Uma análise dos economistas da Casa das Garças, de tendência social-democrata, conclui que o Brasil vai avançando lentamente na direção correta. Todos os governos pós democratização, de alguma forma, contribuíram para esses avanços.
Todos os governos?
A reportagem não chama a atenção para uma ausência ilustre nessa linha do tempo: o governo de Dilma Rousseff. Com a sua “Nova Matriz Econômica”, o governo Dilma, na verdade, contribuiu para dar marcha à ré nessa caminhada. Não à toa, vivemos a pior recessão da história brasileira durante o seu governo.
Lula omite a sua cria de todas as formas. Caberá aos seus adversários na campanha fazer a ligação entre os dois, mostrando que os “heydays” do governo Lula terminaram no desastre do governo Dilma.
Tem um bode na sala do Lula. Vamos ver se e quando começará a feder.
Há pouco tempo, escrevi um post sobre os dilemas éticos da inteligência artificial. Será que algum dia as máquinas poderão tomar decisões que envolvem escolhas morais?
Hoje, uma reportagem trata desse assunto de um ponto de vista prático: armas letais autônomas. Seriam essas armas capazes de substituir soldados humanos durante uma batalha?
Em primeiro lugar e antes de tudo, o nome “robôs assassinos” já implica, em si, em um julgamento moral. A ser assim, deveríamos chamar os soldados igualmente de “assassinos”, o que pode ser até adequado para aqueles que execram a guerra a qualquer custo, mas não ajuda a resolver o dilema ético das armas autônomas. O problema, nesse caso, estaria na guerra em si, e não a quem se delega a tarefa de matar. Como vou supor, apenas para seguir adiante, que há guerras necessárias, chamarei esses dispositivos de “armas autônomas”, um termo moralmente neutro.
No início do filme Robocop, um executivo de uma empresa de robôs apresenta um protótipo de robô policial em uma reunião do conselho. O robô apresenta uma pane e assassina um dos membros do conselho. Obviamente o projeto é engavetado, e dá lugar a um outro, em que um ser humano recebe partes de um robô. Temos assim a força e a indestrutibilidade de um robô, aliados ao julgamento de um ser humano. A união perfeita, que descarta o uso da inteligência artificial na tomada de decisões morais.
Este parece ser o receio dos que se opõem ao uso dessa tecnologia. “Como a IA distinguirá alguém se rendendo, ou um adulto de uma criança, ou alguém segurando uma vassoura de alguém segurando uma bazuca?”, perguntam-se, angustiados.
Mas essa é a parte mais fácil da tarefa. Com o avanço da tecnologia, essas distinções ficarão cada vez mais precisas. O problema moral é qual decisão a se tomar ao se identificar corretamente a situação.
Em uma determinada cena do filme Sniper Americano, o protagonista identifica uma criança recebendo uma carga explosiva, que seria levada para os insurgentes no Iraque. A criança foi corretamente identificada. E agora, o que fazer com essa informação? O sniper mata a criança? Ou a deixa viva, o que significará a morte de muitos soldados? A IA pode ser programada com uma árvore de decisão desse tipo e cumprirá o papel para a qual foi programada. O sniper humano cumprirá sua missão da mesma forma, e depois voltará com distúrbios mentais para casa.
Armas autônomas tomarão decisões conforme uma hierarquia de valores previamente programada. Pode-se argumentar que essas máquinas serão mais mortíferas porque podem ser programada para serem “suicidas”, ou seja, darem valor zero para a sua própria preservação, o que lhes deixaria em vantagem sobre humanos com instinto de sobrevivência. Isso é verdade. Mas não consigo deixar de pensar nos kamikazes na 2a guerra, ou nos terroristas suicidas do ataque às torres gêmeas. Não precisamos de robôs para missões suicidas, seres humanos podem ser “programados” da mesma forma.
Enfim, pode-se argumentar que a tecnologia não está suficientemente avançada para confiar missões de ataque a armas autônomas. Mas esse não é, em si, um dilema ético, é só um problema tecnológico. Quando a tecnologia tiver avançado o suficiente será adequado delegar a tarefa de matar em uma guerra? Essa é a questão a ser respondida.
Eugênio Bucci escreve hoje um artigo de comover o mais duro dos corações revolucionários. Eu ia destacar um trecho ou outro, mas resolvi reproduzi-lo por inteiro, pois se trata de uma peça única, sem costura.
O artigo trata da população de rua de São Paulo e aborda três aspectos: a glamourização de quem mora na rua, a eleição de culpados e a omissão dos “bons”.
A glamourização ocupa a maior parte do artigo. É de uma poesia que nos faz pensar se realmente aquelas pessoas necessitam de ajuda. São muito ordeiros, conversam como se estivessem em uma cidadezinha do interior e a moça é uma Cleópatra perdida na cidade grande. Temos muito a aprender com eles. Quase chegamos a pensar que a sua felicidade não merece ser interrompida.
No entanto, esse quadro idílico é abruptamente comparado com o gueto de Varsóvia. Sim, porque as situações são realmente muito comparáveis: lá, como aqui, temos um ditador que ordena arbitrariamente que famílias inteiras se mudem de suas casas para um determinado bairro. Reductio ad hitlerum detectado.
E quem seria esse ditador malévolo, que condena famílias inteiras à felicidade de morar na rua ou ao indizível sofrimento de viver em um gueto? (Eu realmente fiquei confuso com esse paradoxo). O suspeito de sempre: o sistema financeiro, que é o suco concentrado do capitalismo. Ah, esses hitlerizinhos que só pensam em seus lucros, gerando os sem-teto por algum processo não explicitado no texto. Nem precisa, porque está claro que o capitalismo é o mal.
O texto foi construído pelo articulista para arrancar suspiros dos seus pares em saraus regados por um bom vinho ao calor de uma lareira em uma casa alugada através do Airbnb em Campos do Jordão ou em um bar transado na Vila Madalena, onde, como sabemos, se tem a fórmula para acabar com todos os problemas do mundo: substituir o capitalismo selvagem por um outro mundo possível.
Aqui termina minha análise do texto e começa minha análise da situação. Como não sou poeta, a análise irá vazada em bullet points, como todo bom financista da Faria Lima faria:
– A população pobre vive nas periferias e nas favelas. O problema da população de rua extrapola a questão da pobreza, envolve drogas e doenças mentais. Está longe, muito longe, da glamourização que a esquerda faz da pobreza.
– A última informação que eu tenho, em conversa com uma assistente social da prefeitura, é que sobram vagas nos abrigos. Há uma relutância de dormir nesses abrigos por vários motivos. Não há como forçar as pessoas a deixarem as ruas. Qualquer iniciativa nesse sentido seria taxada pelos Buccis da vida como “higienização”. Já vejo um artigo comparando os abrigos a câmaras de gás.
– A esquerda normalmente torce o nariz para iniciativas, geralmente de cunho religioso, visando a mitigação dessa situação. Qualquer ação nesse sentido esconde a chaga do capitalismo e adia a verdadeira transformação da sociedade em um outro mundo possível. É preciso que essas pessoas continuem onde estão, de modo a lembrar a todos, o tempo inteiro, o quão cruel é o sistema em que vivemos.
– Por fim, meu usual suspeito para essa situação: pessoas como Bucci, que vivem do salário pago com o imposto cobrado dos descamisados, e que subsidia uma universidade para os filhos da classe média, para que estes aprendam como o sistema capitalista é perverso e, depois, escrevam artigos que arranquem suspiros do mais empedernido revolucionário.
Termino com uma música da Rita Lee que sempre me vem à mente quando leio artigos desse tipo:
“Me cansei de lero-lero / dá licença mas eu vou sair do sério / quero mais saúde / me cansei de escutar opiniões / de como ter um mundo melhor / mas ninguém sai de cima / desse chove-não-molha / eu sei que agora / eu vou é cuidar mais de mim”
Ontem repercuti um post de Felipe Neto, em que o youtuber “prova” que a meritocracia é uma ilusão. Seu argumento? O pai de Elon Musk era um rico dono de jazidas de diamantes na África do Sul. Além disso, o dono da Tesla havia estudado nos melhores colégios canadenses. Portanto, não haveria mérito algum em ter se tornado bilionário. Afinal, suas condições iniciais foram muito melhores do que podem sonhar a imensa maioria dos mortais do planeta.
A mesma polêmica se deu com um post de Rodrigo Silva, responsável pelo site Spotnicks, em que uma casa pobre em um bairro suburbano é apresentada como o primeiro endereço do Nubank. Foram muitas as reações negativas, lembrando que os fundadores do banco mais valioso da América Latina vieram de famílias ricas e estudaram nas melhores universidades, tanto aqui quanto lá fora.
De fato, se observarmos a vida dos fundadores dessas empresas bilionárias, vamos provavelmente descobrir pessoas que nasceram em famílias em boas condições financeiras. Restaria provado, portanto, que o mérito pessoal não conta para nada, essas pessoas estariam fadadas ao sucesso fazendo o que quer que fosse.
Esse raciocínio é, obviamente, uma falácia. Se Elon Musk eventualmente pode ter contado com a fortuna do pai para dar um bom pontapé inicial em sua própria fortuna, o mesmo não se pode dizer de Bill Gates, Mark Zuckerberg, Steve Jobs ou Warren Buffet, vindos de famílias da classe média alta americana.
E mesmo no caso de Musk, o raciocínio inverso também prova a falácia: quantos filhos de milionários criam tantas empresas disruptivas quanto PayPal, Tesla e SpaceX? Quantos nascidos em berço esplêndido se tornam o homem mais rico do mundo? Na verdade, normalmente ocorre o inverso. É conhecido o ditado “pai rico, filho nobre, neto pobre”. O empreendedor de sucesso deixa como herança a sua fortuna mas não o seu talento (outra palavra proibida, a exemplo de mérito). Tente encontrar na lista dos mais ricos da Forbes a quantidade de herdeiros de terceira geração em diante. Onde estão os herdeiros de Rockefeller, o homem mais rico de seu tempo? Por que suas condições iniciais privilegiadas não serviram para os guindar às primeiras posições no ranking, normalmente ocupadas por “forasteiros”?
Um outro exemplo que alguns levantaram foi o do campeão da F1 Max Verstappen. O mérito do holandês seria limitado, se é que existiria, porque seu pai também foi um piloto de F1, o que o teria colocado em uma posição privilegiada desde o berço. Sim, se compararmos Max comigo, que só vi um carro de F1 pela TV. Não, se considerarmos que outros descendentes de campeões da F1, em condições iniciais semelhantes às de Max, como Nelsinho Piquet e Christian Fitippaldi, terem sido pilotos medíocres. Somente ter um pai piloto de F1 explica o sucesso de Verstappen? E o que dizer de Lewis Hamilton, cujo pai dirigiu, no máximo, o carro da família?
Essa discussão sobre mérito e meritocracia está distorcida porque se compara todos os seres humanos entre si. Então, é claro que um Elon Musk, nascido em berço esplêndido, tinha muito mais chance de se tornar bilionário do que um favelado brasileiro. Isso é o óbvio ululante. A meritocracia bem entendida não abdica de considerar as condições iniciais. O “sucesso” de um ser humano é a resultante das condições iniciais mais o mérito pessoal.
O gráfico abaixo ilustra esse ponto, ao relacionar fortuna com condições iniciais.
Se o mérito pessoal não contasse para nada, todos os seres humanos se encontrariam na reta. Ou seja, as condições iniciais responderiam por 100% do sucesso do indivíduo. Mas os exemplos acima, assim como muitos outros em todas as faixas de renda, mostram que não é bem assim: pessoas com aproximadamente as mesmas condições iniciais atingem graus de sucesso completamente diferentes. Um certo retirante que virou presidente da república ilustra a tese.
Os mais céticos dirão que as condições iniciais não se limitam ao berço. Nascemos diferentes e não escolhemos os talentos e os defeitos com que nascemos. Então, Musk ou Zuckerberg nasceram com um talento especial para negócios, não tendo mérito nenhum nisso. Essa tese nos leva longe, pois nega o papel da liberdade humana. Seríamos robôs programados para o sucesso ou o fracasso e o mérito pessoal, aí sim, seria uma ilusão. Bem, para aqueles que acreditam que o mundo é aleatório assim, não tenho muito a dizer, a não ser boa sorte.
A meritocracia não exclui, de maneira alguma, uma discussão séria sobre nivelamento de condições iniciais. Quantos talentos não se perdem porque estão sob os escombros de uma vida muito difícil no nascimento? Muitos dos ataques ao conceito de meritocracia têm essa preocupação de fundo, o que é legítimo. No entanto, um mundo sem a valorização do mérito seria um mundo em que aqueles com talentos especiais não se sentiriam motivados a colocar seus talentos a serviço da humanidade. É a premiação do mérito pessoal que faz com que a humanidade progrida. São os melhores dentre nós que puxam a humanidade para cima. Procurar ser o melhor dentro das suas condições iniciais é o que chamamos de meritocracia.
Encerro com a mais antiga história de meritocracia que conheço: a parábola dos talentos. Jesus conta de um administrador que, para testar seus três empregados, lhes concede cinco, duas e uma moeda. Os que receberam cinco e duas moedas negociaram e obtiveram outras cinco e duas moedas, dobrando a sua riqueza. Já o que recebeu uma moeda a enterrou. O administrador não ficou pau da vida porque o que recebeu menos tinha menos. Sua irritação derivou do fato de que aquele que havia recebido menos não havia colocado seus poucos talentos para trabalhar. A quantidade inicial de moedas não está sob controle das pessoas, mas o que fazemos com elas, sim. Essa é a definição de meritocracia.
A edição em português do El País, “apesar de ter uma grande audiência”, não atingiu seu equilíbrio financeiro.
Bem, das duas uma: ou os jornalistas do veículo ganhavam muito bem, ou a audiência não era assim tão grande.
Está um verdadeiro chororô nas redes lamentando o fechamento do jornal. Inclusive, gente reclamando que um jornal “progressista” não poderia demitir seus funcionários assim, de repente, ainda mais às vésperas do Natal. Seria uma incoerência com a sua, digamos, linha ideológica.
O fato é que nada resiste a um balanço deficitário, a não ser que o governo subsidie. Como sabemos, o único ente que pode ter déficit eterno é o governo, pois tem o poder de criar dinheiro ”do nada”. O resto precisa ter, no dizer do jornal, “sustentabilidade econômica”.
A “grande audiência” do jornal, pelo visto, não foi suficiente para manter a edição em português. Isso que dá depender da população da Vila Madalena e do Leblon, sabidamente bairros com baixa densidade populacional.
A Câmara aprovou ontem o novo marco regulatório das ferrovias, que permite a construção por meio de simples autorização ao invés de concessão. Esse novo marco deve permitir o surgimento de ferrovias privadas de acordo com necessidades específicas das empresas.
O marco das ferrovias vem se juntar a outros avanços microeconômicos deste governo, como o marco do saneamento, a nova regulação do mercado de câmbio, a autonomia do Banco Central e, last but not least, a reforma da Previdência.
Sempre que critico algo que o governo não fez, como as reformas tributária e administrativa ou o ritmo pífio das privatizações, é comum alguém nos comentários tentar justificar, dizendo que o governo depende do Congresso, não dá pra fazer tudo sozinho etc.
É claro que, em um regime democrático, o presidente é limitado pelo Congresso. Mas também é verdade que, em um regime presidencialista, o presidente bate o bumbo do governo. A aprovação desse marco das ferrovias é um exemplo acabado: como o governo tinha alto interesse em sua aprovação, editou uma medida provisória para “acelerar” o processo. Funcionou.
Transferir os fracassos para a conta do Congresso supõe transferir também os sucessos. Nesse caso, o presidente faria apenas o papel de uma rainha da Inglaterra, enquanto o Congresso governaria de fato. Sabemos que não é assim no regime presidencialista brasileiro. Não à toa, Bolsonaro não demorou a desistir da historinha da “nova política”.
Parabéns ao governo pela aprovação de mais esse marco importante para aumentar a produtividade da economia brasileira. Uma pena que não tenha havido o mesmo empenho para avançar as reformas tributária e administrativa, que levariam o país a outro patamar.
Em reportagem de hoje no Valor Econômico sobre o eterno desafio de despoluir a baía da Guanabara, o jornal publicou uma tabela com o percentual da população dos municípios do entorno da baía que contam com tratamento de esgoto.
A tabela é autoexplicativa e diz muito sobre o Brasil das corporações, dos políticos clientelistas e da mentalidade estatista, que se unem contra os interesses da população mais pobre. A privatização da CEDAE foi arrancada a fórceps, dentro de um acordo de renegociação da dívida do estado do RJ. Não fosse por isso, ainda estaria servindo de troféu para os estatistas e de eterna fonte de benesses para as corporações e para os políticos clientelistas. Enquanto isso, as crianças chafurdam no esgoto. E são os “neoliberais” que não têm coração.