Explicando os riscos do consórcio

Reportagem chama a atenção para o crescimento do consórcio como forma de financiamento, na medida em que as taxas de juros aumentam. Muitos entram nessa porque é ”mais barato que um financiamento” ou porque “têm dificuldade de poupar se não tiver um boleto pra pagar”.

Com relação ao primeiro ponto, é bom ter em mente que o consórcio também é um tipo de financiamento. Mas, ao contrário do financiamento bancário, em que o banco empresta o dinheiro, no consórcio quem empresta o dinheiro é o consorciado. É incrível, inacreditável mesmo, que, em uma extensa matéria sobre o assunto, não se toque neste ponto, que é fundamental. O consorciado assume o risco de crédito de pessoas para as quais os próprios bancos não quiseram emprestar, tais como “endividados e inadimplentes”. Existe um fundo de reserva para pagar pela inadimplência (e que sai do bolso do consorciado), mas nada garante que será suficiente. Muitos entram em um consórcio de um grande banco achando que, por ter um grande banco por trás, não há esse risco. Pois há sim: se a inadimplência aumentar, é o consorciado que deverá pagar no lugar daqueles que não pagaram.

O consorciado só se livra parcialmente desse risco quando obtém o bem, seja por lance, seja por sorteio. Neste ponto, ele passa de financiador a financiado. Para estes que recebem o bem antes, pelo menos se livram do risco de não receber o bem. Para os que vão receber o bem no final, o consórcio serve como uma “poupança forçada”. A diferença para uma “poupança normal”, é que você paga juros para poupar ao invés de receber os juros, e corre o risco de crédito dos outros consorciados ao invés de correr o risco de crédito do banco onde você faz a poupança. A indisciplina, de fato, custa muito caro.

Não me entendam mal. Acho que cada produto financeiro tem o seu público, e será adequado para as necessidades específicas de cada indivíduo. Meu único ponto é que os produtos financeiros devem ser adequadamente explicados, para que cada um tome a decisão que melhor lhe convier, da maneira mais bem informada possível. E não me parece que os riscos do consórcio estão adequadamente explicados.

A eterna vigilância do Centrão

Para quem tem olhos de ler, este pequeno artigo do cientista político Carlos Pereira serve para desmistificar a tal “frente democrática” que se formou para derrotar Bolsonaro nas eleições. Pelo menos, no que se refere a uns tais “pendores anti-democráticos” que seriam exclusividade do atual presidente.

Carlos Pereira descreve uma série de elementos que servem para identificar um “backsliding democrático”:

1) Demonização dos políticos e dos partidos, e ligação direta com o povo;

2) Reformas constitucionais que reforcem o poder unilateral do presidente;

3) Enfraquecimento dos órgãos de controle e, principalmente, do judiciário;

4) Controle da mídia.

Desses fatores todos, Bolsonaro elegeu-se com o figurino do primeiro, mas não levou dois anos para cair no colo do Congresso. Não moveu uma palha para mudar a Constituição em favor de de uma concentração de poder, o judiciário está onde sempre esteve e a mídia continua aí, firme e forte.

Por outro lado, Carlos Pereira cita o exemplo de países que sofreram o “backsliding democrático”, todos na América Latina: Venezuela, Equador e Bolívia. Coincidentemente, todos regimes que contam com a simpatia do democrático Partido dos Trabalhadores.

Há que se reconhecer que o PT, quando no poder, a exemplo do atual presidente, também não se movimentou em direção a uma autocracia. Podemos ficar discutindo durante anos se o PT não fez o mesmo que seus colegas da Venezuela por não querer ou por não poder. É, diga-se de passagem, a mesma acusação que os “democratas brasileiros” fazem a Bolsonaro, acusando-o de crime de intenção. O fato é que, nem um nem outro se movimentaram na direção de concentrar poder. O mensalão e o petrolão foram formas de comprar o Congresso, não de concentrar poder. Aliás, só existiram porque o presidente era fraco, não forte.

O articulista se pergunta porque em alguns países os autocratas obtém sucesso e em outros não. Aventa algumas hipóteses, mas não conclui. Na minha humilde opinião, a nossa democracia está e continuará aí, firme e forte, porque temos um Centrão político. Um Centrão não ideológico, pragmático, fisiológico. Um Centrão que representa o pensamento e o modus operandi do brasileiro médio. Para esta larga faixa do espectro político, não interessa a centralização do poder em um único partido. O Centrão vive do caos democrático, onde muitas vozes defendem pontos de vista diferentes o tempo todo. É nesse ambiente que o Centrão maximiza os seus ganhos.

Descansem, pois, os espíritos timoratos. Qualquer que seja o próximo presidente, a nossa democracia não corre risco. Continuaremos essa mesma maçaroca democrática de sempre, graças à eterna vigilância do Centrão.

Um conceito peculiar de democracia

Pedro Doria continua muito preocupado com a nossa democracia. Segundo o articulista, estamos ameaçados pelas fake news, que distorcem a vontade do eleitor. E as empresas de tecnologia não estariam fazendo nada a respeito, pois “não teriam qualquer compromisso com os valores democráticos”.

É curioso. Em redes bolsonaristas, a reclamação é a inversa: o Facebook estaria a serviço dos globalistas, perseguindo as “páginas de direita”.

Não é possível que as duas coisas estejam acontecendo ao mesmo tempo. Ocorre que cada um enxerga a realidade de seu particular ponto de vista, e é capaz de jurar que aquela é a verdadeira realidade. Mas, no caso, gostaria de estabelecer uma diferença fundamental entre os dois pontos de vista, independentemente de quem esteja certo sobre o que o Facebook esteja realmente fazendo. A diferença está naquilo em que cada parte DESEJARIA que o Facebook estivesse fazendo.

Pedro Doria representa uma linha que defende que o Facebook e outras redes sociais precisariam trabalhar como censores. Há algum tempo, escrevi um artigo refletindo sobre como esse problema é delicado (Redes sociais e a busca do censor ideal). Os bolsonaristas, por outro lado, querem campo livre para propagar suas “fake news”, o que, por suposto, significa campo livre para o adversário também propagar suas próprias “fake news”.

O TSE já se colocou como árbitro dessa questão espinhosa, que vem sendo objeto de análise desta página há algum tempo. Para Pedro Doria, isso não é o suficiente. As redes também precisariam atuar. Em meu artigo, reproduzo uma fala de Angela Merckel, que chama a atenção para o perigo de termos empresas privadas arbitrando o conteúdo de discursos privados. Alinho-me à ex-chanceler alemã neste ponto: o que menos precisamos é o Zucka com o poder de dizer o que podemos ou não dizer. Não para Pedro Doria. Em sua democracia, é super-natural que tenhamos um censor privado.

“Censura” é daquelas palavras proibidas, que um verdadeiro democrata não deveria nunca pronunciar, a não ser acompanhada da expressão “nunca mais”. Pedro Doria é esperto, e não usa a palavra maldita em seus textos. Mas o que propõe tem rabo de censura, focinho de censura e cheiro de censura. O seu conceito de democracia é peculiar.

A paz retornará

Era uma vez um país em que não havia violência no,esporte. Os jogadores não eram ameaçados pelas torcidas organizadas, torcidas conviviam na mais pura harmonia nos estádios, você podia vestir uma camisa de time na rua sem medo.

Até que as trevas caíram. A partir de 2019, uma nuvem tóxica provinda de Brasília envolveu os torcedores brasileiros, que passaram a se comportar como nunca antes, brigando e matando-se uns aos outros em estádios, invadindo e pixando CTs e, o pior, lançando mão de ataques racistas e homofóbicos contra os jogadores.

Esta é a leitura que o ex-comentarista da Globo, Walter Casagrande Jr. faz da realidade brasileira.

Mas, para o alívio do Casão e de todos nós, a julgar pelas pesquisas, esse período tenebroso tem data marcada para acabar. A partir de 01/01/2023, o Brasil voltará a ser como antes, e os torcedores, livres do maléfico feitiço que os transformou em zumbis violentos, poderão confraternizar-se em uma nova Terra, onde o leão se deitará com o cordeiro e a paz prevalecerá. Glória a Deus!

PS.: será que o Casagrande ficaria muito chocado com a informação de que as torcidas organizadas, de onde sempre sairiam e continuam saindo os responsáveis pela violência no futebol, normalmente apoiam o PT nas eleições?

A tese do decrescimento econômico

Este post tem tudo a ver com o anterior, sobre as dificuldades que os ambientalistas colocam em relação à construção de linhas de transmissão de energia. Na verdade, é sobre a questão de fundo que organiza todo o pensamento ambientalista: a humanidade é a grande inimiga do planeta, e sua busca incessante por crescimento econômico e lucros é um pecado que será punido, mais ou mais tarde, com a ira de Gaia, a Mãe Natureza. Trata-se da versão científica do Juízo Final, com a diferença de que mesmo os “bons” serão punidos junto com os “pecadores”. Afinal, estamos todos no mesmo barco planetário.

O tema deste artigo é a tese do “decrescimento econômico”. Segundo essa tese, não basta “crescer de maneira sustentável”. Em um planeta com recursos finitos, mesmo esses recursos sendo consumidos de maneira mais lenta, um dia acabarão. A figura utilizada por um dos economistas citados é a de um trem que vai a alta velocidade na direção errada. Não basta reduzir a velocidade, pois a direção continuará errada. É preciso inverter a direção.

Bem, se o efeito do crescimento contínuo é a exaustão dos recursos naturais, o efeito do decrescimento continuo é, no fim da linha, a volta da humanidade às cavernas. O crescimento do PIB nada mais é do que a medida monetária do aumento do padrão de vida da população global. Vivemos hoje com um nível de conforto médio inimaginável para o homem comum do início da Revolução Industrial. O consumo de recursos naturais foi (tem sido) o preço pago para manter e aumentar este conforto.

Sabemos que diminuir o padrão de vida é das tarefas mais difíceis. Uma pessoa que perde o emprego e é obrigada a reduzir o seu padrão de consumo, sofre muito, por mais alto que seja o seu padrão anterior. O ser humano se acostuma muito rapidamente às coisas boas. Por isso, é mais fácil demonizar “os CEOs” e “a busca incessante por lucros”. Em resumo, culpar o “capitalismo selvagem”.

Na verdade, como sabemos, os CEOs das empresas respondem a incentivos. Os incentivos são dados pelos investidores das ações das empresas, que se valorizam na proporção de seus lucros. E os lucros, vejam só, ocorrem quando as empresas conseguem atender satisfatoriamente à demanda dos clientes. Então, na ponta final desse sistema que está levando o planeta Terra à destruição está, veja só, você, que sempre busca produtos e serviços melhores e mais baratos. E os CEOs, que são pagos para atender a esta demanda, levam a culpa.

A tese do “decrescimento do PIB”, além disso, é injusta. Países mais pobres, que não chegaram ainda a um padrão de vida decente, seriam os primeiros prejudicados por uma recessão global permanente. Se a diminuição do padrão de vida é ruim para os mais ricos, chega a ser cruel para os mais pobres. Não à toa, a tese é defendida por economistas de países mais ricos.

Se alguém fizesse a previsão, há dois séculos, de que o planeta seria capaz de sustentar uma população de quase 8 bilhões de almas com um padrão de vida muitas vezes superior ao que vigia à época, seria considerado um visionário utópico, com um otimismo desligado da realidade. Isso porque temos imensa dificuldade de antecipar tecnologias. Da mesma forma, prever o que acontecerá com o planeta daqui a dois séculos com base na tecnologia atual é um exercício fútil. Aqueles que advogam a tese do “decrescimento econômico” subestimam a incrível capacidade humana de fazer mais com menos, capacidade esta levada ao máximo com os incentivos do capitalismo. Trata-se de uma visão pessimista da humanidade. No limite, segundo essa visão, seria melhor que não existíssemos.

Vivendo no mundo da utopia

O colunista Thomas Friedman, do NYT, é insuspeito no que se refere à pauta ambientalista. É crente das mudanças climáticas provocadas pelo Homem e, portanto, da mudança urgente da matriz energética. Portanto, tem autoridade para descascar os ambientalistas puros, que pretendem mudar a matriz com um “apertar de botão”, segundo expressão por ele utilizada no artigo.

Friedman crítica principalmente a falta de entendimento dos ambientalistas no que concerne à necessidade da construção de linhas de transmissão entre as fazendas eólicas e de energia solar até os centros consumidores de energia. A única forma de produzir energia no lugar em que vai ser consumida é através da queima de combustíveis fósseis, pois somente nessa forma é possível transportar energia em forma sólida ou líquida com caminhões e trens. Um dia, quem sabe, teremos baterias tão eficientes que será possível carregar uma do tamanho de um container e carregá-la de caminhão para suprir as necessidades de uma cidade por muito tempo. Ainda estamos distantes, muito distantes, desse dia.

Até que esse dia chegue, linhões serão necessários para transportar a “energia limpa” produzida. Mas, nos EUA, Bernie Sanders e seus companheiros votaram contra uma legislação que tinha como objetivo agilizar o licenciamento ambiental para a instalação de linhas de transmissão. O articulista conta o caso de um empresário que levou nada menos que 17 anos para conseguir as licenças necessárias para construir um linhão de sua fazenda éolica no Wyoming até onde a eletricidade seria consumida, Las Vegas.

Quem lê essa página vai lembrar de algo muito semelhante: a epopeia do linhão Manaus-Boa Vista, projeto que está parado por um contencioso com uma tribo indígena que conta com duas mil almas em um território equivalente ao estado de Sergipe. Coincidentemente, reportagem de ontem aborda o problema pela enésima vez nos últimos 10 anos.

Como o linhão atravessa a reserva indígena, precisa do “de acordo” dos índios. Enquanto isso, nada feito, e a energia de Roraima continua sendo suprida com a queima de combustíveis fósseis. Os ambientalistas, que se colocam em defesa dos índios, provavelmente acreditam que a ”energia limpa” será entregue nas casas de Roraima de disco voador. (Escrevi extenso artigo sobre este tema, aqui).

O caso de Roraima não é exceção, é regra. Assim como nos EUA, o licenciamento ambiental no Brasil é um pesadelo. Como Thomas Friedman, não sou contra a que se respeite o meio-ambiente no momento da construção de grandes obras de infraestrutura. Mas, enquanto a classe média continuar, no dizer do articulista, a “consumir vorazmente energia” (o que inclui os ambientalistas aboletados em seus confortáveis apartamentos e carros), será preciso fazer escolhas. E, uma delas, é tornar mais flexível a legislação para a construção de linhões de transmissão ou aceitar a queima de combustível fóssil para a geração de energia. Não escolher entre as duas coisas é viver no mundo da utopia.

Proposta de um substituto para as eleições

As pesquisas eleitorais e, potencialmente, as urnas eletrônicas, padecem de um mal comum: não estariam de acordo com o “senso comum”, com “aquilo que observamos nas ruas e nas redes sociais”. No caso das pesquisas, isso é uma verdade hoje. No caso das urnas, será uma verdade caso Bolsonaro perca a eleição.

Para pacificar essa questão, sugiro substituir o método de eleição a cargos majoritários. Ao invés de uma votação em um único dia decisivo, seria estabelecido um “período eleitoral”. Durante esse período, os candidatos procurariam juntar o maior número de pessoas em comícios, motos em motociatas e viewers simultâneos em lives. Poderia ser estudada a inclusão de views posteriores das lives.

Claro, mesmo esse método científico não estaria livre de contestações. O número de pessoas em comícios e motos em motociatas são alvo de intenso debate nas redes. Mas nada que um bom método de controle não resolva: catracas eletrônicas seriam instaladas nos limites de uma área delimitada, e “cartões manifestação” seriam distribuídos a todos os interessados. Ao passar o cartão pela catraca, um voto seria contado. O método tem a vantagem de evitar dupla contagem, pois o cartão seria pessoal e intransferível.

Esse método, porém, teria a desvantagem de ser acusado de manipulação. Como garantir que as catracas eletrônicas não estariam a serviço do cramunhão, contando votos duplos, e até triplos, nas manifestações esquerdosas? A solução poderia ser a adoção de uma espécie de tinta de uma cor chamativa (rosa-choque, por exemplo), de difícil remoção, a ser aplicada na mão do manifestante. Teríamos, então, um controle físico, além do eletrônico.

Apesar de suas dificuldades técnicas, creio que a ideia de substituir as eleições pela adesão a manifestações é muito mais democrática e acima de quaisquer suspeitas. Com certeza, o Brasil estará liderando um movimento global no sentido de reestabelecer a verdade no tocante à vontade popular. Seremos, quem diria, os pioneiros da pacificação eleitoral.

Economia gig: um espantalho útil

Os problemas trabalhistas brasileiros se resumem à formalização dos profissionais de aplicativos. Pelo menos, é o que se deduz de várias reportagens nos últimos tempos. Hoje, por exemplo, se discute o que os candidatos propõem para a catchiguria. Os partidos mais à esquerda se destacam, encontrando um nicho para a sua peroração de luta de classes. Mas, de maneira geral, todos os candidatos prometem fazer “alguma coisa” em relação ao assunto.

A chamada “economia gig” não existia até alguns anos atrás. O que mais se aproximava eram as cooperativas de taxistas, organizadas em torno de alguma central telefônica que centralizava os chamados. Os taxistas, na época, também não contavam com “proteção social”, mas ninguém parecia ligar muito para isso. Havia também empresas que empregavam motoboys, e que tinham como clientes outras empresas, pois o seu serviço era muito caro para as pessoas físicas. E havia também alguns (poucos) restaurantes que podiam se dar ao luxo de ter entregadores. Não sei se esses entregadores e os motoboys tinham garantidos todos os “direitos sociais”, mas ninguém se importava muito com isso na época.

Até que chegou o Uber, quebrando o monopólio dos taxistas em todas as cidades do mundo, ao permitir que qualquer motorista pudesse “dar carona” em seu próprio carro. Os aplicativos de entrega vieram em seguida, organizando e fazendo crescer exponencialmente o fragmentado mercado das empresas de motoboys. Nascia, assim, a “economia gig”, facilitando a vida de milhões de pessoas e criando empregos onde antes estes não existiam.

Segundo o IPEA, são 1,5 milhões de trabalhadores na “economia gig”, sendo cerca de 1 milhão de motoristas e 500 mil motociclistas e ciclistas. Trata-se de um número grande, mas vamos colocá-lo em contexto. Segundo o IBGE, hoje temos 35 milhões de trabalhadores com carteira assinada, 25 milhões de trabalhadores por conta própria, 38 milhões de trabalhadores informais e 10 milhões de desempregados. Portanto, da força de trabalho brasileira, 73 milhões, ou 2/3, não contam com nenhuma “proteção social”. Estão incluídos nessas 73 milhões de almas os 1,5 milhão da economia gig. Alguém, então, poderia muito justamente perguntar: por que tanto barulho em torno desses 1,5 milhão? E os restantes 71,5 milhões, que estão aí (sempre estiveram) sem nenhuma “proteção social”?

Vou arriscar uma explicação sociológica. Creio que são dois motivos inter-relacionados. O primeiro é que a classe média está em contato com esses trabalhadores cotidianamente. Temos uma espécie de “dor na consciência” ao ver como somos “privilegiados” em relação a eles. Os outros 71,5 milhões não sabemos quem são, mas esses nos atendem todo dia. E nos doemos por eles. Só isso explica, por exemplo, que José Pastore, em entrevista hoje, classifique de “desumana” a situação dos trabalhadores de aplicativos. Como se fosse “humana” a situação dos outros 71,5 milhões de trabalhadores informais no país.

O segundo motivo, que é o outro lado da moeda da “desumanidade”, são as empresas por trás da economia gig. No caso dos outros 71,5 milhões de informais não há start ups badaladas que valem bilhões na bolsa. O raciocínio implícito é que essas empresas teriam condições de prover “direitos sociais” a esses trabalhadores. Afinal, são bilionárias.

É uma tese a ser testada. Se uma legislação obrigar essas empresas a “formalizarem” os seus “empregados”, uma de duas coisas (ou uma combinação de ambas) precisará acontecer: 1) os aplicativos terão que reduzir a sua margem de lucro e/ou 2) os consumidores precisarão pagar mais caro pelo serviço. Se os aplicativos avaliarem que não vale a pena o risco do negócio com uma margem de lucro reduzida ou não conseguirem repassar o custo para o consumidor final, o negócio desaparecerá. Então, os trabalhadores de aplicativos, que hoje fazem parte dos 73 milhões que não têm “direitos sociais”, passarão a fazer parte dos 10 milhões de desempregados que, além de não terem ”direitos sociais”, também não têm renda.

Todos nós gostaríamos de viver em um mundo nobre, belo e justo, onde todos os trabalhadores recebessem uma renda suficiente para as suas necessidades básicas e contassem com toda a proteção do “estado de bem-estar social”. No Brasil, no entanto, por algum motivo, 73 milhões de trabalhadores não têm acesso aos chamados “direitos sociais”. Os 1,5 milhão de trabalhadores de aplicativo são uma gota d’água nesse oceano. Chamam a atenção porque fazem parte do nosso dia-a-dia e são dependentes de “multinacionais poderosas”.

Na verdade, esses trabalhadores são apenas o sintoma de uma doença muito mais profunda, uma doença que impede que um contingente gigantesco de trabalhadores não tenha acesso a um mínimo de “proteção social”. Brigar pelos “direitos dos trabalhadores de aplicativos” é um bom modo de anestesiar a consciência sem resolver o problema de fundo. Trata-se de um espantalho útil para manter as coisas do jeito que estão.

Uma aula de crony capitalism

São raros, raríssimos mesmo, os empresários que se reúnem com políticos e pedem coisas como Reforma Adminstrativa ou Reforma Tributária. A agenda, via de regra, versa sobre “incentivos à indústria”, ou “incentivos à atividade econômica”.

Lula entende bem essa agenda. Foi no seu governo que se iniciou a maior operação de injeção de recursos públicos (via BNDES) para o “estímulo ao investimento”, alcunhada de PAC – Plano de Aceleração do Crescimento. Foi debaixo do guarda-chuva do PAC que se abrigaram obras como as refinarias inacabadas da Petrobras, o metrô de Caracas e o Itaquerão. Claro, houve obras meritórias também, mas era tanto dinheiro (quase meio trilhao de reais em dinheiro de 10 anos atrás), que era não mais que óbvio que sobraria dinheiro para todo mundo, inclusive para empresas que não precisavam, mas aproveitaram a boquinha para diminuir seu custo de capital.

Essa política do BNDES foi esteroide em corpo de tísico, deu uma bombada inicial na economia para depois voltar ao normal. Quer dizer, abaixo do normal, pois como o dinheiro acabou, o desmame custou caro para vários setores da economia. Por isso essa espécie de nostalgia, quase um banzo, por parte dos empresários brasileiros. Lula promete retomar a mesma política. Afinal, “investimento não é gasto”. Só faltou parafrasear a sua protegida com um “investimento é vida”.

Se alguém quer entender a definição de “crony capitalism”, ou “capitalismo de laços”, basta ler a notinha acima. Vale mais do que uma aula sobre o assunto.

PS: na minha série sobre a economia brasileira na era PT, dedico um episódio ao crescimento econômico turbinado pelo BNDES. Link nos comentários.

O sonho de um mundo inabalável

Alguns podem achar estranho a existência de uma monarquia em pleno século XXI. Afinal, estamos na era da meritocracia, e não deixa de ser esquisito que uma pessoa tenha poder e riqueza pelo simples fato de a cegonha ter visitado a casa certa.

Mas, se pensarmos bem, essa é a regra, não a exceção. Todos nós temos um conjunto de dons (habilidades e riqueza) que vem do nosso DNA. Não é mérito nosso termos nascido no palácio de Buckingham, em uma casa de classe média nos Estados Unidos ou em uma favela brasileira. Nem tampouco é mérito nosso ter nascido com muita facilidade para matemática ou para jogar futebol.

Por outro lado, assim como na parábola dos talentos, é mérito nosso o que fazemos com esses dons inatos. Uma pessoa pode ter nascido em berço de ouro, herdar um império empresarial e fortuna suficiente para várias gerações. Se não agir de forma a preservar esse dote inicial, é questão de tempo para perder tudo. É conhecido o ditado “Pai rico, filho nobre, neto pobre”. A prova de que esse ditado é verdadeiro é observar as mudanças, ao longo das gerações, na lista dos homens mais ricos do mundo.

É nesse ponto que reside o mérito da falecida rainha Elizabeth II. A realeza britânica sobrevive em pleno século XXI porque a rainha soube, a exemplo de seus antecessores, manter a “empresa” funcionando. E o que vende a empresa “realeza britânica”? Seu “produto” é institucionalidade.

Institucionalidade é um termo difícil de definir, mas talvez possamos dizer que se trata de “perenidade de regras”. Em um mundo louco, em eterna vertigem de um vórtex de acontecimentos e regimes frágeis, a realeza britânica aparece como o mastro inabalável que sustenta a bandeira da perenidade. As pessoas têm nostalgia ancestral de um tempo em que “éramos felizes”, e a realeza simboliza esse tempo. Só isso explica porque o povo de um país periférico sai às ruas para saudar entusiasticamente a rainha, como descreve a reportagem do Estadão, a respeito da visita de Elizabeth II ao Brasil em 1968.

Elizabeth II exerceu com maestria o papel de CEO dessa “empresa da institucionalidade”, dosando a pompa do cargo com a proximidade do povo. Transformou a realeza em um fenômeno pop, em um difícil equilíbrio de adaptação e preservação. Tinha exata noção do que representava o seu cargo e, por isso, sobreviveu por 70 anos à frente da empresa, entregando-a com a mesma força, senão mais, do que a recebeu.

Eu sou daqueles que tende a desdenhar o papel da monarquia inglesa no mundo atual. Mas confesso que as reações à morte da rainha me surpreenderam e me levaram a essas reflexões. Os seres humanos precisamos de símbolos. E aquela senhora simpática foi um símbolo poderoso de um mundo que não existe mais, de um mundo perene, estável, inabalável. E todos nós, no fundo, sonhamos com um mundo assim.