Generalização

Gilmar Mendes,: “O que se viu foi a generalização dessa prática”.

Que sentido tem essa frase? Será que a prisão após condenação em 2a instância havia sido permitida pelo STF como exceção, e Gilmar Mendes lamenta que tenha se tornado regra?

Cabe lembrar que Gilmar era um dos mais vocais defensores da prisão após a 2a instância. Virou garantista após a Lava-Jato.

Drogas

A foto de pai e filha afogados causa comoção no mundo rico.

Pai e filha tentavam fugir para os EUA porque, em seu país, a violência é muito alta.

A violência é muito alta porque o país é dominado por cartéis da droga.

Droga essa que é consumida pelo mundo rico.

Fecha-se o círculo.

Pequenas causas

O Tribunal Superior do Trabalho foi acionado para decidir sobre uma indenização de R$30/mês. Trata-se da lavagem do uniforme de um funcionário de uma empresa do RS.

A Justiça do Trabalho custa aos cofres públicos R$21 bilhões/ano, ou R$210 bilhões em 10 anos, ou 20% da economia que se quer fazer com a reforma da Previdência. Desse total, cerca de 10% (ou R$ 2,1 bilhões/ano) vai para custear o TST e cerca de 5% custeia o TRT do Rio Grande do Sul. Tudo isso para decidir sobre uma causa de R$30/mês.

Algo não está muito certo nisso aí.

Porte de armas

Ate três dias atrás, se algum instituto de pesquisa me abordasse na rua, perguntando minha opinião sobre a posse e o porte de armas, minha resposta teria sido um “tendo a apoiar”. Confesso que tenho mixed feelings a respeito do assunto, mas sou simpático à ideia de que as pessoas têm direito à autodefesa, e que proibir armas não vai impedir o acesso de bandidos a elas.

Isso foi até três dias atrás, quando um colega de trabalho, que se senta do meu lado, recebeu um telefonema da esposa. Ele ficou branco e, ao desligar, contou a história: a esposa dele havia atravessado inadivertidamente um tiroteio na Vila Mariana, um bairro nobre de São Paulo. Uma bala perdida havia penetrado no carro e, pela providência divina, não havia acertado nenhum dos passageiros, a esposa desse meu amigo e os pais dela.

Não tínhamos toda a história naquele momento, e começamos a conversar sobre como a cidade está violenta, etc etc etc. Somente no dia seguinte vim a conhecer a verdadeira história: uma briga por conta de uma negociação de um automóvel encontrou uma “pessoa de bem” de mau humor e armada, e o resultado foram os tiros que feriram dois policiais e quase terminou em tragédia, ceifando a vida de pessoas que passavam por ali sem ter nada a ver com isso.

Continuo tendo mixed feelings a respeito do assunto. Talvez o aumento da segurança geral gerado com o porte de armas mais do que compense o risco de uma tragédia. Mas, se algum instituto de pesquisas me abordasse hoje, minha resposta seria “tendo a não apoiar”. Acho que esse deve ser o sentimento médio do Congresso, razão pela qual Bolsonaro foi obrigado a retirar o decreto sobre armas. É preciso discutir isso aí melhor, talkey?

Infraestrutura

Era abril de 2013. Estava eu acompanhando uma comitiva de japoneses para reuniões em Brasília. Eles estavam muito animados com as perspectivas do Brasil, que iria sediar a Copa do Mundo no ano seguinte e as Olimpíadas em 2016.

Quiseram visitar o estádio Mané Garrincha, que iria ser o palco de abertura da Copa das Confederações dali a dois meses, justamente em um jogo entre Brasil e Japão.

Quando lá chegamos, o cenário era de desolação. A estrutura estava em pé, mas o entorno parecia um cenário de Mad Max. Uns poucos tratores ainda terraplenavam onde já deveria haver calçadas e rampas de acesso. Os japoneses perguntaram, perplexos, se o estádio ficaria pronto a tempo do jogo de abertura. Respondi: tranquilo, no Brasil as coisas ficam prontas dois meses depois do prazo, mas ficam prontas afinal.

Recordei desse episódio quando li a provocação do governador João Doria a respeito do teórico autódromo do Rio. Sim, o autódromo ficará pronto, à moda brasileira. Resta saber se o chefão da F1 vai realmente querer assumir o risco.

As novas políticas do STF

Sim, o STF pode legislar sem receber a pressão dos eleitores, esse detalhe na democracia. Assim, leis mais puras e corretas podem sair das 11 brilhantes mentes que formam nossa egrégia Corte Suprema.

Esse é FHC, a democracia brasileira encarnada.

Um Itaquerão pra chamar de seu

Bolsonaro quer um Itaquerão pra chamar de seu.

Sim, sim, não haverá um real de recursos públicos no investimento de R$ 750 milhões (pra início de conversa) para construir o novo autódromo.

Era o que se prometia também com a construção do Itaquerão e dos outros estádios da Copa.

Mentalidade

Entrevista com a nova guru do pedaço, Kate Raworth, autora do best-seller “Doughtnut Economics – 7 ways to think like a 21st century economist”.

Não li o livro, mas já dá pra ver por onde vão os tiros só lendo a entrevista. As empresas estão dominadas pelo sistema financeiro, que exige crescimento contínuo de lucros a qualquer preço. Mas os jovens já não querem mais isso, querem trabalhar em empresas que “façam algo de bom para o mundo”.

Acho que o que resume a imbecilidade de tudo isso é a pergunta da jornalista (no caso, a Sônia Racy): “o que sugere para que ESSAS PESSOAS mudem?”

O problema estaria nos empresários e financiadores, que são maus por natureza. Não ocorre à entrevistadora que ela também faz parte do sistema. Tudo, desde o carro que dirige (ou o Uber que toma), passando pelo seu iPhone, até a refeição requintada que faz à noite, são produzidos e chegam até ela através de uma cadeia de produção gigantesca, que passa muitas e muitas vezes por empresas que estão buscando o crescimento de seus lucros. E que, não fosse isso, provavelmente estaríamos hoje tendo que sair para caçar toda noite o nosso almoço de amanhã, além de dormir em uma caverna sem banheiro.

Esse pessoal tende a ver as empresas e os empresários, juntamente com o sistema financeiro que os financia, como um bando de abutres, uma classe à parte, não solidária, responsável por tudo de mal que ocorre no mundo. Quando, na verdade, os empresários estão aí apenas para atender os desejos dos consumidores, entre os quais se encontram a jornalista e a economista do século XXI. Os consumidores somos os verdadeiros chefes, aqueles que mandam.

Somente acreditarei na boa intenção de qualquer um que venha a criticar o “capitalismo predatório”, se abrir mão de todas as benesses da civilização tecnológica, que não teriam sido possíveis sem a busca incessante por crescimento de lucros.

Futebol feminino

Confesso que ontem foi a primeira vez que assisti a um jogo de futebol feminino do começo ao fim. Foi um jogo com componentes épicos, o time inferior ameaçando seriamente a superioridade das donas da casa e quase conseguindo um feito histórico.

Mas, desculpem-me, tive dificuldade para assistir e torcer. Porque a dinâmica do jogo é completamente diferente da do futebol masculino, com que estou acostumado desde criança. A falta de explosão muscular e de velocidade fazem com que você fique meio perdido, não sabendo se o lance vai ser perigoso, ou se aquele gol perdido foi por grossura ou porque é assim mesmo, foi o máximo que a atacante conseguiria fazer naquelas circunstâncias.

A seleção da França, em determinados momentos, parecia uma seleção masculina, principalmente aquela ponta direita, extremamente veloz, e que fez gato e sapato da nossa defesa. Foram alguns lampejos, em um jogo que se pareceu mais com o Desafio ao Galo do que com as oitavas de final de uma Copa do Mundo. Com todo respeito.

Lembro de ter assistido certa vez o VT completo da final da Copa de 58, entre Brasil e Suécia. Um futebol que não tem nada a ver com o que se joga hoje: lento, cadenciado, marcação leve. O futebol evoluiu com os anos, tornando-se muito mais intenso. O futebol feminino surgiu há pouco tempo e ainda vai evoluir. Hoje, não tem como competir com o masculino pela atenção dos torcedores.