A pesquisa DataFolha mostrou ontem mais um crescimento de Haddad, como era esperado com base nos resultados de outras pesquisas.
Mas outra coisa me chamou a atenção: a continuidade da escalada de Bolsonaro, de 24 para 26 pontos, coincidindo com o nível apontado pelo Ibope. Como o DataFolha anterior havia ido a campo depois do Ibope, achei que ocorreria o inverso. Mas não, o DataFolha alcançou o Ibope.
De onde veio esse crescimento? Aparentemente da diminuição do número de não-votos e da queda de Alckmin. Ou seja, Bolsonaro estaria recebendo votos tanto das viúvas de Lula quanto de eleitores do seu próprio campo eleitoral.
Aliás, por falar em campo eleitoral, vamos novamente fazer o exercício “direita x esquerda”. Relembrando:
A informação abaixo é do atual governador de São Paulo, e candidato à reeleição, Márcio França.
O que ele está dizendo é o seguinte: cada interno da ex-Febem custa aos cofres públicos R$ 138 mil/ano. Isso equivale a aproximadamente US$ 33 mil/ano. Esta é a renda per capita do Japão.
Mas não precisa ir longe. Qualquer pai de classe média alta precisa fazer muito esforço para gastar isso com um filho. Um bom colégio custa R$4 mil/mês ou R$48 mil/ano. Coloque aí atividades extracurriculares, viagens pra Disney, etc, ainda se ficará longe deste valor.
Não sei se fico mais preocupado com o fato do governador do Estado provavelmente ter errado um número que divulga para a imprensa, ou se com a possibilidade desse número estar correto.
Fui assistir hoje “Tancredo: o paciente”. O filme retrata os últimos dias de Tancredo Neves no hospital, desde a sua internação até a sua morte, em 21/04/1985. O filme é muito bom, tem ótimo ritmo e excelentes interpretações. Vale muito a pena, principalmente para nós que vivemos aqueles tempos.
Grande parte da trama se dá em torno da tentativa de esconder do país o verdadeiro estado do presidente eleito. Não sei porque, lembrei-me de Bolsonaro.
A pesquisa XP/Ipespe, em que pese a metodologia controvertida (é feita por telefone) serve, como todas as outras, para detectar tendências.
A vantagem dessa pesquisa é que ela feita semanalmente desde maio, o que permite o acompanhamento de mais longo prazo com dados mais frequentes.
Na última, publicada hoje, vemos o seguinte:
1) As menções espontâneas a Bolsonaro saltaram para 20%. Vinham oscilando entre 15% e 17% desde maio. Na estimulada passou a 26%, vinha oscilando entre 21% e 23%. O atentado teve o seu efeito.
2) A espontânea de Lula despencou de 18% para 9%. Interessante que esta queda só ocorreu agora, depois que Lula desistiu da candidatura, e não logo em seguida à sua impugnação.
Uma parte pequena dessas intenções já foi para o Haddad, que subiu de 2% para 5%. A diferença parece ter ido para os “não sei”, que subiram de 25% para 32%. Ou seja, parece que há 3 tipos de eleitor do Lula: 1) aqueles que ainda não sabem que ele não é mais o candidato (50%); 2) aqueles que já sabem, e resolveram aderir ao Haddad (15%) e 3) aqueles que já sabem que Lula não é candidato e estão pensando em quem votar (35%). Se os que não sabem que Lula desistiu migrarem para Haddad nessa mesma proporção, a espontânea de Haddad sobe de 5% para 8%, o que significaria uma estimulada de 16%, considerando a proporção atual de 2 para 1 de todos os candidatos, menos Bolsonaro. Coincidência ou não, é este o patamar de Haddad quando ele é apresentado como “Haddad apoiado por Lula”.
3) Ciro também vem subindo consistentemente nas últimas 3 semanas (1 ponto por semana). Aparentemente, Haddad e Ciro vêm roubando votos de Marina Silva, que perdeu 5 pontos nesse período.
4) Alckmin continua patinando no patamar de 10% (9% nessa última pesquisa). Crescimento orgânico parece ser algo cada vez mais distante. A única esperança de Alckmin é que 2/3 dos votos de Amoedo/Álvaro/Meirelles, que somam 10 pontos, se transformem em voto útil, e o levem ao patamar de 16%, embolando com Haddad e Ciro. Para que isso possa eventualmente acontecer, é essencial que tanto Ciro quanto Haddad não cheguem a 20%.
É isso por enquanto. Vamos ver o DataFolha hoje à noite. Deve também mostrar crescimento de Haddad. Bolsonaro deve-se mostrar estável, pois será a 2a pesquisa depois do atentado. Vamos ver o que acontece com Ciro.
Este é Luiz Marinho, candidato a governador de São Paulo pelo PT.
Como todo bom petista, quer criar um banco público pra chamar de seu. Crédito subsidiado pelos impostos dos desdentados. Talvez a política mais regressiva que se possa pensar.
Não custa lembrar o tamanho dos esqueletos fiscais escondidos nesses bancos estaduais, e que ainda assombram, por exemplo, o Rio Grande do Sul. Aqui, nos livramos do Banespa e da Nossa Caixa, bancos bons para os seus funcionários e para eleger políticos populistas.
Mas acho que estou sendo injusto com os petistas. Não são somente estes que gostam de crédito subsidiado. Há muitas viúvas das políticas cepalinas também no PSDB, que não conseguem conceber uma economia onde o crédito seja uma mercadoria a ser fornecida pelo mercado de capitais. O Estado (sempre ele!) sabe melhor onde investir.
Se a maior recessão da história, mesmo com 10% do PIB comprometido em créditos subsidiados pelo BNDES, não foi suficiente para convencer da ineficácia dessas políticas, então acho que o caso está perdido mesmo.
Já ouvi essa ideia de alguns amigos que considero inteligentes e de muito bom-senso: uma nova Constituição elaborado por “notáveis”. Assim, pelo menos em tese, teríamos uma Carta Magna livre dos interesses venais que supostamente regem a atuação dos políticos de carreira.
Vejo dois problemas insuperáveis com essa ideia.
O primeiro, de ordem teórica, é achar que o “melhor” para o país sairá da cabeça de um grupo de notáveis. Cada um tem, em sua mente, um modelo do que seria um país ideal. A campanha da Globo, “o país que eu quero”, mostra parcialmente isso. Digo parcialmente, porque aqueles filmetes são filtrados pelo “padrão Globo de qualidade”. No final, resulta o país que a Globo quer. Duvido que não haja, por exemplo, depoimentos pedindo a pena de morte pra vagabundo que estupra e mata. Mas isso, obviamente, a Globo não mostra.
Quando pensamos em notáveis, vêm à mente pessoas que conseguem traduzir em palavras as ideias que temos do que seja “o bom, o justo e o belo”. No entanto, há “notáveis” que, se tivessem suas ideias implementadas, seriam a receita do desastre. Consigo pensar, por exemplo, em Luiz Gonzaga Belluzzo ou Bresser-Pereira, para ficar apenas no campo das ideias econômicas.
Assim, passamos para o segundo problema com essa idea, dessa vez de ordem prática: o processo de escolha desses “notáveis”. Como seria esse processo, se não há votação popular, se não são eleitos? Seria pela quantidade de artigos publicados em jornais ou revistas científicas? Pelas suas ações filantrópicas? Pelo número de citações na Wikipédia?
E o estabelecimento de critérios para a escolha seria apenas um problema de 2a ordem. O principal problema é QUEM estabelece esses critérios. Os políticos atuais? A Rede Globo? Um outro conjunto de notáveis, dando origem a um problema recursivo?
Alguém poderia sugerir que esses notáveis, estes sim, poderiam ser eleitos. Mas isso só transferiria o problema de lugar: como evitar que “não notáveis” também se candidatassem? Quem definiria os notáveis que poderiam se candidatar? Com que critérios? Como veem, o problema continua existindo da mesma maneira.
Muitas vezes, quando pensamos em uma Assembleia de Notáveis, vem à mente a experiência dos Founding Fathers nos EUA, que desenharam uma Constituição enxuta, e que já dura mais de 200 anos. Esquecemos, no entanto, que os Founding Fathers eram políticos eleitos, não “notáveis”. Talvez a restrição do voto aos mais instruídos tenha tido o seu papel na qualidade daquela Assembleia Constituinte. Mas não creio que tenha sido o ponto fundamental. Mesmo porque, todos conhecemos pessoas inteligentes e instruídas que têm ideias estapafúrdias (do nosso ponto de vista, claro).
A experiência americana funcionou porque o mindset da população, que ELEGEU os Founding Fathers, era de uma determinada forma. Os países são o que o seu povo é. Chicanas, como uma Assembleia de Notáveis, mesmo que fosse viável do ponto de vista operacional, não entregaria uma Constituição muito diferente da que está aí. Exemplo disso é a crença de que o povo tem direitos a que o Estado deve atender, crença esta que vai do trabalhador rural mais humilde até a agora ex-presidente do STF. Uma assembleia de notáveis brasileiros produziria uma Constituição eventualmente até mais enxuta, mas com os mesmíssimos problemas da atual. (Problemas do meu particularíssimo ponto de vista, claro. Como eu disse, há muita gente boa que acha que o Estado tem que ser provedor mesmo).
Então, não tem solução? Solução mágica, aquela que resolve o problema da noite para o dia, evidentemente não. O que existe é um trabalho de formiguinha, de mudança de mentalidade ao longo de gerações.
De nossa parte, o que podemos fazer é eleger pessoas que possam levar as ideias que consideramos acertadas para o Congresso, o lugar onde se dão os embates dessas ideias. Qualquer outra solução mal esconde o seu viés autoritário.