O amor cega

– Amor, que cara é essa?

Edneia notou que havia algo errado assim que entrou em casa. Seu marido estava sentado no sofá, com aquele fogo nos olhos que ela conhecia de outros carnavais.

– Senta aí, Edneia.

Sinal péssimo. Chamou pelo meu nome, pensou Edneia. Nesses momentos, o apelido “Neia” era guardado na gaveta.

– O que foi, Nil, o que aconteceu? Edneia pensava que usando o apelido carinhoso de Adnilson poderia desanuviar o ambiente. Ledo engano.

– Vem ver o que me mandaram. Adnilson abriu o notebook e deu play. Ali estava claro: Edneia e um homem transando. Não havia dúvida, era Edneia. E não havia dúvida, estavam transando. O nome do motel estava em uma placa na parede. O motel ficava perto de sua casa.

– E-E-Eu posso explicar!

– Explicar o quê, Edneia! Não tem explicação isso aqui! Vou ligar para o meu advogado agora mesmo para pedir o divórcio!

– Calma, Nil, me ouça! Vou explicar!

– Ok, sou todo ouvidos, vamos lá.

– Veja, esse rapaz, ele trabalha na empresa. Ele é muito bom, está fazendo um curso de enfermagem à noite. Me convidou para um almoço nesse motel. Achei estranho, mas fui. Enquanto estávamos almoçando no quarto, ele me pediu para realizar alguns procedimentos que ele havia aprendido no curso. Foi só isso, juro!

– Então vocês foram ao motel só para almoçar?

– Isso!

– E esses movimentos são práticas do curso de enfermagem?

– Exatamente!

– Puxa, Neia, como pude desconfiar de você. Vem cá meu amor, você me perdoa?

– Claro Nil, eu sei que as coisas nem sempre são como parecem…

E se beijaram apaixonadamente.

Moral da história: o amor cega.

O vírus chinês

Bolsonaro deu vazão mais uma vez, ontem, a uma de suas teorias da conspiração de estimação: a China declarou guerra “química, bacteriológica e radiológica” ao mundo. A evidência? O país foi o que “mais cresceu o seu PIB”. Mais evidente que isso, só as provas insofismáveis de que a Terra é plana.

Vamos lá. A China vinha crescendo a mais de 6% ao ano antes da crise. Em 2020 cresceu apenas 2%. Perdeu, portanto, 4 pontos percentuais de PIB em 2020. O Brasil crescia 1% ao ano antes da crise. Decresceu 4% em 2020. Perdeu, portanto, 5 pontos percentuais de PIB. Reforçando: a China perdeu 4 pontos percentuais de PIB e o Brasil, 5. Não parece ser uma grande diferença, não é mesmo?

Além disso, a resposta da autoridades chinesas ao vírus foi muito mais violenta. Se aqui estamos reclamando da “perda das liberdades”, é porque não vivemos na China. Lockdown lá é lockdown, não esse arremedo que temos aqui. Resultado: números de infectados e óbitos muito menores do que no mundo ocidental. É até provável que os chineses estejam escondendo os números reais, mas a diferença é tão gritante que, mesmo o número real deve ser muitas vezes menor que o que vimos na Europa e Américas. Aliás, os números chineses estão em linha com os de outros países do Sudeste Asiático e mesmo Japão, Austrália e Nova Zelândia, que, igualmente, implantaram medidas draconianas de controle da pandemia. O resultado: a China e estes outros países puderam voltar antes a uma vida mais ou menos normal.

Por fim, em um mundo globalizado, não parece ser uma tática muito inteligente acabar com seu mercado consumidor e fornecedor. Crescimento econômico não é um jogo de soma zero, em que o meu crescimento depende do decrescimento do outro. Crescimento econômico é um jogo cooperativo de criação de valor. O vírus, que claramente destrói valor, só é instrumento de crescimento econômico na cabeça de paranóicos.

Como toda teoria da conspiração, a tese do “vírus chinês” é plausível à primeira vista, assim como a sensação de que a Terra é plana quando se olha para o horizonte. Mas, como toda teoria da conspiração, não para em pé diante de argumentos nem tão sofisticados.

Sim, a China é uma ditadura. Sim, a China tem aspiração a ser uma potência hegemônica. Mas eles não chegaram aonde chegaram sendo idiotas a ponto de atacarem seus principais parceiros comerciais.

Gente apavorada também vota

A vacinação em massa é a única forma de voltarmos à normalidade. Em meio a inúmeras teses e narrativas, este talvez seja o único fato incontroverso, que é aceito por pessoas de diferentes orientações políticas.

E note que não me referi à sua vacinação ou à minha vacinação. Referi-me à “vacinação em massa”. Uma campanha de vacinação contra uma doença transmissível entre humanos só tem efeito se houver uma cobertura mínima que diminua a probabilidade de transmissão. Não se trata de “eu” ficar protegido (mesmo porque nenhuma vacina tem 100% de eficácia), mas de “eu” não servir de vetor de transmissão para “os outros”. Trata-se de imunidade de rebanho, não de imunidade individual. E quanto menos eficaz for a vacina (a Coronavac é a menos eficaz das vacinas, seguida da Astra Zeneca), maior deve ser a cobertura vacinal para se atingir a imunidade de rebanho.

Pois bem. O presidente cedeu o seu “lugar na fila da vacina” para os mais “apavorados”.

A bobagem se dá em três níveis.

Em primeiro lugar, trata-se de um tiro no pé (mais um) do ponto de vista político. Sabemos que não há vacinas suficientes, e este é justamente um dos pontos fracos (talvez o mais fraco no momento) do governo. Ao invés de passar uma mensagem de tranquilidade, de que está tudo sob controle, de que as vacinas chegarão para todos, o presidente faz o inverso: não há vacinas para todos, por isso, estou cedendo meu lugar na fila. É o reconhecimento tácito de que o governo não fez a lição de casa.

Em segundo lugar, o presidente da República serve de exemplo. Suas atitudes são seguidas não somente pela sua grei mais leal, mas por todos os cidadãos que não têm um posicionamento político claro. Vacinar-se transmite a mensagem de que a vacina é segura e de que é importante vacinar-se. A rainha tomou a vacina, Trump tomou a vacina, Biden tomou a vacina, Netanyahu tomou a vacina. Não tenho um acompanhamento sistemático, mas é provável que Bolsonaro seja o único líder político do planeta que ainda não tenha tomado a vacina. Ao vixe da falta de vacinas soma-se o eita do mau exemplo.

Por fim, o discurso adotado, só para não variar, é de confrontação, não com adversários políticos, mas com uma parcela da própria população. Chamar de “apavorado” quem quer tomar a vacina é o caminho certo para criar uma animosidade que só produz perdas para o seu capital político. Lula e o PT cansaram de fazer isso, ao chamar de “preconceito contra o pobre” a oposição legítima que se poderia fazer às políticas dos governos petistas. Não foi uma boa estratégia, como se viu. Bolsonaro cai no mesmo erro: posa de “valentão”, superior aos maricas “apavorados”. Pode fazer sucesso junto aos seus seguidores, mas não me parece uma coisa inteligente a se fazer.

Por falar em inteligência, sofremos sob um governo liderado por uma presidente que era muito voluntariosa, mas que parecia ter uma inteligência limítrofe. Essa atitude do presidente segue essa infeliz tradição.

Uma sinalização

“Estou aguardando o povo dar uma sinalização”. Para quê? “Para tomar providência”. O que quer que isso signifique.

Temos, na história do Brasil, dois presidentes que pediram sinalização para o povo.

O primeiro foi Jânio Quadros. Renunciou, esperando que o “povo” o reconduzisse em triunfo para o Palácio do Planalto. Os brasileiros receberam a renúncia com frieza.

O segundo foi Collor. Pediu que o “povo” usasse verde e amarelo em seu apoio. Os brasileiros usaram preto.

Por outro lado, quando os brasileiros realmente foram para as ruas, a “sinalização” não foi nada boa para os governantes de plantão.

Em 1964, o povo na rua sinalizou que não queria mais Jango.

Em 1984, o povo na rua sinalizou que não queria mais a ditadura militar.

Em 1992, o povo na rua sinalizou que não queria mais Collor.

Em 2016, o povo na rua sinalizou que não queria mais Dilma.

Pedir “sinalização” para o povo é sinal de fraqueza, não de força. E os tubarões sentem cheiro de sangue na água de longe.

Cuidado com os seus desejos

Bolsonaro, ontem, acusou Barroso de fazer “politicalha” e desafiou-o a ordenar também a abertura de processo de impeachment contra membros do próprio STF.

Li argumentos nessa linha ao meu post de ontem. Fui investigar.

O impeachment de ministros do Supremo está previsto na Constituição (art. 52, inciso II – qualquer cidadão pode pedir o impeachment de um ministro do Supremo) e é regrado pela Lei 1079, de 1950. Os artigos 41 a 73 são os que regem o processo de impeachment dos ministros do Supremo.

O artigo 44 diz o seguinte: “Recebida a denúncia pela Mesa do Senado, será lida no expediente da sessão seguinte e despachada a uma comissão especial, eleita para opinar sobre a mesma”.

Parece claro, não? Uma vez recebida a denúncia, a mesma será lida na sessão seguinte e despachada para uma comissão especial. Aparentemente, não há discricionariedade possível por parte do presidente do Senado ou da mesa diretora. Deveria ser um procedimento automático: recebe a denúncia, lê e instaura comissão para análise. É isso, por exemplo, que defende Roberto Jefferson, em trecho de sua denúncia contra Edson Fachin, que destaco abaixo.

Portanto, qualquer cidadão poderia entrar com recurso junto ao STF para exigir a instauração de um processo de impeachment no Senado contra membros do Supremo, com o mesmo argumento (prevaricação) que valeu para a instauração da CPI da pandemia.

Mas…

Mas nem sempre as coisas são como parecem.

A mesma Lei 1079 rege o impeachment do presidente da República. O seu artigo 19 reza o seguinte: “Recebida a denúncia, será lida no expediente da sessão seguinte e despachada a uma comissão especial eleita, da qual participem, observada a respectiva proporção, representantes de todos os partidos para opinar sobre a mesma.

”Observe a quase exatamente mesma redação que vimos no artigo 44. Não caberia, aqui também, a discricionariedade do presidente da Câmara ou da mesa diretora. Recebeu a denúncia, leu no expediente seguinte, encaminhou para uma comissão especial. Procedimento automático.

Como é de saber comum que o encaminhamento de um pedido de impeachment contra o presidente depende da boa vontade do presidente da Câmara, cabe analisar melhor a redação dos artigos 19 e 44 da Lei 1079.

“Receber”, neste caso, creio que tenha o sentido de “acatar”. Não se trata, no contexto, de um verbo passivo, no sentido de receber uma correspondência, mas ativo, no sentido de reconhecer que aquilo é uma denúncia válida. Portanto, cabe discricionariedade. É o mesmo sentido que os noivos dão ao verbo receber quando dizem na cerimônia do casamento: “recebe esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Os noivos recebem a aliança podendo recusá-la, se não estão dispostos, por algum motivo, a assumir o compromisso que ela representa.

Se assim não fosse, todos os 61 pedidos de impeachment contra o presidente que estão engavetados teriam que ser automaticamente colocados para caminhar dentro da Câmara.

Quando Bolsonaro desafia Barroso a fazer caminhar os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo, do mesmo modo qualquer ministro do STF poderia obrigar o início dos procedimentos para os pedidos de impeachment contra o presidente.

Cuidado com os seus desejos.

A busca pela terceira via

Tenho observado com vivo interesse o movimento para encontrar uma terceira via para enfrentar os “extremos” representados por Bolsonaro e Lula. Muitos não querem (eu me incluo) ter que escolher entre os dois no 2o turno de 2022.

Para tanto, muito se tem falado em unificar a candidatura de centro, pois a chance seria maior de passar para o 2o turno contra um dos dois. Será?

Fiz uma pesquisa em todas as eleições desde a redemocratização. As duas únicas eleições em que a soma das votações de todos os candidatos que não os dois mais votados excedeu a votação do 2o colocado (ou seja, esse hipotético “tercius” teria ido ao segundo turno) foram as eleições de 1989 e 2002.

Em 1989, a soma das votações de Brizola, Covas, Maluf, Afif, Ulysses e uma longa lista de outros candidatos somou 50,8%, bem mais do que os 16,7% obtidos por Lula, o segundo colocado. Na verdade, em tese, se somente Brizola e Covas tivessem se unido, os seus 27,2% de votos teriam tirado Lula do 2o turno. Em tese.

Em 2002, as votações de Anthony Garotinho e Ciro Gomes somaram 29,8%, contra 23,2% de José Serra, o 2o colocado naquele ano. Vamos analisar este caso mais de perto.

Digamos que Garotinho tivesse aberto mão de sua candidatura em favor de Ciro. Será que Ciro Gomes teria herdado todos os votos de Garotinho? Não será que uma parte desses votos teria ido para Serra, mantendo-o no 2o turno?

Tivemos uma experiência semelhante na eleição de 2014. Marina Silva era esse “tertius” contra a “polarização” entre PT e PSDB, a que mais chegou perto de tirar um dos dois partidos do 2o turno, tanto em 2010, quando teve 19,3% dos votos, quanto em 2014, quando teve 21,3% dos votos. Mas em 2014, ao contrário de 2010, Marina Silva declarou apoio formal à candidatura de Aécio Neves. Tivemos, então, a oportunidade de observar a migração de votos causada por esse apoio. Foi como se Marina tivesse aberto mão de sua candidatura em favor de Aécio.

Para acompanhar melhor o que aconteceu, vejamos os números desse eleição (os números se referem às votações no 1o e 2o turnos, respectivamente):

  • Dilma: 41,6% / 51,6%
  • Aécio: 33,6% / 48,4%
  • Marina: 21,3%
  • Outros: 3,5%

O resultado: dos 21,3% recebidos por Marina, no mínimo 6,5 pontos percentuais foram para Dilma, que aumentou a sua votação de 41,6% no 1o turno para 51,6% no 2o turno (estou assumindo que os outros 3,5 pontos percentuais que faltam para completar os 10 pontos vieram dos outros candidatos). O restante (no máximo 14,8 pontos percentuais) foi para Aécio. Ou seja, a migração não foi suficiente para dar a vitória a Aécio.

Digamos que, desses 6 que assinaram o tal “Manifesto pela Democracia”, se encontre um candidato único. Quanto dos votos que os outros candidatos teriam migrarão efetivamente para o “candidato escolhido”? Vou dar um exemplo concreto: digamos que esta terceira via seja Ciro Gomes. Quantos votos o coronel vai herdar dos supostos eleitores de Doria ou de Moro? E vice-versa?

Parece-me que aqueles que estão preocupados em encontrar uma terceira via que unifique todas as candidaturas fariam melhor em encontrar um candidato, qualquer um. O triste fato é que há um deserto de opções com chances reais de desafiar o presidente e o ex-presidente. Eu iria além: mesmo que Lula não possa concorrer, não há, hoje, opções com chances reais de desafiar o presidente e qualquer candidato do PT.

Um candidato com chances reais, qualquer que seja, saberá encontrar o seu caminho para ganhar corações e mentes dos eleitores, sem precisar construir estruturas artificiais. O desafio não é encontrar um candidato único. É encontrar um candidato.

O milagre de Chapecó

O presidente foi a Chapecó, em Santa Catarina, cumprir agenda política. Lá, segundo reportagem do Valor, o prefeito João Rodrigues disse seguir o receituário do presidente para o enfrentamento da pandemia, obtendo resultados, segundo ele, muito bons.

Como eu não consigo ver uma afirmação sem checar, fui atrás. Chapecó acumula, desde o início da pandemia até ontem, um total de 541 óbitos, o que resulta em 2.455 óbitos por milhão de habitantes. A tabela abaixo mostra a lista das cidades catarinenses com mais de 50 mil habitantes. Chapecó é a quarta pior cidade nesse ranking macabro, com um número de óbitos 50% acima da média do Estado.

Mas alguém poderá dizer que o prefeito está comemorando a diminuição do número de óbitos na cidade. “O número de óbitos despencou”, diz ele. Pode ser que tenha aderido ao protocolo presidencial tardiamente, somente este ano. Pois bem: Chapecó teve 418 óbitos somente em 2021, ou 1.897 por milhão. O estado de SC teve 6.360 óbitos, ou 888 por milhão. Portanto, Chapecó teve mais que o dobro de óbitos do que a média do Estado. A situação este ano piorou, não melhorou.

Eu realmente não consigo entender porque as pessoas fazem afirmações que podem ser tão facilmente desmentidas.

PS.: alguém comentou que a afirmação do prefeito se refere “aos últimos dias”, pois ele tomou posse neste ano. Então, vejamos:- de março até 07/04 vieram a óbito 271 pessoas em Chapecó e 4.255 pessoas em SC, o que resulta em 1.230 óbitos/milhão na cidade e 594 óbitos/milhão no Estado.- em abril (até 07/04) faleceram 22 pessoas em Chapecó e 728 em SC, o que resulta em 100 óbitos/milhão na cidade e 102 óbitos/milhão no Estado. De fato, agora em abril, finalmente Chapecó conseguiu chegar na média do Estado. Meio forçado o argumento, não?

Entre o ‘bandido’ e o ‘genocida’

Em 2018, fiquei rouco de dizer aqui que Alckmin estava polarizando com a pessoa errada. Em uma eleição marcada pelo anti-petismo, o candidato do PSDB deveria convencer o eleitorado de que era tão ou mais anti-petista do que Bolsonaro. Essa era a única (pequena) chance de chegar ao 2o turno, fosse contra Bolsonaro, fosse contra o candidato do PT. A campanha de Alckmin, na época, escolheu bater em Bolsonaro, inclusive mimetizando a agenda de costumes do PT. Sozinho no campo do anti-petismo, Bolsonaro nadou de braçada.

Em 2022, o anti-petismo terá um papel bem menor, mas ainda terá um papel. O papel será bem menor porque o tempo passa, as lembranças se confundem na memória, e hoje Bolsonaro é a vidraça. Mas, mesmo sendo menor, terá o seu papel. Muitos votarão em Bolsonaro para não devolver o poder ao PT.

Nesse sentido, a análise do professor Carlos Pereira é perfeita, e me lembra a análise que fiz sobre Alckmin em 2018. Essa tal “frente do Centro”, ao bater somente em Bolsonaro, implicitamente considera que Bolsonaro já está no 2o turno. Pretende, portanto, roubar a vaga de Lula. Mas essa é uma aposta arriscada, mesmo considerando que o anti-petismo perdeu força na sociedade. O risco é o candidato desse polo ser considerado uma “quinta coluna” do petismo e deixar o campo anti-petista novamente todo para Bolsonaro.

Esses “candidatos do centro” começariam bem, por exemplo, ao reconhecer que Bolsonaro não é a única ameaça à democracia. Lula e seu partido minaram as instituições democráticas de várias maneiras, e isso deve ser igualmente explicitado em seu posicionamento. Mas o seu “manifesto pela consciência democrática” passa a ideia de que somente agora a nossa democracia estaria sob risco. Ou ajustam o discurso, ou o seu candidato, qualquer que seja, terá os mesmos votos de Alckmin em 2018.

Entre Lula e Bolsonaro

“Entre Bolsonaro e Lula, eu voto no Lula”.

Ouvi esta frase hoje de uma senhora de seus mais de 70 anos, classe média baixa paulistana, que votou em Bolsonaro em 2018 meio desconfiada. Sua nova convicção nasceu dessa confusão toda da epidemia/vacinação.

Claro, faltam ainda muitos meses até colocar o voto na urna. Muita água vai rolar. Mas essa manifestação me fez pensar: uma parte daquele eleitorado que deu a vitória a Bolsonaro no 2o turno se foi. E pior, se virou para o seu adversário, qualquer que seja ele, até Lula. Isso indica rejeição.

Bolsonaro pode virar esses votos? Pode. Como? Adotando uma nova postura, mais conciliadora, mais colaborativa, menos beligerante. Sendo mais, digamos, presidencial. Vai adotar? Só o tempo dirá se o escorpião mudará sua natureza.

A exemplo do PT, que entregou o país a Bolsonaro de tanto errar, Bolsonaro entregará o país de volta ao PT, de tanto errar.

PS.: não adianta dizer que, por mais que ele faça, a mídia será contra ele, nada vai mudar. Bolsonaro ganhou a eleição de 2018 com essa mídia que está aí. E a explicação era que a velha mídia estava morta, o que importava era a presença nas redes sociais. Por que agora a vitória de Bolsonaro em 2022 dependeria de uma cobertura favorável da mídia?

Stuhlberger me representa

Luís Stuhlberger, gestor do fundo Verde, é um dos mais bem sucedidos gestores de recursos do Brasil. Se tem alguém que traduz o sentimento da tal “Faria Lima”, é ele. Esse trecho de sua entrevista destacado abaixo resume o que pensam os “farialimers” que não têm compromisso ideológico com nenhum dos dois lados, que desejam apenas ter um bom ambiente de negócios: tanto faz Lula ou Bolsonaro, ambos são igualmente ruins.

Stuhlberger me representa.