Olhe o exemplo do Sul

“Não adianta uma proposta que aos olhos apenas de economistas e de alguns políticos é maravilhosa, mas que não passa no Parlamento.”

Essas são palavras de Bolsonaro a respeito da reforma da previdência. Para ele, a “reforma do Temer” não passa.

É bom Bolsonaro dar uma olhada para o nosso vizinho ao sul. Na Argentina, Macri tentou fazer um “ajuste gradual”, e deu no que deu. Agora, está sendo obrigado a fazer um ajuste de verdade, muito mais duro do que seria se tivesse encarado o problema de frente.

Essa ladainha de que não se faz reforma para “agradar o mercado” acaba quando termina a paciência dos credores.

Boa sorte Lula!

Haddad foi Lula para conquistar aquela parte dos brasileiros que acha que o presidiário de Curitiba está sendo injustiçado ou para aquela outra parte para quem tanto faz, todos roubam, mas pelo menos esse faz bolsa família.

Agora, Haddad precisa convencer o restante dos brasileiros (a maioria), que não acham normal ter um presidiário como eminência parda da República, de que ele não é Lula, é Haddad.

Boa sorte Lula! Quer dizer, Haddad!

O cheiro de napalm pela manhã

O cheiro de napalm pela manhã – Folha de SP

O eleitor vota no fanfarrão só para tirar um sarro da cara dos adultos – João Pereira Coutinho

Em 2016, pouco antes da eleição de Donald Trump, dizia-me um colega universitário: “Detesto Trump. Mas, se eu fosse americano, teria votado nele”.

Caí da cadeira. Ou quase. Ele explicou melhor: “Votaria nele só pelo prazer de criar confusão”. Registrei.

A partir daquele dia, nunca mais levei a sério as explicações clássicas para o chamado “populismo”. Sim, a crise econômica tem a sua importância. O desemprego também. E o medo do crime e da imigração irrestrita ajudam a festa.

Mas existe algo de infantil, de inconscientemente infantil, no eleitorado que gosta de votar no fanfarrão só para tirar um sarro da cara dos adultos.

É o momento “Apocalypse Now”, em homenagem ao coronel do filme que amava o cheiro de napalm pela manhã. Há muitos eleitores que votam como votam só para sentir esse cheiro de vitória.

Um simples palpite meu? Longe disso. Li recentemente um estudo publicado no Journal of Social and Political Psychology (ver pormenores técnicos no fim) no qual os pesquisadores avaliaram o impacto do “politicamente correto” na vitória de Trump. Por “politicamente correto”, entenda-se: a imposição de restrições comunicacionais para não ofender grupos, minorias etc.

Os autores concluem que o “politicamente correto” tem um impacto positivo no curto prazo: a “moralização” do discurso faz com que a maioria se adapte às expectativas da sociedade. Exemplo: “Trump? Que horror!” E depois vem a longa lista de vícios do homem (racismo, homofobia, misoginia, mau gosto capilar etc.).

O problema é que o “politicamente correto” tem resultados desastrosos no longo prazo. Isso se deve a uma reação emocional dos eleitores: cansados das restrições impostas pelos sacerdotes do “politicamente correto”, os indivíduos reclamam a sua liberdade e votam no candidato que nunca se submeteu aos ditames da polidez. Mesmo que esse voto seja contrário aos melhores interesses da democracia.

Por outras palavras: Donald Trump não foi eleito apesar dos seus defeitos. Ele foi eleito por causa deles. Quando o presidente americano afirmava, com típica soberba, que podia matar qualquer pessoa na 5ª Avenida e ser eleito na mesma, ele não exagerava.

Aliás, podemos dizer mais: quanto maiores os defeitos, maior o apoio. Isso explica o motivo por que Trump, depois de eleito, não adotou uma postura mais “presidencial”.

Essa metamorfose seria o suicídio de uma carreira triunfal. Seria tão absurdo como Coutinho (o jogador de futebol, não eu) dar um tiro no próprio pé.

Mas não é apenas o “politicamente correto” que leva muitos eleitores a experimentar o cheiro de napalm pela manhã. Desconfio que a “sinalização da virtude” também tem um papel relevante.

A primeira vez que encontrei essa expressão foi num artigo de James Bartholomew para a revista The Spectator, corria 2015. Argumentava o autor que “ser virtuoso” é diferente de mostrar aos outros que somos virtuosos.

Pessoas virtuosas nunca publicitam as suas qualidades. E a virtude, nelas, exerce-se por meio de gestos anônimos e até sacrificiais (cuidar de um familiar doente; alienar uma carreira de sucesso para ajudar os mais pobres etc.).

A “sinalização da virtude” é uma corrupção da verdadeira virtude. É mera exibição de “bons sentimentos” para ganhar aplausos (ou likes).

Para usar a linguagem da economia, a “sinalização da virtude” procura transformar a virtude em “bem posicional” —algo que nos distingue dos demais e que nos traz vantagens (simbólicas, sociais, econômicas etc.).

O problema, argumentava Bartholomew, é que os “bens posicionais” despertam a concorrência e levam os outros a tentar suplantar o que era exclusivo em nós.

Exemplo: aquela estrela milionária de Hollywood não está propriamente aterrorizada com Trump. Mas ela sente necessidade de sinalizar o seu horror pelo presidente, em termos cada vez mais elaborados, para se promover como defensora do “bem”.

Esse moralismo militante, onipresente e sufocante cria a atmosfera perfeita para que o napalm seja jogado na cara do establishment.

Dizem os eruditos que o século 21 será o século dos populismos. Talvez tenham razão. Mas, para explicar o fenômeno, não bastam as teorias habituais.

É preciso mergulhar na psicologia das massas para encontrar um velho ditado: na política, como na vida, há momentos em que é preferível perder um amigo a perder a piada.

P.S.: O estudo citado intitula-se “Donald Trump as a Cultural Revolt Against Perceived Communication Restriction: Priming Political Correctness Norms Causes More Trump Support”, de autoria de Lucian Gideon Conway III, Meredith A. Repkea e Shannon C. Houck (Journal of Social and Political Psychology, 2017, Vol. 5 (1), págs. 244-259)

João Pereira Coutinho Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Em direção ao centro

O 2o turno obriga os candidatos a procurarem acenar para um espectro mais amplo do eleitorado. Isso começou a ficar claro ontem, nas entrevistas de Bolsonaro e Haddad no JN. Tanto um quanto o outro desautorizaram declarações que poderiam colocar em dúvida seus compromissos com as instituições democráticas.

Ao longo da campanha, é provável que Haddad também acene para o centro em questões econômicas, enquanto Bolsonaro deve reafirmar seu compromisso com os mais pobres, que é o eleitorado do PT.

O 2o turno, no mínimo, eleva o preço de um estelionato eleitoral.

No final do dia, é bom que tenhamos um 2o turno. A votação do vencedor será maior do que teve no 1o turno, conferindo-lhe ainda mais legitimidade, além de termos uma plataforma mais “centrista” no final. O candidato vence porque conseguiu atrair mais eleitores fora do seu campo político, o que é bom.

É fácil chegar lá

O FMI estima que a inflação na Venezuela atingirá 10.000.000% em 2019.

O ser humano tem dificuldade de entender números muito grandes. Esse número de 10 milhões obviamente impressiona, mas não fazemos ideia do que realmente significa. Vou procurar explicar.

Dez milhões porcento ao ano significa uma inflação diária (dias corridos, considerando sábados, domingos e feriados) de 3,2%. Para comparação, a inflação brasileira ANUAL está em 4%. Ou seja, em apenas um dia, os preços na Venezuela sobem quase o equivalente ao que sobem os preços no Brasil em um ano.

Uma outra forma de ver a coisa: 10.000.000% de inflação significa que os preços dobram a cada 3 semanas.

Para 2018, o FMI estima a inflação em “apenas” 1.350.000%, ou 2,64% ao dia. Isto significa que os preços dobram a cada mês.

Claro que essas estimativas não significam nada. O sistema de preços deixou de existir na Venezuela. Se em países “normais” já é difícil medir a inflação, imagine nesse caos em que se tornou a república bolivariana.

Muitos podem se perguntar: mas como conseguiram chegar a isso? É mais simples do que parece. Basta seguir a cartilha bolivariana para a economia: usar o balanço do governo e das estatais para induzir crescimento, subsidiar preços, subordinar a política econômica às necessidades políticas do partido.

Se quiser o detalhamento desse roteiro, dá uma olhada no programa de governo do PT. Está tudo explicadinho lá.

O produto mais superfaturado do mercado político

O PSOL foi criado em 2004. As votações do PSOL em eleições nacionais foram as seguintes:

2006: Heloísa Helena 6,85%

2010: Plínio de Arruda Sampaio 0,87%

2014: Luciana Genro 1,55%

2018: Guilherme Boulos 0,58%

Guilherme Boulos deve ser o sujeito mais superfaturado do mercado político brasileiro. Já ouvi dizer que poderia ser o novo Lula. Precisa comer muito feijão com arroz pra chegar no calcanhar do presidiário de Curitiba.

Saldão do 1o dia de campanha no 2o turno

Saldão do 1o dia de campanha no 2o turno:

– Haddad foi a Curitiba, receber novas orientações de seu chefe. Levou uma bronca, porque é claro que não deveria estar ali, aquilo seria visto como um radicalismo, como ele não sabia disso? Foi dispensado de novas visitas, e orientado a “amaciar” alguns pontos do seu Programa de Governo, como uma nova constituinte. Haddad, que estava pouco à vontade em seu figurino radical, vai poder finalmente despir a fantasia e assumir toda a moderação que Deus lhe deu. (Deus não, que ele é ateu. Lula.)

– FHC declarou sua neutralidade. Nada que resista ao Haddad “social-democrata” que se apresentou na entrevista ao JN.

– Bolsonaro recebeu apoios políticos: Ana Amélia, tentando reconstruir suas pontes com o PP do RS, Amazonino Mendes e João Doria, procurando surfar na popularidade do ex-capitão no 2o turno de seus respectivos estados. O caso de Amazonino Mendes é interessante: é do PDT, mesmo partido de Ciro, e no Amazonas a disputa foi muito igual entre Bolsonaro e Haddad. Ou seja, não teria motivo para não apoiar Haddad. No caso de Doria, o amor não foi correspondido: Bolsonaro disse que será neutro na disputa paulista.

– Haddad também recebeu apoio político. De Boulos. […] Não, Haddad ainda não recebeu apoio político.

– Bolsonaro mesmo não fez nada, a não ser a entrevista no JN. Deu um puxão de orelhas ao vivo e em cores no General Mourão por suas declarações desastradas. Só faltou dizer: “Mourão, aprende com a Manu D’Ávila, fica calado no canto aí”.

– Um capoeirista petista foi morto por um maluco bolsonarista. Foi facada. Haddad, provavelmente, já deve estar pensando em um estatuto do desarmamento envolvendo armas brancas.

Os votos de Ciro

Meu professor na academia votou no Ciro.

Hoje, quando cheguei para a aula, me cumprimentou com um “agora é mito”.

Qual a lógica? Ele é anti-petista declarado. Votou no Ciro para tentar tirar Haddad do 2o turno e não precisar escolher entre o ex-capitão e o puppet do presidiário. Não deu certo.

No 2o turno, seu anti-petismo falará mais alto. Assim como de vários de seus amigos que fizeram a mesma coisa, segundo me disse.

Ciro teve 12,5% dos votos válidos. Se 1/3 dos eleitores de Ciro pensarem dessa maneira, Bolsonaro não precisaria dos votos de mais ninguém para se eleger.

Parece meio puxado para um eleitorado como o de Ciro, que não é, em sua maioria, anti-petista. Se fizermos este mesmo raciocínio somente com os eleitores do Sudeste e Sul, essa migração deveria subir para 2/3 somente nessas regiões (e zero nas outras regiões), pois o coronel recebeu metade dos seus votos abaixo da Bahia. Também parece puxado.

De qualquer forma, é uma amostra de como os votos de Bolsonaro no 2o turno não deverão vir apenas dos partidos mais à direita. O anti-petismo fará o serviço.