Caos no aeroporto

Ontem foi minha vez de enfrentar o caos de Congonhas. O prefeito Bruno Covas conseguiu piorar algo que já era muito ruim.

Mas o culpado último pelo caos deve ser buscado lá atrás, bem mais lá atrás.

Congonhas é um aeroporto acanhado, que está longe de poder suportar o 2o maior tráfego aéreo do Brasil, perdendo somente para Cumbica. Simplesmente não há espaço para todos os passageiros que embarcam e desembarcam todos os dias. Somente um transporte de massas bem estruturado poderia resolver o problema.

Chegamos então no culpado-mor pelo caos, um outro tucano de alta plumagem, que prometeu o monotrilho da linha ouro para a Copa do Mundo. Não de 2018, a de 2014. Este monotrilho um dia ligará Congonhas ao sistema de metrô. Um dia.

Se o autointitulado “gestor” tivesse atrasado a obra em “somente” 4 anos, hoje não estaríamos imprecando contra seu filhote político. Prefeito Bruno Covas, quando você perder a próxima eleição, já sabe de quem é parte da culpa.

Uma hipótese de probabilidade zero

A pergunta abaixo foi feita para o economista Hélio Zylberstajn, professor da FEA e especialista em previdência.

A resposta quer dizer mais ou menos a seguinte: a hipótese de não aprovação da reforma é tão catastrófica que não pode acontecer. Não vou ficar aqui discutindo um evento de probabilidade zero.

O mercado financeiro hoje tem como favas contadas a aprovação da reforma. A discussão se trava no nível da desidratação. As múltiplas trapalhadas do governo (entre as quais a reforma dos militares foi apenas mais uma) e a queda abrupta de sua popularidade são tratadas no melhor estilo “self-denial”.

Reformar o sistema previdenciário, que representa 45% de todos os gastos do governo, requer um fôlego e tirocínio político que é para poucos. FHC não conseguiu aprovar a idade mínima, Lula mexeu apenas na previdência do funcionalismo, Temer não conseguiu levar a reforma à votação. Isso para citar os últimos três políticos de verdade que ocuparam a cadeira presidencial.

Hoje temos Bolsonaro. E a reforma mais ambiciosa da história será aprovada por gravidade. Assim é se assim lhe parece.

Patetice

Talvez a genialidade política de Bolsonaro seja tão genial, que os pobres mortais não a estejamos alcançando.

Ou talvez Bolsonaro seja apenas um pateta.

Saberemos dentro de poucos meses.

Os militares e as abelhas

No desenho animado “Bee Movie”, um grande momento na vida das abelhas acontece quando elas ficam conhecendo a atividade a que se dedicarão pelo resto de suas vidas. O filme é engraçadinho, com o protagonista se rebelando contra seu destino de abelha-operária e metendo-se a ser abelha coletora de pólen.

Os seres humanos não somos abelhas. Não nascemos com uma ocupação predestinada. Temos o livre-arbítrio para escolhermos o que queremos ser, dentro de nossas circunstâncias históricas e pessoais. Não significa que possamos ser qualquer coisa, mas dentro de um campo de escolhas, temos várias possibilidades.

Lembrei-me deste filme a respeito da reforma da previdência dos militares. A classe defende que é “diferente”, que não possui uma série de “privilégios” de outras categorias e que, portanto, teria direito a privilégios em suas aposentadorias.

Ora, não somos abelhas. Ninguém obriga ninguém a ser militar. A pessoa decide ser militar por sua livre e espontânea vontade. Com tudo o que significa a carreira militar, incluindo “não ter FGTS” e “ficar 100% do tempo disponível”.

Não vou aqui entrar no mérito de que o FGTS é um seguro para quem pode ser demitido e ficar 100% do tempo disponível não é uma exclusividade dos militares (médicos, advogados e executivos de empresas que o digam). Meu ponto é outro.

Se os militares argumentassem com uma eventual dificuldade de atrair novos soldados para a carreira militar, aí sim estaríamos tratando de um problema econômico. Neste caso, a carreira militar estaria precisando ficar mais atraente para equilibrar demanda e oferta. Mas não parece ser este o caso. Há, pelo que tudo indica, excesso de contingente. A carreira militar precisaria ser MENOS atraente e não MAIS. O Estado brasileiro poderia gastar menos com seus militares e mais, por exemplo, com equipamentos militares.

Ao tratar a reestruturação da carreira e a sua reforma mais branda de suas aposentadorias como uma questão de “justiça”, os militares entram em um terreno pantanoso. O que é “justiça” neste caso? Quantas outras categorias poderiam (e efetivamente deverão) alegar “injustiças” para requerer a manutenção ou aumento de seus privilégios? Cada categoria tem as suas peculiaridades, e saberão explora-las no trâmite da reforma. A única abelha que não consegue defender seus “privilégios” é a operária. Por sinal, é a abelha que produz o mel para toda a colmeia.

Inquérito fake

O juiz Marcelo Bretas, em sua decisão de ontem, critica a iniciativa de Toffoli de instaurar inquérito por conta própria.

Em tempo: Bretas passou no concurso público para juiz.

Porque a Abril está falida

Quem é Dilma?

Que relevância tem a sua opinião sobre Bolsonaro?

O que a Exame, uma revista supostamente de negócios, está fazendo repercutindo essa fala?

Este tuíte explica muito do porque a Abril está falida.

Quem perde?

Verdade 1: sem o teto de gastos, a dívida pública tem trajetória explosiva, e será uma questão de tempo para que fique inadministrável.

Verdade 2: com o teto de gastos, sem uma reforma da Previdência, o espaço para outros gastos que não as pensões, assistência social e gastos com pessoal diminuirá ao ponto de desaparecer por volta de 2022.

Verdade 3: sem uma reforma da Previdência, o teto de gastos cai, pois será insustentável politicamente gastar zero em outras rubricas que não Previdência e pessoal.

O corolário das três verdades acima é que o espaço fiscal criado pela reforma da Previdência será usado para gastos em outras rubricas e geração de superávit primário. Nesta ordem.

O que o projeto de reforma da Previdência dos militares fez ontem foi “carimbar” o ganho fiscal dessa parte da reforma com gastos com os próprios militares. Seria como se cada corporação fizesse a conta de sua contribuição para a reforma e exigisse uma contrapartida do mesmo tamanho. Assim, o espaço fiscal ganho já estaria comprometido com a própria corporação. E não tenha dúvida de que isso acontecerá.

Quem perde? Não precisa pensar muito: quem não tem lobby em Brasília. Depois Bolsonaro vai culpar os institutos de pesquisa pela queda nos seus índices de popularidade.