A verdadeira cor do Novo

O Novo fez uma campanha linda. Elegeu 8 deputados federais, 12 estatuais e Amoêdo chegou em 5o lugar. Acho que teria o dobro de votos não fosse o voto útil.

Mas não vamos nos iludir: o futuro governador de Minas só está nessa posição por conta de seu apoio a Bolsonaro. Se dependesse apenas do Novo, seria mais um Chequer da vida.

Zema foi votar de amarelo, não de laranja. Por isso está no 2o turno.

A vontade do povo

Onde os analistas políticos erraram, e erraram feio? Na crença de que a máquina política era decisiva em uma eleição de um pais-continente, com mais de 100 milhões de eleitores.

Máquina política significa cabos eleitorais trabalhando pelo candidato nos mais longínquos grotões, além de tempo de TV.

A máquina em torno de Geraldo Alckmin era verdadeiramente portentosa. Tão grande, que praticamente dispensaria uma mensagem. Bastaria “jogar parado”, com um discurso de eficiência administrativa e “anti-extremos”, para que a eleição lhe caísse no colo. Assim pensava o candidato, assim pensavam os analistas, eu incluído. Ainda bem que não vivo disso!

O que acabou acontecendo foi o contrário: a mensagem criou a máquina. Bolsonaro incorporou o anti-petismo e o anti-establishment, a busca por segurança e pelos valores conservadores.

A mensagem criou os votos. Os votos criaram a máquina. Máquina que agora trabalha pela candidatura de Bolsonaro. Doria, Witzel, Zema e tantos outros Brasil afora vão trabalhar pela candidatura Bolsonaro, em um processo que se auto-alimenta.

Nunca o adágio “a vontade do povo é soberana” foi tão verdadeiro.

O moderado

Quando você for ler um artigo de Eugênio Bucci, saiba disso que vai abaixo.

Em tempo: Dilma foi “vendida” no mercado eleitoral como “a gerentona competente”. Lembre-se disso quando tentarem vender Haddad como “o moderado”.

O anti-pobre

Essa é a única tática que pode ser uma real ameaça à eleição de Bolsonaro: colar a imagem de “anti-trabalhador”, “anti-pobre” no ex-capitão. Se de fato o PT insistir nessa linha e esquecer essa bobajada de “democracia ameaçada” e de “defesa de minorias”, fará com que a campanha do candidato do PSL tenha que sair da zona de conforto.

PS.: aos mais apressados, informo que dou muito valor à democracia e às minorias. Estou apenas falando de táticas eleitorais. A defesa dessas duas pautas não vai retirar um voto sequer do ex-capitão.

Os desafios de cada um

Bolsonaro e Haddad (mais este último), terão que fazer acenos para o centro.

Bolsonaro, em seu discurso pós-resultado, repisou todos os pontos de sua campanha, que lhe garantiram 46% dos votos válidos. Mas acrescentou algo importante: falou em bancada no Congresso, em 300 deputados honestos com os quais pode contar. Com essa sinalização, mata dois coelhos com uma cajadada só: demonstra apreço pelo Congresso e, indiretamente, pela democracia e, além disso, mostra que pode ter governabilidade, que é o grande receio do establishment empresarial.

Haddad, por outro lado, tem como seu primeiro compromisso de campanha a sua visita semanal ao presidiário de Curitiba. Não consigo pensar em coisa mais sectária do que isso. Se tem algo que Haddad não precisa, neste momento, é reforçar seus laços com o lulismo. A única chance de Haddad é ser mais Haddad e menos Lula. Os eleitores de Lula ele já os tem todos, ele precisa conquistar aqueles que não gostam de Lula, mas não têm nada contra o ex-prefeito de São Paulo.

Os dois candidatos têm o desafio (muito maior no caso de Haddad, obviamente) de não perder os votos do 1o turno e conquistar votos no 2o turno. Os primeiros movimentos de ambos mostram que Bolsonaro sai em vantagem, e não só nos votos que recebeu. Mas o 2o turno será longo.

10 destaque do 1o turno

1) A soma de Haddad, Ciro, Marina e Boulos fica aproximadamente 3 pontos percentuais abaixo de Bolsonaro. Ou seja, para Haddad ganhar, seria necessário converter 100% desses votos, e praticamente 2/3 dos votos de Alckmin. Ou, roubar votos de Bolsonaro. Em 2006, Alckmin conseguiu essa façanha, de ter menos votos no 2o turno do que no 1o. Bolsonaro tem se mostrado politicamente mais habilidoso, mas precisa fazer algum aceno para o centro (na minha opinião já começou em seu discurso pós-resultado, comentarei isso em outro post).

2) Dos 9 estados do NE, 7 tiveram definição do governador no 1o turno. Ou seja, os governadores eleitos ficarão se equilibrando entre o desejo do seu eleitorado (do qual já não dependem mais) e o desejo de ficar bem com quem tem a “expectativa de poder”, no caso, Bolsonaro.

3) Doria ganhou o adversário de 2o turno que pediu a Deus.

4) Quem é Witzeu? Quem é Zema? Quem é Ibope? Quem é DataFolha?

5) Romeu Zema, do Novo, com mais de 40% dos votos em MG. É virtualmente o novo governador de MG, pois os petistas não vão votar no Anastasia.

6) Dilma, Suplicy e Lindbergh fora do Senado. No caso de Dilma e Suplicy, o recall desses candidatos foi confundido com intenção de voto nas pesquisas. Se o recall já tem um papel importante em pesquisas para presidente e governador, imagine para o senado, onde as pessoas costumam escolher os seus candidatos na véspera da votação.

7) Se 100% dos eleitores de Amoêdo tivessem votado em Bolsonaro, a eleição ainda assim iria para o 2o turno.

8) Amoêdo teve mais da metade dos votos de Alckmin. Chegou em 5o lugar, sem participar de debates e sem ter tempo de TV.

9) Eu achava que dava para o Amoêdo chegar na frente da Marina. Mas o Daciolo? Marina, claro, sofreu com o voto útil em Haddad e, na reta final, em Ciro. Mas Amoêdo também sofreu com o voto útil em Bolsonaro, e mesmo assim teve 2,5x mais votos que a candidata da Rede. A diferença é que Amoêdo tinha um discurso, enquanto Marina ficou tateando em busca de uma “3a via” inodora, incolor e insípida. Até o discurso do Daciolo foi mais eficiente, como se viu.

10) Este último ponto vai para o candidato que venceu as duas últimas eleições em SP no 1o turno, e colocou seus dois candidatos no 2o turno neste ano. E, mesmo assim, teve menos de 10% dos votos em seu estado. Não acho que tenha sido um problema pessoal. Chegou o tempo do PSDB de FHC, Serra e Alckmin. O partido, a partir de agora, está nas mãos de Doria e dos assim chamados cabeças-pretas. Se isso é bom ou ruim, o tempo dirá. É só uma constatação.