Superpoderes

Sim, é isso mesmo. Em qualquer democracia, o presidente não pode tudo. O regime onde o presidente detém todos os instrumentos de poder chama-se ditadura. É o regime, por exemplo, da Venezuela, onde o Congresso e o Supremo servem apenas para darem o seu aval aos atos do ditador. Este é o único representante legítimo do povo.

Em democracias representativas, o povo é representado pelo presidente E pelo Congresso. Ouso dizer que este último é o mais importante, haja vista que existem democracias sem presidente (chamam-se parlamentarismo), mas não existem democracias sem um Parlamento.

As agências reguladoras, por outro lado, vão na linha de criar uma burocracia técnica e perene, que implemente políticas de Estado e não do governante de plantão. A agência reguladora mais eficiente é o Banco Central, que tem cumprido a missão de manter a inflação baixa quando não sofre interferência do governo.

Há aqui uma discussão pertinente sobre até que ponto existem decisões puramente técnicas, a verdade acima de todas as paixões. Aqueles que são céticos sobre a existência desta verdade advogam que as agências reguladoras atuam de acordo com uma agenda política própria, alheia àquela decidida pelos eleitores. Seria a tal “ditadura da burocracia”. Lula e o PT tinham essa visão e, por isso, enfraqueceram as agências. Bolsonaro, aparentemente, segue na mesma linha.

Àqueles que me perguntam qual é o melhor regime político, eu sempre respondo que é a ditadura em que o ditador concorda 100% comigo. Na falta deste, o menos pior é a democracia, onde não corro o risco de ter um ditador que discorda 100% de mim.

Vendendo o almoço para pagar a janta

A proposta do nobre deputado é equivalente a sugerir que uma família que vive acima de suas posses venda os seus imóveis para pagar a conta do supermercado. Você até sobrevive, mas daqui a poucos anos o problema reaparecerá ainda pior.

Não há atalhos para as famílias, empresas ou países que gastam mais do que ganham.

Amigo do peito

Mais de R$ 1 bilhão roubados pelo amigão do peito de Gilmar Mendes, segundo a coluna da Sônia Racy de hoje.

Não se pode mais colocar a mão no fogo pelos amigos hoje em dia.

Matemática é difícil, mas fundamental

Que falta fazem conhecimentos básicos de matemática para o exercício do jornalismo…

Reportagem do Estado hoje repercute “estudo” da Confederação Nacional do Comércio. Segundo o “estudo” (assim, entre aspas, porque não passa de peça de propaganda), os juros básicos caíram 54% desde outubro de 2016 (de 14,25% para 6,50%), enquanto os juros para o consumidor teriam caído apenas 26% no mesmo período, de 43,0% para 31,7%. Daí o jênyo que fez o estudo faz a conta: se os juros ao consumidor tivessem também recuado 54%, teriam sobrado R$40 bi adicionais no bolso do consumidor!

Onde está o equívoco?

A taxa de juros cobrada dos consumidores é formada basicamente de 5 partes: taxa básica, impostos, inadimplência, custos administrativos e lucro dos bancos. Ora, para que a taxa de juros ao consumidor tivesse caído 54%, seria necessário que TODOS os 5 componentes tivessem redução de 54%, não apenas a taxa Selic. Não me consta que os impostos tenham caído nesse período. Custos, inadimplência e lucros podem ter caído um pouco, mas longe, muito longe, dos 54% da queda da Selic.

A conta correta se faz pelos pontos percentuais. A Selic caiu 7,75 pontos percentuais, enquanto os juros ao consumidor caíram 11,3 pontos percentuais. Ou seja, não só a queda da Selic foi integralmente repassada, como outros custos também caíram, no montante de 3,55 pontos percentuais.

A Selic é apenas um dos componentes da taxa de juros ao consumidor. Querem mais redução? É preciso atuar nos outros 4 componentes: diminuição de impostos, de encargos trabalhistas, melhora na execução de garantias e fomento ao aumento da concorrência no setor bancário são as iniciativas que atuarão sobre os outros componentes da taxa de juros.

No finalzinho da reportagem, a Febraban é ouvida, e diz que o estudo está errado. Seguindo o manual do bom jornalista, o autor da matéria foi ouvir “o outro lado”. Como se matemática tivesse dois lados.

Por que Marta ganha menos?

Fui ler a reportagem, curioso para saber a reposta dada para a questão que é título da matéria: “Por que Marta não tem patrocínio e ganha menos de 1% do salário de Neymar?“

Já escrevi sobre isto aqui. O diagnóstico parece simples: tem muito mais consumidor que assiste futebol masculino do que futebol feminino. Minha esperança é de que a reportagem trouxesse alguma evidência em contrário, para que eu pudesse enriquecer meu ponto de vista.

Saí frustrado. Fui lendo, lendo, e a única frase que tenta refutar a tese é de uma “especialista” em questões de gênero no trabalho: “As jogadoras ganham menos porque, por acaso, participam de um mercado que gera remuneração menor ou é o mercado que paga menos porque se trata de mulheres? A primeira opção, da lei de mercado, é a argumentação mais comum (para defender salários menores para elas). Mas essa é uma visão muito míope”.

Sim, é isso. A “visão” de que você recebe proporcionalmente ao lucro que você gera seria muito “míope”. Procurei em vão alguma visão alternativa no restante da reportagem. A única oferecida é de que as mulheres recebem menos por serem… mulheres. Bem, assim é se assim lhe parece. Entre os 10 tenistas mais bem pagos do mundo, 4 são mulheres. Por algum mistério ainda não explicado, o preconceito atingiria as futebolistas, mas não as tenistas.

Outro “especialista” sugere a adoção de cotas de transmissão nas TVs. Pode ser que funcione. Sugiro também a adoção de cotas de transmissão de outros esportes, como basquete, volei, curly e críquet. Afinal, não são só as mulheres futebolistas que sofrem com o monopólio do futebol masculino. Quem sabe com mais transmissão, esses esportes também não se tornem mais populares. O duro é saber como as emissoras vão sobreviver com tanta cota.

Sem dúvida, o futebol feminino está muito para trás em termos de desenvolvimento mercadológico em relação ao masculino. Há um longo caminho a percorrer. Entretanto, exigir pagamentos iguais antes de percorrer este caminho é colocar o carro adiante dos bois. Primeiro vem a popularização. Depois vem o dinheiro.

Quem manda está em Curitiba

O PT paulista enfrenta uma difícil decisão: quem será o candidato do partido na eleição para a prefeitura de São Paulo?

Carlos Zarattini, Paulo Teixeira e Jilmar Tatto formam as opções caseiras. Aloísio Mercadante é opção de nome nacional. Ana Estela Haddad ou outros nomes não políticos, da “sociedade civil”, também são opções. E até apoiar nomes de outros partidos, como Guilherme Boulos ou Marcio França, faz parte do cardápio.

Mas, assim como no PCC, a decisão final sai de dentro da cadeia.

Libra, a nova moeda do Facebook

A moeda do Facebook, que receberá o nome de Libra, começará a circular a partir do ano que vem.

Em princípio, nada demais. Trata-se de uma unidade de conta que poderá ser usada para adquirir produtos no ambiente virtual. Funciona mais ou menos como o dinheiro das festas juninas: você vai no caixa, troca seus reais pelo “dinheiro de festa junina” e, com esse “dinheiro”, compra a comida e os jogos na festa. A “moeda” só vale dentro daquele ambiente.

O desafio começa a surgir no estabelecimento da taxa de câmbio. Na festa junina, não tem dúvida: cada unidade da “moeda de festa junina” vale R$1,00. Sempre, por definição. Por outro lado, quantos reais (ou dólares, ou euros) valerá uma libra?

Em princípio, para não dar margem a arbitragens, cada libra deve valer o equivalente ao lastro que lhe deu origem. Ao contrário do Bitcoin, que não tem lastro, é um dinheiro criado “do nada” pelos mineradores, as Libras serão criadas em troca de dinheiro de verdade, moedas nacionais. Assim, digamos, por hipótese, que 100% das libras tenham sido criadas com o aporte de dólares. Ou seja, 100% das pessoas que foram no guichê do Facebook para comprar Libras, o fizeram com dólares. Neste caso, cada Libra vale US$1,00, com o FB funcionando como uma grande festa junina, em que os dólares são substituídos por Libras.

Mas, obviamente, o lastro não será formado somente por dólares. Haverá outras moedas, provavelmente em proporção à sua importância nas transações globais. Dólares e Euros deverão dominar, seguidos por ienes, libras esterlinas, francos suíços e iuans. A taxa de câmbio para Libras, portanto, deverá ser formada pela composição dessas moedas no lastro da Libra.

Mas isso só vai acontecer se houver ampla publicidade da cesta de moedas que forma o lastro da Libra. Caso contrário, estará aberta a possibilidade de arbitragens com alto potencial de lucro para quem possuir essa informação (o Facebook e o seu consórcio), comprando a cesta de moedas e vendendo Libras, ou vice-versa, a depender da distorção criada.

Por enquanto é isso. Como toda tecnologia, a Libra pode criar vida própria, assumindo papéis e facilitando processos que hoje não conseguimos visualizar, a ponto de substituir com vantagens as moedas nacionais. Quando a Internet foi criada, não passava de uma forma de comunicação interna dentro das universidades. Os seus criadores não imaginavam o seu potencial. Hoje, da mesma forma, a Libra não passa de “dinheiro de festa junina”. Mas o seu potencial ainda é desconhecido.