Governo virtual

Antes da atual performance como autoproclamado presidente da República, Zé de Abreu aventurou-se no mercado de ações.

A diferença é que, na época, a performance da então presidente da República, ao contrário da agora inofensiva performance do ator-presidente, causava gigantescos estragos na economia.

No dia em que Zé de Abreu patrioticamente comprou Petro, a ação valia 10,30. Quando Dilma assumiu o governo, em janeiro de 2011, a Petro valia 26,70. Fez um excelente trabalho para que Zé de Abreu pudesse comprar a ação na baixa.

Mas o autoproclamado presidente errou o timing. Dilma continuava lá. A ação continuou caindo, atingindo 8,20 em abril/2016, quando ocorreu o impeachment. Zé de Abreu perdeu 20% de seu investimento. Mas foi por uma boa causa.

Depois do impeachment, o dublê de presidente deve ter vendido as ações, pois seria uma traição à causa ficar patrocinando governo golpista. Hoje, Petro vale 26,70, o mesmo valor do início do governo Dilma. Vale notar que, após o impeachment, Dilma se apresentava no Twitter como “presidenta legitimamente eleita”. Mais ou menos como Zé de Abreu se apresenta hoje.

Moral da história: governo de esquerda bom é governo virtual. Podem fazer discurso à vontade sem causar estragos.

Mourão pop star

Acho que o Mourão já foi mais entrevistado em dois meses de governo do que Marco Maciel, José Alencar e Michel Temer nos três governos anteriores juntos.

O último congressista enforcado nas tripas do último juíz

Lembram? MG é o Estado que ganhou uma liminar da juíza Rosa Weber para não ter R$75 milhões de seus recursos retidos pela União, pelo risco de descontinuar “serviços essenciais para a população”.

Um desses serviços, como podemos ver, é o pagamento de licenças prêmio para juízes, no valor de R$29 milhões.

Isso aqui só não acaba em uma grande Queda da Bastilha, com o último congressista enforcado nas tripas do último juiz, porque o povo brasileiro é muito cordato.

Por que o otimismo?

Com esse STF não há luz no fim do túnel. Os governadores podem continuar sendo irresponsáveis no trato do dinheiro público, pois sempre haverá um ministro que lhes dê razão. A mensagem é a seguinte: pode fazer dívida e gastar todo o dinheiro que tem e que não tem. No final, o dinheiro aparecerá por obra e graça da caneta mágica de um ministro do STF.

Às vezes me questiono o por quê do atual otimismo do mercado financeiro.

O maior espetáculo de hipocrisia da Terra

Como sabem, a Mangueira foi campeã do Carnaval do Rio, cantando as glórias de Marielle Franco. A distância foi de 0,3 pontos sobre a segunda colocada. Se alguém acredita que é possível distinguir uma escola de outra por 0,3 pontos em 300 possíveis, parabéns. Uma outra hipótese é de que o tema teve influência decisiva na escolha da campeã. É apenas uma hipótese.

Marielle foi eleita com votos da Zona Sul do Rio. Isso não é figura de linguagem, aconteceu assim mesmo: suas maiores votações foram nas zonas 17, 206 e 252, que engloba Gávea, Ipanema, Copacabana, Leblon e Lagoa. Enquanto a vanguarda do proletariado estava elegendo Marielle, o proletariado mesmo estava votando em Crivella. Seria interessante fazer um censo entre os passistas da escola e descobrir quantos votaram em Marielle, ou mesmo no PSOL, o seu partido. Mas para ganhar o Carnaval nada como seguir a agenda da Zona Sul carioca.

O presidente da escola, deputado estadual, está preso em uma investigação sobre corrupção na Assembleia Legislativa. Todo apoio da Escola ao seu presidente. Afinal, o tema foi Marielle, não a corrupção que assola a política do RJ. Como se as duas coisas não estivessem interligadas. É o maior espetáculo (de hipocrisia) da Terra.

O empenho do presidente

Bacana o PR nessa sua cruzada pela moralidade e pelos bons costumes.

Sinto falta desse mesmo “sangue nos olhos” na defesa da reforma da Previdência. O último tuite do PR sobre o assunto foi no dia 20/02, há exatas duas semanas, quando a proposta foi enviada ao Congresso. Desde então, foram 69 tuítes e retuítes, uma média de quase 5 por dia, divididos entre anúncios de obras e agenda cultural e de costumes. Custava ter, sei lá, um tuite por dia sobre o assunto? Sobravam ainda 4 para os temas preferidos do PR.

Aprovar a reforma já é difícil com o engajamento pessoal do presidente, sem isso a coisa fica complicada.

Algum amigo precisa avisar o PR que o governo dele acaba se a reforma da Previdência não for aprovada. Mesmo com a aprovação há ainda muito trabalho a fazer, mas sem a aprovação é game over.

A lama em que nos encontramos

Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor Econômico.

Hoje, Pedro comete uma coluna mais ou menos assim:

– O liberalismo tomou conta do governo brasileiro. E isso é bem-vindo, dado que o Estado brasileiro está falido e não consegue mais cumprir com suas obrigações.

– No entanto, seria bom olhar para o que está acontecendo lá fora: Trump e até a liberal Alemanha estão mudando as regras do jogo e protegendo suas indústrias “estratégicas”.

– Pausa na coluna para a descrição da “experiência” e do “orgulho” de voar em uma aeronave da Embraer na África do Sul. Uma “emoção”.

– Depois de demonstrar, com essa “experiência”, o quanto a Embraer é “estratégica” para o Brasil, o articulista volta a falar da tal “onda antiliberal” no mundo e como o Brasil, com o novo governo, está na contramão.

– Por fim, questiona se este seria o melhor momento para vender as estatais brasileiras. Afinal, se a joia da tecnologia brasileira foi vendida por “míseros” US$ 5 bilhões, quanto valeriam as outras joias?

Vou começar a descascar a partir desse “míseros” na frente dos 5 bi. O editor-executivo do Valor, o maior jornal de finanças do país, não sabe o que é valuation de uma empresa. Trata seus acionistas como um bando de idiotas, que não sabem fazer contas, e estivessem vendendo o “patrimônio brasileiro” a preço de banana. Segundo Cafardo, o Estado brasileiro precisa intervir, impedindo que os acionistas façam essa besteira. Afinal, só o Estado sabe o quanto realmente vale esse “orgulho nacional”.

O final dessa história já sabemos: sem condições de competir no mercado global, em determinado momento a Embraer fecharia fábricas, demitindo milhares de empregados. Clamores se levantariam para que o governo “fizesse alguma coisa” para preservar os empregos e subsídios seriam dados para manter uma empresa zumbi, sem condições de sobrevivência.

Protegemos indústrias ao longo de décadas e os resultados estão aí para quem tem olhos para ver. Queremos fazer o que supostamente estão fazendo agora EUA e Alemanha, sem ter antes colocado as condições para a acumulação de capital físico e humano, coisa abundante nos dois países. O resultado é o crony capitalism, uma corruptela do capitalismo. Aliás, não deixa de ser curioso um editor do Valor elogiando a política de Trump no que ela tem de mais imbecil.

Por fim, de maneira marota, Cafardo dá um salto quântico no artigo, passando para a venda das estatais. O único link possível entre os dois casos, Embraer e estatais, é o seu valor estratégico. Mas o colunista não cita o valor estratégico, mesmo porque é difícil defender que, por exemplo, os Correios tenham algum valor estratégico. Cafardo vai pela linha do valor da venda: a Embraer, joia da tecnologia nacional, foi vendida por míseros 5 bilhões. Seria este o momento de vender as estatais? Como se o Estado brasileiro estivesse nadando em dinheiro e tivesse escolha. E, pior, como se as empresas estatais, continuando nas mãos do Estado, pudessem algum dia valer mais.

A coluna de Pedro Cafardo tem sua utilidade. Quando um editor-executivo do maior jornal de finanças do país comete um artigo desse naipe, tomamos consciência da lama em que nos encontramos.