Ilegais maltratados

Reportagem de capa sobre o perrengue que brasileiros ilegais estão passando nas prisões americanas. São tratados como bichos, segundo a reportagem.

A matéria entrevista uma goiana, que tentou entrar nos EUA para fugir de seu ex-marido, muito violento. A polícia de Goiânia não seria confiável, segundo ela.

A repórter não perguntou porque ela não tentou se mudar para outra cidade do país, ou mesmo para outro país da América do Sul, como Peru ou Bolívia, onde estaria a salvo do ex-marido violento e da polícia de Goiânia. Ficamos sem saber.

Como os lobbies funcionam

Já escrevi aqui sobre a proposta da Aneel de diminuição do subsídio cruzado para a auto-produção de energia solar. O problema surge a partir do momento em que esse tipo de geração de energia cresce bem acima do previsto, e começa a pesar sobre a conta de luz de quem não tem geração solar, inclusive os mais pobres, que não têm dinheiro para instalar células foto-voltaicas.

Óbvio que as empresas de geração de energia solar estão estrilando. Aí, surge no Valor um artigo de um “PhD de Chicago, professor da Universidade da Califórnia”, com “dezenas de artigos sobre políticas públicas”.

Dada a pobreza de argumentos do artigo, muitas vezes descambando para o tom panfletário, fui atrás dos tais artigos. O especialista tem vários papers sim, mas sobre efeitos de políticas educacionais. Nada que sugira algum conhecimento específico sobre o sistema elétrico. Aí me pergunto: o que faz um professor com vida acadêmica toda lá fora, dedicada a uma área específica, gastar o seu precioso tempo a escrever um artigo sobre área completamente estranha ao seu trabalho? Deixo a busca dessa resposta aos jornalistas investigativos que possam estar lendo este post.

Meu ponto é o seguinte: temos tanta reverência pelos títulos, que acabamos não discutindo o mérito das questões. Foi um PhD por Chicago e professor em universidade gringa que falou? Então ele deve estar certo. Pouco importa o extenso e minucioso trabalho que a Aneel fez sobre o problema. Convido a todos que se interessarem pelo tema a darem uma olhada no catatau produzido pela Aneel para subsidiar as discussões (https://www.aneel.gov.br/…/769daa1c-51af-65e8-e4cf…).

O ponto continua sendo o mesmo: o subsídio da energia solar é pago por todos os consumidores, embutido na conta de luz. Sim, isso é uma política pública, e pode se decidir que continuará sendo assim mesmo. Mas depois, que não se venha reclamar do valor da conta de luz.

Patriotismo

Fico emocionado ao saber que os convidados do casamento da deputada Carla Zambelli cantaram o hino nacional à capela. Um patriotismo tocante.

Mas Carla Zambelli é aquela deputada que deu um bypass em um dos vestibulares mais concorridos do Brasil, e cavou uma vaguinha para o seu filho no Colégio Militar de Brasília. Nada como ter as conexões certas.

Atingiremos um outro patamar civilizatório quando ao patriotismo se unir a noção ética de que não se deve furar a fila.

A benção do Papa

O papa é o representante de Cristo na Terra, o chefe da Igreja Católica, o líder dos católicos. Como tal, deve receber todos os que o buscam. Todos.

Isso é em tese. Como qualquer ser humano, o Papa tem uma agenda limitada. Mesmo que quisesse receber a todos, por razões práticas não conseguiria. Portanto, deve haver uma seleção de quem será recebido.

A agenda pessoal do papa é problema dele. Ele recebe quem quiser. E resolveu receber Lula, em uma “agenda privada”. Ou seja, não como representante de um Estado ou da Igreja. Até aí, tudo bem, o papa tem total discricionariedade sobre os visitantes que recebe.

Isso é uma coisa. Outra coisa é posar para fotos diante do fotógrafo oficial de Lula, Ricardo Stuckert, levado a tiracolo para a audiência papal. Lula foi ao Vaticano em mais um capítulo de sua operação “lava-reputação”. E, sem fotos, teria sido o mesmo que não ter ido. E não foram fotos quaisquer. Ricardo Stuckert é um craque.

Sim, o papa tira fotos ao lado de chefes de Estado quando os recebe. Faz parte do protocolo. Trata-se de um registro oficial. Mas o papa não é (ou pelo menos não deveria ser) ingênuo a ponto de desconhecer o objetivo dessa foto. Não se trata de uma foto protocolar. Ao tomar parte de uma pantomima partidária, o papa assume o risco de afastar da Igreja quem não comunga das mesmas ideias.

Novamente: o papa pode e deve receber quem quiser no Vaticano. Mas tirar uma foto que tem uma inegável conotação política e partidária rebaixa o papel do representante de Cristo.

O poder é efêmero

Em março do ano passado, estava eu ciceroneando dois investidores japoneses em Brasília, que vêm anualmente para verificar in loco se o país onde eles investiram seu dinheiro ainda existe.

O foco, na época, era a Reforma da Previdência, e todas as conversas com pessoas do Tesouro, do BC e políticos giravam em torno do tema. Estávamos nós fazendo um tour pela Câmara quando notamos uma aglomeração de jornalistas. Perguntei o que era aquilo, e fui informado de que estavam esperando o fim de uma reunião no gabinete da liderança do governo na Casa, em que finalmente seria indicado o presidente da CCJ que iria iniciar a tramitação da reforma da Previdência. De repente o burburinho aumentou, o que indicava fumaça branca. Saem lá de dentro Joice Hasselmann e Onyx Lorenzzoni para dar a notícia: habemus presidente! Uma esfuziante Joice e um compenetrado Onyx anunciavam com pompa e circunstância o nome de Filipe Franceschini para a tarefa. Notava-se que estavam embevecidos pelo papel de destaque na política nacional, com todos aqueles holofotes sobre suas pessoas.

Lembrei-me dessa cena ao saber que Onyx não faz mais parte do primeiro time do governo. Há menos de um ano, ele e Joice davam as cartas. Menos de um ano depois, são uma sombra do que foram.

O poder, em qualquer esfera, é efêmero.

O que é importante e o que é urgente

A reforma administrativa não é urgente, vai causar desgaste e não trará frutos imediatos. Este é o raciocínio do governo para abandonar a 2a mais importante reforma do Estado brasileiro, depois da reforma da previdência. 2a. mais importante porque o gasto com o funcionalismo é o 2o maior item do orçamento, depois da previdência.

Sem dúvida, mais urgentes são outras PECs, que servirão para apagar incêndios, como a PEC emergencial. Mas dizer que a reforma administrativa não terá efeitos no curto prazo é não conhecer os mecanismos da economia.

Os agentes econômicos trabalham com base em expectativas. Não precisa o país quebrar hoje. Apenas a expectativa de que vai quebrar no futuro basta para as coisas irem para o vinagre. O inverso também é verdadeiro: não é necessário que uma reforma ajuste as contas hoje. Basta que se crie a expectativa de que as contas estarão equilibradas no futuro. É justamente este papel que a joga a reforma administrativa.

Uma reforma como a administrativa, que não mexe em direitos adquiridos, nunca terá efeito no curto prazo. Com esse raciocínio do governo, nunca será feita. E todos os governos terão que suar a camisa para aprovar “PECs emergenciais” para mitigarem os problemas gerados por reformas definitivas que nunca são feitas porque “não trazem resultados de curto prazo”.

Desse jeito não vamos nada bem.