A venda de 100% de companhias aéreas para estrangeiros foi aprovada na Câmara. E não foi uma aprovação qualquer: o texto foi aprovado por maioria constitucional. Com essa maioria, a reforma da Previdência teria sido aprovada.
Essa aprovação por acachapante maioria traz algumas lições:
1. A Câmara vota quando o governo se empenha.
2. A Câmara vota quando a situação chega perto da calamidade. Esse projeto recebeu seu impulso final depois que a Avianca pediu concordata, mostrando a fragilidade das companhias aéreas locais.
3. A Câmara vota pautas liberais (no caso, liberalismo selvagem) quando o governo se empenha e quando a situação chega perto da calamidade.
Esta é uma lição para a reforma da Previdência. A coisa chegou perto da calamidade. Falta o governo se empenhar.
Ricúpero não consegue esconder o seu esgar de nojo ao se referir a “esse pessoal liberal”. O seu asco é tamanho, que mesmo reconhecendo a importância da entrada do Brasil na OCDE, afirma que será muito difícil, pois isso significaria o Congresso aceitar regras mínimas de governança. Ou seja, somos uma República de Bananas irremediável, onde boas regras de governança nunca serão aprovadas.
Não espanta, portanto, que Ricúpero prefira ficar agarrado a regras protecionistas para países pobres. Afinal, se nunca seremos capazes de entrar no tal “clube dos ricos”, melhor permanecer em nosso mundinho.
Coloquei abaixo a análise do Valor de ontem, onde se minimiza a importância das salvaguardas da OMC. Mas, mesmo que fosse algo importante para alguns setores. A entrada na OCDE significa mudanças de regras estruturais da economia, que têm efeito muito mais duradouros sobre crescimento e produtividade.
Ricúpero prefere continuar protegendo setores com forte lobby em Brasília, no melhor tradição do “crony capitalism”. Não é à toa que sente asco dos “liberais”.
Os plantadores de trigo estão preocupados. Afinal, o trigo americano vai entrar no Brasil mais barato.
Na reportagem, não li nenhuma declaração da D. Maria ou do Seu João, que compram pão todos os dias para as suas famílias, e poderão contar com um produto mais barato. Afinal, o que interessa é proteger o produtor, que se lasque o consumidor final.
No filme Minority Report (quem não assistiu, assista, é muito bom!), a polícia conta com 3 jovens que têm o poder de ver a intenção das pessoas. Esses jovens comunicam à polícia um assassinato a ser realizado, e a polícia prende o assassino antes que o crime ocorra.
Claro que a grande questão ética é saber se é legítimo prender um criminoso antes que ocorra o crime de fato. Mas o índice de criminalidade caiu muito, então essa questão ética é deixada de lado em nome do pragmatismo.
Lembrei-me desse filme ao ler essa reportagem sobre um suposto “mentor” do crime de Suzano. Apesar de aparentemente não ter participado do crime, parece claro que teria participado se tivesse tido a oportunidade. Trata-se, tudo indica, de um psicopata. A questão que se coloca: é legítimo prendê-lo antes de qualquer crime? É razoável deixá-lo solto sabendo-se, como os jovens de Minority Report, de suas intenções? Intenção de cometer um crime é já um crime?
As comemorações dos 100 mil pontos do Ibovespa foram generalizadas. Até Bolsonaro entrou na onda!
Mas tem um troço chato chamado inflação. O valor nominal das coisas não quer dizer muito em um país com inflação alta. E o Brasil ainda é um país com inflação acima da média, apesar de ter caído nos últimos tempos. Olhar somente o valor nominal dá a falsa impressão de que se está rico, quando, na verdade, aquele dinheiro já não vale o que valia no passado. O que importa é o que você consegue comprar com o dinheiro, não o que está escrito na nota.
Fiz um gráfico ajustando o Ibovespa pelo IGP-DI, índice de inflação calculado pela FGV. Por que o IGP-DI? Porque é o único índice de inflação mais antigo que o Ibovespa. O índice da bolsa paulista começou a ser calculado em dezembro de 1967 e o IGP-DI em 1944. Assim, é possível corrigir o valor da bolsa desde o início. O resultado está aí abaixo.
O pico histórico da bolsa, corrigido pela inflação, foi em maio/2008: 132 mil pontos. Naquele mês, a S&P elevava o rating do Brasil para “grau de investimento”. Entrávamos no clube dos países sérios. A crise do subprime derrubou a bolsa para quase 60 mil pontos (já corrigido pela inflação), mas recuperamos rapidamente para 122 mil pontos em março/2010. A partir daí, foi só ladeira abaixo, até o impeachment. Desde então, a bolsa mais do que dobrou de valor, até atingir os 100 mil pontos de ontem.
A má notícia é que esses mesmos 100 mil pontos já tinham sido atingidos em abril/2007. Ou seja, quem aplicou dinheiro na bolsa há 12 anos, teve como rendimento apenas a inflação do período. Estamos hoje ainda 30% abaixo do pico histórico. Isso hoje. Porque, a cada ano, a inflação vai tornando esse pico mais distante.
Podemos fazer outras contas. Por exemplo, quem aplicou na bolsa no início do Plano Real, quando o índice estava em 40 mil pontos, teve um rendimento 3,7% ao ano além da inflação. Parece baixo para o nível de risco da bolsa e o nível das taxas de juros.
Tenho uma parte do meu dinheiro em bolsa, para minha aposentadoria. O segredo de investir em bolsa é investir um pouco todo mês, e esquecer o dinheiro lá. Todas essas contas acima consideram apenas um grande investimento em uma determinada data, esperando que seja a tacada da vida. Não é assim que funciona. Ao comprar bolsa todo mês, você vai comprar quando estiver em 130 mil e quando estiver em 40 mil. Sem stress.
Eu realmente gostaria de entender essa frase do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Se alguém tem uma boa explicação, agradeço.
De que forma um país “vende a sua alma” em uma relação de comércio? Isso aqui está parecendo as diatribes dos petistas contra os EUA (lembra da diplomacia “altiva” do Celso Amorim?). Uma bobagem, que agora só troca de alvo.
“Os chineses podem comprar coisas do Brasil, mas não comprar O Brasil”. Esta é outra frase, cunhada pelo próprio presidente, que a rigor não significa porcaria nenhuma.
Parece-me que Bolsonaro se referia a terras e infraestrutura. Como se o risco fosse dos brasileiros e não dos chineses. Não, os chineses não vão pegar as terras e as usinas hidroelétricas, colocar debaixo do braço e ir embora no dia seguinte, deixando os brasileiros no escuro. Na verdade, quem corre risco são os chineses, em terras onde o que está escrito em contrato não vale a tinta gasta, e o histórico de desapropriações forçadas é longo.
Faria bem o governo Bolsonaro ter uma abordagem pragmática em relação ao comércio exterior e ao fluxo internacional de capitais. Como dizia Deng Xiao Ping, o premiê chinês que revolucionou aquele país no final da década de 70 e permitiu que a China se tornasse a 2a maior potência do mundo, “não importa a cor do gato, desde que cace os ratos”.
Entrevista com Muhammad Yunus, o “banqueiro dos pobres”. Fez um negócio na Índia de micro-crédito, sem garantias. Não sei da saúde financeira da empresa, mas suspeito que viva de doações da parte da economia que “dá lucro”.
Aliás, esse é o projeto de Yunus: dois tipos de empresas, aquelas que “dão lucro” e aquelas que têm “preocupação social”. É a velha filantropia, com roupagem revolucionária.
Yunus defende que a máquina capitalista precisa ser concertada, pois é geradora de desigualdades. Propõe em seu lugar “empresas sociais”, que não distribuiriam lucros. Fica a dúvida de quem financiaria essas empresas, se as empresas que “dão lucro” desaparecessem.
As críticas ao capitalismo são fáceis. Suas mazelas estão aí para quem tem olhos para ver. Mas ainda não inventaram uma forma de coordenar a produção de bilhões de itens produzidos ao redor do mundo inteiro de modo a que cheguem às bilhões de pessoas que deles necessitam, gerando mais riqueza do que poderiam sequer imaginar nossos ancestrais cinco ou seis gerações atrás. Um favelado hoje vive mais e melhor do que um nobre da idade média. Isso é fato.
Aliás, essa coisa de “máquina” é bem típico de pessoas com mente totalitária, em que um “planejador central” sabe o que é melhor para todos, e projeta a “máquina” que vai “resolver os problemas”. O capitalismo tem essa vantagem: nasce da livre iniciativa de pessoas, e se adapta ao que as pessoas querem, através do capital de risco, do livre comércio e de um sistema de preços livres.
Desculpem-me se vou ser repetitivo, mas adoro parafrasear este pensamento de Churchill (ele se referia à democracia): o capitalismo é o pior sistema econômico, com exceção de todos os outros.