Corporativismo

Especialistas. Fontes. Interlocutores.

São essas pessoas sem cara que ficam soltando notinhas na imprensa para inviabilizar o encolhimento do BNDES.

A nova agora é que o dinheiro da venda das ações da carteira do BNDES não pode ser devolvido ao Tesouro. Somente “dinheiro em Tesouraria”, originado de “empréstimos vencidos” é que poderiam ser devolvidos. Algum artigo da LRF impediria essa devolução. Não ocorreu ao jornalista que escreveu a matéria perguntar qual seria esse artigo.

Ora, as ações estão lá como fruto de investimentos feitos pelo banco, assim como os empréstimos. Por que cargas d’água, uma vez vendidas, os recursos arrecadados não poderiam ser devolvidos ao Tesouro? Se isso for verdade, teremos uma situação surreal: R$ 100 bilhões carimbados, que não podem ser usados para mais nada, a não ser comprar novas ações.

Enfim, o corpo técnico do BNDES estrebucha, diante da perspectiva de encolhimento do banco. O Brasil é mesmo refém das corporações.

Jornalismo de fancaria

“Para a plateia de investidores que pagaram a partir de 1.500 reais pelo ingresso, os aplausos a Moro se justificam pelo bom momento do mercado acionário. Investidores têm preferido ignorar a onda de denúncias contra o ministro da Justiça e o constrangimento político causado por elas e focar a reforma da Previdência.”

Esta é a essência da reportagem da Exame sobre a participação do ministro da Justiça no evento da XP.

Segundo a Exame, ninguém ali estaria aplaudindo porque acha que Moro fez um bom trabalho, colocando um bando de bandidos na cadeia. Não. O pessoal está mesmo interessado é nos lucros da bolsa e, por isso, “prefere ignorar” a “onda de denúncias”.

“Preferir ignorar” significa ter consciência de que há algo muito errado mas, mesmo assim, deixar para lá, pois os lucros da bolsa são mais importantes. Com essa frase, a Exame sugere que os investidores são coniventes com um crime, pois “preferem” ignorá-lo, mesmo supostamente sabendo que existe.

“Onda de denúncias” é aquela frase que dá a sensação de que são muitas pessoas denunciando muitas coisas, como foi o caso, por exemplo, do Petrolão. Quando, na verdade, tem-se um jornalista comprometido com uma causa, que está usando material de origem duvidosa para denunciar uma coisa só: a suposta parcialidade de Moro. Não há onda nenhuma, há canalhice a conta-gotas.

Exame vai bem desse jeito. A julgar por essa reportagem e pelo uso de fontes duvidosas pela Veja, os novos donos da Abril vão ter trabalho para reconstruir o jornalismo por aquelas bandas.

Como você enfrentaria Bonnie & Clyde?

Atenção, contém spoilers!

No fim de semana passado, assisti Estrada Sem Lei, novo filme na Netflix. Conta a história de dois policiais aposentados (Kevin Costner e Woody Harrelson) que finalmente conseguem pegar o casal de assaltantes e assassinos Bonnie & Clyde.

Os dois policiais usam métodos, digamos, pouco ortodoxos: entram em jurisdições para as quais não têm mandato, invadem propriedades sem ordem judicial e por aí vai.

Em determinado momento, o personagem de Harrelson descreve como o personagem de Costner mata a sangue frio, em uma emboscada, um bando de assassinos ainda dormindo, pois estes se recusavam a se render. Aquilo claramente não fazia parte do código de ética da polícia, mas parecia ser a única forma de livrar os povoados daqueles bandidos.

A morte de Bonnie & Clyde se dá mais ou menos da mesma forma: uma emboscada, e tiros suficientes para matar um batalhão. O casal de bandidos já havia matado vários policiais a sangue frio, e o personagem de Costner sabia que era ele ou eles. De fato, o carro do casal estava cheio de armas, prontas a serem usadas.

Esta situação me remeteu à Lava-Jato. Um juiz e procuradores à caça de bandidos que não hesitam em usar todas as armas para fugir do longo braço da lei. Usaram métodos pouco ortodoxos? Talvez, há uma discussão a respeito. Mas a escolha está entre usar métodos pouco ortodoxos ou deixar os bandidos à solta, livres para continuar cometendo seus crimes.

Alguns dizem apoiar a Lava-Jato, elogiam os seus resultados, mas reprovam alguns de seus métodos. Não lhes ocorre que a Lava-Jato é uma coisa só, não dá pra separar os seus resultados de seus métodos. Para alguns tipos de bandidos, primeiro se “passa a bala”, depois se diz “mãos ao alto”. É isso, ou é se conformar em permitir esses bandidos soltos. Não há meio termo.

Não estou aqui dizendo que a Lava-Jato tenha usado ou não métodos pouco ortodoxos. Eu, sinceramente, não tenho condições técnicas para avaliar isso. A única coisa sobre a qual tenho certeza é que os bandidos que estavam sendo perseguidos eram dos mais ardilosos do país, e não seria com salamaleques que seriam presos.

Obviamente não se trata de uma discussão fácil, com uma solução preto no branco. São muitas nuances, mas colocar o juiz e os procuradores como bandidos e os bandidos no lugar de vítimas certamente não é uma delas. O que se discute é se se pode infringir as regras com o objetivo de fazer justiça em determinados casos, uma vez que o sistema judiciário brasileiro é feito de modo a não se conseguir condenar quem pode pagar bons advogados.

O filme mostra que Bonnie & Clyde eram adorados pela população, que os consideravam justiceiros contra os exploradores. Houve verdadeira comoção quando foram mortos, milhares de pessoas compareceram aos seus enterros. Sim, a vida imita a arte.

O que importa é soltar Lula

Não se enganem: esses grampos nos telefones de procuradores e todo esse estardalhaço em torno dos diálogos revelados só está acontecendo porque Lula, o Messias Brasileiro, o Guia dos Povos, a Salvação dos Pobres, está preso. Lula estivesse solto, nada disso estaria acontecendo, mesmo com dezenas de empresários e políticos presos.

O que importa, de verdade, é soltar Lula, o resto é detalhe irrelevante.

Escolas públicas vs. particulares

Tropecei nesse artigo do site Wealth Advisor, dedicado a consultores financeiros dos ricos. O título é “Porque pais ricos estão escolhendo cada vez mais escolas públicas ao invés das privadas”. Nos EUA, claro. Várias informações interessantes:

1) Na média, os professores das escolas privadas ganham US$14 mil/ano a menos que os professores das escolas públicas.

2) Os professores nos EUA ganham, em média, 30% a menos que o trabalhador médio com nível superior.

3) Alunos de escolas públicas obtém notas melhores em exames de aprendizado do que alunos de escolas privadas, quando ajustado pelo nível de renda.

4) Em um estudo recente, alunos de escolas públicas obtiveram notas 7,3% maiores do que alunos de escolas privadas com mesmo nível de renda, e que estavam estudando com bolsa.

O que o autor do artigo recomenda é, ao invés de pagar escolas caras, melhor seria mudar-se para um bairro com boas escolas públicas. Nos EUA, você só pode matricular seus filhos em escolas públicas do bairro de residência.

Não preciso dizer que a realidade brasileira é BEM diferente.

Os investimentos sem o BNDES

– Ain, mas sem o BNDES os investimentos param, o país para…

Em 2015, emissões privadas mais desembolsos totalizaram R$ 281 bilhões, dos quais 59% eram do BNDES. Nos 12 meses encerrados em março último, emissões privadas mais desembolsos somaram R$ 278 bilhões, dos quais apenas 21% eram do BNDES. Ou seja, o montante permaneceu praticamente o mesmo, enquanto a participação do BNDES caiu em 2/3. Houve, como previsto, o fenômeno do “crowd in”, ou seja, a ausência de um funding atraiu outro, com evidentes ganhos fiscais no processo.

Que sentido tem um banco público fornecer dinheiro subsidiado para empresas que podem se financiar no setor privado? Nenhum. É o que mostram esses dados.

Privilégios

A proposta do relator da PEC da Previdência propunha idade mínima de 55 anos para a aposentadoria de policiais, contra 62/65 anos para as outras profissões.

Para os policiais, isto não é o suficiente. Querem outros privilégios. Têm a seu favor o apoio do presidente e do PSL.

Se você não faz parte das Forças Auxiliares de Segurança, a Nova Previdência acaba com os SEUS privilégios.

O meio de transporte dos ricos

Lembro da primeira vez que estive no Japão, e me espantei quando soube que TODOS os funcionários do escritório da minha empresa, do presidente à secretaria, vinham para o trabalho de trem e metrô. Foi um choque cultural.

Um dos meus colegas de lá me perguntou como era o escritório no Brasil, se era bem localizado. Eu, todo orgulhoso, disse que sim, estava na esquina da Faria Lima com a JK, um dos pontos mais valorizados de São Paulo. Ao que ele replicou: “que bom, deve ter uma estação de metrô perto então”. Para ele, boa localização era estar perto de uma estação do metrô. Não, não era esse o caso, e nem existe o sonho de que seja nos próximos 20 anos.

Foi um evento determinante na minha vida. A partir de então, comecei a pensar no transporte coletivo como uma alternativa real de transporte, livrando-me, aos poucos, do preconceito que cerca esse modal. Afinal, a “elite” vai de carro, enquanto o “povão” vai de trem/metrô/ônibus. Mudei para perto do metrô, vendi meu carro, e hoje uso intensamente o transporte coletivo.

Pelo visto, não fui o único. As viagens de carro caíram 43% em São Paulo entre os mais endinheirados nos últimos 10 anos. Aos poucos, o transporte coletivo vai deixando de ser “coisa de pobre”.

Infelizmente, no entanto, o que ocorre é o inverso: o transporte coletivo é “coisa de rico”. Em uma cidade como São Paulo, o transporte coletivo é muito eficiente nas regiões centrais, mais ricas, mas é de uma ineficiência atroz nas periferias. Não à toa, as viagens de carro subiram mais de 70% entre as menores faixas de renda na mesma pesquisa. Ainda estamos muito distantes de sermos uma Tóquio em termos de serviço de trens e metrôs para as regiões mais distantes. Aqui, como em varias outras áreas, o poder público está a anos luz das necessidades dos mais pobres.

Sistema de lealdades

No espetacular livro “Stálin, a corte do czar vermelho”, de Simon Montefiore, o autor descreve à perfeição as intricadas relações de poder em torno do ditador soviético, e como Stálin mantinha em suas mãos os cordões desse poder.

Lealdade era a palavra chave, e sombras de suspeição recaiam sobre pessoas que até ontem eram consideradas pilares do sistema. Na verdade, esse era o modus operandi: não deixar que ninguém se sentisse seguro de sua posição em momento algum, para que todos se desdobrassem em demonstrar sua lealdade ao ditador. Na União Soviética de Stálin, a falta de lealdade se resolvia com uma bala na nuca.

Ao lembrar de Mourão, Bebianno, Santos Cruz e, agora, Heleno, não pude deixar de lembrar desse livro.

PS: não estou aqui, de maneira alguma, querendo dizer que Bolsonaro é semelhante ao ditador soviético. O paralelo refere-se apenas ao sistema de lealdades que se sobrepõe a um sistema institucional de governo.

É de doer

“Enquanto o mundo discute inteligência artificial, Big Data, indústria 4.0, robótica de alta precisão, etc, e procura avaliar qual a melhor forma de o ambiente institucional estimular o progresso, nós, aqui, ficamos lutando para ver que grupo pode aposentar-se com 55 anos, recebendo seus benefícios de um Estado exaurido. É de doer.”

Fábio Giambiagi, hoje, no Estadão. Leiam, por favor.