Fiquei espantado com uma reportagem do Valor Econômico de hoje, ao constatar que dos 10 modelos de carros mais vendidos no Brasil no 1o trimestre deste ano, 5 têm valor acima de R$ 100 mil. Modelos como T-Cross e Compass estão entre os 5 mais vendidos, em um ranking que não há muito tempo era dominado pelos modelos básicos.
Fui dar uma olhada nos emplacamentos de veículos zero, estatística mantida pela Fenabrave. Em 2022 foram emplacados 300 mil veículos no 1o trimestre. Em 2021 foram 400 mil e em 2019, nada menos do que 500 mil no mesmo período (pulei 2020 por ser o ano da pandemia). No 1o tri de 2013, pico da série histórica, foram emplacados 660 mil veículos. O fato é um só: o comprador de menor poder aquisitivo foi expulso desse mercado.
O Brasil está fazendo a sua parte para conter os gases de efeito estufa.
No início da década passada, fui ao Japão algumas vezes profissionalmente. Uma coisa que me impressionou foi ver crianças pequenas (estimo com 7/8 anos de idade) andando desacompanhadas no metrô de Tóquio. Uniformizadas, estavam se dirigindo à escola. Anexei algumas fotos que eu mesmo tirei. Lembrei disso ao ler a notícia de que a Netflix vai reproduzir um reality show japonês que trata justamente desse assunto, a autonomia das crianças japonesas.
Em contraste, no mesmo jornal, reportagem sobre a “antiga” região da cracolândia, no centro de São Paulo, colhe depoimentos de moradores que reconquistaram o espaço. Um deles conta que agora pode deixar seu filho de 11 anos ir sozinho até a escola, que fica a UMA QUADRA da sua casa. Antes, ele precisava acompanhá-lo.
A surpreendente autonomia das crianças japonesas é uma questão cultural sim. Mas não se pode abstrair do fato de que vivem em uma sociedade muito mais segura, em que se espera que as crianças serão cuidadas e não abusadas pelos estranhos. Eu, particularmente, procurei ensinar meus filhos desde cedo a andarem sozinhos pela rua e a usarem o transporte público. Mas isso quando já estavam entrando na adolescência, não quando ainda eram crianças. Penso que deve haver um equilíbrio entre a neura da segurança (que é um problema real) e o dever de criar adultos autônomos. Em uma sociedade como a brasileira, trata-se de um equilíbrio difícil, mas necessário.
Mais uma “motociata” liderada pelo presidente Jair Bolsonaro. Mais uma interminável discussão sobre o real tamanho do evento. Desde os 3 mil medidos no pedágio até os 70 mil da maior conta que vi, dando um passeio pelo Twitter, a disputa sobre a adesão à procissão da sexta-feira santa tomou conta das redes. (Vou deixar de fora a estimativa de R$ 20 milhões arrecadados de ICMS só com a gasolina das motos. Considerando um consumo de 30 km/l, 240 km de percurso, R$ 7,50 por litro e 25% de alíquota, teríamos 1,3 milhões de motos. Seria o milagre da multiplicação das motos).
Digamos que tenham sido 70 mil motos. Segundo o Detran, em abril de 2021 havia 1.076.861 motos na cidade de São Paulo. Considerando que a cidade represente 60% da população da região metropolitana, teríamos um total de 1,8 milhão de motos na Grande São Paulo que potencialmente poderiam participar do evento. 70 mil representam cerca de 4% desse total. Quantos eleitores esses 4% representam? Difícil dizer. Se um em cada 10 motociclistas eleitores de Bolsonaro tenham decidido aderir à motociata, esses 70 mil representariam 40% dos votos entre motociclistas. Em termos comparativos, as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff chegaram a juntar 2 milhões de pessoas na Paulista, ou mais de 10% da população TOTAL da região metropolitana, não somente de motociclistas. E é neste ponto que temos a pegadinha.
Note que temos uma amostra enviesada. Motociclistas, em geral, são homens e têm renda superior a 2 salários mínimos por mês. Nesse estrato da população, Bolsonaro colhe seus melhores resultados. Ele apanha entre os pobres e as mulheres. Portanto, 40% de uma parcela que lhe favorece (ainda mais em São Paulo, não no Nordeste) não parece ser algo que chame especialmente a atenção. E isso porque estressamos o número de motos (70 mil) e a proporção de motociclistas que votam em Bolsonaro dispostos a dar as caras no evento (10%).
Na verdade, pouco importa se foram 3 mil ou 70 mil. Como vimos acima, isso é pouco relevante do ponto de vista do número de votos. Bolsonaro conseguiu seu intento de produzir imagens marcantes e tomar conta do debate nas redes. Essas imagens serão usadas como “evidência” do grande apoio popular ao presidente, e como a derrota nas urnas somente pode ser explicada por fraude.
E antes que alguém lance mão do whataboutismo, o fato de Lula não ter se aventurado, por enquanto, em eventos públicos, não significa absolutamente nada. A coisa mais fácil de produzir são imagens de multidões, e elas serão produzidas pelo petista, podem estar certos. Bolsonaro foi muito esperto, e sacou essa da motociata, em que as motos ocupam muito mais espaço do que pessoas e passam a sensação de multidão muito mais facilmente. Serve como peça publicitária, mas não como antecipação do que será o voto na urna.
Meu amigo Cleveland Prates postou uma notícia inusitada: uma onça pintada teria sido “cancelada” no Twitter por ter “assassinado” uma capivara. Na verdade, o cancelado foi o fotógrafo da cena, que registrou o momento e postou em sua conta Biodiversidade Brasileira, que registra cenas da vida animal. Infelizmente, o tuíte foi apagado, então as reproduções abaixo são da reportagem do UOL.
Atribuir comportamentos humanos a animais não é algo novo. Os Irmãos Grimm, no século XVIII, compilaram várias fábulas envolvendo animais. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, conta a história de uma menina e sua avó, vítimas de um lobo “mau”. Bem, lobo não é mau ou bom, lobo é lobo, vai simplesmente seguir o seu instinto e caçar o suficiente para se alimentar. Mas na fábula o lobo personifica a maldade humana.
Walt Disney elevou à enésima potência a humanização dos animais. Ratos, cachorros, elefantes, leões, enfim, a fauna toda foi transformada em seres humanos, em um fenômeno que chamo de “disneyficação” da natureza. Crescemos nesse ambiente, a ponto de alguns realmente acreditarem que os animais tomam decisões morais, como demonstra as reações ao post da onça pintada que ataca a capivara. Ou, no mínimo, colocando filtros morais em atos envolvendo animais.
A coisa chega a níveis paradoxais. Brigas de galo, por exemplo, são proibidas, pois se trata de maus tratos a animais. No entanto, o boxe, que é uma especie de briga de galo com regras, é um esporte olímpico. A diferença está, claro, no livre arbítrio. Os boxeadores estão lá porque querem, ao passo que os galos são colocados para brigar contra a sua “vontade”. Claro, os galos não têm vontade, eles seguem o seu instinto quando colocados juntos. Quem reveste de moralidade este ato somos nós, os seres humanos.
Como tudo o que envolve decisões morais, a zona cinzenta é gigantesca. Muitos são vegetarianos porque entendem que a forma de criar e matar animais é desumana. Alguns, inclusive, atribuem aos animais características morais, o que faria da morte de um animal um assassinato, da mesma forma que a onça “assassina” a capivara. Seja pela forma de matar, seja pela morte em si, os animais são elevados à condição humana.
A grande confusão está em que o ser humano é bem parecido com os animais, mas só até certo ponto. Há algo que não compartilhamos com os animais, e esse algo é o nosso julgamento moral. Animais seguem seus institutos de sobrevivência em 100% do tempo. Nós também seguimos o nosso instinto de sobrevivência, mas somos capazes de outras considerações de ordem moral que limitam a nossa busca pela sobrevivência a qualquer preço. Duas pessoas em situação de desespero podem tomar decisões diferentes sobre como vão sobreviver, a depender de sua formação moral.
Nessa escala da natureza, é como se o ser humano pertencesse ao reino animal mas tivesse uma participação em uma espécie de centelha divina, o que o obriga, para o seu desespero, a estar, o tempo inteiro, classificando todos os atos do universo nas colunas de “certo” e “errado”. No filme “2001, Uma Odisseia no Espaço”, os macacos são todos iguais, até que um grupo encontra um monólito negro misterioso, que lhes dá a capacidade de fazer o bem e o mal. Aquele monólito significa essa “centelha divina” que nos diferencia de todo o reino animal, pois nos faz seres morais.
Hoje é sexta-feira santa, dia em que os cristãos recordam a morte de Deus. Deus não morre, por suposto, mas a fé cristã afirma que Deus se encarnou em um homem, e este homem morreu hoje. É, de alguma forma, o reconhecimento de que os seres humanos somos em parte animais e, em parte, deuses. Alguns resumem todos os conflitos humanos a uma simples luta pela sobrevivência, como se fôssemos puros animais com um cérebro maior. Discordo dessa visão. Os nossos conflitos são, antes de mais nada, morais. Lutamos pelo que achamos certo.
Jean Paul Prates deve ser o ministro das Minas e Energia em um futuro governo do PT. Para que ninguém reclame de que não foi avisado, ele deixa muito claras suas ideias. Que, de resto, são as velhas ideias do PT.
Segundo Jean Paul, a existência de estatais é imprescindível para sanar “falhas de mercado”. Por exemplo, não fosse a Petrobras, o Brasil não teria explorado petróleo em águas profundas. Ele “esquece”, obviamente, que os EUA tornaram-se o maior produtor de petróleo do mundo explorando o xisto sem que fosse necessária a presença de qualquer estatal. Também convenientemente esquece que nossa produção de petróleo está estagnada em cerca de 2 milhões de barris/dia faz anos. No início da década passada, com o pré-sal, a empresa previa uma produção de 4 milhões de barris/dia até 2020. Jean Paul cita também o gasoduto Bolívia-Brasil como uma obra que somente uma estatal poderia fazer. Sério?
Em 2013, uma outra “especialista” em setor elétrico resolveu mitigar “falhas de mercado” para baixar o preço da eletricidade. Não vou aqui entrar em detalhes técnicos, mas a MP 579, baixada pelo governo Dilma Rousseff, impôs perdas bilionárias às empresas do setor. Quer dizer, como se tratava de uma adesão voluntária, e as empresas privadas e estaduais não aderiram ao novo modelo proposto pela gênia da lâmpada do setor elétrico, a MP impôs perdas a apenas uma empresa, adivinha qual. Dica: termina com “bras”.
Resumo da ópera: a Eletrobras carregou sozinha o piano da redução das tarifas, e essa dívida bilionária está tendo que ser saudada através… do aumento do preço das tarifas. Realmente, estatais são muito úteis para fazer esse tipo de barbeiragem.
O que me deixa mais espantado é que o jornalista simplesmente “esquece” de perguntar ao ilustre deputado sobre este período. Parece que estamos diante de uma página em branco, que aceita qualquer desenho. É como se o governo Dilma, que foi um desastre para o setor elétrico, simplesmente não tivesse existido, e o PT tivesse carta branca para cometer os mesmos erros. Como disse o senador Prates, “o PT está comunicando desde já suas ideias”, para que ninguém se sinta enganado. Continua acreditando no “Lula pragmático” quem quer.
Os alunos brasileiros de Harvard organizam anualmente uma conferência sobre os problemas brasileiros. Neste ano de eleição, estão presentes todos os pré-candidatos à presidência da República: Ciro Gomes, João Doria, Eduardo Leite, Simone Tebet, Sergio Moro e, representando Lula, Jaques Wagner.
Sentiu falta de alguém? Sim, isso mesmo, cadê o André Janones?
PS.: se você acha que uma conferência que pretende discutir os problemas do Brasil deveria convidar um representante do governo brasileiro, é porque não alcançou o real significado da palavra “diversidade”, que orienta a escolha dos palestrantes.
Pedro Fernando Nery cai na provocação de Lula e se pergunta: será que nosso problema é que a “classe média” (definida pelo colunista como “aqueles que podem fazer escolhas”) consome demais?
Antes de começar, quero dizer que gosto dessa definição, aqueles que “podem fazer escolhas”. No mais miserável barraco da mais miserável favela brasileira você vai encontrar TV e celular. São escolhas, e essas pessoas entram na definição de Pedro Nery para a “classe média”. Sigamos.
Para início de conversa, é preciso reconhecer que, sem poupança não há investimento e, sem investimento, não há crescimento econômico. Este é o mais puro “supply side economy”, justamente o inverso do que Lula e sua camarilha econômica sempre propuseram, que o dinheiro “na mão do pobre” vira consumo e o consumo impulsiona o crescimento. Ciro Gomes pega bem essa contradição, ao chamar de “nacional-consumismo” o modelo econômico do PT, em contraponto ao seu “nacional-desenvolvimentismo”.
Mas voltemos à questão: o brasileiro “que pode fazer escolhas” consome demais? O que seria esse “consumir demais”? Lula refere-se à “ostentação” da classe média (vamos esquecer por um momento o relógio de R$80 mil que o pai dos pobres humildemente ostentava). Pedro Nery refere-se ao pouco gosto que “aqueles que podem fazer escolhas” têm pelo ato de poupar. Somos um país de consumistas.
Isso é verdade. Nosso nível de poupança é dos mais baixos do mundo. Mas o grande despoupador chama-se governo. No breve período de 15 anos em que fabricamos superávits primários (deve ter sido o único período na história do Brasil), usamos esta poupança para pagar os juros da dívida, fruto da despoupança dos anos anteriores. E, desde 2014, temos produzido novamente déficits primários. E de onde vem essa poupança que serve para pagar os juros da dívida e o déficit primário? Sim, vem da poupança dos que “podem fazer escolhas”.
O incentivo à poupança é baixo no Brasil. Temos uma história marcada por confisco e constantes surpresas inflacionárias. Assim, as pessoas que “podem fazer escolhas” escolhem consumir hoje a guardar o dinheiro para um amanhã que não sabem se vai chegar. Somos uma sociedade consumista, a começar do governo, o maior consumidor de todos.
Lula crítica a “ostentação” da classe média por motivos ideológicos. Ele mesmo deve achar esse discurso uma bobagem, mas falando aos seus, divide o mundo em “burguesia” e “proletariado”, sendo que seu partido é a vanguarda do proletariado. É permitida à vanguarda usar um relógio de R$80 mil, na medida em que está trabalhando para a libertação do proletariado de seus grilhões. “Ostentação” é uma categoria que se aplica somente à burguesia, que trabalha para a manutenção de seus privilégios. Pedro Nery toma esse discurso de Lula como uma chamada à poupança. Nada mais longe da realidade.
Acho graça quando bolsonaristas repercutem a narrativa de que o governo fez um “ajuste fiscal”, citando, para isso, o superávit primário de 2021 e a queda da relação dívida/PIB. Faz-me lembrar dos petistas que comemoravam o “espetáculo do crescimento” de Lula. Naquele tempo, os economistas amargurados insistiam que o crescimento na base de anabolizantes cobraria o seu preço em algum momento no futuro. A recessão de Dilma confirmou os prognósticos mais sombrios. Agora, esses mesmos economistas insistem que esse “ajuste fiscal” feito com base na surpresa inflacionária pode terminar muito mal.
Vamos entender o conceito. O grau de saúde fiscal de um país é medido pela trajetória da relação dívida/PIB. Se há uma estabilidade ou tendência de queda, os financiadores da dívida tendem a ficar calmos. Por outro lado, se a tendência é de aumento sem fim, os financiadores tendem a ficar nervosos, e pedem taxas de juros cada vez maiores para rolar a dívida. Pois bem: para que essa relação caia, é necessário que o PIB cresça acima da dívida, em termos nominais. O crescimento do PIB nominal, por sua vez, tem dois componentes: o seu crescimento real mais a inflação. Já o crescimento da dívida depende do tamanho das taxas de juros e de novas dívidas.
O que aconteceu em 2021? O PIB nominal cresceu cerca de 15%, sendo 4,5% real mais 10,5% da inflação. E o que aconteceu com a dívida? Como as taxas de juros perderam a corrida para a inflação (quem tem aplicação no Tesouro Direto sabe do que estou falando), a dívida cresceu menos do que o PIB. Além disso, as receitas do governo foram turbinadas pela inflação, ao passo que uma parte das despesas ficou congelada. Não é à toa que o funcionalismo público está indo para a greve. Então, tivemos aumento do PIB nominal maior que da dívida, e aumento da receita maior que da despesa. Tudo graças à inflação, ao rendimento pífio das aplicações financeiras e ao congelamento do salário do funcionalismo.
Aqui entra a manchete da reportagem do Valor.
A surpresa inflacionária de março pode estar indicando que teremos, mais uma vez, um efeito inflacionário sobre a dívida pública, diminuindo a relação dívida/PIB em 2022 a exemplo do que ocorreu em 2021. Note, e isso é de grande importância, que não estamos falando de inflação, mas de “surpresa inflacionária”. Para que a mágica funcione, é preciso que a inflação pegue de surpresa os agentes econômicos, não dando tempo de repassar para os juros a surpresa na inflação. Se não há surpresa, a dívida cresce tanto quanto o PIB, e não há efeito sobre a relação dívida/PIB.
Em um país com instituições monetárias funcionando, o BC reage ao aumento da inflação aumentando os juros mais do que proporcionalmente. Então, no 2o tempo do jogo temos a dívida crescendo mais do que o PIB, seja porque o seu custo aumenta, seja porque a atividade econômica se desacelera, diminuindo o crescimento da arrecadação. Sem contar as reposições salariais da inflação passada. Ou alguém acha que é possível manter os salários dos servidores públicos congelados para sempre?
Assim, para manter a bicicleta em pé, é necessário sempre produzir novas surpresas inflacionárias. Esta era a dinâmica da época da hiperinflação, em que a inflação andava ”aos saltos”, sempre mantendo os agentes econômicos desfasados em relação ao grande vencedor no processo, a dívida do governo. Esta também era a dinâmica do processo de “crescimento” dos governos do PT, que necessitava de cada vez mais estímulos para manter a bicicleta em pé, até que o dinheiro acabou.
Comemorar a “redução da dívida” feita com base em surpresa inflacionária é o mesmo que comemorar gol claramente ilegal. A diferença é que, no futebol, o próximo jogo começa no 0 x 0 e não existe a obrigação de “compensar” o gol roubado. Já na economia, as distorções se acumulam de um jogo para o seguinte e, mais cedo ou mais tarde, precisarão ser compensadas. Pelo bem ou pelo mal.
Nem vou entrar no mérito das preferências políticas de André Fran, quem quiser saber é só dar uma googlada. O ponto não é este.
A questão é chamar de doente (ou de gado, ou de idiota, ou de esquerdopata, ou de <complete aqui>) quem pensa diferente. Cada ser humano tem sua própria escala de valores, construída desde o útero materno e forjada pelas mais diferentes experiências de vida. Não concordar com a escala de valores de alguém porque não bate com a nossa é uma coisa. Outra coisa é atribuir algum desvio de caráter ou alguma falha na saúde mental de quem pensa diferente.
Essa discussão é muito delicada. Afinal, há realmente desvios de caráter ou doenças mentais que podem levar a comportamentos socialmente indesejáveis. Por exemplo, ninguém, em sã consciência, aprovaria o comportamento dos Nardonis.
Mas há uma linha que separa o crime ou a doença da preferência política. Muitos atribuem ao mau caráter ou a uma doença o apoio a este ou àquele político, quando, na verdade, há uma diferença de escala de valores. E, por que não dizer, preferências subconscientes que fazem as pessoas simpatizar e antipatizar com políticos diferentes. Aliás, desconfio de que seja este o fator determinante, muito mais importante do que um check list de atributos morais.
Partir do pressuposto de que o outro lado é doente ou canalha não é um bom começo para qualquer discussão. Claro, se há o interesse de se ter alguma discussão. A política é o campo onde se procura chegar a consensos em meio à discórdia e é impossível fazer política em clima de torcida organizada. Os políticos profissionais sabem disso, e é por isso que se dão muito melhor entre si do que os seus respectivos apoiadores admitem.
Não se trata aqui de achar que todos os atos dos políticos são defensáveis, a depender da escala de valores de cada um. O único ponto é admitir que o outro pode não ser doente ou canalha por não concordar conosco. Isso já seria um bom começo.
Abaixo, a votação de Geraldo Alckmin no estado de São Paulo desde que começou a concorrer em eleições majoritárias (quando há dois números, referem-se à votação no 1o e 2o turnos).
2002: 7,5 / 12,0 milhões
2006: 11,7 / 11,6 milhões
2010: 11,5 milhões
2014: 12,2 milhões
2018: 3,1 milhões
Alguns pensam que Alckmin abandonou o seu eleitorado ao aliar-se a Lula. Na verdade, foi o seu eleitorado que o abandonou em 2018. Bolsonaro conquistou 17,5 milhões de votos no estado no 1o turno, e Alckmin teve menos votos no seu estado que Haddad e Ciro Gomes.
Tendo sido abandonado pelo seu eleitor e pelo seu partido, Geraldo Alckmin agarrou-se à primeira boia que encontrou para manter-se em evidência no cenário político nacional. Era isso, ou era voltar a ser comentarista de medicina no programa do Ronnie Von.
Chico Anísio, com a sua Escolinha do Professor Raimundo, manteve em atividade comediantes em fim de carreira, dando-lhes espaço na TV e, ao mesmo tempo, fazendo um programa de sucesso ao gosto do público. Lula, a exemplo de Chico, mantém em atividade um político que, de outra forma, estaria neste momento amargando o ostracismo e, de quebra, faz um programa político ao gosto de certo público.
No entanto, os comediantes da Escolinha foram chamados a fazer o que sempre fizeram. O humor pode não ser para todos os gostos, mas não se pode acusá-los de trair a sua herança. Alckmin, ao contrário, assumiu um papel que não tem nada a ver com o seu passado. Seria como se um desses comediantes aceitasse participar de um filme pornô só para ter um emprego.
Geraldo Alckmin deu uma banana para o eleitorado que o abandonou e, ao invés de terminar a carreira de maneira digna, decidiu participar de um filme pornô. Triste fim de um político que já foi a esperança de muitos brasileiros.