa Família e também os que não recebem. Qual a fatia de um e de outro? Talvez uma reforma do Estado que visasse a diminuição da desigualdade devesse começar por essa pergunta.

O “amor” ao povo

O PSTU defende a reestatização da Embraer “como única saída para a sobrevivência da empresa”. Que o PSTU (e todos os seus irmãos de armas, PSOL, PCdoB, etc) defendem a estatização de todas as empresas não é novidade. O interessante, no caso, é o reconhecimento de que a empresa não tem como sobreviver a não ser tendo o Estado como acionista majoritário.

Hoje, isso é uma verdade. A união com a Boeing, que seria a forma mais eficiente de manter a competitividade da empresa em jatos de médio porte ao longo dos próximos anos, fez água. A pandemia selou o caixão. A Embraer que sobra é muito menor que a empresa de antes. Daí o PDV.

Debaixo do Estado, no entanto, a coisa muda. Todos os sonhos são possíveis. Inclusive porque a capitalização de estatais não está submetida ao teto de gastos. No ano passado, Bolsonaro capitalizou a Engeprom para fabricar os brinquedinhos da Marinha. Por que não capitalizar a Embraer para fabricar os brinquedinhos da Aeronáutica?

O que fica claro nessa história é que PSTU e seus irmãos querem que o Estado brasileiro subsidie empregos altamente qualificados com os impostos pagos pelos desdentados. De maneira geral, esses partidos defendem os empregados do Estado com unhas e dentes, empregados estes que recebem muito acima da média de renda do “povo” que veementemente dizem defender.

Esses partidos gostam não do povo, mas da máquina do Estado.

Falta oposição

Destaco editorial do Estadão e duas notícias no mesmo jornal na página seguinte.

No editorial, o jornal pede candidamente que a oposição “se apresente”. Selecionei apenas o primeiro e o último parágrafos, que resumem a ideia. A angústia do editorialista é que, por mais que Bolsonaro não preencha o figurino do líder de que a nação precisa, não surge uma alternativa viável na oposição.

O diagnóstico do editorial está correto: é preciso um líder que “dialogue de verdade com a população”. Pois é. Para haver algum diálogo, é necessário que o interlocutor esteja disposto a ouvir. Não parece ser o caso da oposição a Bolsonaro.

Articular uma mensagem minimamente inteligível supõe não brigar com a realidade. Aqueles que poderiam ser a tal “oposição que se apresenta” fazem vista grossa para articulações no Congresso para burlar a Constituição (no caso da reeleição para as presidências das casas) e para a cada vez mais próxima suspeição de Moro no condenação de Lula.

Peguei esses dois casos particulares porque são notícia hoje, mas poderia fazer uma capivara muito mais longa com fatos que se acumulam e que justificam a eleição de Bolsonaro. Podemos dizer que as “instituições brasileiras” se esforçam para se auto dinamitarem. Bolsonaro é apenas o cara que dá risada quando tudo explode.

Concordo com o editorial do Estadão: a oposição precisa encontrar um discurso. Desde que esse discurso não colida com a realidade.